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Bruno, até breve!

quinta-feira, 28 de junho de 2007 | 20:14
Hoje, aquele que era o nosso maior poeta, Bruno Tolentino, foi enterrado. Ficou sua obra gigantesca. É uma perda que será maior a cada dia: para a poesia, para o pensamento, para mim, que o amava tanto. Não consegui ir ao hospital, ao velório, à missa. E estou hoje um pouco pior do que ontem. Tenho aqui ao meu lado A Imitação do Amanhecer, que li, a eito, soneto após soneto, e que abro, aleatoriamente, como quem telefona para um amigo para falar sobre quase nada, em busca de algum conforto, de alguma indignação, da partilha de algum bem.

Reproduzo abaixo o último soneto do livro — III-165. Leiam em silêncio, algumas vezes, para criar intimidade com as palavras. Depois façam uma leitura em voz alta, obedecendo às pausas mínimas ao fim de cada verso. Depois repitam a operação, mas aí obedecendo ao ritmo da sintaxe. E então percebam a sobreposição de melodias: uma música que se faz gratuita, quase alheia ao sentido, e outra, rigorosa, racional, na medida.

Música e composição. “Ut pictura poesis”, recomendava o poeta latino Horácio: a poesia como pintura. Isso significa aderir ao rigor da composição: a escolha do vocábulo certo, cujo sentido vai-se desdobrando verso após verso, com o pincel fazendo a opção certa da cor, do volume, do detalhe, do gesto. As rimas e as assonâncias revelam o sentido numa forma em que nada é gratuito.

O que foi que perdemos nesses anos, com certo prosaísmo distraído, infantil, confessional? Perdemos a experiência da poesia como uma construção, um labor. Não a gratuidade da forma, mas a sua intencionalidade, esta que se percebe em Bruno Tolentino. O que é que havíamos perdido na era da ditadura concretista? A noção de que fazer versos é mais do que distribuir no espaço alguns truques espertos. Ut pictura poesis, mas sempre sabendo que a linguagem do verso é o verbo.

Vai lá, Bruno! Na lógica do tempo, até breve!

III-165

Ó Via Láctea, ó luminosa irmã — segundo
Apollinaire — dos fios brancos da água vã,
a água furtiva que visita o chão do mundo
e vai-se evaporando também, ó minha irmã
mais ancestral, mais nebulosa, ó vaga lã
dos vãos novelos em que eu ando, um moribundo
no intemporal, sinal apenas de que o fundo
de tudo e de mim mesmo é a solidão pagã
da alma febril que se evapora e historiciza,
ó ampliação de Alexandria, ó via branca
e tenebrosa, é tudo a rosa que se arranca,
pétala a pétala, às profanações da cinza,
ó Via Láctea, ó minha irmã que pões a tranca
da imensidão no coração do que agoniza…

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19 comentários em “Bruno, até breve!”

  1. Marco Aurélio Antunes disse:

    O Bruno Tolentino merece um espaço na seção “Avesso do avesso”, que, aliás, deveria ganhar mais destaque no blog.

  2. Raphael Barbosa disse:

    Meus sentimentos.

    Para estar ao seu lado e dar apoio, o máximo que posso fazer é ler a poesia pausadamente, em voz alta, das várias formas musicais e ritmadas que ela permite.

    Leio a poesia como a consolar um amigo que não me conhece.

  3. Anônimo disse:

    Reinaldo. Após ler a entrevista concedida pelo mestre Bruno Tolentino - que Deus o tenha - publicada há alguns anos na revista VEJA e transcrita no seu Blog, bem como comentários como este em que posto, fui conversar com os filhos que tenho, sobre o aprendizado que tiveram… etc. Todos maiores de 17 anos.
    Fiquei estarrecido. Apesar do meu cuidado e do apoio político que eles sempre me deram, posicionando-se sempre ao meu lado, com poucas divergências, como afirmou o mestre Tolentino, “a esquerda através da escola sequestra o cérebro das crianças no Brasil “, é de uma profundidade ireefutável.
    Constatei isso em casa, com meus filhos. A palavra dos professores vale mais que os apertos dos pais. Em história, por exemplo, só conhecem o que passei, pois o colégio ensinou a “história achada na rua”, pois o resto era desnecessário e assim com as demais matérias. Não conhecem os dois triunviratos romanos, não sabem das verdadeiras histórias dos Maias e Azstecas.. só sabem que a história é escrita pelos burgueses, pasme.
    Nunca me passou pela cabeça que podia se sequestrar em cérebro. Estava errado. E olha que tenho o privilégio de ter sido premiado com filhos exemplares, eduacados, estudiosos - até CDF, mas que não sabem o que é um ofício, um memorando, uma rima métrica. Eu, em escola pública aprendi tudo isso. Eles, nas mais caras de Fortaleza, não receberam esses ensinamentos. Perguntei por que a eles e eles “acham” que é porque não tem importância. Que o importante é aprender no contexto e a pensar.
    Estou rindo para não chorar. Onde foi que eu errei??????????????????

  4. Anônimo disse:

    Ao Galista - 9:46 PM

    Oportuníssima lembrança essa que seu comentário inclui ao referir-se a ABGAR RENAULT. Esse mineiro, hoje quase esquecido, foi de uma distante época em que era possível termos como Ministro da Educação e da Cultura alguém que possuía as duas, e como!

    Pois é, agora ABGAR e BRUNO estão para sempre reunidos na Eterna Poesia.

    Um abraço.
    Bobby

  5. marina disse:

    Canto para contar daquele instante/ quando o que mais amamos chega ao fim/ e um belo simulacro delirante/ usurpa-lhe o lugar; quando é assim/ que a arte desfaz da luz agonizante,/ convence a muitos, não comove a mim.
    BT

    Reinaldo, enquanto
    recitarmos seus versos,
    ele viverá para sempre.

  6. person araujo disse:

    Caro Reinaldo, posso fazer uma sugestão? Devido à quantidade e - óbvio! - à qualidade dos mesmos, eu colocaria os textos sobre Bruno Tolentino na seção “Arquivo Especial”? O que acha?

    Um abraço e meus sentimentos pela perda do amigo.

  7. GMR disse:

    Reinaldo,

    Passou despercebido por todo mundo, mas foi a última ironia do Bruno. Hoje, dia do enterro, é 28 de junho: dia de Santo Irineu. Lembra… Lição de Modelagem!

    E está sendo difícil para todos nós.

    Abraço,
    Guilherme Malzoni Rabello

  8. Anônimo disse:

    A Esperança

    Reinaldo -

    A singela e tocante homenagem prestada por Olavo de Carvalho ao poeta que se foi inclui o belíssimo cântico religioso: “La Muerte no es el Final”, que é, de fato, um comovente apelo à Esperança, com E maiúsculo, aquela que dá sentido a nossa existência neste mundo, tão carente de poesia.

    Mais uma vez, meu abraço solidário a você.
    Bobby

  9. Costajr disse:

    O que mais me admira nesse poeta que não conhecia, é a técnica de terminar um verso e ligálo a outro. Exige uma atenção constante, mas é genial.

    Preciso ler Tolentino.

  10. Ernani Vilachan disse:

    Reinaldo, o mundo ficou mais triste…
    Entretanto, em um dos meus livros de Bruno Tolentino, na dedicatória ele escreveu…
    As Horas de Katharina amigo nani, é um livro que ( não se engane !)nunca termina. Boa Sorte !

    Pois é, no soneto 164:

    Sinto-me uma pluma.
    Já fui um buquê,
    mas não sei por que
    fui virando espuma,

    e aqui,nessa bruma
    em que mal se vê,
    vão-se uma a uma
    as pétalas…Dê

    no que der, o Outono
    tem como um sabor
    de fim, de abandono,

    facilita o sono.
    Um sono sem cor,
    sem peso, sem dono.

    Já no último soneto do livro:

    Adeus, poesia.
    Adeus, solidão.
    Dou-vos uma fria
    carícia de mão

    a mão leve, esguia,
    hesitante e tão
    cheia de emoção,
    que é quase harmonia

    quase paz, meu trêmulo,
    meu último adeus…
    Tocai-os, os meus

    dedos, os meus remos
    soltos, mas deixemo-los,
    demo-los a Deus…

    É isto, reinaldo…
    Um vazio, uma tristeza…. Tolentino dizia: Tudo é rito. Tudo é ressurreição imerecida.

  11. Anônimo disse:

    Reinaldo

    O teu sentimento chega até nossos corações.
    Forte abraço.
    Emilio Gurgel

  12. Carla Cristina disse:

    Prezado senhor Reinaldo

    Lê-lo também é uma grande oportunidade de aprender as coisas belas da vida. Ainda não conheço o bastante Bruno Tolentino, mas conhecerei.

    Obrigada por tudo!

    Carla Cristina

  13. Galista disse:

    Que em paz descanse.

    E como fica o Sr. Italo Moriconi, que entre os 100 melhores poemas brasileiros do séc. XX não conseguiu encaixar nem um de BT? O que houve, preconceito ideológico? Será o mesmo que explica a ausência total (e inexplicável) de Abgar Renault?

  14. Carlos Eduardo V. Buíque disse:

    Prezado Reinaldo,
    É triste: Nosso maior poeta morreu…Segundo o nosso caro Olavo de Carvalho foi o maior poeta da língua portuguesa desde Camões.Estou muito triste também…Bruno Tolentino se foi. Não deixou herdeiro literário, só uns poucos admiradores.

    * * *

    Neste dia do enterro de Bruno desenterrei uma antiga revista República de fevereiro de 1997. Em seis belas páginas de jornalismo autoral, de alto nível, o jornalista Hugo Studart descreve como foram as oito horas que passou em companhia do poeta no apartamento deste, na Tijuca. Logo na introdução da matéria Studart fala de um encontro que Tolentino teve com Cecília Meireles em 1964, no leito de morte da poetisa, nosso poeta Maior compôs os versos que, segundo a matéria, gostaria que fosse os versos que explicariam sua própria morte:”Esta vida se compõe de curas/provisórias e sucessivas,/mas tu,por muito mais que vivas,/te curaste só das amarguras:/nem peço cura mais tranquila/para mim. Tentarei repeti-la.”
    Todo o contato de Hugo Studart com Bruno Tolentino foi permeado pela sombra da morte. O autor de “A imitação do amanhecer” acabara de descobrir que estava com câncer no intestino. Tolentino então declara:” Chegou a minha vez e eu vou ter que encarar mesmo esse negócio…Estou com saudade de Deus, há muito que Ele não me aparece. Talvez agora possa me dar mais atenção.”
    Mas a morte ainda lhe daria pouco mais que dez anos de vida. Ele pode combater os concretistas, os poetas de botequim da MPB e ela, a musa da esquerda nacional, Marilena Chauí, que Bruno chamou ironicamente de “Marxilena Xuxauí”, e lhe dedicou uma sórdia lírica:” Sabia tudo de Epicuro/o seu xodó. Falava bem,/punha qualquer um de pau duro/com as dissestações e o vaivém/das mãos sábias, no claro-escuro,/á beira leito…”.
    Na sexta hora de entrevista Bruno Tolentino diz sentir falta do patriciado. O patriciado,é explicado na matéria, seria uma certa elite intelectual, com formação ética e cultural mediana, que não se importa em comer carne de segunda para poder comprar e ler Machado de Assis ou Liev Tolstoi. Bruno diz:”O Patriciado se perdeu e colocou o Brasil num labirinto. Nós tínhamos uma alma nacional e sabíamos onde queríamos chegar, mas há 30 anos os nossos melhores quadros seguiram pela irrealidade do marxismo, de um lado, ou preferiram se aproveitar da truculência capitalista. Hoje somos um país sem referência ética, sem identidade cultural clara e sem inteligências que debatam seriamente o novo rumo a seguir. Perdemos nossas elites, só restaram as oligarquias. O labirinto só tem uma abertura; portanto, refazer os próprios passos é o único modo de transfomar a porta da entrada na da saída.”. Em seguida ele define o papel da poesia nesse processo de restauração do patriciado: “É no movimento vertical do espírito que o ser alcança sua dignidade e define seu lugar e sua posição ante o real, o bem, o mal, a vida e a morte. Somente a poesia tem a amplitude de meios capazes de exprimir as grandes perplexidades da alma. É o poeta que resume a raça, é ele que a afirma e a canta, onde o mero cantador simplismente seus males espanta.”
    Perguntado sobre que epitáfio de intelectual gostaria de ser lembrado Tolentino hesita mas finalmente declara seu epitáfio;” Fui um homem livre, um espírito a serviço da vida do espírito. Isto por esforço próprio. Se fui de fato poeta, já isso o terei sido pela graça de Deus.” E Deus lhe deu sim essa graça.
    Finalizando a matéria o último poema de “As horas de Katharina”:
    Adeus, poesia./Adeus, solidão./Dou-vos uma fria/carícia de mão,/a mão leve, esguia,/hesitante e tão/cheia de emoção,/que é quase harmonia,/quase paz,meu trêmulo,/meu último adeus…/Tocai-os, os meus/dedos, os meus remos/soltos, mas deixemo-los,/demo-los a Deus.”
    Memorável! Como tudo que esse grande homem fez. Foi preso, por uso de cocaína. Fez da prisão um acontecimente poético. E nos deixou um legado qua nada destruirá.

  15. Anônimo disse:

    Perder alguém q amamos é doído.
    Perder alguém q amamos e admiramos é duplamente doído.
    Entendo seu pesar,respeito seu luto.Talvez precise de um certo éloignement do blogue.Acho q todos entenderiam.Há dores e momentos q são nossos e só nossos, qdo se quer apenas algum silêncio,pouca luz e quase nenhuma pergunta a responder…
    Recolhimento…
    Os textos são lindos, mas de qq forma os considero alto demais pra mim.Dizer o contrário, fingir intimidade com autor ou obra,seria de uma falsidade caridosa,porém deselegante.

  16. Anônimo disse:

    Li. Chorei. Os versos são belíssimos!
    Obrigada por mais este presente.

    Nordestina

  17. Abreu disse:

    Reinaldo,
    É dura a perda de entes queridos.
    Força!
    Meus pêsames e meus respeitos.

  18. Zé Luis disse:

    Sim, ut pictura poesis, e um programa de vida (difícil, quase impossível sem ele por aqui me espinafrando): como a poesia de Bruno na pintura.

    Estive no enterro. Estou triste. Transcrevo a dedicatória que ganhei do Bruno naquele dia inesquecível do lançamento de A Imitação:

    para
    José Luis Bomfim
    até a próxima vez,
    Bruno Tolentino.

    Até a próxima, Bruno.

  19. joão filho disse:

    Reinaldo, depois da leitura do Bruno Tolentino (A imitação do amanhecer estou atravessando soneto a soneto pela terceira vez) a esperança renova, e a alma jubila. Um grande abraço e vida longa.

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