Lula e Cabral transformam favela em atração turística; gringo, agora, vai pagar para subir o morro e ver as habilidades do nosso povo amestrado

Juro que não é sem certa vergonha, constrangimento mesmo, que escrevo o que vou escrever. Não que eu me sinta pessoalmente representado por essa gente, mas, legalmente, sou, fazer o quê? Trata-se do governo do meu país. Já conversamos aqui sobre o que significa a tal “polícia pacificadora” de Sérgio Cabral. Curiosamente, ela não prende […]

Juro que não é sem certa vergonha, constrangimento mesmo, que escrevo o que vou escrever. Não que eu me sinta pessoalmente representado por essa gente, mas, legalmente, sou, fazer o quê? Trata-se do governo do meu país. Já conversamos aqui sobre o que significa a tal “polícia pacificadora” de Sérgio Cabral. Curiosamente, ela não prende bandido. Das três, uma: ou eles se convertem, ou só mudam de lugar, ou ficam onde sempre estiveram, mas vivendo de forma “pacificada” com a policia, entenderam? Nesse caso, a UPP — Unidade de Polícia Pacificadora — seria nada mais do que uma UPTD: Unidade de Polícia para o Traficante Decoroso. O trabalho é convencer a bandidagem a não ficar exibindo armas no morro, o que atrai a atenção da imprensa… Ou Cabral exibe os bandidos presos ou convertidos, ou não resta dúvida do que está em curso no Rio. Mas essa introdução é só para situar o tema. A minha pegada neste texto é outra.

Lula esteve hoje no morro Dona Marta. Para quê? Para, acreditem, lançar um programa chamado Rio Top Tour. O Ministério do Turismo adotou a Unidade de Polícia Pacificadora do local, e se promoverão excursões de turistas para conhecer uma “favela pacificada”. É um troço asqueroso!

Fico aqui a imaginar o que não estaria escrevendo a imprensa bem-pensante do Brasil se um programa como esse tivesse surgido na cachola de um tucano: “Olhe, tenho uma idéia genial! Por que a gente não ‘pacifica’ os traficantes do morro e depois exibe a exuberante miséria dos morros cariocas aos estrangeiros, demonstrando que, de fato, aquela gente é pobre, mas é, acima de tudo feliz?”

Imagino o que não escreveria Elio Gaspari — este “amigo do povo”, espécie, assim, de um Carlos Lacerda que descobriu tardiamente a literatura política de de Marat —, usuário daquela metáfora tão encantadora para descrever a luta de classes brasileira: “andar de cima e andar de baixo”. Nesse caso, seria legal porque, vejam só, a turma “de baixo”, mas que é o “andar de cima”, vai subir o morro para ver a “turma de cima”, que, não obstante, é o “andar de baixo”. Sempre achei que essa metáfora do Gaspari ainda acabaria se encontrando com a dialética. Aconteceu!!! Ele não deve escrever nada a respeito porque está ocupado em provar que o DEM não gosta do povo. Quem gosta é Lula.

Imaginem os discursos indignados no Congresso dos petistas: “Estão exibindo os pobres como se estivessem num circo”. E, com efeito, não falta muito para tanto. Os morros estão cheios de ONGs que já ensinam o povo a fazer o que o povo já sabe fazer: bater lata,  criar versos com rima e sem solução, “quebrar tudo” no funk, puxar um sambinha…  Na cabeça desses iluminados, muitos deles com grana que vem de fora, pobre tem de ser é artista. Agora, o palco será o próprio morro.  A pobreza passa a ser um ativo, não é? Assim como um pedinte expõe uma chaga na perna para pedir a esmola, os morros brasileiros terão de exibir a sua carência para despertar a curiosidade do turista.

Lula discursou, numa quadra esvaziada, para menos de 100 pessoas. E ameaçou:
“O que foi feito aqui pelo governo do Estado do Rio é um exemplo que está sendo seguido por outros Estados, e eu acho que é um exemplo que a gente vai conseguir implantar nos próximos anos em todo o território nacional”.
É isso aí: Lula, com efeito, pacificou os pobres. Transformou-os em atração turística. Em breve, os americanos, os europeus e mesmo os nativos com grana poderão subir o morro para ver essa curiosa espécie nativa, que brota naquelas encostas. Há anos critico certos “pensadores” brasileiros que vêem os miseráveis como uma variante antropológica. Há até quem defenda que eles têm direito, assim, à sua própria cultura…

Vocês sabem que este blog tem paixão também pela história — contra o esforço dos petistas de derreter o cérebro dos vivos. Um dos clássicos do samba-protesto, celebrizado primeiro na voz de Nara Leão, foi  “O Morro (Feio Não É Bonito). Era um dos hinos da esquerda descolada. A letra é esta, cheia de ironia:

Salve as belezas desse meu Brasil
Com seu passado e tradição
E salve o morro cheio de glória
Com as escolas que falam no samba
Da sua história

Feio, não é bonito
O morro existe
Mas pede pra se acabar
Canta, mas canta triste
Porque tristeza
E só o que se tem pra contar
Chora, mas chora rindo
Porque é valente
E nunca se deixa quebrar
Ah, ama, o morro ama
Um amor aflito, um amor bonito
Que pede outra história
Salve as belezas desse meu Brasil
Com seu passado e tradição
E salve o morro cheio de glória
Com as escolas que falam no samba
Da sua história

Feio, não é bonito
O morro existe
Mas pede pra se acabar
Canta, mas canta triste
Porque tristeza
E só o que se tem pra contar
Chora, mas chora rindo
Porque é valente
E nunca se deixa quebrar
Ah, ama, o morro ama
Um amor aflito, um amor bonito
Que pede outra história

No áudio abaixo, vocês podem ouvir a música a partir dos 59 segundos, na voz de Elis Regina. Sigo depois.

Voltei
É claro que se trata do retrato de um tempo em que as esquerdas viam o povo com paternalismo. Desse caso, fica evidente o olhar compadecido do “homem consciente”, que acredita que haverá a grande virada da história, quando, então, aquele “povo” vai se libertar etc. É claro que era um visão estúpida do processo social e político — e que teve um desfecho trágico. Mas havia ali, concedo, certa boa-fé essencial, ainda que aqueles crentes na “revolução” fossem vítima da má consciência esquerdista.

O feio, definitivamente, se transformou numa coisa “bonita”. A polícia de Cabral adestra o narcotraficante, ensinando-lhe regras de bom comportamento. E Lula adestra o povo do morro, transformando-o em atração turística. Quando os gringos se cansam do nosso sambinha ou do nosso funkinho, vão procurar os leões e as zebras da África do Sul, os pandas da China e os dragões de Comodo.

É o que certa vagabundagem intelectual no Brasil tem chamado de “nova era democrática”. A esquerda brasileira é uma impostura particular dentro de uma fraude geral.

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