Duas mulheres. Uma é viciada em crack, a outra, em trabalho

Vejam esta foto de Luiza Sigulem, da Folhapress, publicada na Folha Online. Volto em seguida. À esquerda, vocês vêem Desirée Mendes Pinto, 35, grávida de quatro meses, viciada em crack e presa, pela quinta vez!, traficando a pedra. À direita, sua sogra, a faxineira Teresa Beatriz Viega, 68, cujas mãos e cuja idade sugerem ser […]

Vejam esta foto de Luiza Sigulem, da Folhapress, publicada na Folha Online. Volto em seguida.

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À esquerda, vocês vêem Desirée Mendes Pinto, 35, grávida de quatro meses, viciada em crack e presa, pela quinta vez!, traficando a pedra. À direita, sua sogra, a faxineira Teresa Beatriz Viega, 68, cujas mãos e cuja idade sugerem ser viciada em… trabalho! Teresa, informa o jornal, estava à procura de Desirée para lhe oferecer ajuda. Ao saber da prisão da nora, desabafou, pensando no neto: “Ao menos na cadeia ela vai se alimentar melhor”. Na cadeia também está seu filho, João, o pai da criança, que é soropositivo. A reportagem de Emilio Sant’Anna e Afonso Benites está aqui.

Por que Desirée e o marido vivem nesse desvario, e Teresa, aos 68, faz faxina para sobreviver? Eis uma boa questão. Boa parte da imprensa, dos especialistas e dos poetastros que tratam do assunto gosta de fazer digressões sobre as razões do desvio, da adesão ao crime, da decadência. Mas pouco se investigam os motivos por que a esmagadora maioria dos pobres — A ESMAGADORA MAIORIA, ENTENDEM? — faz como Teresa: trabalha para sobreviver, enfrenta as dificuldades que a vida oferece — e toda vida é, a seu modo, difícil — e não se droga. Ao contrário: vemos ali uma senhora já idosa, trabalhadora, asseada, disposta a percorrer a cracolândia porque preocupada com a nora e com o neto que vai nascer.

Aonde quero chegar? As pessoas se drogam pelos mais variados motivos. Ricos infelizes podem recorrer a substâncias químicas, legais e ilegais, para enfrentar seu sofrimento. O mesmo pode acontecer com os pobres. Os que têm dinheiro acabam se tornando meio invisíveis — embora alguns acabem nas sarjetas, mas estimo que sejam casos excepcionais. Os pobres, dados, até havia pouco, a tolerância do Poder Público com as drogas e o discurso irresponsável dos proxenetas e cafetões morais dos viciados, começaram a se juntar nas cracolândias.

Não pode existir nas cidades um local com aquelas características, em que doentes — admitamos que os viciados são doentes — convivem com os fornecedores da causa de sua doença! A verdadeira violência, é evidente, não está na ação da polícia, mas na tolerância cruel. O que pode haver de mais desumano do que admitir a existência de um Vale dos Caídos, em que pessoas são tratadas como dejetos? O padre Júlio Lancelotti celebrou outro dia o escárnio que foi a tal churrascada na cracolândia porque viu ali a saudável convivência entre os diferentes. Não ocorreu à sua teologia belzebu que os “descolados” que foram lá fazer proselitismo podiam voltar para o conforto de suas casas. Os zumbis não tinham a opção de voltar para a vida.

Sim, é preciso, sim oferecer tratamento aos viciados, tomando, no entanto, o cuidado para que não se crie a indústria do vício. Escrevi aqui dia desses que não se pode aplicar um método Pavlov às avessas, como parece querer o Ministério Público naquele texto inacreditável em que anuncia a abertura do inquérito civil para investigar eventuais violações de direitos na cracolândia. O estado não pode ser babá de viciado, de modo a recompensá-lo sempre com contínuos agrados.

O trabalho de prevenção — é uma questão de lógica elementar — chama-se “repressão”. O tráfico e o consumo de drogas não podem ter nenhuma forma de compensação. Por essa razão, a internação compulsória do viciado tem de estar no horizonte das autoridades que cuidam do assunto. Se a sociedade vai arcar com o custo do tratamento de quem insistiu em fazer escolhas erradas ou de quem, por qualquer razão, não pode escolher, tem de fazer também as suas exigências. Viciados não caem da árvore da vida, não são uma variante, sei lá, cultural, que tem de ser tolerada. O custo é muito alto. As donas Teresas, que compõem a maioria dos pobres do Brasil, também requerem atenção.

O governador Geraldo Alckmin diz não haver prazo para a PM deixar a cracolândia. Que não haja mesmo! Cracolândias, em São Paulo ou em qualquer lugar, nunca mais! Os supostos defensores dos direitos humanos que criticaram a ação da polícia confundem esses pobres desgraçados com rebeldes que contestam o sistema. É uma perspectiva estúpida e cruel. O sistema não está nem aí para eles, nem eles para o sistema. Impedir que se reúnam no Vale dos Desgraçados é que é expressão do humanismo. A Polícia Militar finalmente se interessou por eles. Os vigaristas ideológicos só os queriam como expressão da diversidade. E, como se viu, já aproveitaram para cuidar da campanha de Fernando Haddad à Prefeitura de São Paulo.

Aliás, espalhem esta também: Haddad, a exemplo de Gabriel Chalita, atacou a ação da polícia.

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  1. Comentado por:

    Ali

    Reinaldo, a figura a esquerda na foto é exatamente o protótipo de cidadão que o PT/PMDB e esquerdas querem para o Brasil. O que importa é a manutenção do poder, e como disse um certo amoral…: “não importa que 30 milhões de brasileiros morram para a implantação do socialismo no Brasil”. Isso tá gravado em entrevista.

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  2. Comentado por:

    Gustavo

    Primeiramente deveria sim acabar com a tolerância da roubalheira da falta de ética da maioria dos políticos safados ladrões que estão espalhados pelo Brasil torcendo que aconteça alguma coisa nova que dê ibope e assim passarem por despercebidos como sempre acontece .O povo Brasileiro já está passando na hora de sair as ruas e exigir o que é de direito pois muito se paga de impostos e nada recebemos de volta pois o dinheiro fica nas mãos de poucos.Politico e filho da Puta pra mim hoje é a mesma coisa chega de cracolândia chega de mortes por inundações que poderiam ser evitadas se as verbas chegassem no seu devido lugar.Basta Basta ……

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  3. Comentado por:

    NAUSEADA

    IMPRESSIONA A DIFERENÇA DE EXPRESSÕES:NA NÓIA A IMBECILIDADE E O DEBOCHE.NA VÍTIMA O SOFRIMENTO E A RESIGNAÇÃO.

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  4. Comentado por:

    O padre Julio Lancelotti alucina e acha que é Antonio
    Conselheiro, aquele de Canudos.

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  5. Comentado por:

    cuidado com a patrulha

    O padre Julio Lancelotti alucina e acha que é Antonio
    Conselheiro, aquele de Canudos.
    .
    A senhorinha da foto resiste e ainda guarda um tanto de
    dignidade no semblante já a jovem tem a fisionõmia idio-
    tizada pelo uso das drogas.

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  6. Comentado por:

    PARTIDO – PÊQUÊPÊ

    .
    CARISSIMO REINALDO,
    .
    O QUE A SENHORINHA ESTA ESPERANDO PARA ENTRAR PARA O MUNDO DO CRACK ? ELA ADQUIRIRA MAIS DIREITOS E SERIA CONSIDERADA PELO MINISTERIO PUBLICO, COMO CIDADÃ DE PRIMEIRISSIMA CATEGORIA. VIP. QUEM SABE UMA BOLSA-CRACK …
    .
    SE O NETINHO APRENDER COM OS PAIS O CAMINHO ERRADO-CERTO, ELA AINDA TERA A POSSIBILIDADE DE RECEBER O BOLSA-CRIME ENQUANTO ELE OU ELES ESTIVEREM PRESOS, SENDO … “reinseridos” NA SOCIEDADE
    .
    OLHA SO, DE UM SALARIO MINIMO MISERAVEL E DESPREZIVEL, ELA PASSA A RECEBER UMA BELA GRANA
    .

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  7. Comentado por:

    Cil

    Eu vejo mais nessa foto. Essa senhora que com mais de 60 anos ainda faz faxina, QUANDO NÃO DEVERIA, não tem qualquer ajuda do estado. É aposentada? Recebe alguma bolsa? Com certeza que não, mas seu filho drogado pode receber um auxílio-reclusão certamente com valor maior do que o que ela recebe trabalhando! É nisso que estão transformando o Brasil. Em uma nação, onde a marginalidade é premiada das mais variadas maneiras. Parece que agora os ladrões dos altos escalões decidiram dividir o pão com os ladrões do baixo escalão. O povo? Que se exploda!

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  8. Comentado por:

    RobertoBH

    Vi com tristeza dois jornalistas da Folha entrevistando o governador Alkimin. Os dois quase bateram no governador porque a ação na cracolândia é “eleitoreira” isto é, esta dando certo e incomoda os palhaços do PT.
    Porque não iniciou em 2009, 2007 etc e sòmente agora? Insistiam os honestos entrevistadores.
    TEM QUE PARAR PORQUE ELA NÃO FOI INICIADA ANTES. Entendeu? Eu não.

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  9. Comentado por:

    ZEca

    Que pena…..comecei na expectativa de ler um bom artigo…e acabei na desolação de ler um artigo de defesa do governador alckmin…pena mesmo, pois o tema foi inicialmente descrito de maneira oportuna, até descambar para a luta partidaria…

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