AGORA CELSO AMORIM PARTIU PARA A DELINQÜÊNCIA INTELECTUAL

Referindo-se ao malogro da Rodada Doha, afirmou Celso Amorim, ministro brasileiro das Relações Exteriores: “Deus queira que não seja preciso um outro 11 de Setembro”. A informação é de Deborah Berlink e está no Globo desta quinta. Segundo a tese de impressionante delinqüência intelectual, só mesmo algo na proporção daqueles ataques empurraria os países para […]

Referindo-se ao malogro da Rodada Doha, afirmou Celso Amorim, ministro brasileiro das Relações Exteriores: “Deus queira que não seja preciso um outro 11 de Setembro”. A informação é de Deborah Berlink e está no Globo desta quinta. Segundo a tese de impressionante delinqüência intelectual, só mesmo algo na proporção daqueles ataques empurraria os países para um acordo. Para este gênio das relações internacionais, a Roda Doha foi lançada no Qatar, em 2001, sob o impacto dos ataques, o que teria levado o mundo — entenda-se: “os ricos”; entenda-se melhor ainda: os EUA — à negociação. Ok. Volto já ao caso. Algumas digressões antes.

Que é que há? Sou um cara legal, eu juro. Pode não parecer, mas prefiro a paz à guerra. Ainda que semelhe o contrário, prefiro, como todo mundo, que as pessoas gostem de mim — só não faço disso uma obsessão. Ontem de manhã, fui deitar indagando-me: “Pô, será que fui muito duro com Celso Amorim?” Vocês sabem: escrevi um texto dando-lhe umas “chapuletadas” (por que diabos essa palavra ainda não está nos dicionários?), listando todos os desastres que ele já protagonizou no Ministério das Relações Exteriores. Se alguém não leu, está publicado às 5h05 de ontem. E olhem que ainda fui omisso na minha lista.

Não lembrei a cretinice de reconhecer a China como “economia de mercado” (não chegam a 30 os países que o fazem) na esperança de que os chineses apoiassem a pretensão do Brasil de ser membro permanente do Conselho de Segurança da ONU. Não só eles não corresponderam à expectativa como ainda fizeram campanha contra o Brasil. Amorim também se negou a condenar a milícia genocida de Darfur, no Sudão, porque contava com o apoio daquele importante país para suas ambições… Deus do céu! Não tem jeito! Você pode até se arrepender de bater em Amorim, mas por bondade, não porque ele não mereça. E suas novas declarações o demonstram.

Filoterrorista
Em país civilizado, Amorim seria sumariamente demitido. Por aqui, não vai acontecer nada. Até porque o chefe do ministro já afirmou bobagem semelhante.

Nem sei por onde começar a contestar a sandice. É inegável que Amorim acaba de descobrir virtudes nos ataques passados e em eventuais ataques futuros. Além de mentirosa, a tese é imoral e, queira ou não queria, é filoterrorista. Mesmo que ele jure de pés juntos, mais uma vez, que foi mal interpretado, o lapso de linguagem não deixa a menor dúvida: “Deus queira que não seja preciso um outro 11 de Setembro”. Sim, ele usou a palavra “PRECISO”, com todas as letras, enfileiradinhas, compondo, então, a cantilena simpática ao terror, segundo a qual ataques dessa natureza têm sua origem nos desequilíbrios econômicos do mundo. É uma tese muito influente na Síria. É uma tese muito influente no Irã. É uma tese muito influente no Hamas. É uma tese muito influente no Hezbollah. É uma tese muito influente, em suma, em todos os países e grupos que buscam uma justificativa moral para o terror. É uma tese muito influente em todos os países e grupos que consideram o terrorismo uma “precisão”.

No dia 23, o próprio Lula afirmou que uma negociação boa na OMC ajudaria a combater o terrorismo. Escrevi então aqui um texto chamado Reivindicação justa, retórica asnal, onde se lia:
“Depois dizem que pego no pé de Lula. Alguns leitores escreveram para cá afirmando que falo mal do governo até quando ele defende o ponto de vista correto na Rodada Doha. Afinal, os europeus e os americanos não querem abrir mão de privilégios etc e tal. Será mesmo? Critiquei o ponto de vista do Brasil? Não! Ataquei foi a retórica infantil de Celso Amorim. E me vejo obrigado a fazer o mesmo com a avaliação bucéfala de Lula. Lamento! Não pode ser diferente.
Quer dizer, então, que uma negociação boa para os emergentes na OMC ajudaria a diminuir o terrorismo? Como? Por quais caminhos? Alguém poderia me explicar? Eu não consigo ver. Pior: vai embutida aí a tese de que as vítimas do terror são as verdadeiras culpadas pelo mal que as atingiu, entenderam? Segundo o Babalorixá de Banânia, num mundo com mais justiça comercial, não haveria fundamentalismo islâmico!!!”

Piora, em vez de melhorar
Tenho o péssimo hábito, para alguns, de chamar as coisas pelo nome, sem floreios, o que deixa muita gente irritada. Mais uma vez, ao método: Lula é ignorante, mas não é burro — ao contrário, é uma das maiores inteligências emocionais da política contemporânea. É também hábil. Mas, é certo, faltam-lhe estudo, formação, informação, bibliografia… A rigor, um presidente não precisa de tudo isso. Não sendo um militante do apedeutismo, já está de bom tamanho. Países costumam contar com um corpo técnico, especialmente na diplomacia, do mais alto gabarito para instruir a vontade e a direção política expressas pelo governante. É assim no mundo inteiro.

Ora, Amorim, dadas a sua trajetória e formação, deveria contribuir para melhorar Lula, não para piorá-lo. Mas ele faz justamente o contrário. Empresta alcance teórico aos preconceitos e às grosserias intelectuais do outro, alçando suas bobagens à condição de um pensamento respeitável. Até a biografia de Lula ele tenta mimetizar, fazendo ele também praça de sua origem humilde, lembrando que a mãe foi lavadeira ou coisa parecida. Mais um pouco, e o ministro ainda dirá que também ela nasceu analfabeta.

O problema, naturalmente, está no analfabetismo moral e político dos filhos. A política externa brasileira cobre o país de vergonha.

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