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22/01/2007

às 6:30

Fernando Pessoa - Virgílio no espelho*

Retrato do Poeta Fernando Pessoa, de Almada Negreiros (1954)
A apreciação crítica da obra de Fernando Pessoa esbarra, de cara, numa dificuldade. De tal sorte já se tentou apreender a sua especificidade que, ao fim, o trabalho resulta ou em redundância ou em impotência crítica, como se jamais avançássemos além da periferia da obra, passando por caminhos excessivamente conhecidos ou então nos fixando em arrabaldes de irrelevância. É o correspondente crítico da sensação de encantamento basbaque que experimentamos depois de ler cada poema: “Como alguém conseguiu ser tão grande, intenso, inteiro, personalista e, ao mesmo tempo, dialogar com toda uma era, traduzir sentimentos e sensações que dizem respeito a todos e a cada um de nós?”.

Com a possível exceção do irlandês Yeats (1865- 1939), um caso eventualmente mais complexo, não há na poesia de nenhuma outra língua moderna quem tenha sido tão ambicioso nos horizontes e tão radicalmente solitário. Na impossibilidade de flagrar em todos os seus contornos o bicho interno que corrói a alma do poeta, resta a tentativa de localizar Fernando Pessoa no seu tempo, afinal e sempre um poeta português.

Pessoa foi o autor completo de um país decadente. Um dos maiores poetas de uma língua moderna só se pôde fazer num país então — e por muitas décadas — obscurecido pela sombra de um passado glorioso. De Pessoa, pode-se dizer praticamente o inverso do que dizia Eliot de Virgílio (71-19 a.C.). No ensaio O que é um Clássico?, o poeta inglês via no latino o sumo e a síntese, o ápice e o vórtice de uma civilização — o poeta completo de um império triunfante, diria eu. As preocupações e formulações de Virgílio estavam destinadas a estender a sua perenidade e eram uma espécie de conclusão de uma civilização que o antecedera. Talvez seja útil avançar ainda um pouco nesse espelho ao avesso, e — quem sabe? — se comece a delinear um pouco mais do vulto pessoano.

Quando Virgílio mira o tempo, seja nas Bucólicas, nas Geórgicas ou na Eneida, era o conforto de um presente de glória e poder que se afigurava eterno o que se via refletir em seus versos. A glória mítica de Enéias, que foge à destruição de uma civilização para fundar outra, é pura aposta no porvir. A Eneida virgiliana, se traz o rumor ancestral das batalhas e o suor do périplo do herói, heranças, respectivamente, da Ilíada e da Odisséia homéricas, que a inspiram, mostra-se, ao mesmo tempo, como a afirmação da diferença. Ao escrevê-la sob os auspícios de Otávio Augusto, Virgílio assistia ao pleno funcionamento de uma sociedade que se queria — e era — o retrato fiel da mecânica celeste imaginada.

Quando Virgílio ensaia alguma utopia, ela tem até mesmo um caráter regressivo — bem típico de impérios cujos valores são hegemônicos —, numa espécie de volta saudosa à sociedade primitiva de agricultores (Geórgicas) e pastores (Bucólicas), embora estes já fossem cultos, refinados e quase amaneirados. Em sua trilogia, o poeta cumpriu as três palavras imaginadas para seu epitáfio (“pascua, rura, duces”): cantou os campos, o trabalho na terra e os heróis nacionais. Pessoa foi, diz-se aqui, segundo a linha eliotiana, esse Virgílio pelo avesso. Vejamos. Sua estréia crítica nas letras portuguesas se dá em abril de 1912 com um artigo para a revista A Águia, órgão de um movimento literário chamado Renascença Portuguesa. Ainda que boa parte da crítica queira ver nesse texto — A Nova Poesia Portuguesa Sociologicamente Considerada — não mais que a manifestação petulante e irresponsável de um jovem autor de 24 anos, nessa estréia estão resumidas algumas das preocupações que marcaram para sempre a sua obra.

Não era ainda o poeta maduro que Eliot exigia. Para Pessoa, naquele texto, a vitalidade de uma nação não está em sua riqueza comercial, mas na “exuberância de alma”, em sua capacidade de criar “novos moldes, novas idéias gerais, para o movimento civilizacional a que pertence”. Depois de algumas digressões sobre as literaturas inglesa e francesa, ele diz (como o Eliot de há pouco) que “o valor dos criadores literários corresponde ao valor criador das épocas”. E conclui: “O valor da literatura, perante a história literária, corresponde ao valor da época perante a história da civilização”.

Na seqüência, Pessoa permite-se um salto sofístico. Olha em torno e enxerga a mediocridade da sociedade e da política portuguesas, a condição deprimente de um país irrelevante na Europa, o que deveria levá-lo, pela lógica elementar, a concluir pela impossibilidade do surgimento de um grande vulto literário. Nada disso. Ao vislumbrar o que considera uma literatura de teor nacionalista, com destaques individuais que contrastam com a pequenez do país, ele supõe a antecipação de um período de glória: “Tornemos essa crença, afinal, lógica, num futuro mais glorioso do que a imaginação o ousa conceber, a nossa alma e o nosso corpo, o cotidiano e o eterno de nós” para “criar o supra-Portugal de amanhã”. E vem a suprema heresia: “E isto leva a crer que deve estar para muito breve o inevitável aparecimento do poeta ou poetas supremos, desta corrente, e da nossa terra, porque fatalmente o Grande Poeta, que este movimento gerará, deslocará para segundo plano a figura, até agora primacial, de Camões”.

É claro que o autor estava atento à contradição e concede: “Pode-se objetar (…) que o atual momento político não parece de ordem a gerar gênios poéticos supremos”. Então, vem a conclusão, que, se afrontava a lógica, iria premiar a posteridade: “Mas é precisamente por isso que mais concluível se nos afigura o próximo aparecer de um supra-Camões (…). Porque a corrente literária (…) precede sempre a corrente social nas épocas sublimes de uma nação (…). Prepara-se em Portugal uma renascença extraordinária, um ressurgimento assombroso”.

Passado como desterro
O artigo gerou barulho. Pessoa afrontava — irresponsavelmente, é fato — a santidade; não por acaso, o Virgílio português, o autor de Os Lusíadas, a Eneida lusitana, o sumo literário do período em que o país salgou os mares com as lágrimas das mães e das noivas portuguesas, o cantor da civilização onde o sol nunca se punha. O bardo e o demiurgo de um povo e seus valores triunfantes deveriam ser superados, já agora numa era decadente, por um poeta que, parafraseando o próprio Pessoa num texto sobre política, na impossibilidade de ser o resultado da vontade de todos os poetas, resumisse as qualidades de todos eles. Estava anunciado o fenômeno da heteronimia: diante da impossibilidade de um só poeta conseguir ser todos, todos em um só resultariam no supra-Camões. Se Pessoa não logrou seu intento, é certo que está sentado à direita de Deus-pai.

Se Pessoa não conseguiu navegar águas tão extensas quanto Camões — faltou-lhe o poema épico? —, o pertencer a uma era decadente certamente o fez avançar por verbos até então ignotos. É de se perguntar: a civilização moderna seria capaz de sustentar a aventura épica? Provavelmente, não. Nos fragmentos lírico-históricos de Mensagem, o poeta reconta, magnifica e lamenta o passado português segundo o ponto de vista do narrador de uma epopéia, é fato, mas cada herói é, por assim dizer, privatizado pela dor de quem olha. Camões concluiu o seu poema épico no desterro. Pessoa deu à luz seu Mensagem desterrado do tempo. A sua pátria era lugar nenhum, e a sua terra estrangeira era o passado. Muito já se falou no que há de distinto e radicalmente disforme nas várias vozes poéticas de Pessoa. Mas a questão relevante, parece, é saber como essas várias vozes se harmonizam num coro que ecoa um tempo.

Esse Virgílio da queda enfeixou nos seus heterônimos um só e mesmo sentimento de desconformidade com o mundo, que se traduz no sensacionismo modernista de Álvaro de Campos, na poesia culta de inspiração clássica de Ricardo Reis, na negação dos maneirismos poéticos de Alberto Caeiro, na recuperação do Portugal tragicamente heróico de Pessoa-ele-próprio ou na metafísica cinza, entristecida e reflexiva dos Poemas Ingleses. A dor de Pessoa é uma aventura do espírito. Mesmo o Camões mais tristemente reflexivo, que lamenta a crueza de seu destino, aquele poetizado por Bocage, que destaca num soneto não apenas seus “dons do pensamento”, mas também “os transes da ventura”, que lembra que ele teve de “arrostar o sacrílego gigante” e viver “junto ao Ganges sussurrante” — referências à atribulada e quase heróica vida do poeta em seu exílio —, mesmo esse Camões não eleva o desconforto às alturas pessoanas.

Camões fundia magnificamente suas desventuras pessoais à herança petrarquiana, ao que se poderia chamar “uma maneira de sentir”. O Pessoa de Mensagem inventou um passado — e uma forma de expressá-lo — ao qual se sente intelectualmente vinculado, mas muito mais inóspito do que qualquer terra estrangeira, porque irremediavelmente perdido. Ao recuperar, na dor, esse Eldorado onde o sol só se põe, que não é lugar, mas tempo, vaza a herança clássica (“Os Deuses vendem quando dão”), o catolicismo medieval (“Deu-me Deus o seu gládio, porque eu faça/ A sua santa guerra”), o limite entre o humano e o divino do Renascimento (“Deus quere, o homem sonha, a obra nasce”), a saga épica de um povo traduzida em minimalismo lírico (“Ó mar salgado, quanto do teu sal/ São lágrimas de Portugal!”).

Todos os poemas de Mensagem, a mais espetacular obra pessoana — a única publicada em vida e talvez, de fato, concluída —, podem ser resumidos no poema “A Última Nau”, em homenagem a dom Sebastião:

“Levando a bordo El-Rei D. Sebastião,
E erguendo, como um nome, alto o pendão
Do Império,
Foi-se a última nau, ao sol aziago
Erma, e entre choros de ancia e de presago
Mystério.
(…)
Ah, quanto mais ao povo a alma falta,
Mais a minha alma atlântica se exalta
E entorna
E em mim, num mar que não tem tempo ou spaço,
Vejo entre a cerração teu vulto baço
Que torna. (…)”.

Os múltiplos interesses de Fernando Pessoa, que passeavam pela astrologia e pelo ocultismo, e suas preferências políticas francamente reacionárias ajudaram a consolidar a imagem do poeta sebastianista. É de se desconfiar. Desde seu primeiro texto público, o que se vê é antes um poeta com ânsia de futuro (aquele que esperava pelo “supra-Portugal”) do que saudoso do passado. A poetização de uma história tão estreitamente portuguesa e, ao mesmo tempo, tão largamente universal parece antes a rejeição de um dia-a-dia “cotidiano e tributável”, concessão, diga-se, em que se perdem muitos poetas contemporâneos. Até mesmo um Carlos Drummond de Andrade — simbolicamente, o nosso Pessoa — se deu às bobajadas jornalísticas de Versiprosa (se bem que nem ele as considerasse poesia), quando já nos tinha dado Brejo das Almas, Sentimento do Mundo e Rosa do Povo, entre outras lições de coisas e brancuras impuras.

De certo modo, nas mesmas águas ousadas navegou o futurista Álvaro de Campos, talvez o mais popular dos heterônimos pessoanos, porque supostamente mais fácil, mais inteligível. Além da adesão ao verso livre — por oposição à miscigenação formal entre clássica e medieval de Pessoa-ele-mesmo — e ao ritmo quase prosaico dos poemas, Álvaro de Campos, parece alçar às alturas uma sensibilidade destrambelhada, sem freios, que pode ser confundida com certa poesia marginal, que faz a apologia do destampatório sentimental. Mas há uma insuspeitada e exata correspondência entre o Pessoa de Mensagem e Álvaro de Campos, da qual o poema “Ode Marítima” é o exemplo perfeito.

O mar de Mensagem — de onde surge inteira e redonda a Terra — é metonímia, e o da “Ode Marítima”, metáfora; aquele afigura todas as dificuldades da civilização que foi “muito além da Taprobana”, este outro transporta uma alma sem cura; aquele existe para que, por intermédio dele, se vislumbre uma nesga de glória e se experimente o desterro no presente, este para que continue, metáfora ativa, a despertar em nós desejos de viagem, de fuga para dentro de nós mesmos, entre nossas misérias íntimas e nossos limites. No mar da metonímia, navega o vulto de dom Sebastião; no mar da metáfora, vê-se

“A ânsia do ilegal unido ao feroz,
A ânsia das coisas absolutamente cruéis e abomináveis,
Que rói como um cio abstrato os nossos corpos franzinos,
Os nossos nervos femininos e delicados,
E põe grandes febres loucas nos nossos olhares vazios!”.

Na “Saudação a Walt Whitman”, três versos dão conta da natureza futurista de que era feito Álvaro de Campos. Assim ele classifica o poeta americano:
“Jean-Jacques Rousseau do mundo que havia de produzir máquina,
Shakespeare da sensação que começa a andar a vapor,
Milton-Shelley do horizonte da Eletricidade futura”.
Cada um dos autores citados, de algum modo luminares do mundo das idéias, se resume num Whitman que prenuncia a democracia e suas conquistas técnicas. O futurismo de Álvaro de Campos não é do tipo que empresta às banalidades da vida moderna o estatuto de poesia ou que tenta consolidar novos cânones em detrimento de outros fundadores do pensamento que lhe é contemporâneo — alô, moderneiros de 1922 e de 1998! Álvaro de Campos extrai do moderno o perene, atualiza a idéia e o conceito na matéria viva, revela o eterno no aparentemente transitório. A saudação a Whitman, destaque-se ainda, não é acidental. O poeta americano e seu pansexualismo — “sexualizado pelas pedras, pelas árvores, pelas pessoas, pelas profissões” — se afiguram uma revelação feliz e bem resolvida de uma certa palpitação erótica — insatisfeita, sofrida, impotente — que se percebe em todos os poemas de Álvaro de Campos. Em seu caso, no entanto, o desejo, sem definição de gênero, como o de Whitman, parece jamais ter encontrado um lugar, um objeto em que se fixar, um corpo em que se exercer.

É na poesia de feição pastoril de Ricardo Reis, o pagão culto, e de Alberto Caeiro, o pastor rústico, que Fernando Pessoa, aparentemente ao menos, se reconcilia com o mundo. Aparentemente. Os poemas do primeiro seguem de muito perto as odes e os epodos do latino Horácio (65-8 a.C.). Escreve o latino:

“Não queiras saber, Leocone, é um sacrilégio
Que destino os deuses a mim e a ti nos concederam”
Ao que responde Ricardo Reis:
“Aos deuses peço só que me concedam
O nada lhes pedir. A dita é um jugo
E o ser feliz oprime
Porque é um certo estado. (…)”.
Horácio conclui o seu poema com um ambíguo “carpe diem, quam minima credula postero” (“aproveita o tempo e desconfia do futuro”), sem deixar claro se devemos nos entregar irresponsavelmente aos prazeres ou não perder um minuto que seja no pleno domínio de nossa própria vida. A julgar pela obra que deixou, à qual se refere no verso-divisa “Exigi monumentum aere perennius” (“Ergui um monumento mais duradouro do que o bronze”), a segunda interpretação parece fazer mais sentido. Mas Horácio era o outro poeta de uma era triunfante.

A retomada da Antiguidade em Reis é uma busca sem esperança (jamais ele demonstra a autoconfiança horaciana) do locus amoenus (o lugar aprazível) e da aurea mediocritas (o equilíbrio de ouro, o ideal de tranqüilidade) para dar curso ao seu desalento, posto que seus temas são claramente portugueses, a saudade que sente é da mesma glória que constitui a matéria de Mensagem, a desconformidade com o mundo tem o mesmo matiz dos poemas de Álvaro de Campos, que poderia assinar, por exemplo, o fatalismo dos versos que seguem, mas não seu comedimento:

“Nada podendo contra
O ser que me fizeram,
Desejo ao menos que me haja o Fado
Dado a paz por destino”.

Caeiro é o fecho de ouro de nosso Virgílio às avessas: não se dedica à recuperação de um passado improvável, não se entrega às dores incuráveis de uma alma passível de todas as sensações, não se redime na busca estóica do equilíbrio e da medida; Caeiro simplesmente nega, ao fazê-la, a poesia. Seus versos têm um norte estético que é também uma espécie de norte moral: inutilia truncat — a busca da simplicidade. O poeta é sucinto no expressar-se, mas ainda mais no sentir. A verborragia de Campos lhe cheira a desequilíbrio; o equilíbrio de Reis, a afetação, e a afetação culta de Pessoa, a fuga da realidade natural, a única matéria da poesia para Caeiro. Não é sem certa ironia que ele se volta para ninguém menos que o próprio Virgílio:
“Os pastores de Virgílio tocavam avenas e outras cousas
E cantavam de amor literariamente.
(Depois — eu nunca li Virgílio.
Para que o havia eu de ler?)
Mas os pastores de Virgílio, coitados, são Virgílio,
E a Natureza é bela e antiga”.

Desprezava tudo o que lembrasse poesia. Não partiu Caeiro para a desconstrução do verso (jamais flertou com tolices afins…), mas fez uma poesia na contramão do fluxo influente das figuras de linguagem disponíveis, em oposição aos desejos reformadores e lamentos lacrimosos de que nenhum autor escapa (especialmente Álvaro de Campos), em contraste com qualquer utopia restauradora, de que Pessoa foi mestre. Seu refúgio é o alheamento:
“Ontem à tarde um homem das cidades
(…)
Falava da justiça e da luta para haver justiça
E dos operários que sofrem,
(…)
e dos que têm fome,
E dos ricos, que só têm costas para isso.
E, olhando para mim, viu-me lágrimas nos olhos.
E sorriu com agrado, julgando que eu sentia
O ódio que ele sentia e a compaixão
Que ele dizia que sentia.
(…)
(Que me importam a mim os homens
E o que sofrem ou supõem que sofrem?
Sejam como eu,
não sofrerão.
Todo o mal do mundo vem de nos importarmos uns com os outros (…)”.

Um único monossílabo, nesse poema, resume a poesia de Caeiro:
“Eu no que estava pensando
Quando o amigo de gente falava
(E isso me comoveu até as lágrimas),
Era em como o murmúrio longínquo dos chocalhos
A esse entardecer
NÃO parecia os sinos duma capela pequenina
A que fossem à missa as flores e os regatos
E as almas simples como a minha.”
Eis aí: para ele, a verdadeira poesia liberta a realidade da metáfora. Caeiro também era um fingidor. Mentiu ao dizer que não lera Virgílio. A IV Bucólica virgiliana, a do menino que viria para anunciar a Idade do Ouro (e que o imperador Constantino e Santo Agostinho achavam prenunciar a vinda do Messias…) — “Sem trato algum, menino, a terra te oferecerá/ Como primícia as heras que se alastram, mais o bácar (…)/ Por si, cheias de leite, as cabras voltarão ao aprisco,/ E os rebanhos não mais terão pavor dos grandes leões (…)”—, mereceu uma versão de Caeiro. Em seu poema, ele dá curso à leitura impossível de que Virgílio previu o Cristo, torna o garoto, de fato, o Menino Jesus, mas lhe dá uma feição pagã:
“(…) Vi Jesus Cristo descer à terra.
Veio pela encosta de um monte,
Tornado outra vez menino,
A correr e a rolar-se pela erva
(…)
A mim ensinou-me tudo.
Ensinou-me a olhar para as cousas.
(…)
Diz-me muito mal de Deus.
Diz que ele é um velho estúpido e doente,
(…)
Ele é o humano que é natural,
Ele é o divino que sorri e que brinca.
(…)”.

Há ainda muitos outros Pessoas, o dos poemas ingleses, o dos poemas dramáticos, o das poesias coligidas, e inéditos devem sair ainda do famoso baú de madeira onde ele abrigou toda a sua obra, que, a cada novidade, obriga a que se releia o que já se conhece. Portugal esperou quase quatrocentos anos, e das águas não emergiram dom Sebastião ou o supra-Camões que anunciariam a era de ouro. O país — o “rosto da Europa” a “fitar o Occidente, futuro do passado” — deu-nos, no entanto, Fernando Pessoa. Agora reintegrado à Europa, partilhando, com justiça, do quinhão de civilização que espalhou pelos quatro cantos da Terra, Portugal pode esperar outros quatrocentos anos até que um supra-Pessoa surja do azul profundo.

A eternidade não tem pressa.

*Texto originalmente publicado na revista BRAVO! nº 13, de outubro de 1998, e que integra o livro Contra o Consenso, publicado pela Editora Barracuda.
Por Reinaldo Azevedo
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31 Comentários

  1. Iossi

    -

    14/06/2011 às 23:55

    Até agora não encontrei a dita seção. Apenas entrei no blog hoje e quase perco o excelente texto sobre Pessoa e o respectivo link para este “pequeno ensaio”.

  2. Gabriel Birkhann

    -

    13/06/2011 às 19:07

    Escreva (mais)sobre Literatura.

  3. Dilson Paiva

    -

    04/02/2010 às 8:42

    Prezado
    Reinaldo Azevedo

    Sou editor e administrador do Blog Bússola Literária - http://www.bussolaliteraria.blogspot.com. Gostaria com sua autorização publicar em nossa página o artigo “Virgílio no espelho” sobre Fernando Pessoa. Lógico que todos os créditos de autoria e veículo pesquisado serão respeitados e citados. Um detalhe, para ilustrar o referido artigo utilizarei outras fotos do poeta com o objetivo de descontrair mais o texto, já que é um pouco longo e proporcionar mais interesse pelo visual.
    Seria interessante que em um dos seus raros momentos de descanso fosse nos visitar e na oportunidade desse sua opinião sobre a qualidade do conteúdo publicado entre crônicas, contos, poesias…

    REINALDO AZEVEDO: Autorizado. Um abraço.

  4. helen nascimento

    -

    06/09/2009 às 0:00

    olá! me chamo helen RJ, enfermeira e professora, estou lançando um livro agora sobre poesias… e gostaria de saber como faço pra colocar esse blog de vcs no meu link?
    estou montando o meu blog, amei as informações de vcs… e como faço literatura e português quero esta ligadinha com vcs! espero vossa resposta, até mais! grata! helen.

  5. José Arimatéa Calsaverini -calsaverini@uol.com.br

    -

    02/02/2007 às 20:21

    Para você ,prezado Reinaldo,com admiração e respeito.
    O poeta fala de nós quando fala de si, do outro ou de nenhum. O trecho abaixo falou (também) de você:

    Todo começo é involuntário.
    Deus é o agente.
    O herói a si assiste, vário
    E inconsciente.

    A espada em tuas mãos achada
    Teu olhar desce.
    «Que farei eu com esta espada?
    Ergueste-a, e fez-se.

    Tanti auguri

  6. Anonymous

    -

    29/01/2007 às 13:41

    Esta seção pode ter ficado mais didática, assim, separada num link, mas preferiria o sabor da surpresa de encontrá-la,repentinamente, como antes, em meio aos excelentes posts políticos!

  7. edson luchesi

    -

    28/01/2007 às 18:38

    Reinaldo,
    Acho que esta seção está perdida no emaranhado das análises políticas. Talvez uma fotografia ou um desenho artístico lhe dê a presença visual necessária.

  8. Gregory Ratti

    -

    28/01/2007 às 12:43

    Reinaldo,

    Perdoe-me se saio do contexto do blog neste comentário. Mas, é que eu gostaria de obter uma análise sua sobre a obra de Antônio Carlos Jobim, até porque são poucos na imprensa que nos fornecem análises fora do senso comum. Fica aqui a sugestão, que não tem pressa alguma em ser acatada.

    Um abraço.

  9. Persegonha

    -

    26/01/2007 às 22:08

    “Sei ter o pasmo essencial
    Que tem uma criança se, ao nascer,
    Reparasse que nascera deveras”.

    O que pode ser mais humano que isso?

    O que pode ser mais espantoso que isso?

    O que tem mais a ver com a nossa descoberta do mundo e do que somos que isso?

    Pessoa é um dos maiores de todos os tempos. Não importa com qual heterônimo assine. E ao prever, num de seus poemas, o advento de um novo Camões, talvez não soubesse que este papel estava destinado a ele…

  10. Persegonha

    -

    26/01/2007 às 21:58

    Off topic, Reinaldo. Quer dizer, mais ou menos. Afinal, não sei se você vai republicar aqui o texto sobre o Cazuza de “Contra o consenso”. Lá pelas tantas, você frisa os versos “Eu queria ter uma bomba/Um flit paralisante qualquer/Pra poder me livrar do prático efeito/Das tuas frases feitas/Das tuas noites perfeitas.”

    Ok, gosto dos versos. São muito bons. Mas se eu fosse escolher, escolheria os versos finais da mesma canção:

    “Eu queria ter uma bomba
    Um flit paralisante qualquer
    Pra poder te negar
    Bem no último instante
    Meu mundo que você não vê
    Meu sonho que você não crê”

    Caramba! Isso dá um filme! E o que é melhor: daqueles que, como você mesmo diz, não tentam explicar o Brasil!

  11. Fernando - Rio de Janeiro

    -

    25/01/2007 às 21:30

    O mesmo Virgílio, com justiça exaltado por Eliot, foi impedido de passar ao purgatório pelo Dante poeta (embora Dante, o personagem, lastimasse tal desdita…) Rigor canônico do florentino ou sutil favorecimento crítico?
    Pessoa, à sua moda mais direta, deixou Camões para trás.

  12. Rogerlando Gomes Cavalcante

    -

    25/01/2007 às 21:29

    TU, ELE, NÓS, EU, PESSOAS

    Fernando, o Pessoa,
    ser já de si ficcional,
    quando se quis camões
    foi ainda mais poético:

    grande, mas não épico
    se fez a lira de Portugal.

    E as pessoas de Fernando
    o tornaram ainda mais ente.
    Todos tão iguais poetizando
    o (re)tornam então diferente:

    Frenético, cético, indiferente…
    Pessoas, Fernando não foi gente.

    Foi o que se é quando se lê…
    Cada um re-des,faz em alusões
    Mas não é literatura
    senão se acaso a si forjes:

    quando se quis Camões
    Pessoa, antes do próprio, foi Borges.

  13. Rogerlando

    -

    25/01/2007 às 19:14

    TU, ELE, EU, NÓS - PESSOAS

    Fernando, o Pessoa,
    ser já de si ficcional,
    quando se quis camões
    foi ainda mais poético:

    grande, mas não épico
    se fez a lira de Portugal.

    E as pessoas de Fernando
    o tornaram ainda mais ente.
    Todos tão iguais poetizando
    o (re)tornam então diferente:

    Frenético, cético, indiferente…
    Pessoas, Fernando não foi gente.

    Foi o que se é quando se lê…
    Cada um re-des,faz em alusões
    Mas não é literatura
    senão se acaso a si forjes:

    quando se quis Camões
    Pessoa, antes do próprio, foi Borges.

  14. Anonymous

    -

    25/01/2007 às 1:39

    Caeiro é o mais citado dos heterônimos de Pessoa, só pelos comentários aqui já se percebe isto.
    Também é o único que faleceu (tuberculoso, se não me engano)e isto sempre me intrigou: Pessoa o queria destituído de qualquer possibilidade de “metafísica”? Personagens de romances ou teatro ou cinema vivem em um mundo estranho: quando entram em uma história, pode ou não ter seu nascimento descrito e, terminada a ficção, nem sempre é finado, vão para um limbo existente depois da última página, após os letreiros, após o palco estar esvaziado. O que seria este limbo, que nem é Cérbero o seu guarda, no máximo a Mnemosyne às avessas? Mesmo que Caeiro não seja exatamente um personagem, é alguma criação de Pessoa e não poderia partir para este limbo, como devem estar Álvaro, Ricardo e Alberto. Caeiro morreu, foi para o limbo de todos nós, não da última página, não foi para nenhuma “metafísica”.

    JFY

  15. Vladimir Araújo

    -

    25/01/2007 às 0:12

    Caro Reinaldo :

    Boas idéias hão sempre de surgir num átimo. Em contraponto, deveriam quedar-se incessantes e duradouras. Digo isto após acessar o blog e depois de identificar-me sobretudo, com teu perfil de “ inatual” ou aquele que não sabe quem está nas capas de revistas que pululam nas bancas de jornais. Perfeito. Quanto a impotência critica citada no artigo sobre Pessoa, foste ao âmago da questão. Pessoa não veio para ser explicado, pois, enfim, “ … sentir? Sinta quem lê”. Convido-te ainda, a visitar o sítio literário por mim mantido ( http://www.letraselivros.com.br) . Serás muito bem vindo. Ainda se tiveres tempo, na seção “Em Revista” , artigos sobre Fernando Pessoa e outros tantos . Sem mais, parabéns.

  16. Anonymous

    -

    24/01/2007 às 20:09

    Se às vezes digo que as flores sorriem e se eu disser que os rios cantam, não é porque eu julgue que há sorrisos nas flores e cantos no correr dos rios…
    É porque assim faço mais sentir aos homens falsos a existência verdadeiramente real das flores e dos rios. Porque escrevo para eles me lerem, sacrifico-me às vezes à sua estupidez de sentidos…
    Não concordo comigo mas absolvo-me, porque só sou essa cousa séria, um intérprete da Natureza, porque há homens que não percebem a sua linguagem, por ela não ser linguagem nenhuma.
    Alberto Caeiro.

  17. Renato Bueloni Ferreira

    -

    23/01/2007 às 17:45

    Parabéns! Continuo seu fã e leitor assíduo. Ainda que meu blog não tenha a sua audiência, coloquei uma notinha com o link do Avesso do Avesso.
    Abraço.

  18. Orfeu Lima

    -

    23/01/2007 às 15:16

    Tio São Benedito.
    Boa tarde.
    Se o senhor aqui na janela dos comments clicar aqui em cima à direira AVESSO DO AVESSO ela volta na 1a pag.
    Amem. He, he.
    Com todo o respeito tio.

  19. Joe

    -

    23/01/2007 às 14:29

    Graaaande Reinaldo,

    Cada vez melhor. Leitura para gente refinada. Como sugestão, que tal algo de Longfellow, como O Canto de Hiawatha ou Evangelina? Pode ter certeza que petralhas não chegarão até aqui. O melhor filtro é aquele da barreira da ignorância. Silvinhos, Bwerzonevs, et gang, não estarão aqui. Um braço, Joe

  20. Frodo Balseiro

    -

    23/01/2007 às 11:07

    Muito Bom Reinaldo!!!
    Senti como se estivesse de volta aos bons tempos da PL.
    Fez meu dia.
    Abraço

  21. edson luchesi

    -

    23/01/2007 às 9:00

    Fernando Pessoa me incomoda um pouco em algumas poesias — tenho a impressão que estou diante de uma charada.

  22. Norma

    -

    23/01/2007 às 6:39

    Os heterônimos de Pessoa representam o mundo de todos os poetas.
    Cada um voltado para o que lhe povoa a mente e o imaginário.
    É assim q vejo.

    O meu preferido é Alberto Caeiro.

    Parabéns, você teve uma excelente inspiração ao criar este blog.

  23. Anonymous

    -

    23/01/2007 às 6:32

    Nem sempre sou igual no que digo e escrevo.
    A cor das flores não é a mesma ao sol de que quando uma nuvem passa ou quando entra a noite e as flores são cor da sombra.
    Mas quem olha bem vê que são as mesmas flores.
    Por isso quando pareço não concordar comigo, reparem bem para mim: se estava virado para a direita, voltei-me agora para a esquerda, mas sou sempre eu, assente sobre os mesmos pés — o mesmo sempre, graças ao céu e à terra e aos meus olhos e ouvidos atentos e à minha clara simplicidade de alma …

    Alberto Caeiro.

  24. naba voadora

    -

    23/01/2007 às 6:26

    Não basta abrir a janela para ver os campos e o rio.
    Não é bastante não ser cego para ver as árvores e as flores.
    É preciso também não ter filosofia nenhuma.
    Com filosofia não há árvores: há idéias apenas.
    Há só cada um de nós, como uma cave.
    Há só uma janela fechada, e todo o mundo lá fora; e um sonho do que se poderia ver se a janela se abrisse, que nunca é o que se vê quando se abre a janela.

    Alberto Caeiro.

  25. marina

    -

    23/01/2007 às 4:01

    Reinaldo

    é a brisa que
    faltava..
    Pessoa vive.

  26. Benedictus Blackwhite

    -

    23/01/2007 às 1:02

    Outra coisa: o formato da data. Estamos no Brasil, num blog de literatura, e a data vem assim: “Segunda-feira, Janeiro 22, 2007″. Solicite colocar como manda o figurino do português brasileiro!

  27. Benedictus Blackwhite

    -

    23/01/2007 às 0:57

    Eu não devia, mas vou dar uns pitacos ao seu pessoal da administração do blog.

    1. Sua foto e o título contêm links para seu domínio antigo (reinaldoazevedo.com.br) e não funcionam.

    2. É preciso colocar um link de retorno à página principal do blog.

    3. É preciso colocar um link para o AVESSO DO AVESSO na página principal do blog.

    Esse pessoal está deixando furos básicos com você, Reinaldo. Dê um espalho aí, ora!

  28. Orfeu Lima

    -

    22/01/2007 às 21:51

    Reinaldo.

    Gosto muito de poesia.
    Nunca fui muito de leitura rebuscada (para não ter que procurá-las no pai dos burros, you know)
    pois, meus dois únicos neurônios queimariam.
    Quando lia gostava mais da simplicidade e fantasia da Ficção Cientifica.
    Nunca gostei lá muito de leitura, por ser meio Hiper.
    Mas, como dissestes “A eternidade não tem pressa.”

    Até fazia algumas “poesias” quando aborrecente só para ganhar as menininhas de coração mole.
    Agora; meio velhinho e ceguinho estou a ler feito um louco.
    Culpa sua viu cumpadi.
    Vou mandar a conta do oculista. (lembrei Cazuza)

    Rapaz, pensei que tinha entrado no céu quando vi a foto do São Benedito.

  29. Anonymous

    -

    22/01/2007 às 20:18

    Não se pode mais falar em “valores ocidentais”, mas eu falo. Pessoa é um poeta ocidental.

  30. Anonymous

    -

    22/01/2007 às 17:43

    Simplesmente magnífico esse sua blogg!!!

  31. Benedictus Blackwhite

    -

    22/01/2007 às 11:32

    Poetas não refletem épocas.
    Épocas são por demais complexas
    e poetas não são espelhos.
    Ninguém entende as épocas,
    nem na sua contemporaneidade
    e, muito menos, em sua posteridade.
    Elas são enterradas
    sem serem compreendidas.


 

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