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HONDURAS: OS BOLIVARIANOS BRASILEIROS NÃO SABEM LER

Vamos lá. Reservo uma surpresinha para o fim. Mas acho importante ler tudo. De todas as estranhas coisas que um petralha é capaz de fazer, uma que particularmente me chama a atenção é tentar explicar para o próprio autor o sentido oculto do seu texto. É o que tentam fazer comigo, com aquela habilidade bailarina […]

Vamos lá. Reservo uma surpresinha para o fim. Mas acho importante ler tudo.

De todas as estranhas coisas que um petralha é capaz de fazer, uma que particularmente me chama a atenção é tentar explicar para o próprio autor o sentido oculto do seu texto. É o que tentam fazer comigo, com aquela habilidade bailarina de que são capazes esses paquidermes morais. Eu sei muito bem o que escrevi sobre Honduras — fui eu que escrevi, lembram-se? Até fiz questão de realçar, e mais de uma vez, o “POR ENQUANTO” quando fazia considerações sobre a natureza golpista ou não da intervenção militar. Golpista não foi e não é porque a intervenção está prevista na Constituição democrática do país, o que não quer dizer que eu apóie o uso desnecessário da força, constrangimento ao trabalho da imprensa e violação de direitos fundamentais de qualquer natureza. Quem apóia Chávez incondicionalmente, incluindo a repressão, são os bolivarianos que agora vêm aqui torrar a minha paciência. Ora, vão se danar. É golpe o que eles querem debater? Vamos lá.

Manual Zelaya não queria cortar sinal de televisão. Isso, naturalmente, era muito pouco. Ele queria, na prática, fechar o Judiciário, o Congresso e a Promotoria do país. E rasgar a Constituição. Não só: queria também o Exército como títere de sua manobra golpista. Contra a decisão da Corte de Justiça do país, mandou que a Força agisse para realizar o referendo ilegal. É ESCANDALOSO QUE ISSO NÃO SEJA DITO. É ESCANDALOSO QUE ISSO NÃO SEJA LEVADO EM CONTA. É UM GOLPE NA INTELIGÊNCIA DO LEITOR, DOS TELESPECTADORES, DOS INTERNAUTAS.

E Zelaya fez tudo direitinho, como um bom teleguiado de Chávez. Continuasse no país, seria preso e perderia seus direitos políticos (ler até o fim…). Está claro, a esta altura, que negociou a sua renúncia e saída do país — essa história de que foi pego de pijama tem todo o cheiro de conversa mole — para, uma vez abrigado no guarda-chuva chavista, armar o que está sendo chamado, em boa pilantragem, de “resistência”. As Forças Armadas fizeram mal em confiar na palavra de um aliado de Chávez. Como ele violou a Constituição algumas vezes em poucos dias, deveria ter sido destituído e processado (ler até o fim, reitero).

O cerco está se fechando sobre o governo provisório de Honduras. Parece difícil que resista à pressão. Se Barack Obama não exercesse a presidência dos EUA com uma espécie de vergonha da história gloriosa do seu país, teria a coragem de não incentivar o circo. Mas devemos todos nos preparar para um mundo em que a autoridade moral (suposta) vai tentar substituir a autoridade de fato. E isso quer dizer que estaremos todos expostos à sanha de ditadores e vigaristas.

Parece difícil que Zelaya não volte, dada a situação. Pergunto então:
– se voltar, vai insistir em seu referendo, contra a decisão da Justiça?;
– se voltar, vai insistir em seu referendo, contra o que diz a Constituição?;
– se voltar, vai insistir em seu referendo, contra a maioria do Congresso?;
– se voltar, vai insistir em dar ordens inconstitucionais e ilegais às Forças Armadas?;
– se voltar, vai continuar como golpista?

Comovo-me com tantos bolivarianos, no Brasil e na América Latina, preocupados com o corte do sinal de TV em Honduras, que vive, como é óbvio, o risco de conflitos civis e sob a égide de leis especiais para períodos de crise — previstas, também elas, na Constituição. Entendo! Vocês são contra cortar sinais temporariamente, né? Gostam mesmo é da expropriação permanente de canais de televisão, não é isso?, a exemplo do que Chávez fez na Venezuela.

O que se dá em Honduras e na América Latina só evidencia o erro de condescender com tipos como Chávez. É claro que George W. Bush errou, não é? Se Chávez está aí, é sinal de que errou. Não sei se fui muito sutil. Faz tempo que o “império” não é o mesmo. Aquele que já foi tido apenas como um palhaço irrelevante tem hoje oito países sob sua influência. E é um mau exemplo permanente no continente porque tem a ambição de exportar a sua revolução. O Peru, anotem aí, está começando o seu flerte com o caos bolivariano.

Lula, claro, tinha de dizer as frases emblemáticas de sempre. Referindo-se ao que seria um golpe em Honduras, disse: “Daqui a pouco, vira moda”. É, não pode. A “moda boa” é a da Venezuela, que consiste em golpear a democracia por meio de referendos. Com efeito, Lula a considera tão boa que chegou a dizer que há democracia “até demais” naquele país, revelando o que faria, se pudesse, no Brasil. Mas não pode.

Não sei se aquele vagabundo volta a Honduras. Se voltar, espero que a Justiça se encarregue de processá-lo pela óbvia tentativa de violação da ordem constitucional. Que o continente está, no que concerne à liderança, à deriva, disso não tenho a menor dúvida. A rigor, inexiste liderança no mundo ocidental.

Quanto à canalha que passou o dia de ontem enviando bobagens para cá, dizer o quê? Esses democratas não deram a menor pelota quanto Lula expressou seu apoio incondicional ao iluminista Ahmadinejad, enquanto uma milícia homicida abria fogo contra a população. Não, senhores! O governo provisório de Honduras não é uma ditadura. A Venezuela, que fala em democracia, é. Eu não apóio golpes militares (e não está caracterizado um em Honduras), mas também não apóio golpes civis. Houvesse nos EUA um governo à altura da responsabilidade que tem o país como fiador da ordem democrática no continente (e no mundo), Barack Obama se encarregaria de garantir a normalização da situação em Honduras, à espera das eleições, previstas para daqui a quatro meses.

Ademais, se a imprensa brasileira — e não apenas ela — não sabe ler e se nega a fazer uma coisa básica, que é consultar a Constituição de Honduras, o que posso fazer? Lamentar. A íntegra da Carta, publico uma vez mais, está aqui. Os artigos 184 a 186 e o 272 evidenciam que a ação das Forças Armadas foi legal. Não batassem eles, leiam o 239:

ARTICULO 239.- El ciudadano que haya desempeñado la titularidad del Poder Ejecutivo no podrá ser Presidente o Designado. El que quebrante esta disposición o proponga su reforma, así como aquellos que lo apoyen directa o indirectamente, cesarán de inmediato en el desempeño de sus respectivos cargos, y quedarán inhabilitados por diez años para el ejercicio de toda función pública.

Eu traduzo:
“O cidadão que tenha desempenhado a titularidade do Poder Executivo não poderá ser presidente ou indicado. Quem transgredir essa disposição ou propuser a sua reforma, assim como aqueles que o apoiarem direta ou indiretamente, perderão imediatamente seus respectivos cargos e ficarão inabilitados por dez anos para o exercício de qualquer função pública”

Trata-se da Constituição de um país historicamente traumatizado por ditaduras e ditadores. Que põe na Constituição uma defesa contra aventuras continuístas. E Manuel Zelaya PROCUROU, COM SEU REFERENDO, GOLPEAR A CONSTITUIÇÃO E A DEMOCRACIA HONDURENHAS.

Isso quer dizer que apóio violência e porretada nesse ou naquele? Não! Quem apóia porretadas são os petralhas e Lula, que deram as mãos a Ahmadinejad, o homicida. Quem apóia porretadas são os petralhas e Lula, que chamam o ditador Hugo Chávez de “democrata” e “companheiro”.

Eu só apóio Constituições democráticas. Sou o único na imprensa mundial? Huuummm, encontrei ao menos uma colunista no Wall Street Journal que pensa rigorosamente a mesma coisa.

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