DUAS IMAGENS E UM TANTO DE PENSAMENTO. OU: O QUE LULA TERIA DITO A HERZOG…

Vejam essas duas imagens. O que será que elas fazem aqui? Sabem vocês que operei algumas mudanças no blog há algum tempo, quando optei quase exclusivamente por textos meus. Escrevo o “quase” porque, às vezes, dou destaque a um artigo ou outro que saem na imprensa. E por que mudei? Porque vocês não precisam de […]

Vejam essas duas imagens. O que será que elas fazem aqui?

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Sabem vocês que operei algumas mudanças no blog há algum tempo, quando optei quase exclusivamente por textos meus. Escrevo o “quase” porque, às vezes, dou destaque a um artigo ou outro que saem na imprensa. E por que mudei? Porque vocês não precisam de mim para fazer “cola-copia” — ainda que eu raramente publicasse um texto sem comentário. Atendi a uma demanda que os comentários revelam: vocês entram aqui para ler o que eu escrevo. O que outros escrevem está no site e blog dos… outros! Com a mudança, optei também por um caráter ainda mais analítico, ainda mais reflexivo. Estamos aqui para tentar entender melhor a natureza dos eventos políticos; para, sempre que possível, tirar dos fatos o glacê da irrelevância e chegar ao que interessa. Resultado: os comentários, vamos dizer assim, explodiram; o número de visitas cresceu. Meu trabalho aumentou, hehe.

A charge do alto está publicada no blog CUBA DEMOCRACIA Y VIDA, de cubanos exilados na Suécia. Não poderia ser mais precisa na sua metáfora cruenta. Os irmãos Raúl e Fidel Castro estão mergulhados numa banheira de sangue, e Lula está tomando o seu lugar no macabro  ménage-à-trois ideológico. Desde a revolução, em 1959, somam 17 mil as pessoas executadas a mando da dupla, segundo informa O Livro Negro do Comunismo. Estima-se que outras 83 mil tenham morrido afogadas tentando deixar a ilha — na prática, um presídio comandando pela dupla de facínoras. Dada a população cubana, o número faz dos irmãos dois dos grandes homicidas da história.

Não obstante, em visita à ilha, o humanista Luiz Inácio Lula da Silva decidiu dar uma bronca nos dissidentes, que não teriam se esforçado o bastante para lhe entregar uma carta. E ainda acusou Orlando Zapata Tamayo de “ter-se deixado morrer”. Tivesse tido a chance de falar com o preso, diz Lula, e talvez ele tivesse mudado de idéia. E mais não disse. Não se ouviu uma só palavra de Lula nem mesmo em defesa da democracia. Nada! Não se tocou no assunto dos presos políticos, que podem chegar a 200. Lula também não desconfiou em nenhum momento das condições em que Zapata, um operário, estava preso.  Deixou-se fotografar alegremente ao lado dos facínoras, e ele próprio, mais uma vez, decidiu ser o lambe-lambe (botas) de luxo.

Batia um papo com Diogo Mainardi ontem à tarde, e ele sintetizou como ninguém a postura do presidente brasileiro, que, na prática, censurou Zapata: “Pois é… Se Lula tivesse tido tempo de conversar com Vladimir Herzog, talvez ele não tivesse se enforcado; ou, então, teria convencido Rubens Paiva a não pular do helicóptero no mar”. Trata-se de uma ironia amarga que dá conta do padrão miserável das escolhas éticas do lulismo. Todos sabemos que as duas pessoas citadas foram assassinadas durante a ditadura no Brasil. As ocorrências despertaram em todas as pessoas decentes a justa indignação. A reparação possível, diante do irreparável, se deu. E não há desculpa possível para aquela brutalidade.

E assim pensamos nós, os, vá lá, democratas liberais: ditaduras, todas elas, são odiosas; ditadores, todos eles, são desprezíveis; arbitrariedades do estado, pouco importa a coloração ideológica, são repugnantes. Assim pensamos nós, não eles. Ontem, no Congresso, enquanto representantes da oposição protestavam contra o mergulho de Lula na banheira de sangue, parlamentares da base de apoio corriam em socorro de Lula e, acreditem!, de Raúl e Fidel Castro. Seus críticos seriam “fascistas”!

Agora a outra imagem
Está claro o que faz lá no alto a charge. Mas e aquele pedaço da primeira página do Estadão de ontem? Reparem que, na primeira metade, na manchete, está a informação de que o Banco Central decidiu retirar R$ 71 bilhões do mercado. É uma medida para tentar dar uma desaquecida na economia e encarecer um pouco o crédito, esfriando a demanda. Pode ser a ante-sala de uma possível elevação de juros. No destaque menor, ainda no corpo da manchete, o fato de o superávit do governo ter atingido R$ 13,9 bilhões, o segundo melhor janeiro da história.

Empresários, banqueiros e toda gente pode dizer, concorde ou não com a medida: “Está aí um Banco Central que opera segundo critérios, eu diria, universais de mercado. Para ficar nos termos que os petistas gostam de usar: definitivamente, Henrique Meirelles não faz uma gestão “socialista” do Banco Central, não é mesmo?

Agora vejamos a segunda metade da imagem. Vemos Lula, de câmera na mão, fotografando Franklin Martins ao lado dos homicidas compulsivos.  Não muito longe dali, a polícia política reprimia manifestações discretíssimas de protesto contra morte de Zapata, que poderia se chamar Valdimir Herzog, Rubens Paiva ou Manuel Fiel Filho. No alto da página, o PT de mercado, que não viu mal nenhum em, felizmente, terceirizar a gestão do Banco Central e, em muitos aspectos, da própria economia. Logo abaixo, o apoio explícito de Lula a uma tirania.

A questão democrática
É este jogo do PT que confunde certos atores políticos e leva alguns tontos, especialmente no empresariado e na imprensa internacional, a ver o governo Lula com notável desinteligência. Os petistas, convertidos à economia de mercado, não se converteram, no entanto, ao liberalismo. A sua visão de mundo caracteriza o que se pode chamar de “capitalismo de estado”: os empresários lideram o esforço produtivo, mas sob forte gerência estatal, que controla os tais setores essenciais. Vá lá… Para boa parte dos nossos empreendedores, isso é uma bênção. Ser amigo de Lula e do PT significa correr menos riscos. Para ele, vai bem assim. E o partido também não tem do que reclamar. A cada vez que cria uma dificuldade, pode vender uma facilidade.

Esse estado agigantado e devidamente aparelhado é a base de operação da nova classe social e de seus valores. Mas ele ainda não explicita a natureza do jogo, o que só se revela, aí sim, no terreno da política e, em certos casos, da polícia política. Essa relação arreganhada, festiva, com os ditadores cubanos é um sinal de que, mais importante do que os valores democráticos, são os vínculos de natureza ideológica  — e, acreditem, a “ideologia” é uma só, revelada em vários documentos do partido apresentados em seu recente congresso: o antiamericanismo!!! Ou, como dizem os petistas, o combate ao “poderio estadunidense”. Nota à margem: no Brasil, é o sujeito falar ou escrever “estadunidense”, e você saia de perto porque é encosto de mau espírito…

As esquerdas perderam a batalha da economia, já sabemos. Mas não perderam ainda a guerra de valores e eu diria que, em muitos aspectos, elas a venceram. A utopia que serviu para mascarar a prática sistemática do crime político é reciclada, em tempos de economia de mercado, para justificar outras falcatruas: a negociata com potentados da economia privada, a pilantragem da Bandalheira Larga, o enriquecimento ilícito, a roubalheira pura e simples. Por incrível que pareça, a banheira de sangue em que essas esquerdas mergulham é também fachada de uma banheira de dólares.

Ocorre que a gesta antiimperialista confere ao petismo certa aura de “resistência”, de “construção de uma alternativa”, de “competição” com os EUA, como diz um documento petista. Poucos se dão conta de que a democracia brasileira, já escrevi aqui, vive sob uma espécie de tutela de movimentos sociais, ONGs e entidades várias que se esforçam para torná-la… menos democrática! O truque é simples: redigem uma pauta que atende a seus interesses e aos do partido e decidem — ou decretam, como no caos do Programa Nacional-Socialista dos Direitos Humanos — que ali está a Suma Humanista. Discordar, então, de tal Suma já não é mais parte do jogo democrático, mas sabotagem.

Não pensem que Lula e o sorridente Franklin Martins, abraçado àquele banco de cadáveres, sonham comandar, um dia, um país socialista. Não! Eles sonham ser a direção de um partido único que elegesse os vitoriosos e os derrotados de um capitalismo renovado, que tenha aprendido a superar aquela coisa para eles odiosa chamada “democracia”.

Para alguns empresários, tanto faz. Submetendo um ditado chinês a certa torção, eles poderiam dizer que não importa a cor dos ratos se eles alimentam os gatos.

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