Group 21 Copy 4 Created with Sketch.

Confissão de José Mayer indica sobrevida de primitivismos morais

Ator admite assédio contra figurinista e se sai com tese esfarrapada. Sim, há um feminismo doidivanas, mas também há o necessário

O blog #AgoraÉqueSãoElas, da Folha, errou feio ao publicar o relato da figurista Susllem Meneguzzi, acusando o ator José Mayer de assédio — ou, a ser verdadeira a narrativa da vítima, que não foi contestada, houve bem mais do que isso. Qual foi o erro? Não ter tentado ouvir previamente o acusado. Contraria o Manual de Redação da Folha e, por óbvio, do bom jornalismo. Errou, mas, pelo visto, não mentiu.

O jornal havia retirado do ar o testemunho de Susllem, que agora volta. Para ler, clique aqui.

Sim, tenho considerações a fazer que dizem respeito ao nosso tempo e a tempos pelos quais anseio. Vamos lá.

Li o relato de José Mayer, em que reconhece a culpa, com certo asco. Sim, pela coisa em si, que é deplorável, mas também porque ele busca, de algum modo, diluir suas responsabilidades pessoais nas de todos os homens.

Lá está escrito:

“Tristemente, sou, sim, fruto de uma geração que aprendeu, erradamente, que atitudes machistas, invasivas e abusivas podem ser disfarçadas de brincadeiras ou piadas. Não podem. Não são.”

Vamos devagar aí!

“Quem nunca contou uma piada machista? Quem nunca contou uma piada contra gays? Quem nunca contou uma piada contra preto? Quem nunca contou uma piada contra aleijado?”

Bem, a primeira coisa a responder nesse caso é a seguinte: nem todos contam. Eu, por exemplo, não conto. Mas também não conto piadas contra empresários, policiais ou direitistas só porque eles são empresários, policiais e direitistas, né? Faço essa observação para que Gregório Duvivier se acalme. Não estamos e jamais estaremos do mesmo lado.

De resto, fuja do conforto do “quem nunca?”. Isso nada tem a ver com a polícia da linguagem instituída pelo politicamente correto — (“Ah, não se diz mais ‘aleijado’). Estamos falando de escolhas de civilização. Qual queremos?

Machismo atávico?

Escreve o ator:

“Tenho amigas, tenho mulher e filha, e asseguro que de forma alguma tenho a intenção de tratar qualquer mulher com desrespeito; não me sinto superior a ninguém, não sou.”

Entendo. Por alguma razão, talvez sem onde focar o seu desejo, ele resolveu que com Susllem pudesse ser diferente, não é? Ora… O personagem “pegador” já contracenou com mulheres deslumbrantes. Não consta que tenha se excedido. Ainda que se quisesse evocar algum componente de ordem psíquica a justificar a sua conduta, parece que a hipótese sai bastante enfraquecida. Assediar a figurinista evidencia um mau uso das relações de poder. Eis a verdade.

Infelizmente, é preciso admitir que, não fosse a publicação do relato, o ator estaria impune — ainda que a punição de agora seja apenas moral.

Feminismos

Sim, existe o feminismo necessário, e há o feminismo destrambelhado. Mas não sou mulher e não serei eu a dizer qual serve e qual não serve. Sou casado com mulher, tenho duas filhas e não reconheço, sob qualquer pretexto, uma, vamos dizer, determinação sociológica que imponha aos homens agir contra os direitos assegurados às mulheres (e aos homens) pela Constituição.

Aliás, repito aqui o que sempre disse às minhas filhas: não importa em que fase do processo você fique com vontade de dizer “Não”. O “não” quer dizer… NÃO!

Sim, reconheço: poucas militâncias podem ser tão obscurantistas como o feminismo sectário. Hoje, há malucas e malucos proclamando por aí que toda transa heterossexual é “estupro”, porque, afinal, o “homem que penetra” e a “mulher que é penetrada” teriam se transformado em categorias simbólicas. Assim, a violência sexual estaria embutida mesmo nas práticas consensuais, amorosas, virtuosas. Não! Estaríamos diante de uma questão, digamos, ontológica. E a doçura de uma relação sexual só mascararia um histórico de violência.

Que coisa, né? Por esse caminho, então, a gente poderia passar a mão na cabeça de José Mayer e livrá-lo da culpa. Afinal, cada homem no particular não poderia ser responsabilizado por uma violência inata, que não escolheu, da qual não pode se livrar.

É claro que existe o feminismo doidivanas, que vaza, às vezes, para a legislação. A caracterização do “feminicídio” é uma dessas bobagens vendidas como “conquista das mulheres”. Não! É só exercício tosco do direito. Recentemente, a senadora Gleisi Hoffmann (PT-PR) resolveu voltar à Grécia antiga do século 4 a.C. e propor uma greve de sexo, como na peça Lisístrata, de Aristófanes. No caso, as mulheres protestavam contra a Guerra do Peloponeso. Proposta de Lisístrata, a líder: paz em troca de sexo. Ou sexo em troca de paz, sei lá.

Bem, a guerra principal que há no Brasil, ora bem-feita, ora malfeita, é contra a safadeza, né, senadora? Contra aqueles que abusaram de suas prerrogativas para assaltar os cofres públicos. E, claro, fico tranquilo se souber que Gleisi ficará longe de “Édipo Rei”, de Sófocles; de “Electra”, de Eurípedes, e de “Medeia”, do mesmo autor. Vai que ela comece a ver virtudes redentoras, respectivamente, no parricídio, no matricídio e no filicídio…

Como vocês sabem, eu tenho muito receio da direita que não lê. Mas também é preciso tomar muito cuidado quando a esquerda lê.

Caminhando para o fim

Há um feminismo (ou feminismos) estúpido, anti-homem e, em muitos aspectos, anti-humanista. Basta ver a militância da maioria dessas correntes em favor da descriminação do aborto. A tese, em si, me parece — de novo a palavra — “humanamente” bárbara. Mas me incomoda menos essa enormidade do que outra: o não reconhecimento de que o feto é pessoa em potencial, sim.

Assim como os protegidíssimos ovos de tartaruga são, afinal, tartarugas potenciais. Sem contar que a afirmação de que o feto é algo que só diz respeito ao que a mulher fará com o seu corpo elimina o homem da narrativa. Afinal, nesse caso, ele foi o quê? Um doador aleatório de semente? Voltamos a um período da Idade Média, quando se acreditava que as fêmeas de urubu eram inseminadas pelo esperma dos machos, que estes largavam literalmente ao vento?

E olhem que esse caso dá pano pra manga porque logo se vai resgatar a tese estúpida da “cultura do estupro”. Bem, qualquer psicanalista sério atestaria que o comportamento do ator não é o do estuprador. Até porque parece que o excitava a prática furtiva, num ambiente quase público. Tudo indica que o constrangimento dela é que assanhava a sua sede. É outra psicologia do estuprador.

“Cultura do estupro” é uma invenção militante que não serve para o caso. O que se tem aí é machismo tosco, imposição do forte sobre o fraco e, claro!, certeza da impunidade.

Ok. José Mayer pediu desculpas. Mas a sua carta evidencia que tem muito a aprender.

Que as mulheres não deixem barato! E falo isso na minha condição mais básica, independentemente de escolhas políticas ou ideológicas: fala o filho de mulher, o marido de mulher, o irmão de mulher, o pai de mulheres.

 

Comentários
Deixe um comentário

Olá, ( log out )

* A Abril não detém qualquer responsabilidade sobre os comentários postados abaixo, sendo certo que tais comentários não representam a opinião da Abril. Referidos comentários são de integral e exclusiva responsabilidade dos usuários que escreveram os respectivos comentários.

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

  1. Esorso Elizabeth

    Diante da transparente mesquinhez da espécie , dá para entender a razão pela qual DEUS despreza e pune a humanidade.

    Curtir

  2. Sou homem, macho, gosto de mulheres. Faço parte de uma geração em que homem procurava mulher para namorar e vice-versa e acho isso o correto, tanto é que por conta dessa visão de mundo, eu a minha mulher, por conta do nosso amor e também da nossa missão biológica estamos deixando uma descendência de quatro filhos, doze netos e uma bisneta. Resta claro que estou satisfeito que seja assim, senão não deixaríamos descendência, e se antes os homens e as mulheres que nos antecederam centenas de anos atrás, não agissem assim também não existiríamos. Não obstante, jamais desrespeitei mulher nenhuma e em minha juventude me interessei por muitas delas, sem que elas se ofendessem por minha procura por sexo oposto. Também jamais me interessei por homens e não acho natural que alguém aja dessa forma ANTI-NATURAL, sim, ,porque isso faria a humanidade deixar de existir, ou não? Dai, que coisa triste esse José Mayer, de caráter tão fraco, incapaz de resistir à vontade de tentar obter sexo de mulher que não o quer. Pior ainda, a evidenciar a sua falta de HOMBRIDADE, valor tão em falta nos dias atuais, prostra-se de joelhos perante a rede Globo promotora do politicamente correto e incapaz de assumir seu erro como indivíduo, tenta fazer crer que esse comportamento é da sua geração. Falso. Não é. É dele, como indivíduo.

    Curtir

  3. Jorge Dias da Silva

    Quem vai ter coragem de achar que nos bastidores da Globo as coisas são diferentes?.

    Curtir

  4. Neli Aparecida de Faria

    Meus irmão são da geração dele e sempre respeitaram as mulheres. Sofri assédio sexual em meu quarto emprego. Pedi demissão e fiquei uns meses desempregada. #mexeucomumamexeucomtodas.

    Curtir

  5. Que vergonha! Eu queria ser mais educada mas, não dá. É um escroto.

    Curtir

  6. Jorge Mineiro

    Cá entre nós, este radicalismo feminista estúpido, anti-homem, está castrando os homens de tomar a iniciativa de abordar a mulher para um inicio de namoro ou de um romance. As mulheres, de maneira geral, estão queixando disto. O homem está perdendo a vontade de tomar a iniciativa, em razão deste policiamento radical. Hoje toda e qualquer forma de abordagem, feita pelo representante do sexo masculino, é passível de ser considerada um assédio. Vale a palavra da “vitima”. Assistimos a uma inversão de valores quase absurda. A cantada que a Fátima Bernardes recebeu outro dia de uma convidada em seu programa é prova disto.Qual homem seria capaz daquele gesto?

    Curtir

  7. fABRICIO oLIVEIRA

    Falou pouco e falou tudo, Rosa Casta (18:46). “Da caça e do caçador….” Uma boa parte de todo o resto é titititi, uma outra, sem dúvidas, merece comentários e colocações. Mas é coisa de pecador bíblico….

    Curtir

  8. Sabem qual é o “probrema” como diz o Didi, é que a mídia encheu a bola desse galã da menopausa. Aí, ele belo como um deus grego, se acho no direito de impor a sua beleza e eloquência na pobre da figurinista. Desfecho do caso: ação por danos morais e o “belo” e “másculo” indo pra Record! ruaururaururuauaurruauuaururruauuauauuauaaurruurura

    Curtir

  9. Marcia de Oliveira Almeida

    Há quanto tempo ele pratica esse tipo de coisa? Quantas mulheres já se sentiram incomodadas e não tiveram coragem de denunciar? Essa moça merece todo o reconhecimento, foi forte, guerreira. Parabéns para Susllem!!

    Curtir

  10. Hélio Oliveira

    Faltou ele dizer, todas (ou quase todas) que eu tentei, eu peguei menos ela. É meu amigo, nem todas estão à sua disposição, pelo simples fato de você ser o José Mayer, o grande artista global, que toda mulher sonha. Infelizmente vivemos num país onde dinheiro e fama deturpam certos valores morais.

    Curtir