França: a esquerda tentou ganhar no grito

Para melancolia da esquerda mundial, Nocolas Sarkozy vai vencer as eleições de hoje na França. Na reta final, apontam as pesquisas, tem 10 pontos de vantagem sobre a sua adversária socialista, Ségolène Royal. Ela chegou a colar o seu nome ao de Joana D’Arc, evidência de que estava disposta a tudo. O lance final foi […]

Para melancolia da esquerda mundial, Nocolas Sarkozy vai vencer as eleições de hoje na França. Na reta final, apontam as pesquisas, tem 10 pontos de vantagem sobre a sua adversária socialista, Ségolène Royal. Ela chegou a colar o seu nome ao de Joana D’Arc, evidência de que estava disposta a tudo. O lance final foi optar pela campanha terrorista: previu graves distúrbios nos subúrbios no caso da vitória de Sarkozy. Não ficou muito claro se era estratégia, expressão de um desejo ou discreta incitação. Provavelmente, era uma soma das três coisas.

Ségolène é o Lula da França — aparadas as arestas, claro, e submetido o modelo às técnicas da nouvelle cuisine esquerdopata —, mas Sarkozy não é Geraldo Alckmin. Ou, se quiserem, dá até para ser mais amplo: Sarkozy não é tucano. E, portanto, quando pressionado pelo discurso do “social”, pelas generalidades pseudo-humanistas, não recua um milímetro. Se o convidarem a vestir uma jaqueta com as logomarcas de estatais, ele não veste; se lhe derem um bonezinho do “Banco do Brasil” da França, ele não põe na cabeça. Os magrebinos tentaram, dia desses, uma segunda intifada, a exemplo daquela que explodiu no fim de 2005. Ele veio a público, sim, mas para dar os parabéns aos policiais que cumpriram a sua missão e fizeram o seu trabalho.

O mundo torce por Ségolène. Qual mundo? O da imprensa, em que a opinião majoritária é de esquerda, em que o mainstream é, mais hoje do que nos tempos em que ainda havia União Soviética, socialista. Em boa parte das redações do mundo, incluindo a maioria das brasileiras, é preciso rezar no altar da esquerda para ter poder nas redações, para ser voz influente. Jornais e revistas NÃO SÃO centros de conspiração que decidem o que é ou não publicado, o que vai ou não ao ar. Isso é besteira. A questão é bem mais sutil, de valores, de esferas de opinião. A larga maioria dos jornalistas será sempre contrária ao que entenderem como “ordem” — porque a “ordem” lhes parece coisa de fascistas. E eles não gostam de fascistas, no que fazem muito bem. Mas aceitam sem resistência as imposições da contestação. Só para exemplificar: são praticamente nulas as chances de se publicar uma reportagem que resulte crítica à ampliação do chamado “direito ao aborto”. Elas sempre serão favoráveis. Por quê? Ora, porque ser favorável é que é ser livre, entendem?

Assim é com essa disputa eleitoral francesa — não por acaso, a França é o berço dessa taxonomia; ali se plasmaram os conceitos originais de “direita” e “esquerda”, cujo conteúdo foi sendo ampliado por novas circunstâncias históricas, variando de país para país. O caso mais singular é “Israel”. A “direita” e a “esquerda”, ali, nada têm a ver com ideologia, economia, propriedade dos meios de produção. Definem simplesmente uma postura mais simpática ou menos simpática a um entendimento com os palestinos — tão logo, claro, existam palestinos dispostos a algum entendimento (e esta observação já me alinha com a direita israelense, acho eu; como vêem, é uma sina…).

O tempo fez com que o termo “esquerda” ganhasse uma conotação positiva, apesar de sua história, e fez com que o termo “direita” assumisse uma conotação negativa, também apesar de sua história. Stálin era de esquerda, sabia-se de esquerda e se dizia de esquerda. Churchill era de direita, sabia-se de direita e se dizia de direita. Sob os cuidados de qual dessas duas personagens históricas você preferiria ficar, leitor amigo? Mas você é suspeito. Sob a guarda de qual desses dois homens o leitor de esquerda, que agora balança a cabeça em sinal de desaprovação, preferiria ficar? A resposta é óbvia. Em qualquer caso, o leitor optará por estar vivo no dia seguinte. O exemplo é banal, chama para a esfera individual, sei bem, mas é nela que fazemos as nossas escolhas.

Volto à França. Como ministro, Sarkozy não fez nada além de cumprir as leis de seu país; leis democraticamente votadas e democraticamente consolidadas. É, segundo a minha definição também, um homem de direita. Para quem não se lembra: chamo “direita” a corrente política que, numa democracia, não permite que a lei seja solapada em nome de movimentos de suposta justiça social — porque, obviamente, o solapamento da lei abre caminho para novas ilegalidades e para mais injustiça. A maioria do povo francês parece estar com ele e parece reconhecer que a França é melhor com o estado de direito.

Mas não é só isso. A França tem um modelo econômico que a maioria dos estudiosos, também os de esquerda, reconhece ser uma bomba-relógio. Dos subsídios à agricultura a uma generosa Previdência que já não se sustenta, o estado se tornou pesado demais, o que custa competitividade. É claro que não se mudará tudo da noite para o dia. Mas é preferível — e os franceses também acham isso, na sua maioria — alguém disposto a dar início a mudanças a quem nada tem a oferecer a não ser um jacobinismo soft, doce, de boa aparência. Com Sarkozy, diminuirá também, acho eu, a retórica antiamericana da França, o que é positivo.

Dependesse da maioria da imprensa mundial, incluindo a brasileira, as eleições seriam dispensáveis. No debate final entre os dois candidatos, Sarkozy deu um banho em Ségolène — até porque evitou a pecha do conservador irascível, que tentaram lhe pespegar. A diferença entre a precisão com que ele debate os problemas administrativos, com conhecimento de causa, números, dados técnicos, e as generalidades dela, jacobina um tanto aérea, é brutal. Lemos aqui e alhures que houve um empate. Antes do debate, ele estava dois pontos à frente. Depois do confronto, dez.

Vamos ver. Espero que ele vença. E, quem sabe?, por uma margem até maior do que indicam as pesquisas. “E se der zebra, e ela ganhar?” Uai, vou pôr para tocar Non, je ne regrette rien… A culpa será dos franceses. Assim como Lula foi eleito por culpa dos brazucas. A França tem a oportunidade histórica de enterrar para sempre Maio de 1968. Tomara que o faça.

Comentários
Deixe uma resposta

Olá, ( log out )

* A Abril não detém qualquer responsabilidade sobre os comentários postados abaixo, sendo certo que tais comentários não representam a opinião da Abril. Referidos comentários são de integral e exclusiva responsabilidade dos usuários que escreveram os respectivos comentários.

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s