E não é que os homens maus estavam certos, enquanto os bonzinhos geravam fome, pobreza e prostituição? Título forte, né? Então leiam.

Em janeiro de 2009, Marcelo Coelho, colunista da Folha, escreveu um artigo para denunciar — o verbo é esse mesmo — quatro colunistas da imprensa brasileira: Luiz Felipe Pondé e João Pereira Coutinho (da própria Folha), Demétrio Magnoli (Estadão e Globo) e Reinaldo Azevedo, eu mesmo. Ele nos acusava de destruidores da esperança alheia, de […]

Em janeiro de 2009, Marcelo Coelho, colunista da Folha, escreveu um artigo para denunciar — o verbo é esse mesmo — quatro colunistas da imprensa brasileira: Luiz Felipe Pondé e João Pereira Coutinho (da própria Folha), Demétrio Magnoli (Estadão e Globo) e Reinaldo Azevedo, eu mesmo. Ele nos acusava de destruidores da esperança alheia, de pessimistas, de sombrios. Sugeria até que éramos (seremos ainda?) coniventes com o massacre de criancinhas. Escreveu ainda: “Mas é um time e tanto, e minha experiência pessoal com a violência do ser humano, adquirida nos pátios de recreio do ginásio, é suficiente para não querer polemizar com alguns deles”. Não sei se os outros responderam. Acho que não. Eu respondi. E notei, então, que nem daria um tapão na sua orelha nem puxaria o elástico da sua cueca, algumas das brincadeiras imbecis e violentas que moleques fazem no recreio com aqueles que escolhem para vítimas. Mas essa lembrança vem a propósito de quê?

Em 2009, um dos debates que se travavam no Brasil tinha como objeto a reserva Raposa Serra do Sol, em Roraima. Eu estava entre aqueles poucos na imprensa (ignoro a posição, nesse caso, dos outros três homens maus citados por Coelho), como sabem os leitores mais antigos (e poderão constatar no arquivo os mais recentes), que alertavam para o desastre que implicaria a eventual expulsão dos arrozeiros da região. Lembrei em dezenas de artigos que:
– o “homem branco” já estava naquela área havia quase 200 anos;
– a expulsão dos não índios implicaria a decadência econômica da área, uma vez que eram eles que administravam as fazendas de arroz;
– essas fazendas ocupavam menos de 1% da reserva e empregavam farta mão de obra indígena;
– os indígenas já não viviam como seus antepassados;
– a expulsão dos não índios era uma reivindicação de uma minoria de índios, mobilizados por ONGs financiadas por entidades estrangeiras, como a Fundação Ford, e por radicais do Conselho Indigenista Missionário;
– haveria uma debandada de índios, uma vez que não viviam nem da caça nem da pesca, como no idílio inventado pelas ONGs e pelo ministro Ayres Britto, relator do caso no Supremo — é um bom homem, mas se equivocou estupidamente nesse caso por excesso de  (má) poesia…

Tudo inútil! Venceu a tese da expulsão dos não índios da região. O STF ainda criou 19 condicionantes para aquela demarcação e para as futuras (que a Funai e seus associados tentam hoje derrubar), mas atendeu à reivindicação essencial de uma minoria de índios. Se bem se lembram, a Polícia Federal baixou na região e algemou fazendeiros.

De volta a Coelho
Naquele texto em que Coelho identificou a gangue dos quatro homens maus da imprensa, ele nos censurou também por causa de Raposa Serra do Sol, deixando claro que estávamos do lado errado. Fazendo troça do que seria a nossa opinião, ele ironizou, como se capturasse o nossa fala ou, narrador onisciente, adivinhasse o nosso pensamento:
“Você quer que se preservem as reservas indígenas da Amazônia? Mais um risinho: os militares brasileiros entendem mais do problema que você, que pensa ser bonzinho, mas é tão malvado como todos nós.”

Notem que Coelho nos acusa de ter um registro, digamos, meio apalhaçado da realidade. Ele está tão convencido da impossibilidade de se pensar algo distinto do que ele pensa e de tal sorte se considera dono do bom senso que chega a supor que, como diz a meninada hoje em dia, os quatro malvados escrevem apenas para… causar!!! “Causar”, leitor, nessa construção, é verbo intransitivo.

De volta a Raposa Serra do Sol
Em maio de 2011, VEJA publicou uma reportagem demonstrando que todas aquelas antevisões deste escriba mau e reacionário estavam se cumprindo. Índios aos montes já moravam em favelas na periferia de Boa Vista. Haviam abandonado a reserva.

Dois anos depois, chegou a vez de a Folha fazer a sua reportagem sobre as consequências daquela decisão do Supremo. A situação só fez piorar. Mais índios estão morando em favelas e lixões. Índias viraram prostitutas. Sílvio da Silva, líder de uma das etnias, acusa a Funai: “Eles [A Funai] querem que o índio volte a viver no passado, como viveram os nossos, que tinham raiz e usavam capemba de buritis [adereço] no pé, a bunda aparecendo. Hoje não, não quero fazer isso.” Leiam a reportagem de Erich Decat, publicada ontem na Folha. Volto em seguida.
*
Quatro anos após o Supremo Tribunal Federal determinar que a área de Raposa Serra do Sol era uma reserva indígena e que os “brancos” teriam de ir embora, a energia elétrica finalmente chegou ao barraco de madeira de dois quartos do líder da etnia macuxi Avelino Pereira. Ele mora com a mulher, filha e neta lá. Mas seu barraco, contudo, está a cerca de 180 km da comunidade da Raposa Serra do Sol em que residiu boa parte de sua vida. Hoje Pereira vive em Nova Esperança, uma invasão na periferia da capital de Roraima, Boa Vista, situação que ilustra o que ocorreu com parte da comunidade indígena após a demarcação.

“Hoje a realidade [em Raposa Serra do Sol] está ai, não tem uma agricultura melhor, não tem estrada boa, saúde boa. Se alguém disser que está boa, é mentira”, diz Pereira, 50 anos, acostumado com a vida próxima a cerca de 340 famílias de produtores rurais que tiveram que deixar as terras para cerca de 20 mil índios após a decisão do STF.

No município de Cantá à 38 km de Boa Vista, outro líder indígena, Sílvio da Silva, faz coro e fala sobre uma “maldição da Raposa”. “Hoje temos vários indígenas ‘saídos’ [da reserva] para procurar melhora de vida”, diz Silva, ex-presidente da Sociedade de Defesa dos Índios Unidos do Norte de Roraima. Entre os principais alvos das queixas está a própria Funai (Fundação Nacional do Índio). “Eles querem que o índio volte a viver no passado, como viveram os nossos, que tinham raiz e usavam capemba de buritis [adereço] no pé, a bunda aparecendo. Hoje não, não quero fazer isso.”

No percurso de carro de Cantá a Boa Vista, o indígena comenta: “Pena que estamos com pouco tempo, queria ir lá no lixão para te mostrar”. Ao longo da BR-174 está Venâncio, um macuxi de fala mansa. Ele trabalha num lixão à beira da estrada, cercado por urubus, tratores e o mau cheiro. Consegue de R$ 20 a R$ 30 por dia. “Essa realidade do lixão ela começa hoje em Roraima em escala pequena, mas a tendência é que se não fizermos nada vai crescer”, diz o governador de Roraima, José de Anchieta (PSDB).

Com a chegada da noite em Boa Vista, surge outra face da busca por sobrevivência de indígenas nas periferias: a prostituição. No bairro Asa Branca, algumas mulheres conversam com vestidos curtos e maquiagens carregadas, vozes abafadas pela música alta do grupo Calcinha Preta.

Entre elas, Menezes, 26, que há seis meses começou a trabalhar no estabelecimento como garçonete. Agora, virou prostituta e diz ganhar R$ 300 por dia. Segundo o IBGE, a renda média mensal na região, na faixa etária de Menezes, é de R$ 954. “Estou aqui porque preciso pagar minhas contas”, diz ela, que morava em Uiramutã, comunidade em que ela nasceu na reserva. A Funai não se pronunciou sobre a situação da reserva.

Os produtores rurais, por sua vez, migraram para outros Estados e para a Guiana. Dono de duas fazendas na área, Paulo Cesar Quartiero (DEM-RR), hoje tem fazenda na ilha de Marajó, no Pará. O deputado, que chegou a ser preso durante o processo de retirada de produtores, faz parte da Comissão de Integração Nacional da Câmara que se reuniu em Boa Vista com agricultores e índios para discutir a situação da região. Pequenos produtores também vivem dificuldades. “O governo prometeu que ia dar uma casa, um poço artesiano e não deu nada”, diz Wilson Alves Galego, 72.

Voltei
Coelho me achava um “pessimista sombrio” em relação a Raposa Serra do Sol e, muito provavelmente, um reacionário, a favor da destruição da natureza. Eu, ora vejam!, só pensava coisas óbvias como: “Os arrozeiros ocupam 1% da reserva apenas e empregam muitos índios, oferecendo-lhes condições dignas de vida. Se saírem de lá, a área que volta para o controle da reserva é irrelevante, mas o custo social será gigantesco”. Não me parecia, assim, algo muito reacionário, né? Ao contrário, eu me considerava até bastante humanista ao me preocupar com a equação econômica.

Pois é… O fatal aconteceu. As ONGs que lutaram para expulsar os arrozeiros não estão nem aí; a Fundação Ford, que as financia, não está nem aí; a Funai não está nem aí; Ayres Britto não está nem aí; o STF não está nem aí; Marcelo Coelho não está nem aí…

“E você, Reinaldo?” Eu? Não escrevi o que escrevi com o intuito de parecer bom ou mau. Nunca penso nisso quando exponho uma opinião. Achei que a saída dos arrozeiros geraria desemprego, fome e pobreza. E a saída dos arrozeiros gerou desemprego, fome, pobreza e prostituição.

Coelho não me deve desculpas, claro! Talvez as deva a seus leitores e certamente àqueles pobres desgraçados. Não que ele tenha tido qualquer responsabilidade objetiva na decisão. Fez parte da plateia que aplaudiu e tentou demonizar as poucas vozes divergentes — demonização, no caso, de minoria, o que é uma coisa muito feia quando essa minoria está apenas participando do debate democrático.

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