DAIME, INCONSISTÊNCIAS E ABSURDOS

Poderia, claro, deixar quieto, mas não vou. Especialmente porque a imprensa tem de aprender a lidar melhor com assuntos que podem ser espinhosos. Estamos todos consternados com a morte trágica do cartunista Glauco e de seu filho Raoni, mas nem por isso devemos suspender o juízo. Por mais que pareça compatível com certa atmosfera de, […]

Poderia, claro, deixar quieto, mas não vou. Especialmente porque a imprensa tem de aprender a lidar melhor com assuntos que podem ser espinhosos. Estamos todos consternados com a morte trágica do cartunista Glauco e de seu filho Raoni, mas nem por isso devemos suspender o juízo.

Por mais que pareça compatível com certa atmosfera de, sei lá como chamar, visão muito particular de mundo (pode ser assim?) a versão de que Carlos Eduardo Nunes, o assassino, entrou em surto e exigia que Glauco asseverasse a sua mãe que era Jesus Cristo — teria cometido os dois homicídios no auge do descontrole —, há de se admitir que é uma história pouco compatível com o fato de que estava acompanhado — um amigo, talvez dois, aguardava no carro. Esse amigo (ou amigos) participava do mesmo surto? Como Nunes o(s) teria convencido a acompanhá-lo? “Vamos lá; ele tem de dizer que eu sou Jesus”.

No trajeto entre o Alto de Pinheiros e Osasco, nada os demoveu da idéia? Consta que era um “conhecido da família”. Da família? Da Igreja?  Será preciso apurar a verdade dessa versão. VEROSSÍMIL ELA NÃO É. “Ele só surtou quando estava lá”, pode dizer alguém. Nesse caso, o que fazia armado? Do que vive Nunes? Qual é a sua fonte de renda?

E continuo incomodado com a versão fantasiosa do advogado da família, Ricardo Handro. Depois de conversar com familiares do cartunista, que assistiram  à tragédia, anunciou que pai e filho tinham sido vítimas de bandidos que pareciam drogados. De onde tirou essa história? Todos sabiam quem era Nunes, um “conhecido da família”. Intencionalmente ou não, a sua fala poderia ter induzido a polícia a erro, COLABORANDO PARA A IMPUNIDADE DO ASSASSINO. Na Internet, muitos chegaram a lastimar a violência em São Paulo… Uma testemunha, que reconheceu o rapaz, desfez a fantasia.

Vamos fazer de conta que isso não aconteceu também? Nada cobraremos do senhor Handro? Vamos fingir que essa história não é estranha? Reitero: o advogado gravou uma entrevista horas depois da tragédia, quando toda a imprensa já estava lá, sustentando a inverdade. Por quê? Colaborando para punir Nunes é que ele não estava.

Outras imprecisões
A liberdade de expressão garante que cada um atribua a suas escolhas a origem que bem entender. A imprensa é que não precisa — OU MELHOR, NÃO DEVE — dar curso a certas fantasias. Repórteres têm chamado o daime de “doutrina cristã”. É mesmo? Os cristianismos são muitos, eu sei. Todos têm um fundamento: a Bíblia. Há divergências sobre se este ou aquele livros são ou não “inspirados”. As interpretações  estão sujeitas às mais variadas inflexões. Mas me digam que passagem, lateral que seja, justifica que se possa dizer  cristã uma “doutrina” que confere a uma bebida alucinógena a centralidade que o daime confere à tal infusão.

Recebi comentários bastante impressionantes aqui. Uns falam da “evidência” (!!!) de que Moisés teria ingerido o Daime quando recebeu as tábuas da lei. Outro assegura que a passagem em João em que Cristo pede água à samaritana faz alusão à bebida…  Um mínimo de rigor histórico e jornalístico pediria que se escrevesse ou se falasse, ao menos, “doutrina que se diz cristã”. E nem estou fazendo juízo de valor. Sei que há quem considere o cristianismo fonte de todos os horrores, e o Daime, de todo o bem: não vou entrar nessa. Mas dizer que se trata de uma “doutrina cristã” é de lascar!

Num texto publicado na Folha, no sábado, Mario Cesar Carvalho ajuda a esclarecer algumas coisas e a confundir outras tantas.
Ele esclarece:
Glauco seguia uma vertente do Santo Daime que nasceu nos anos 70 a partir de uma dissidência fundada por Sebastião Mota de Melo. A doutrina original era uma mistura de cristianismo, espiritismo e práticas xamânicas. As cerimônias são marcadas por hinos e pelo uso de ayahuasca, chá feito com duas plantas amazônicas, uma das quais tem efeito alucinógeno. Diz a história oral que o criador do Santo Daime, Raimundo Irineu Serra (1892-1971), conhecera o ayuhasca pelas mãos de um xamã peruano. Sebastião acrescentou à essa mistura o uso ritual da maconha.

Segundo entendi, a Céu de Maria, igreja de Glauco, é essa que usa maconha nos rituais.

Mas o repórter também contribui para a confusão:
Apesar da ira dos mais conservadores contra o chá, o Santo Daime ganhou fama entre os mais jovens pela sua capacidade de recuperar dependentes de drogas e de álcool. O próprio Glauco dizia que abandonara a cocaína e a bebida graças ao Daime.
“O Daime reabilita mesmo. Meu marido era viciado e parou. Perdeu a obsessão que tinha pela droga”, diz a fotógrafa Janete Longo.
Isso ocorre, segundo ela, porque a religião mescla autoconsciência, psicanálise e cristianismo. Longo afirma que 70% dos fardados -o jargão que designa os frequentadores dos cultos- eram dependentes de álcool ou drogas. No ano passado, 11 mil passaram pelos cultos do Céu de Maria, segundo Orlandão.
Longo refuta a idéia de senso comum de que o chá é alucinógeno. “Os bebês são batizados com um pouquinho de ayahuasca e não acontece nada”.

Vamos ver
“Conservadores”, como a gente vê, são sempre esses seres irados. Parece que um “progressista” deve, então, necessariamente, achar que a bebida é uma coisa bacana. De fato, no texto, a oposição se dá entre “conservadores” e “jovens” — eliminando-se a hipótese de que se possa ser jovem e conservador… Ainda que neste particular sentido da palavra: não curtir o tal chá.

Afirmar, sem ressalvas e sem atribuir aos crentes, a capacidade do chá  “de recuperar dependentes de drogas e de álcool”, lamento dizer, é uma irresponsabilidade. Cadê os estudos? Cadê os dados científicos? “E você, seu católico, não acredita em milagres?” É, acredito em alguns, bem pouquinhos… Mas não mandaria um dependente químico para a igreja se persignar com água benta e pronto! Ademais, se a igreja pertence à tal dissidência, faz uso ritual da maconha, certo? Ou não faz? Isso ajuda a curar o vício das drogas?

Não, eu não descarto que as pessoas, em razão de certas convicções ou da fé, possam abandonar as drogas e o álcool. Mas sei que este é um trabalho que demanda apuro profissional, pesquisa e remédios — devidamente testados, com a caracterização rigorosa de seus efeitos colaterais.

Já sabemos que o daime mescla “cristianismo, espiritismo e práticas xamânicas”. A fotógrafa acrescenta a isso tudo a “psicanálise”. Pode ser. O fato é que, e eu tratei disso no primeiro texto que escrevi sobre o assunto, as igrejas do daime estão atraindo viciados em busca de cura. Já ouvi relatos nada edificantes. Parece-me que a prática cruza a linha da responsabilidade. Muitas dessas pessoas chegam lá sob o efeito de remédios. O que se conhece até agora das interações do daime com outras drogas? Resposta: NADA! Não estamos falando da “água” ungida de certos milagreiros que andam por aí.

Acredito que Janete Longo e o próprio repórter não tenham atentado para esta enormidade:
Longo refuta a idéia de senso comum de que o chá é alucinógeno. “Os bebês são batizados com um pouquinho de ayahuasca e não acontece nada”.

Para começo de conversa, Carvalho chamou a bebida de “alucinógena”, e não o “senso comum”. Para aquela senhora, a evidência de que não é um chá alucinógeno é que “os bebês são batizados com um pouquinho de ayahuasca e não acontece nada”. O que ela esperava? Que os infantes tomassem a sua santa mamadeira e começassem a debater os estratagemas apontados por Schopenhauer para vencer um debate sem precisar ter razão? E como ela sabe que “não acontece nada?” Que religiões e que líderes religiosos autorizam que se administre o chá para bebês? Parece-me uma revelação grave.

Será que ainda ficaremos com saudade do tempo em que o ópio dos intelectuais era só o  marxismo?

Lamento a morte de Glauco e Raoni e espero que o assassino vá para a cadeia. Mas não dá para ficar alimentando certas fantasias e silenciar diante de óbvias inconsistências e absurdos clamorosos.

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