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A mentira como instrumento da luta política

É claro que há divergências na sociedade! Ainda bem! Eu seria o último a querer acabar com elas. Eu nem mesmo estou entre aqueles que dizem na mesa de bar que as ideologias morreram. Quando alguns liberais ou quase insistiam nisso há coisa de 15 anos, afirmando que a melhor ideologia era a eficiência, eu […]

É claro que há divergências na sociedade! Ainda bem! Eu seria o último a querer acabar com elas. Eu nem mesmo estou entre aqueles que dizem na mesa de bar que as ideologias morreram. Quando alguns liberais ou quase insistiam nisso há coisa de 15 anos, afirmando que a melhor ideologia era a eficiência, eu afirmava: “Não contem comigo”. E continuo achando essa conversa enjoada. Eu reconheço a legitimidade da divergência.  Meu blog é uma expressão disso. “Então por que não o libera para aqueles que você chama ‘petralhas’”? Porque eles não debatem, aparelham. Já expliquei isso algumas vezes. Não vêm falar o que pensam como indivíduos; trazem as respostas do “partido” — que façam seu proselitismo em seu… partido, ora essa!

Divergir é da natureza do jogo. Eu divirjo também de pessoas que admiro muito, com o sabem. Mas um compromisso se faz necessário: o fato. Se uma opinião ou análise é  construída em cima de uma mentira, nem mesmo se pode dizer que se trata de mero jogo ideológico — eu estou entre aqueles que reservam à ideologia um outro papel, parente da utopia. Ela expressa um conjunto de valores que revela um anseio. Acaba, sim, muitas vezes, criando uma impressão distorcida do fato, mais ou menos como o torcedor de um time que se nega a reconhecer o lance genial do adversário ou que um pênalti marcado contra a sua equipe realmente aconteceu. Mas somos feitos de paixões também. É inútil tentar reconstruir o homem sem elas.

Dou um exemplo. Por uma questão ideológica, algumas pessoas acreditam que a privatização da Telebrás foi uma tragédia. Terão lá os seus motivos, por mais insanos que eu possa considerá-los. Mas sustentar, como se fez tantas vezes, que as ações foram vendidas “a preço de banana”, aí já é só uma mentira, que não é necessariamente uma característica da ideologia, que organiza, entendo, outras escolhas: mais estado ou menos; mais tributação e liberdade de empreender ou menos; mais regulação do mercado de trabalho ou menos? Acredito que, com dados objetivos, é possível escolher um caminho, outro, muitos intermediários.

A mentira é coisa de outra natureza. Já integra o terreno da guerra suja, da tapeação, da tentativa de ludibriar o outro. É o que se tem verificado, de modo espantoso, no debate sobre o Código Florestal, repetindo, como se e o país não tivesse apreendido nada, a farsa que resultou, em 2009, na demarcação contínua da reserva Raposa Serra do Sol, em Roraima, e na expulsão dos arrozeiros da região. O resultado é trágico: miséria, favelização, empobrecimento.

Publiquei aqui ontem um artigo do deputado Aldo Rebelo, que é do PC do B. Todos conhecem a minha simpatia pelo comunismo e pelas esquerdas, não é mesmo? Aldo, além de tudo, é palmeirense, o que é realmente imperdoável… Pergunto: quantos dos que atacam o seu relatório se deram ao trabalho de efetivamente lê-lo, inclusive na imprensa? As ligeirezas vêm até de pessoas das quais, pelo hábito, espera-se rigor. Assisti ontem a parte do programa Roda Viva com o inteligente Eduardo Giannetti, hoje ligado a Marina Silva. Ele afirmou que o texto do novo código é um retrocesso. Muito bem! É ideologia. É legítimo! Mas “retrocesso” por quê? Porque, sugeriu, permite a ampliação do desmatamento. Aí não dá! Isso é mentira! Giannetti é um estudioso e “popularizou”, nos meios mais intelectualizados, a expressão “auto-engano”. Não permite, não! O texto apenas legaliza situações de fato e, atenção, professor!, ELE PREVÊ, NA PRÁTICA, A RECOMPOSIÇÃO DA FLORESTA NAS PROPRIEDADES COM MAIS DE QUATRO MÓDULOS RURAIS. Portanto, não aumenta o desmatamento; diminui!

Giannetti é informado o bastante para não precisar da mentira, certamente involuntária — acho mesmo — para defender um ponto de vista. Também se afirmou no programa, não lembro quem, com a sua anuência, que a divergência com o PMDB se deu porque a emenda apresentada pelo partido permitia mais desmatamento. Falso! A Emenda 164 prevê que estados e União compartilhem o controle das Áreas de Preservação Permanentes (APPs) já ocupadas pela atividade agropecuária, às vezes há séculos!!! Quem comentou não sabia o que tinha sido votado. Quem respondeu também não.

Falou-se ainda da dita “anistia” como causa do desmatamento no Mato Grosso — o que é uma sandice —, ignorando-se o fato de que a renegociação das multas para ocorrências ANTERIORES A  2008 está num decreto em vigor, de Lula e Carlos Minc, que expira no dia 11 de junho e que será reeditado se o Senado não aprovar o código até lá. O texto não  inovou nada nesse particular.

Giannetti tem todo o direito de achar que culturas que estão nas chamadas APPs nas beiras de rios, encostas e topos de morros há 200, 300 anos têm de virar mata nativa outra vez. Eu discordo. No programa, ele afirmou que será bom para o país, no longo prazo, demonstrar que é ambientalmente correto — os outros países não precisam disso, mas parece que nós precisamos, sei lá por quê… Ok! É uma opinião. Eu gostaria de saber se esses pequenos proprietários devem ter o mesmo destino daqueles coitados de Raposa Serra do Sol. Mas isso ficaria para um debate.

O que eu espero de alguém como Giannetti é a clareza, seja ela qual for ela. Por exemplo: “Lamento pelos pequenos proprietários, mas o Brasil tem interesses estratégicos, e pouco importa se há culturas nas APPs há 300 anos, não pode e pronto! Também não quero saber se o decreto em vigor foi apenas incorporado por Aldo no que chamam ‘anistia’. Não é relevante se os agricultores com até quatro módulos podem ou não arcar com o reflorestamento. Vamos ter de fazer isso porque será bom para o Brasil, que está acima dos interesses de grupos”. Ele dissesse isso lá do modo dele, tudo bem! Eu o combateria porque considero tais exigências insanas. À medida que se escolhe como argumento o que não é fato, escolhe-se o caminho da facilidade. E o que é fato?
– o código de Aldo não aumenta o desmatamento, diminui;
– o código de Aldo não inova ao tratar das multas porque apenas incorpora um decreto já existente;
– não há como o debate sobre o código ter gerado desmatamento no Mato Grosso porque não há relação possível de causa e efeito.

A pior de todas as mentiras
Fixei-me nas opiniões de Giannetti para evidenciar que mesmo alguém acostumado a ser rigoroso com as idéias e que costuma cobrar rigor de seus interlocutores pode cair na cilada da ligeireza.

A pior de todas as mentiras nessa área é aquela segundo a qual o Código Florestal e o assassinato de três pessoas envolvidas em conflitos agrários — já se sabe que a quarta morte nada têm a ver com confronto por terra ou madeira — estão, se me permitem, no mesmo “meio ambiente” em que se debate o Código Florestal. Escrevi ontem a respeito. Aí já se trata de uma exploração verdadeiramente criminosa daquelas mortes, duas delas, é bem provável, decorrentes de uma luta entre os próprios assentados.

A luta política e ideológica é legítima. A mentira é intelectual e politicamente criminosa.

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