Excursão Filosófica (1959), de Edward Hopper: solidão, janela e individualismo
Hopper pintava paisagens mudas. A maioria delas mudas até mesmo de qualquer natureza. Esta, quando presente, é mera coadjuvante de uma casa, sem gente, perdida na multidão de muitos nadas. Ou, então, vê-se um casal, uma mulher, um homem, sempre poucas pessoas, invariavelmente alheias a qualquer foco de atenção, flagradas num desvão da história ou de suas respectivas lendas pessoais. Aquela solidão me agrada. Atentem para o que chamaria de manifesto antidemagógico de seus quadros, de suas ilustrações.
O apelo quase naturalista de sua pintura se combina com narrativas sempre interrompidas, elementos postos fora do quadro, dados que resistem ao que seria o eixo natural da visão. É a vida que escapa. Assim como a minha, a sua, hipócrita leitor, a daqueles que nos cercam. Todos nós pedintes de algum afeto, de alguma atenção, tentando magnificar o prosaico, o cotidiano, emprestar alguma solenidade àquilo que, no fundo, sabemos despido de importância.
Janelas são onipresentes nos desenhos de Hopper. Quando o elemento humano aparece em sua tela, ou as pessoas estão de frente para elas ou lhes dão as costas. Ou procuram caminhos, saídas, atalhos, ambicionam encontrar quem as aceite em sua causa. Ou, então, já se deram por vencidas. Um ponto alternativo é, por assim dizer, um olhar em terceira pessoa, onisciente: somos convidados a espiar suas personagens através da janela. O vidro é espelho.
Num dos quadros mais tristes e mais belos, Excursão Filosófica (1959), um homem, sentado na cama, braço pendido entre as pernas, olha fixamente para um tapete. Atrás dele, deitada, uma mulher seminua. É dia. O sol reflete na parede, ilumina o tapete, joga um ponto veloz de luz nas batatas das pernas e nas nádegas da moça. A janela aberta, a hora imprópria para o encontro no leito, o sono dela… É provável que tenham feito amor. E estão tão sozinhos quanto vieram ao
mundo. E sobre a cama jaz o livro aberto em página incerta. A “excursão” se dá à volta do quarto, nas perigosas paisagens do umbigo de cada um.
Não há, no trabalho de Hopper, um só apelo a qualquer forma de engajamento. É uma obra despida de sentido de coletivo e livre de qualquer retórica humanista, generalista, abstrata. Mesmo nas paisagens campestres sem casas (quase infalíveis), o inescapável horizonte tem curta duração. O artista parece ter levado a pintura a um grau zero do anseio. E por que alguém gostaria disso — e foi mais ou menos essa a pergunta que me foi feita — se até na descrição de um admirador parece coisa tão sem graça?
Não sei responder a essa pergunta em particular. Se toda a interpretação já não nascesse morta diante de todas as outras possibilidades, me arriscaria a dizer que aquela gente de Hopper parece cria de uma democracia consolidada e tenta fugir do único impasse que realmente conta: a “excursão filosófica” e a busca de um sentido para a própria vida. Tanta imagem descarnada talvez esconda o verdadeiro anseio irrealizável, a verdadeira utopia, o verdadeiro lugar-nenhum…
O Brasil, em suma, jamais daria um Hopper à luz. Somos o país da solidariedade organizada pelo Estado. Somos o país do Indivíduo Zero.
* Originalmente publicado na revista Primeira Leitura nº 21, de novembro de 2003. Integra o livro Contra o Consenso









Pois a mim parece provável que NÃO tenham feito amor. O homem está inteiramente vestido, calçado, e numa desolação tamanha que é a própria imagem da impotência, não só para o amor mas diante da vida.
Talvez o papel sobre a cama seja um caderno no qual ele tenha escrito uma despedida.
Realmente, quadro belíssimo e tristíssimo.
(em 14 de setembro de 2007)
Hopper, no início de sua vida era um ilustrador. Daí acharmos que suas telas têm um quê de ilustração. Creio que ele nada mais, nada menos, registrou na pintura o que ele constatava no meio em que vivia: homens e mulheres “espremidos entre o progresso do início do séc. 20 e a solidão provocada por ele. Um mundo de luzes frias, de néon que não consegue aquecer ninguém. Onde pessoas não se olham e nem se comunicam. Ele soube, como poucos retratar a esquizofrenia moderna.
Somente quem conhece o amor profundamente que pode viver a solidao por inteiro…
Somente quem conhece a grandeza do amor que consegue pintar a luz de forma tao linda como ele consegue.
Excelente: na impossibilidade de um original,tenho na sala um poster de Hopper. Meus amigos puristas, tremem duplamente…hehe
Caro Reinaldo
Agradeço-lhe por ter me apresentado o artista Edward Hopper e também por sua análise que, como é de costume, está muito boa.
Olhando para a obra de Edward Hopper observamos que em todas as cenas há muito poucos elementos e que estes sempre estão afastados do observador. Esse espaço que existe entre nós e os parcos objetos ou pessoas da cena é que nos transmitem a sensação de solidão e isolamento. Quando os críticos se referem à obra de Hopper usam as palavras desoladora, melancólica, triste, perturbadora … Porém não é para todos que a solidão tem esses atributos ou é ruim. Muitas pessoas gostam da solidão e se sentem confortáveis com ela. Talvez seja o caso do próprio Hopper e daqueles que apreciam sua obra. Pessoas que buscam o silêncio e o isolamento para a reflexão, sentem-se tocadas pelas cenas de Hopper.
Outra característica marcante na obra de Hopper é a luz que quase sempre aparece como um facho, como a luz de um holofote iluminando o elemento de interesse. A luz é essencial em sua obra, justamente porque a cena tem poucos elementos e, portanto, o objeto ou pessoa iluminados ganha destaque. Também o contraste entre luz e sombra auxilia na construção do interesse e da atenção dos que olham para a tela. Observamos também que Hopper sempre procura emoldurar as pessoas, colocando-as à janela, ou à porta, certamente para enfatizá-las.
Quanto ao quadro “Excursão Filosófica”, passa a impressão que o casal deve ter feito amor à noite e o dia já amanheceu, porém ela ainda dorme. A minha interpretação é a de que sobre a cama há os dois elementos de satisfação do homem: a mulher, que satisfaz o desejo físico, o do corpo e, o livro, que satisfaz o desejo de conhecimento, o da alma. Tanto o homem quanto a mulher e o livro são iluminados pelo Sol. Vemos que o homem está de costas para os dois, como se, no momento, ambos não o interessassem. Sua atitude é de reflexão, ou de insatisfação, observando a luz do Sol refletida no assoalho. Talvez a luz do Sol o esteja atraindo por representar uma ligação do seu mundo interior, retratado como o interior do quarto, com o mundo exterior, retratado como a paisagem de fora. Talvez, nesse momento, ele deseje abandonar a vida que leva, talvez ele não ame mais a mulher, mas não tenha a coragem e nem o ânimo suficiente para fazê-lo. Essa impotência do homem é que nos comove.
Saudades da Primeira Leitura.
Reinaldo
Parabéns por esse cantinho do seu Blog. Entrei meio que despistando, quietinha, lendo e relendo seus comentários e dos outros!
Não posso dar muita opinião, costumo ler mais sobre Psicologia.
Ousei entrar neste Post sobre Hopper e fazer um comentário sem pretensão! Apenas para mostrar a vc que estive aqui, fucei e gostei!
Espero poder criar vínculo com outro tipo de Literatura também!
Falando sobre a obra do Hopper, todos nós somos levados a criar baseados em nossos conflitos, abandono, necessidades, alegrias ou estado de ser.
Sinto nas obras dele, uma certa melancolia, como se o artista observasse a vida apenas através da janela, onde apenas a luz seria testemunha da reclusão em si mesmo! Medo? Timidez? Quem sabe?
Apesar de enxergar a luz, ele não ousava estar nela. Para estar na LUZ, precisamos manifestar contentamento, alegria, enxergar. O que à ele me parece impossível e assustador!
Pronto!!! Ousei dar um palpite!
Abraços
Betina
Caro Reinaldo,
Só queria te dizer uma coisa: meu sonho é poder escrever como você! Uma crítica dessa qualidade é algo digno de muito respeito.
Considerem a possibilidade do cara da tela ter broxado. O viagra, uma revolução maravilhosa da medicina capitalista ainda não tinha sido inventada. A solidão é cruel quando não temos alternativa.
A América proporciona com uma mão a solidão, o medo, o abandono. Com outra mão dá-nos o prazer, a alegria e o delírio. Na tela em questão flagramos que Hopper broxou. Trata-se de um homem as voltas com sérios problemas de ereção. Vem a solidão. A alegria viria muito tempo depois: o VIAGRA e seus variantes sintéticos.
Não seria para evitar esse doloroso encontro/desencontro que muitos buscam conforto nas idéias totalitárias? Talvez a servidão coletiva assuste menos.
Reinaldo, que boa notícia!
Voltei das férias e reencontrei o Reinaldo Azevedo crítico cultural.Voltou com textos já conhecidos,mas voltou, e que falta estava fazendo! O comentarista político velho de guerra é indispensável, mas o alimento desta outra seara sabe mais fino ao paladar. Mantenha ambos ativos, por favor.
Reinaldo,
A arte de Hopper é indissociável do tipo de sociedade que os americanos construíram. A expansão para o Oeste, os grandes vazios, os postos de gasolina, as estradas, o individualismo consagrado há décadas como estilo de vida nas metrópoles…
Hopper mostra a America real, melancólica, solitária, subjacente a todo o progresso material e às possibilidades quase infinitas.
Norman Rockwell, também tão americano, é o artista da America demagógica, com sua agenda de tortas de maçã e perus de Ação de Graças.
Ótimo texto!
Prezado Reinaldo, adoro este texto, já o li muitas vezes e sempre me toca pela maneira exata (também para mim) como ele traduz a pintura e o clima de solidão de Hopper. Parabéns e obrigado.
….mas ele não fita o tapete. É o sol que entra pela janela e pega a ponta do sapato.
Eu também sou apaixonado por Hopper. A paixão se tornou definitiva no Moma. Eu vinha por uma ala quando, de repente, tive a nítida impressão que uma luz muito intensa escapava de uma sala. Entrei. Eram os quadros de Hopper! Quando vemos a reprodução deles em livros e na Internet, podemos intuir sua luminosidade. Mas ao vivo é impressionante a luz que deles emana. Concordo que o a solidão é o tema de Hopper (não a solidão do abandono, mas a solidão reflexiva, não importa se desesperada, melancólica ou satisfeita). No entanto, talvez até em contraste com essa solidão (ou em diálogo com ela), a luz é o tema principal de Hopper.
Se alguém acrescentar “como de todos os grandes pintores” eu não faria nenhuma objeção nem me sentiria diminuído em meu comentário.
Enfim, por favor, quem for a NY e passar pelo Moma, não deixe de visitar os quadros de Hopper (e lembrar desse post lá!)
Duas obras-prima: o quadro e seu artigo.
Nighthawks, a obra mais popular de Hooper, me arranca lágrimas cada vez que a vejo.Numa palavra, Hooper é tocante.
Para mim, Hopper está mais interessado em estudar a luz do que a existência humana. Você elogia o não-engajamento, mas faz uma leitura engajada, não politicamente, mas existencialmente. Tudo nele está a serviço da luz, simplesmente.
Indivíduo Zero.
Zero à esquerda ou zero à direita?
Beleza de texto, Reinaldo. Também gosto de Hopper, e de Chardin, e de Vermeer. Localizaria os três em uma mesma zona pictórica, porém atento para a diferença que bem comentaste. No francês, apesar do retrato ser do cotidiano e das atividades prosaicas, há um pendor de ilustração (o movimento, não o ofício) representado pelo construtor de cartas. Não que seja adesista a pintura do mestre, muito pelo contrário, seu tema constante é a fragilidade da construções humanas: peões, bolhas e castelo de cartas. Tudo que desmorona, explode, pára de rodar. No holandês há um jogo da intimidade interrompida que é também, muitas vezes, o da surpresa erótica. Contudo, só em Hopper há o derradeiro encontro consigo, com a liberdade da consciência individual e o drama quase sem graça do cotidiano.
(Um amigo visitou aonde o atelier de Hopper e comentou comigo que a luz era onipresente no lugar, um monte distante e descampado. O atelier tinha janelas grandes. Disse meu amigo: agora sei porque ele conseguiu tal intensidade dramática. A luz quase sempre está no quadro de Hopper entrando, projetada. Dar o passo e entrar na luz talvez seja a tensão do drama encenado, com a ressalva de que estar na luz é conviver com a sombra.)
Excelente iniciativa. Seus textos são ótimos. Como sou um tanto quanto ignorante em literatura (e não me orgulho disso, deixo claro desde já), uso seus textos como um guia de estudos. Comprei seu livro, e estou lendo Vidas Secas do Graciliano Ramos. Espero que aqui neste espaço possas postar também alguns dos textos que não estão no Livro.
Parabéns por mais essa iniciativa. A propósito seu último texto em Veja estava muito bom. A agende petista é que é negativa em relação a tudo, a começar pelos valores ocidentais de liberdade e democracia. Eles ficariam bem lá no Iraque de Saddan, ou na Síria. Um abraço.
É que somos o país do feérico, Reinaldo. Aqui é pribido retratar uma realidade melancólica, desnuda e simples. Até a miséria tem de ser otimista. “Vamo lá, galeeeeera!”
Reinaldo
o que comove é a
emoção que provoca.
impossível descrever,
tem-se que sentir.