Anti-semitismo – e inflação galopante – em pleno Sindicato dos Jornalistas de São Paulo

O Sindicato dos Jornalistas de São Paulo — sim dos jornalistas! — promove até o dia 29 (começou anteontem) um “curso” intitulado “A questão palestina e o conflito no Oriente Médio”. À primeira vista, parece tudo certo, não? Quem não gostaria de saber mais a respeito? O texto no site informa a quem se destina […]

O Sindicato dos Jornalistas de São Paulo — sim dos jornalistas! — promove até o dia 29 (começou anteontem) um “curso” intitulado “A questão palestina e o conflito no Oriente Médio”. À primeira vista, parece tudo certo, não? Quem não gostaria de saber mais a respeito? O texto no site informa a quem se destina o tal “curso”, a saber: “Para jornalistas e estudantes de Jornalismo não sindicalizados e demais interessados”. É um curso pago, com “desconto” para grupos. A tabela é esta:
Para jornalistas sindicalizados e estudantes de Jornalismo pré-sindicalizados:
R$ 230,00 à vista ou 2 de R$ 115,00 ou 3 de R$ 100,00 (R$ 300,00)
Para jornalistas e estudantes de Jornalismo não sindicalizados e demais interessados:
R$ 300,00 à vista ou 2 de R$ 150,00 ou 3 de R$ 120,00 (R$ 360,00)

Uau! Como vocês verão, o arrazoado sobre o curso é tão requintado quanto a matemática financeira do sindicato. Notaram que a diferença entre o preço à vista e o a prazo para os sindicalizados embute uma majoração de 30,4% e, para os não-sindicalizados, de 20%. Isso em três meses!!! Ainda bem que o Sindicato dos Jornalistas não tem peso na cesta de preços que mede a inflação, não é mesmo? Isso à parte, vamos ao texto do sindicato que, sob o pretexto de combater o sionismo, mergulha no anti-semitismo mesmo! Ironia macabra: o curso será ministrado no espaço “Vladimir Herzog” — um judeu!

Reproduzo abaixo, em vermelho, o texto de apresentação do curso. Comento em azul.

O domínio do discurso sionista sobre a questão palestina durou muito tempo. Só a partir do final da década de 1970, com a abertura dos arquivos dos sionistas para conhecimento público, e com as pesquisas dos chamados “novos historiadores” israelenses, esse discurso começou a ser contestado e passou-se a dar veracidade às narrativas palestinas sobre a Nakba (o processo que levou à criação do Estado de Israel e as consequências desse processo para o povo palestino).
É espantoso que um órgão de classe, que representa, em tese ao menos, todos os jornalistas, se dedique a tal indignidade discursiva. Definir a palavra “nakba” como “processo que levou à criação do estado de Israel” é uma vigarice intelectual, uma farsa. A palavra quer dizer “tragédia” ou “desastre” e tem uma marca militante: define o que os palestinos chamam “êxodo” da população árabe quando se criou o estado de Israel. Boa parte das terras, não custa lembrar, foi comprada pelos judeus. Ainda que se possam debater as características e extensão da migração, não é essa a questão subjacente ao texto, não.
Só falam em “nakba” os que advogam a volta de todos aqueles que são chamados “refugiados” palestinos. Boa parte dos migrantes originais já morreu. Os hoje chamados refugiados, muitos divididos em campos espalhados por países árabes, são filhos, netos e bisnetos daquele grupo original. Foi a militância política palestina, que não aceitava a existência do estado de Israel, que concorreu para que não ganhassem a cidadania nos países onde nasceram. Estima-se o grupo original de migrantes em 700 mil pessoas. Hoje, essa população que a militância quer instalar em Israel somaria pouco mais de 4 milhões. É evidente que, se todos migrassem para Israel, o estado judeu seria extinto. E é preciso notar: a esmagadora maioria dos estimados 700 mil palestinos que deixaram a região o fez tangida pela guerra promovida pelos países árabes. É questão de fato, não de gosto. A Jordânia conferiu cidadania a uma boa parcela dos refugiados e a seus descendentes. Muitos, no entanto, continuam a viver em campos, em situação muito precária — a mesma realidade de outras nações árabes que não lhes conferem nem cidadania. Muito bem: o lugar em que os palestinos vivem com mais dignidade e com todos os direitos democráticos garantidos é mesmo… Israel! Sigamos com o texto do sindicato.

Nessa mesma época, especialistas responsáveis por pesquisas arqueológicas em sítios palestinos começaram a contestar a versão bíblica e propuseram uma nova teoria para explicar os textos sagrados – tarefa que o filósofo Benedito de Espinosa, usando conhecimentos de filologia e um estudo de muitos anos da Torá, já empreendera no século XVII.
É de arrepiar! O “Benedito de Espinosa” deve ser o Baruch Spinoza, hehe. Essa pegada supostamente “científica” busca deslegitimar Israel como a terra original dos judeus e, pois, pretende retomar a questão desde a origem, a saber: não se está questionando se os dois povos devem viver em seus respectivos estados. Nada disso! Essa abordagem sempre acaba concluindo que os israelenses têm de sair das “terras palestinas”. Não por acaso, recorre-se ao tal “Benedito”, justamente um judeu punido por… judeus.

Esses dois acontecimentos, na história e na arqueologia, seriam acrescentados aos casos levantados por pesquisadores palestinos em seu próprio país, com seu próprio povo, e mudariam a compreensão dos estudiosos sobre as raízes do problema que, iniciado em fins do século XVIII, até hoje abala a região da Ásia ocidental, ou Oriente Médio, conhecida como Palestina e Israel. Ao grande público, porém, esse conhecimento praticamente não chegou. As pressões sobre pesquisadores, autores, editoras, mídia, governos impediram a livre circulação desse novo saber. Por isso, não é de espantar que muitos jornalistas ainda não o conheçam. Trata-se de um assunto que, antes restrito a alguns círculos acadêmicos e políticos, somente agora começa a ser mais amplamente divulgado no Brasil.
Reparem neste trecho: “As pressões sobre pesquisadores, autores, editoras, mídia, governos impediram a livre circulação desse novo saber. Por isso, não é de espantar que muitos jornalistas ainda não o conheçam.” Estamos de volta à velha tese da conspiração judaica contra a verdade. É o retorno dos “Protocolos dos Sábios de Sião”. Os sionistas, esses malvados, seriam grandes manipuladores, sempre dispostos a contar a versão dos judeus. Ainda bem que vem agora a tal Baby para nos salvar.

No entanto, faltam referências aos que pretendem conhecer em detalhes a história de Palestina e Israel. A bibliografia, em árabe e em hebraico, dificulta ao leitor ocidental o acesso aos livros. Mas há muitos títulos em inglês, embora permaneçam desconhecidos do público por falta de divulgação. Há sítios confiáveis na internet, com fatos documentados, com rigor acadêmico, que podem ser consultados sem receio. Há organizações de direitos humanos que mantêm na web os resultados de suas pesquisas, também documentadas. Há juristas e advogados que deslindam os meandros jurídicos da questão, colocando artigos à disposição do público.
Notem que a “verdade verdadeira” está escondida em alguns meandros e livros quase secretos. Ela só precisa ser divulgada ao grande público. É o que o curso pretende fazer.

O objetivo do curso é abordar alguns dos principais pontos da questão palestina e contextualizá-los histórica e politicamente, para que o interessado possa conhecer um pouco da história de palestinos e judeus e iniciar sua própria pesquisa. Nesse sentido, será oferecida uma bibliografia básica, bem como alguns textos importantes para a compreensão do problema vivido por dois povos, o israelense e o palestino.
Como é? O interessado vai conhecer “um pouco da história dos palestinos e judeus”??? Bem, a boa-vontade com “os judeus” já está demonstrada, certo? O curso será ministrado por uma senhora chamada “Baby Siqueira Abrão”. Vamos ver quem é ela segundo o próprio sindicato.

Jornalista, pós-graduanda em filosofia política e relações internacionais com projeto sobre a questão palestina e suas consequências, Baby Siqueira Abrão também é autora de livros sobre filosofia, mitologia grega e divulgação científica. Mora em Ramala, Palestina, onde é correspondente do jornal Brasil de Fato e colaboradora dos sites Carta Maior e Opera Mundi. Veio ao Brasil para uma série de palestras, com o líder popular palestino Abdallah Abu Rahmah, sobre a questão palestina, com apoio da Embaixada Palestina no Brasil (embaixador Ibrahim Alzeben). Participou do Fórum Social Mundial (em 2012, Fórum Social Temático), em Porto Alegre, como representante do Comitê Popular de Resistência Não-Violenta contra o Muro e as Colônias de Bil’in (www.bilin-village.org; ver também http://www.popularstruggle.org) e do Palestinian Center for Peace and Democracy (PCPD, http://www.pcpd.org).
Bem, acho que isso tudo evidencia a independência intelectual de dona Baby. Sua companhia também não deixa a menor dúvida. O sindicato e o espaço Vladimir Herzog estão sendo usados para fazer proselitismo em favor da causa palestina e contra a exitência do Estado de Israel. O encadeamento do texto deixa clara a demonização do estado israelense. Pergunto: o sindicato abriria as suas portas para ministrar um “curso” sobre a outra versão? Acho que não.

O sindicato poderia promover um debate sobre a questão israelo-palestina? Poderia, sim. Não é o caso, como se nota. A entidade está é abraçando uma causa. Pela linguagem, é visível que se está questionando a própria legitimidade da existência de Israel, com o indisfarçável cheiro da acusação da “conspiração judaica”.

Encontrei um vídeo de dona Baby no Youtube. A sua abordagem sobre a questão tem momentos verdadeiramente indescritíveis, estupefacientes. Confesso que não tive paciência para ver tudo. Algumas pegadas, alguns momentos, já indicaram o tamanho da gigante intelectual.

Ela decide abordar o esforço empreendido pelas lideranças judaicas em favor da criação de Israel. A partir dos 5min13s, num momento raro de sofisticação intelectual e rigor histórico, diz Baby:
“Como a Europa, na verdade, não agüentava mais a questão judaica, que era muito complicada, inclusive em relação a trabalho e em relação a pessoas que se dispunham a fazer greves e tudo mais, eles [governos europeus} queriam é se livrar desse problema [os judeus]. Então eles [governos europeus] apoiaram, sim, eles apoiaram a idéia de que os judeus fossem pra muito longe da Europa (…)”

Aos 8min14s – “E eu conheço muita gente, principalmente os anarquistas israelenses, contra o muro, que já disseram que, havendo dois estados, eles vão mudar pra Palestina porque eles não têm nada para fazer num estado judeu”.

Acho que já está de bom tamanho, né? Como a gente pode perceber, nem judeus agüentam judeus, né, como já sabia o Benedito…

É o fim da picada!

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