As novas formas do falso. Ou: O ambientalismo como sucedâneo do antigo comunismo

A morte da “luta de classes como motor da história” — e da militância política — fez com que as esquerdas migrassem para o que chamo de “causas parcialistas”. É um fenômeno intelectual curioso: bem ou mal (muito mal!), os esquerdistas d’antanho tinham uma visão, digamos, universalista do homem; tanto é assim que queriam reinventá-lo. […]

A morte da “luta de classes como motor da história” — e da militância política fez com que as esquerdas migrassem para o que chamo de “causas parcialistas”. É um fenômeno intelectual curioso: bem ou mal (muito mal!), os esquerdistas d’antanho tinham uma visão, digamos, universalista do homem; tanto é assim que queriam reinventá-lo. Os contemporâneos, ao contrário, pretendem é impor ao conjunto da sociedade a agenda privada de um grupo: racialismo, questões de gênero, meio ambiente etc. Desses todos, o que mais preserva o espírito autoritário da velha esquerda, fazendo da mentira instrumento de luta política, é o ambientalismo.

É compreensível que assim seja: as outras causas acabam, no limite, dividindo as pessoas. Os ambientalistas, como monopolistas do “bem”, têm uma nova universalidade a oferecer: a natureza! E todos amamos a natureza, vocês sabem, desde que nossas mães coletaram no mato o nosso primeiro pagãozinho (peças da indumentária dos infantes). O ambientalismo, a exemplo do velho comunismo, também é uma máquina de produzir mistificações. O “aquecimento global antropogênico” (ou “desordem climática”, como chamam agora) ainda não atingiu, no quesito “fantasia ideológica”, o status da antiga União Soviética, mas chega lá.

Reportagem de ontem da Folha, que virou manchete, assegura que o relatório do deputado Aldo Rebelo (PC do B) com uma proposta para o novo Código Florestal ampliaria a ocupação de áreas sujeitas a tragédias nas zonas urbanas porque liberaria a construção em encostas e nas várzeas dos rios. Demonstrei aqui e não opinei apenas porque não se trata de matéria de opinião que a informação é improcedente. Trata-se de lobby ambientalista pode até ser “lobby do bem”, como querem alguns, mas é lobby ainda assim. Miriam Leitão, militante da área ambiental, vai na mesma linha em seu comentário na CBN no dia 14 (aqui se quiser ouvir). Ela chegou até  a descobrir uma certa “lógica do planeta”, o que é uma teoria interessante, que assombraria o mundo. Sua síntese da proposta de Rebelo (íntegra aqui) é lastimável.

É de um oportunismo asqueroso usar a tragédia que atingiu centenas de famílias para fazer… política! No caso, baixa política. As mudanças propostas no Código Florestal NÃO TERIAM QUALQUER INFLUÊNCIA na questão urbana. Isso não está no texto. Nas vezes em que se fala de áreas urbanas consolidadas, remete-se a leis específicas – uma delas é a do projeto Minha Casa, Minha Vida. O código está virando a panacéia para curar ou agravar todos os males. Daqui a pouco será evocado contra unha encravada, espinhela caída e melancolia.  Reitero: querem defender o código como está? Querem “reflorestar” áreas já ocupadas pela agricultura há décadas? Acham que isso será bom para o Brasil? Pois que defendam as suas teses. Mas mentir é feio. Atentar contra a lógica é um crime intelectual.

Boa parte da tragédia a que se assiste no Rio decorre de ocupações irregulares? A resposta, obviamente, é “sim”. E o que isso tem a ver com as mudanças no Código Florestal? Nada! Ele é pensado em face da atividade agrícola e pecuária. Tem a ver, e muito!, com política. A Austrália vive a maior enchente de sua história – choveu muito mais do que na região serrana do Rio , e os mortos, até agora, são 14, com 50 desaparecidos, e não quase 700. A área atingida foi muito maior. Morre-se menos de terremoto no Japão do que no Haiti; morre-se menos de chuva na Austrália do que no Brasil. Como diria Carlos Drummond, “obra do homem e da tecnologia, meu bom brasileiro”! E também de uma política responsável de ocupação da moradia.

Quem não quer preservar? Todos queremos! O que não é aceitável é que se atribua a um eventual futuro código uma tragédia ocorrida na vigência do código que está aí, ora bolas! Isso, sim, é insensato, Miriam Leitão! Sim, é preciso tirar as pessoas das áreas de risco e impedir as ocupações irregulares, mas não será por meio do Código Florestal que se vai atingir tal objetivo.  Mais: a boa causa também não justifica que se violente a lógica.

Alguns bobinhos estão bradando: “Ah, você não entende nada disso! Não é especialista em área ambiental!” Claro que não sou. Mas sei reconhecer uma bobagem lógica quando diante de uma. Vamos aos fatos. Em Santa Catarina, em Angra e, agora, na região serrana do Rio, os deslizamentos ocorram em morros pelados ou florestados? A resposta óbvia, factual, inquestionável, é esta: em morros florestados. Conhecemos as causas: os morros dessas regiões são rochas cobertas por uma fina camada de solo rico em matéria orgânica, muito poroso. No período das chuvas, o solo fica encharcado. Vem do céu o dilúvio, como se assitiu há uma semana, e tudo despenca. Esse fenômeno ocorre em áreas da Serra do Mar há alguns milhões de anos.

Digam cá ao não-especialista (especialista é Miriam Leitão): alguém ouviu falar de áreas de pastagens em Santa Catarina que tivessem cedido, soterrando pessoas? Acho que não!  Construir em topo de morro, por si só, não mata ninguém. Ou seria preciso destruir as edificações do Pão de Açúcar, tirar o Cristo do Corcovado (esse, parece, Dilma pretende deixar lá), destruir Santa Tereza, a Igreja da Penha, as favelas do Rio, os bairros do Morumbi e Perdizes, em São Paulo e por aí afora… O planeta não tem muita lógica, à diferença do que diz Miriam Leitão, mas a engenharia tem a matemática! Há castelos pendurados em penhascos na Europa há alguns séculos. Não ruíram nem vão ruir. Alguns agüentaram até bombardeio.  As construções têm de estar adaptadas à topografia, ao clima, ao regime de chuvas – no vale ou na montanha.

A proposta de Aldo Rebelo não guarda qualquer relação com as tragédias. E, se relação houvesse, seria pelo avesso do que pretende a militância: o que desaba são os morros cobertos por florestas, não aqueles plenamente urbanizados — ainda que de maneira precária, como sabem a Rocinha ou o Complexo do Alemão. É inaceitável e não é o Código Florestal que vai coibir a prática que haja pessoas morando em áreas que a avalanche de lama e árvores reivindica para si. Cabe às três esferas do governo coibir a ilegalidade. E, para tanto, basta a verdade.

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  1. Comentado por:

    Guilherme

    Caro Reinaldo,
    Concordo plenamente com o seu texto. Vejo os fanáticos “ambientalistas” negarem um prato de comida a uma pobre criança, mas entregam o seu próprio lar a dezenas de cachorros. Degradante! Ano passado aqui em Brasília houve um surto de lechimaniose e os cachorros infectados não poderiam ser sacrificados, pois existe um tratamento experimental para curar os cachorros que custaria aos cofres públicos os “olhos da cara”. Sem falar que a saúde pública na capital do “paiz” é terrível. Não tem dinheiro para o homem, mas para salvar cachorro infectado tem que ter. Outra situação que eu fiquei escandalizado com estes “ambientalistas” foi a suspensão das obras do hospital do cancer infantil aqui em Brasília, tocado pela honrosa ABRACE, porque havia no terreno um cemitério clandestino de animais mortos. Assim uma associação de LOUCOS pelo meio-ambiente embargaram a obra. E veja bem, o cemitério era em terras invadidas e clandestino. Bom, para finalizar gosto de lembrar daquele nem tão famoso escritor que tira sua fama atancando a Igreja Católica, o sr. Leonardo Boff, como não consegue se promover mais com o marxismo de igreja, virou ambientalista. Mais uma vez parabés pelo seu artigo esclarecedor.

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  2. Comentado por:

    Tuty

    Sou contra as mudanças no Cod Florestal propostas por Aldo Rebelo e respeito a opinião dos q são favoráveis a elas, e ñ é por isso q os chamarei de “bobinhos”. A reportagem da Folha dá a entender q a proposta de Aldo libera a edificação nas encostas, apesar de se “restringir” a áreas rurais. O q eu disse é q na teoria é uma coisa, mas na prática isso pode acontecer, em função da rápida conversão de áreas rurais em urbanas. Uma lei q afrouxa as regras no campo, associada a uma péssima fiscalização (omissa na área urbana, imagine então na área rural) facilitará essa conversão. Qdo disse q o adequado seria fazer estudos técnicos para visualizar um cenário melhor, veio um aqui e disse “Lê lá o estudo da Embrapa”. Aí eu digo “Lê lá os pareceres de outros pesquisadores renomados”. Veja o parecer do renomadíssimo Prof. Aziz Ab’Saber sobre o Código Florestal. Existe ainda um parecer jurídico q aponta q a proposta de Aldo contém vícios q causam problemas na interpretação dos artigos. Por isso, qdo disse “estudos”, disse no plural e ñ no singular (tem q levar em considerações questões agrícolas, ambientais e jurídicas). Ñ é só um trabalho da Embrapa q norteará as decisões. Ñ estou questionando a qualidade do estudo da Embrapa, mesmo pq estagiei na Embrapa e tenho trabalhos na área agrícola. Acho q o CF tem q ser revisto, mas ñ do jeito q Aldo propõe. Se existir fiscalização da ocupação humana nas cidades e construções capazes de resistir a esse tipo de desastre, ñ vejo problema em construí-las em áreas urbanas. Mas a questão é q o rio acumula impactos pelas regiões onde passa (cidades e áreas rurais sucessivamente). Na área rural, se mal protegido por vegetação nas margens ele recebe sedimentos resultantes da erosão de áreas agrícolas. Qto maior a inclinação do terreno pior (vai ocorrer escoamento superficial, principalmente se o terreno ñ estiver protegido por vegetação). O rio ficará assoreado e sua calha vai sendo alterada. Isso contribui para o aumento de enchentes. Qdo ele chega nas cidades, a situação fica ainda pior, pq ele vai receber lixo e toda a água da rede pluvial. Resultado: rio assoreado (mais raso) + com um volume enorme de água = enchente. Dependendo da velocidade da água o resultado será pior. As pastagens para o gado ocorrem geralmente nas áreas planas, q é melhor para o deslocamento do gado (para ele ñ ter q ficar subindo e descendo morro. Se ele fizer isso o resultado será pior. O pisoteamento pelo gado causa erosões enormes. Áreas mais planas com grama ñ desabam). Se tirar a vegetação do morro, se desabou Xm3 vai desabar muito mais. Existem ainda outras questões ecológicas com termos técnicos difíceis de serem explicados q ñ vou abordar. Tenho 4 agronomos na minha família e temos 2 propriedades rurais com reserva legal já averbada e tudo dentro da lei. Com isso, o “bobinho” aqui(ñ ativista ñ comunista e ñ vegetariano) se despede.

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  3. Comentado por:

    bebeto_maya

    A propósito, meu caro, já leu o que o Al Gore andou vomitando para defender sua causa política? Ele está usando a desgraça que ocorreu no Rio para politicagem mentirosa. Essa turma não tem escrupúlo mesmo: http://www.baixaki.com.br/tecnologia/7783-palestra-com-al-gore-e-tim-berners-lee-e-a-principal-atracao-da-campus-party.htm

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  4. Comentado por:

    Nildson

    Não acho que seja tanto a “tecnologia” o fator, antes seria o desenvolvimento social e a racionalidade na ocupação do espaço urbano os fatores, além do cumprimento das leis: na Austrália se é proibido construir é proibido e pronto..
    As casas de lá não são barracos amontoados em barrancos, mas também não são capsulas lunares de ultima geração..
    Quanto ao ambientalismo, é dos países desenvolvidos que vêm esta corrente. Hehehe! Claro, país desenvolvido com gente culta acorda para o fato de que o planeta é um só, então devemos mesmo cuidar dele, investir em produção sustentável, fontes energéticas renováveis, manter biodiversidade, florestas, etc..
    Quem impõs a camisa de força para a gente de que para alimentar devemos necessariamente destruir para as futuras gerações ?? A agricultura está aumentando a produtividade sem aumentar a área..
    A simplificação é falácia para acobertar o problema..
    Por aqui, na américa latina, um lado mente, e o outro só desmente ou mente pior., e o problema em si fica lá…
    Não se discute o que fazer para minorar o problema.. isto é coisa típica da nossa cultura..
    Quanto a alimentar criancinhas com o agronegócio..
    Francamente, o empresário pensa em lucro, não em alimentar criancinhas coitadinhas..
    Não que lucro seja do “mal”, somente acho que criar herois sobre as intenções de grupos seria outra mentira. Os grupos tem interesses e muitas vezes o alcançar tais interesses melhora para todos, as vezes não é assim, então temos as Leis..
    Agronegócio vende comida, o mercado da droga vende cocaina, ambos dão lucro..
    Entendendo o legislador que cocaina cria ônus social, com tratamento de drogados e a violência, apesar do drogado ser livre para consumir o que quiser, as Leis legitimam um Estado interventor para o livre mercado da cocaina..
    A mesma coisa para o agronegócio: as leis ambientais colocam o desafio da sustentabilidade na agenda do empresário, evitando bonus privado atual sobre onus público futuro. As futuras gerações agradecem..
    Att
    Nildson

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  5. Comentado por:

    Cil

    O problema é que se permite a moradia em qualquer lugar. Pergunte aí se esse povo, mesmo morando em área irregular, não paga IPTU? O governo quer é arrecadar e pronto! O pvoo, aquele bando de idiotas que só serve de 2 em 2 anos em época de eleição, que se dane. Morreram 700-800… é muito pouco eleitor morto. Um vereador (Gastão eu acho é o sobrenome) teve sua casa soterrada e foi transportado pelo helicóptero do SBT. Ele viveu na pele o drama de qualquer morador da cidade. Será que depois ele vai legislar para o bem da população?

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  6. Comentado por:

    Edison Masakatu Goto

    O Brasil precisa de uma reforma agrária de verdade e também uma reforma fundiária urbana. Inaceitável que um pais continental ainda sonegue direitos humanos fundamentais de moradia e acesso à terra para 30% de sua população.

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  7. Comentado por:

    SIDNEY

    Verdade nua e crua. Parabéns pelo exemplo de reflexão.

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  8. Comentado por:

    Paulo

    Acontece que a dona Miriam Leitão é uma dessas “especialistas” fabricadas pela mídia. Lê 5 linhas do Capital e se acha doutora em Karl Max. Num país de ignorantes ela pode até se passar por intelectual.

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