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21/08/2009

às 6:23

LITERATURA - As vozes de “A Boca da Verdade”

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Este blog tem uma seção chamada Avesso do Avesso, onde eu pretendia publicar regularmente textos sobre… sobre “não-política” — assim é melhor. Mas lá me ficou a ambição pelo meio do caminho, e alguns artigos sobre literatura, cinema, cultura acabaram estacionados no meu primeiro livro, Contra o Consenso. Outros tantos se perderam por aí. Esta página é hoje aquilo em que se transformou: um blog de política apenas. De vez em quando, percebe o leitor que não me contento e fujo da sina. Mas volto sempre — sei lá por quê. A Boca da Verdade, o mais recente livro de contos de Mario Sabino, é um desses bons motivos para revirar o avesso do avesso. Se a política parece lidar com o irremediável que está além de nós, este livro lida impiedosamente com o irremediável de cada um.

Sabino, como sabem, é redator chefe da revista VEJA, em cuja página eletrônica este blog está hospedado. Concordamos em muita coisa, temos outras tantas discordâncias, e é bem possível que, ao fim deste texto, ele pense lá consigo ou me telefone: “Sabe aquele finzinho do seu artigo, Reinaldo Azevedo? Pode esquecer!”. A Boca da Verdade percorre os muitos caminhos do “belo horrível” de que trata a arte e é um exemplo de elaboração culta da língua portuguesa. O autor evidencia que é possível ter uma escrita “contemporânea”, que reflita na linguagem a melodia de um tempo, sem se entregar, no entanto, a malabarismos sintáticos. Não é preciso voltar na leitura à cata de algum ponto, alguma vírgula, alguma dica que nos diga, enfim, quem fala ou do que se fala. As vozes de seu texto são sempre muito claras, ainda que possam dizer coisas um tanto assustadoras.

Em 11 contos divididos em três escrituras distintas - “Inexistências”, “Recortes” e “Representações” -, Sabino radicaliza abordagens e experiências dos dois livros anteriores, o romance O dia em que matei meu pai, de 2004, traduzido em sete idiomas, e O antinarciso (2005), de contos. E avança. Do primeiro, temos a figura onipresente do pai, aquele que nos torna a todos irmãos em Édipo. De O Antinarciso, persiste a competente elaboração metalingüística, que faz o texto olhar também para si mesmo, mas sem mostrar, como diria Olavo Bilac, os “andaimes do edifício”. Uma das maiores qualidades da literatura de Sabino é operar com referências, vá lá, da alta cultura (sei, não se deve escrever assim em tempos de guerra, não é?) sem que isso se torne um jogo aborrecido ou pernóstico, risco que sempre existe. Quem identifica a citação ganha uma chave nova. Sem ela, também é possível avançar. E sempre cabe indagar quantas pistas vão nos escapando na trajetória. Assim, os textos certamente vão sendo reescritos à medida que o leitor ganha novas referências.

Não há confortos em A Boca da Verdade. No 12º elemento do livro, “Uma Palavra”, Sabino fala com sua própria voz, numa espécie de posfácio:
“O mundo pode ser divertido e proporcionar momentos de alegria genuína, mas o que faz a boa literatura é a infelicidade. Ela, a infelicidade, é a roda do mundo do escritor. Os melhores romances e contos são aqueles em que os protagonistas são movidos por angústia, tormento, sofrimento. A dor de existir, enfim”.
Fiquei aqui tentando discordar. Se conseguir, aviso.

Dois contos reproduzem pontos de vista espelhados de uma mesma relação: A Boca da Verdade, que dá título ao livro, e Essência, ambos em “Inexistências”. No primeiro, um filho experimenta todos os relevos da repulsa ao pai, ao seu próprio e àquele que matamos para escrever a nossa própria e nem sempre edificante história. No outro, inverte-se o ponto de vista: um pai deixa um testamento aos filhos, que considera meio idiotas, embora os ame, com o inteiro legado de sua miséria moral - que ele chama “existencial”. Somos confrontados com isto:
“(…)Nas visitas a escolas e orfanatos mantidas por mim, por trás do sorriso protocolar, nauseavam-me aqueles pequenos bichos a que ajudava a prover por força da obrigação social (…). Sempre interpretei a bondade como um desvio, uma patologia recessiva da espécie - e incurável, visto que, evidentemente, não houve nem haverá ninguém disposto a remediá-la: a colméia humana gosta de fantasias a respeito de si própria, o que torna tais doentes da bondade muito úteis, afinal.”
*
Leiam a continuação da resenha em Avesso do Avesso

Por Reinaldo Azevedo

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29 Comentários

  1. Nelson Goro

    -

    09/10/2010 às 20:03

    Gostei da apresentação feita do livro “A Boca da Verdade” cujo original está em Roma - e teria, segundo o que se comentava na época a função de decepar os dedos do mentiroso que nela colocasse a mão. Ao que se saiba o único mentiroso por aqui teve um dedo decepado e não foi nessa placa de pedra, mas numa de aço. Enfim …
    Apesar de serem “altamente suspeitos”, os comentários do Reinaldo Azevedo me deixaram inclinado a adquirir e ler este livro do Mario Sabino, movido pela curiosidade e também de prestigiar os autores nacionais. Cansei-me dos estrangeiros - alguns que li por puro modismo. Bah !

  2. Rodrigo D. Pianesser

    -

    15/05/2010 às 2:18

    Só para lembrar que de vez em quando algum leitor passa por aqui. Mesmo você tendo abandonado a sessão, nós não a abandonaremos!
    Nem que seja só para reler os mesmos artigos.
    Sei. A petralhada não da folga, né?
    Uma vez você disse que um governo Dilma tornaria o blog mais interessante… Quem sabe sem a petralhada no poder você poderia se dedicar mais a artigos como esses… Aí sim ficaria mais interessante.

  3. maria teresa

    -

    30/11/2009 às 15:47

    Que tal, umas dicas literárias para o Natal?
    Que tal um pouco de seu novo livro?
    Vamos lá, não só de política escreve o homem!!
    abraço

  4. Pedrim

    -

    05/11/2009 às 8:41

    As leituras que mais me marcaram foram aquelas nas quais eu me desmascaro; não que outro autor tenha conseguido atingir pontos intangíveis meus, mesmo e inclusive para mim mesmo - é que, creio, a marca da angústia real, vivida, é mesmo a marca mais legítima de um sentimento humano. É saber-se não-sabendo de si próprio. Já falei dessa ‘Dor de Mundo’, algo próximo à incompatibilidade entre o desejo de algo melhor, universal, e a realidade humana.
    Já disse disso e outras coisas, que podem ser vistas em Mural dos Escritores, página de Pedro Luiz Ozelim.

  5. Marcelo Maccaferri

    -

    21/10/2009 às 11:12

    Bom dia caro mestre,
    Sou um início de poeta e publicarei meu primeiro livro “Alma, Gesto”, que foi premiado pelo PROAC promovido pelo Governo do Estado de São Paulo, sob o mandato do governador José Serra. Gostaria de lhe enviar um exemplar para sua análise, crítica e, principalmente, se eu o merecer, seu deleite.

    Trata-se de um livro de poemas contendo versos livres e/ou prosa poética… Falo do silêncio, do místico, da dor; converso vez ou outra com os mestres Fernando Pessoa, Drummond entre outras almas…O lançamento será na Livraria Cultura da Paulista e a data provável é ou dia 12 ou 13 de novembro….
    Agradeceria se vc pudesse me passasse o endereço para entrega. Com admiração.

  6. maria teresa

    -

    07/10/2009 às 12:20

    “Máximas de um país mínimo” merece estar aqui nesta seção com detalhes de sua produção literária. Vamos lá, vamos incrementar ” Avesso do avesso”, afinal não só de comentários políticos vive o homem! abraço

  7. Nicão

    -

    05/10/2009 às 18:18

    Desculpa, Maria Teresa. É setembro, 27, e não “21″, como escrevi.

  8. Nicão

    -

    05/10/2009 às 16:28

    Confesso que tenho lido pouco. A não ser pelas “Vejas da vida” que, de um lado, nos viciam na sede pela informação enquanto, de outro, nos fazem alimentar uma espécie de “…angústia antecipatória sobre os destinos da humanidade”, ao contrário de você, Reinaldão - palavras tuas, dia desses.
    Reencontrei o “Avesso do Avesso”, vejam, por sujestão da Maria Teresa (setembro, 21), aí abaixo. Amiga querida, dada a pensar mais, digamos, humanamente - que inveja! - e hoje, leitora confessa do blog, por minha culpa. A essas alturas do campeonato de bandalheiras institucionalizadas, convenhamos, uma honrosa excessão.

  9. maria teresa

    -

    27/09/2009 às 8:53

    Nossa! Só hoje conheci esta seção do seu blog. Amei! A leitura flui e dá vontade de ir além. Não desista dele. Escreva, você também, sobre o irremediável de cada um. Abraço

  10. Helena Valente

    -

    21/09/2009 às 7:32

    Reinaldo
    Um pente fino para levantar ligações da Firma Toffoli & Telesca Advogados com empresários, governadores e prefeitos poderia definir o perfil do escritório de advocacia.

  11. Antônio Bastos

    -

    06/09/2009 às 22:08

    Li o livro. É, realmente, muito bom. Inegável é que os livros de ficção de Mario Sabino e Diogo Mainardi (quem admiro mais e li quase tudo) estão muito acima da literatura brasileira atual. Um porém apenas sobre o livro de M. Sabino: uma visão tão negativa do homem não corresponde muito com a vida pessoal dele. Soa a estetismo, e uso o termo aqui como o utilizava Mario Vieira de Mello, principalmente em Desenvolvimento e Cultura. Mario Sabino, com esforço e inteligência próprias, conquistou um lugar de destaque no jornalismo e na literatura brasileira, por isso que essa visão negativa me soa a estetismo. Abraços.

  12. ANA

    -

    22/08/2009 às 0:07

    Reinaldo,

    Essa seção “Avesso do Avesso” não pegou mesmo. Só hoje eu soube que ela existiu.

    No meio do blog mesmo você publica posts com outros temas, se você tiver vontade.
    Faltam blogs para a gente ler, eu só leio o seu, mas não integralmente, porque nem gosto de política.
    Eu estou esperando o blog da D. Reinalda e fico imaginando de que assunto ela trataria. Política também?

    Boa noite.

  13. Dom Quixote

    -

    21/08/2009 às 18:07

    Só para completar: ler os antigos já me é muito trabalhoso, mas sua crítica é tão cativante, que vou comprar esse livro. Se não gostar, te mando a conta.

  14. Dom Quixote

    -

    21/08/2009 às 18:00

    Espero que ainda tenha conseguido discordar de seu amigo…Perderia seu encanto…

  15. Guga

    -

    21/08/2009 às 17:19

    Rei,
    O ultimo paragrafo esta fantastico, concordo em genero e numero, que as vezes seja necessario escancarar a feiura, para entao podermos vislumbrar a beleza. A proposito, eu ja perdoei o meu pai a algum tempo,e fiz sem guardar nenhum rancor.
    Abraços

  16. Anouk

    -

    21/08/2009 às 15:20

    Reinaldao,

    A infelicidade possui uma dinâmica própria.

    Seria a sede nostálgica de imortalidade, causa primeira da infelicidade?

    Neste sentido, a infelicidade faz, sim uma boa literatura, afinal, a busca deste desejo é uma transgressao com conseqüências dolorosas para a alma humana.

  17. ROGERIO

    -

    21/08/2009 às 12:38

    Reinaldo, vamos relembrar a época de Primeira Leitura, ali eu degustava graças a você, paginas e mais paginas de cultura, ainda tenho saudades. Por favor precisamos desta seção Avesso do Avesso.

  18. Glauter Medeiros

    -

    21/08/2009 às 12:01

    subscrevo Luiza Correa:
    agosto 21, 2009 às 9:10 am

  19. hdrummond

    -

    21/08/2009 às 11:01

    Uau, Reinaldo, assim fiquei com uma vontade danada de ler o livro.

  20. annalygia

    -

    21/08/2009 às 10:55

    Você está enganado: é raro conseguir “matar o pai”… aliás, para que matá-lo? Ele já é morto, é o fantasma que nos persegue, como em Hamlet, e em Sabino, através dessas “vozes” ou personagens “qui le hantent”, um verbo que foi dar, em inglês, “haunt”, “assombrar” em português, mas despido da sonoridade quase aterrorizante de “hanter”.

  21. Sandra

    -

    21/08/2009 às 10:38

    Nossa, não me lembro desse lado tão Machado em Sabino.

  22. Nego Heinz

    -

    21/08/2009 às 10:30

    Caro Rei,

    Você provocou, vou me arriscar.
    Não me parece acertada a idéia de que a boa literatura seja movida pela infelicidade. A boa literatura é feita do conflito e do confronto. Essa condição inicial gera toda a sorte de movimentos das personagens e cria uma dinâmica humana de ações, sentimentos e emoções rumo a um fim. Tudo o que é propriamente humano, nessa tragetória, tem sua relevância aumentada, o que leva o leitor a realizar em si o substrato afetivo do que ocorre na história. Ocorre o conhecimento!
    A infelicidade é justamente a falta dessa dinâmica. É sentir que nada muda, nada faz sentido, nenhuma história está ocorrendo. É a “parada do tempo psíquico”, é a depressão.

  23. Pablo

    -

    21/08/2009 às 10:23

    Que bom ler textos sobre assuntos não ligados à política; eles ajudam a desintoxicar o noticiário, tão contaminado por nossos governantes. Pensei em fazer um comentário ligando o final do texto, sobre o conto “Inexistências”, ao presidente Lula. Mas é melhor mantê-lo longe deste assunto.
    Dito isso, quero concordar com Sabino quanto à tristeza ser a melhor inspiração para os bons romances. Os melhores livros que li tinham personagens torturados; castigados pela tristeza. O melhor de todos, se me permitem, foi “Lolita”, de Vladimir Nabokov.
    Obrigado pela dica, Tio Rei, vou procurar o livro de Sabino.

  24. jcafonso

    -

    21/08/2009 às 9:38

    Reinaldo,

    Parabens pelos 48! Um jovenzinho para tamanha arte.
    Ja li muito Sabino e acho que suas 2 citacoes ja foram escritas antes: Dostoievisk: “Para escrever bem eh preciso sofrer, sofrer e sofrer.”
    Wagner Arcioni - e outros: O tratado da bondade ou A ajuda e o ajudado.
    Sei, sei, sei.

  25. Luiza Correa

    -

    21/08/2009 às 9:10

    Já estava para falar isso há algum tempo, mas sempre passava e esquecia. Tio Rei, você poderia aproveitar um post ou outro e sugerir livros. Adoro ler e é sempre legal ter boas referências.

    Abraços

  26. WEIMAR

    -

    21/08/2009 às 8:22

    Vejo que saiu 0 demais naquele 1.701º, neste milésimo sept…, não, este agora não vou contar.

    Weimar

  27. WEIMAR

    -

    21/08/2009 às 8:18

    DANDO UMA DE SABIDO

    Vocês sabiam que 1.700º é a mesma coisa que milésimo septigentésimo? E se não for? Não importa! Pra se amostrar serve, é perfeito. Melhor até que sair por aí dizendo que “a exibição de símbolos cristãos me ofende como não-cristão que sou”. Mentira por mentira, frescura por frescura, tolice por tolice, eu acerto ou erro com “milésimo septigentésimo”. Até por, desta forma, ser tolo sem ofender a inteligência de ninguém. Mera tolice tola, sem agenda política, uma espécie de quase avesso do avesso da estupidez ou desfaçatez dos “ofendidos” pela cruz dos cristãos.

    Milésimo septigentésimo, repito neste milésimo septigentésimo primeiro. Eu quis dizer agora 1.7001º, mas não sei se disse a coisa certa.

    Weimar

  28. Edmilson (Jundiaí/SP)

    -

    21/08/2009 às 7:59

    Prezado Reinaldo. Gostaria muito que você escrevesse vez ou outra sobre outros temas “não políticos”. Em especial sobre literatura. Abraço.

  29. WEIMAR

    -

    21/08/2009 às 7:53

    Vou lá, agora. Estou pra dizer “já fui”.

    Weimar

    (A concisão é por respeito e admiração neste meu 1.700º comentário, sempre aqui no blog do Reinaldo e da d. Reinalda.)


 

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