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Serviço público: os baixos salários dos mais capacitados

sexta-feira, 22 de dezembro de 2006 | 19:24
A botocúndia petista é mesmo de amargar. Diz agora que aprovo a elevação dos salários do secretariado do governo de São Paulo porque a medida conta com o apoio do tucano José Serra. É impressionante! Já devo ter escrito umas duas dezenas de textos — desde Primeira Leitura — apontando o ridículo da remuneração do serviço público especializado no Brasil. Em todas as áreas. Há alguns marajás que conseguem liminares na Justiça e acabam recebendo supersalários. Mas, na média, o serviço público paga mal às categorias de ponta.

De quanto será o salário de um secretário em São Paulo? R$ 11.885 brutos. O valor líquido deve ser algo em torno de R$ 9 mil. Médico, engenheiros, arquitetos, administradores ou jornalistas bem-sucedidos ganham bem mais do que isso na iniciativa privada. Chamo de “bem-sucedida” gente de qualidade, disputada pelo mercado de trabalho, com experiência para exercer postos de comando — que é o caso de um secretário. Hoje, ele recebe em torno de R$ 5 mil — abaixo de um editor assistente de jornal, inferior ao ganho de muitos redatores experientes.

O que se diz aqui vale também para a União, onde a realidade é ainda pior. Um ministro tem um salário líquido de uns R$ 6 mil. Ridículo. Waldir Pires reclamou outro dia. Ele não seria mais competente se ganhasse o quádruplo, mas que o valor é irrisório, lá isso é. Secretários-executivos, os que realmente fazem funcionar a máquina, ganham ainda menos. O porta-voz de Lula, André Singer, tem vencimento inferior a ministro. Receberia mais na universidade, de onde se afastou.

Se os funcionários de ponta recebem muito menos do que paga o mercado aos competentes, no outro extremo, o dos salários mais baixos, tem-se o inverso. Não é preciso ser um gênio da administração de pessoal para perceber que a lógica está invertida. Ela acaba privilegiando, digamos, mais o aspecto social do que o funcional. Só que este “social” diz mais respeito à corporação do que ao conjunto da sociedade. Note-se ainda que, à diferença dos deputados, senadores, presidente da República e até governadores de Estado, estes secretários e funcionários especializados não têm qualquer regalia especial: 13 salários e só. Em alguns casos, dispõem de carro oficial com gasolina garantida. Mas não muito mais do que isso.

O que queremos?
Queremos serviços competentes, gente dedicada ao trabalho? É preciso pagar. Eu já disse e repito: duvido da realidade salarial de alguns nomões que estão por aí exercendo cargo público; duvido que recebam apenas aquilo que a lei especifica. Por que gente competente vai comprometer o próprio futuro e o da família servindo ao Estado por R$ 6 mil quando poderia estar ganhando R$ 18 mil?

Existem os abnegados? Ah, existem, sim. Mas também há aqueles que:
- aceitam o cargo como indicação do partido, que passa a ser a sua real fonte de rendimento. No cargo, comportam-se como procuradores de interesses partidários;
- não precisam trabalhar; podem exercer o cargo por amor à causa, mas não vivem do seu salário;
- são pagos, indiretamente, por empresas que prestam serviço aos governos. A prática é ilegal, mas admitida como uma forma possível de manter a pessoa no cargo;
- ocupam cargos no conselho de empresas públicas para dar um jeito de elevar o ganho mensal
- usam o serviço público como um investimento; o objetivo é pular para a iniciativa privada levando consigo as preciosas informações adquiridas no serviço público. Bancos, por exemplo, têm especial apreço por funcionários de ponta mal remunerados

Quem perde? Na maioria das vezes, é a população. Notem que estatais, autarquias e assemelhados já estão fora do teto dos servidores.

Acusei aqui e acuso a indecência do que se tentou fazer com o salário dos parlamentares. É impossível debater seus vencimentos mensais sem levar em conta a cadeia de vantagens de quem dispõem. Recebessem apenas os pretendidos R$ 24,5 mil, seria um valor baixo. Mas sabemos dos outros benefícios. Se Lula gastasse como um mortal comum, os R$ 8,8 mil que recebe seriam uma porcaria. Mas é claro que seu salário é muito maior do que isso. O que sustento é que os altos cargos executivos da administração pública — não o dos políticos eleitos ou o dos funcionários de base ou médio — são baixos.

País pobre
É claro que esses números em face de um mínimo de R$ 350 parecem uma enormidade. O país é pobre; a renda média é ridícula. Mas é fato que alguém terá de exercer os cargos de comando. E que tais cargos demandam uma formação intelectual e profissional. É cruel, mas é assim: essa mão-de-obra não é escolhida no conjunto dos 180 milhões de brasileiros. Ela é fornecida pela elite intelectual e econômica do país. As pessoas investiram em sua formação e esperam retorno, como qualquer um de nós.

Governantes podem tentar se orgulhar dos salários magros, espartanos, de seus subordinados diretos. Desconfiem. O dinheiro que você vê pode ser apenas uma cortina de fumaça para o dinheiro que você não vê.

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15 comentários em “Serviço público: os baixos salários dos mais capacitados”

  1. Anônimo disse:

    TRabalho como func publica há 23 anos, ganhos 35 mil bruto. Acho que poderia ganhar mais, por minha função!!!!

  2. Anônimo disse:

    Caro Reinaldo,sensacional a sua análise!Parabéns!

  3. Márcia Ruiz disse:

    Concordo em número, gênero e grau Rei. Quando escrevi para nossos politiquinhos sobre o aumento de 91% sempre citei os funcionários públicos que trabalham mais do que formigas em piquenique e não ganham proporcionalmente.

    Só faço exceção ao “país pobre” pq. não acredito nisso há muito tempo. É um país injusto, isso sim.

    Agora Rei, você não quer que os lulistas admitam que certos tucanos te detestam, quer?
    Está querendo muito Rei…

  4. efenti disse:

    Reinaldo,
    Acho q estás errado. 24.500 reais pra um deputado é um baita salário, mesmo sem os penduricalhos.
    Sobre o Judiciário, p.ex, a Folha publicou em 17 de agosto o seguinte(excerto):
    “O Brasil é o país que mais gasta com o Judiciário - 3,66% do orçamento público do país -, mas mesmo assim 4,790 milhões de processos deixaram de ser julgados em 2003. A estrutura da Justiça também é boa, já que o país tem 7,7 juízes para cada 10 mil habitantes, acima da média internacional de 7,3 juízes. Os nossos magistrados estão entre os mais bem remunerados do mundo: os juízes federais brasileiros são os “vice-campeões” no ranking de melhores salários (que leva em conta a paridade do poder de compra entre as diferentes nações), ficando atrás apenas dos canadenses…. O diagnóstico inédito foi feito pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) para a Secretaria Especial da Reforma do Judiciário do Ministério da Justiça e apresentado ontem em Brasília….”
    O diagnósstico morreu ali. O Jobim disse q ia fazer um “quente” e ninguem mais falou nisso

  5. Anônimo disse:

    O problema dos gastos com pessoal no que diz respeito a união não é o maior problema, nem no poder executivo dos estados, que empregam no máximo centenas de pessoas com poder de decisão (e altos salários). O maior problema mesmo são as assembléias estaduais e câmaras municipais que não fazem nada e gastam muito. Pelo menos nas pequenas cidades os vereadores sugam recursos (na maioria das vezes vindos dos repasses federais pois muitas das cidades não geram imposto suficiente. Em Macaé a Câmara usa os royalties do petróleo para se financiar). Seria difícil aumentar os salários dos especialistas sem provocar efeito cascata (como se viu nos 91%) por conta disso. Vc poderia fazer algum comentário sobre isso? Acho que daria uma boa reportagem.
    Feliz Natal.

  6. Anônimo disse:

    Reinaldo,

    Caso verídico: um engenheiro recém-formado decidiu-se por fazer um curso de mestrado na sua área de formação. Escolheu uma universidade federal, a mesma onde se formou. Concorreu a uma bolsa e foi bem sucedido. Recebia em torno de R$700,00 e tinha, como compromisso, dedicar-se ao curso pelospróximos dois anos. Entretanto, passados somente tres meses, com ótimos aproveitamento e desempenho no mestrado, inscreveu-se em um concurso para oficial da Polícia Rodoviária Federal. Salário inicial: R$5.000,00; exigência: nível médio.

    Com o seu potencial, o tal engenheiro poderia tentar uma carreira docente em uma universidade federal, onde seus vencimentos em final de carreira girariam em torno de R$5.000,00, desde que chegasse ao doutorado e passasse em concurso público.

    Pois ele passou em primeiro lugar no concurso para a PRF e desistiu ali mesmo da vida acadêmica. Abandonou os estudos para poder ganhar mais.

    Existem outros em situação semelhante e que optam por se manter na Academia. Como voce diz, são os abnegados. Trocam os salários altos pela vocação. Mas está cada vez mais difícil encontrar essa espécie rara…

    Professores universitários ganham mal em muitos lugares do mundo. Quanto mais famosa a universidade, menos ela paga (e nada de 13 salários por ano mais férias! são apenas 9), mas dá ao professor a oportunidade de melhorar seus vencimentos através de projetos com empresas (desde que, para isso, deixe de 50 a 70% do valor do projeto para a universidade; em troca, ele tem todo o apoio que precisa). Isso lhe permite viver com certa folga financeira, o suficiente para pagar suas dívidas, morar bem, ter um carro novo, etc. Enfim, participar da vida econômica do seu país.

    A situação é mais calamitosa entre os professores de primeiro e segundo graus. Com salários aviltantes, muitas vezes mal atingem o valor do mínimo, são obrigados a dar aulas em várias escolas. Não têm tempo para se manter atualizados e qualquer curso de aperfeiçoamento deve ser pago do próprio bolso (?!?!?!). Quanto a participar da vida econômica do país, qualquer menção a isso lhes soa como piada de péssimo gosto.

    Em resumo: no Brasil, como diz o prefeito citado por tansa (8:46), “a formação não é mais importante do que a utilidade da função…”.

  7. Newton Guerra disse:

    Discordo totalmente daqueles que afirmam que funcionário público é o sujeito que finge trabalhar e ao qual o governo finge que paga. Pode até ser que essa definição se aplique a alguns façam isso, mas será a uma minoria. A esmagadora maioria dos servidores públicos é gente honesta, que ganha aquela merreca mas trabalha duro; leva bugiganga prá vender no serviço; tem outro emprego assim que termina o expediente; mas trabalha prá valer. Meu pai e minha mãe (ambos falecidos) foram funcionários públicos toda a vida. Eu mesmo fui funcionário público, durante certo tempo. O salário é mesmo uma merda, mas existem alguns benefícios que justificam os milhares de candidatos nos concursos públicos. Algumas áreas do serviço público são bem pagas - as áreas jurídicas. Outras são péssimamente pagas - como médicos e engenheiros, para citar apenas 2 categorias profissionais. O problema maior do serviço público é a disparidade de salários entre os 3 poderes. Lula diz que vai resolver. Eu duvido e mais uma vez acho que o Torneiro Mecânico (assim ele gosta de ser chamado, segundo ele mesmo) está jogando para a platéia sem ter a bola nos pés.

  8. Adelson Elias Vasconcellos disse:

    “O dinheiro que você vê pode ser apenas uma cortina de fumaça para o dinheiro que você não vê”.
    Esta frase resume bem o que você indica e o pensamento que externa. Mas o que Tansa, às 8:46 abordou é a outra realidade. Sei e conheço gente em Brasília, alguns motoristas e ascensoristas e porteiros, que recebem 4, 5 até 6 mil reais/mes. Há uma grande inversão no serviço público em termos salariais. Se alguém um dia tiver coragem para mexer neste vespeito garanto que boa parte do maus serviços prestados à população se inverterão.
    Quanto ao Anônimo que te enviou o livro Paulo e Estevão, parabéns, trata-se de uma excelente obra, só que Anônimo, a ótica do livro é outra, trata-se de um livro de cunho espírita, o que não invalida sua qualidade. Já que você pelo visto você adora e tem apreço por tal leitura, vou te indicar (vale para todos) duas outras obras excepcionais, ambas escritas por Taylor Caldwell: a primeira, O AMIGO DE DEUS, também sobre a vida do apóstolo Paulo. EXCELENTE. E a segunda, referente ao evangelista Lucas, MEDICO DE HOMENS E DE ALMAS.Tanto num como noutro, são obras que nos reflitir sobre determinados valores humanos que estão nos fazendo muita falta.

  9. Anônimo disse:

    GRANDE REI:

    A INGLATERRA DESDE 1.500 OU ANTES DISSO PASSOU A SE DEDICAR A CRIAR UMA CASTA DE FUNCIONÁRIOS PÚBLICOS, TODOS PROFISSIONAIS.

    SE VÊ HOJE NA BANÂNIA UMA TROCA A CADA ASSUNÇÃO DE GOVERNO COM A DISTRIBUIÇÃO DE CARGOS POR INDICAÇÃO O QUE ACABA DESTRUINDO QUALQUER FRUTO DAS GERAÇÕES ANTERIORES. A REGRA É ROUBAR ENQUANTO SE PODE (OU SE ESTÁ NO CARGO) ASSIM NENHUM PAÍS POR MAIS RICO QUE SEJA PROSPERA

    LÉOP[ÓLIS

  10. Anônimo disse:

    REINALDO:

    TEMOS QUE LEVAR EM CONSIDERAÇÃO OUTROS DADOS.

    DESCULPE. MAS VER MOTORISTAS DE ASSEMBLÉIA RECEBEREM MAIS DE 4.000 POR MÊS QUANDO SE VIU O CONGRESSO EM CLIMA DE VITÓRIA APROVAR O SALÁRIO DOS MÉDICOS RESIDENTES EM MENOS DE 2.000 REAIS É UMA PIADA DE MAU GOSTO.

    PERGUNTEM PARA MUITOS QUAL A CARGA HORÁRIA DOS MÉDICOS RESIDENTES E NINGUÉM CONSEGUIU CHEGAR PERTO.

    É DE 60 HORAS POR SEMANA. OU SEJA, 10 HORAS DURANTE 6 DIAS (DE SEGUNDA A SÁBADO) DURANTE UMA SEMANA.

    VIGIAS, GUARDAS E OUTROS PROFISSIONAIS DE MENOR MONTA, SEM MENOSPREZO, RECEBEM NAS REPARTIÇÕES COM OS TRIÊNIOS, QÜINQÜENIOS E OUTROS PENDURICALHOS VALORES ABSURDOS COMPARANDO-SE A MÉDIA NACIONAL. E NADA ACONTECE.

  11. Anônimo disse:

    Não acho um salário alto. Sou funcionária pública ha 15 anos, ganho mais de R$ 12000 e pouca mais de 8 líquido devido ao IR e
    CPSS, além de outros descontos menores. Assim, os secretários
    paulistas provavelmente receberão
    cerca de R$ 8.000 líquidos

  12. Tansa® disse:

    Pior é que é verdade,funções menos complexas como motorista , p.e., chegam a ganhar 5, 6 mil reais aqui na AL/SC.
    Um dia, num edital de concurso público de uma prefeitura, a tabela de vencimentos trazia aberrações do tipo:
    Cargo:Médico.
    Vencimento: R$800,00 20h/semanais
    Exigência: Curso superior na área.

    Cargo:Auxiliar de serviços gerais.
    Vencimento:R$ 760,00( piso estadual)
    Exigência: 4a. série do ensino fundamental

    Cargo:Psicóloga
    Vencimento:R$1.200,00 40h/semanais
    Exigência: Formação superior.

    Cargo: Professor de Ensino Fundamental(1a. a 8a.)
    Vencimento:R$350,00 20h/semanais
    Exigência: Pedagogia/Licenciatura.

    E outros postos, quanto menor a formação, mais alto o salário.

    Perguntado do porquê dessa disparidade, o Prefeito se saiu com” a formação não é mais importante do que a utilidade da função, temos que oferecer mais pelos cargos/funções mais necessárias, mais braçais”.

  13. Anônimo disse:

    Concordo com você Reinaldo que se devem pagar bons salarios a servidores públicos, tendo como referencia o mercado privado, porém também acho que antes disso deveria ser feita uma grande limpeza em todos os níveis e em todos os poderes e também uma grande racionalização do trabalho e da administração.

    Como não acredito que nenhum governante ou politico no Brasil tenha coragem e competencia para fazer essa limpeza e racionalização não vejo como pagar salarios decentes sem estourar de vez o gasto público.

  14. Anônimo disse:

    Sou Engenheiro formado e ganho menos de 3 mil reais trabalhando pro governo… o concurso mal teve candidatos inscritos em alguns locais….enquanto isso….tem gente que tem ensino médio, ganhando mais que isso amontoando pilhas de papel em em alguns locais…..

  15. Anônimo disse:

    Rey, os salarios são pqnos mas a ladroagem ÒÒÒÒÒ.Te enviei um livro pelo correio,Paulo e Estevão, e sei que vc gostará muito de le-lo, já que vc fala tanto no apostolo paulo.A historia é linda e veridica.O poder e o orgulho são os mesmos atraves dos tempos.Manera no uisque,o espirito não deve se comprazer na embriagues dos sentidos.(quem fica embriagado é o espirito, a alma.)Não publique.Rasgue.Abraços.xxxxxx
    El Guajiro xxxxxxxxxxxxxx

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