A DEMOCRACIA CONTRA O POPULISMO ABSOLUTISTA

A tentativa levada a efeito por Hugo Chávez, Lula e Daniel Ortega de reinstalar, à força, Manuel Zelaya no poder, em Honduras, obedece a uma espécie de diretriz das esquerdas latino-americanas: evidenciar que os Poderes Legislativo e Judiciário nada podem contra um “presidente eleito pelo povo”, pouco importa o que ele faça e como se […]

A tentativa levada a efeito por Hugo Chávez, Lula e Daniel Ortega de reinstalar, à força, Manuel Zelaya no poder, em Honduras, obedece a uma espécie de diretriz das esquerdas latino-americanas: evidenciar que os Poderes Legislativo e Judiciário nada podem contra um “presidente eleito pelo povo”, pouco importa o que ele faça e como se comporte. As urnas confeririam ao eleito uma autoridade que estaria acima da própria Constituição. Assim se deram as “mudanças” na Venezuela, na Bolívia e no Equador. O primeiro país já é uma ditadura; os dois outros estão a caminho, seguidos de perto por Nicarágua. Não pensem que Lula é estranho a este sentimento. É que, no Brasil, as coisas têm de ser feitas de outro modo. O fato é que estamos, no continente, diante de uma óbvia hipertrofia do Poder Executivo, que passa a reivindicar o poder absoluto ancorado na “legitimidade popular”. A fórmula, assim, fica simples: “Zelaya foi eleito? Então tem de governar”, pouco importa se de acordo com a Constituição ou contra ela.

Por isso a conspirata de agora contra o governo hondurenho. A verdade cristalina, evidente, comprovada pelos fatos, é que Honduras, apesar de todas as dificuldades enfrentadas pelo estúpido isolamento a que vem sendo submetida depois da deposição constitucional de Manuel Zelaya, estava vivendo relativamente em paz. E o advérbio fica por conta das naturais dificuldades que enfrenta um país nessas condições. Justiça, Congresso, imprensa, Igreja, sindicatos… Cada instituição ou ente da República vivia na plenitude de seus direitos. Era assim até que Lula irrompesse no cenário.

Não custa lembrar: Zelaya foi deposto PARA QUE A LEI SE CUMPRISSE. Como sabem os leitores deste blog, não preciso de pelo menos 24 horas para opinar sobre alguma coisa; não espero que os leitores primeiro se manifestem para depois dizer o que penso. Outros aproveitam um detalhezinho ou outro para dar cavalo de pau no que vinham afirmando e sustentar, então, o contrário. No dia do que chamam golpe, que golpe nunca foi, escrevi aqui o texto Quem é mesmo o golpista em Honduras? POR ENQUANTO, Forças Armadas garantem Constituição democrática. Fui o primeiro, talvez na imprensa mundial (estou parecendo o Lula, rá, rá, rá), a fazer o óbvio: ler a Constituição hondurenha, que vinha garantindo três décadas de regime democrático no país. Não fiz nenhum favor a ninguém. Era uma obrigação de todo jornalista. Alguns não a cumpriram até hoje.

Ocorre que Hugo Chávez anunciou o que chamou de “golpe”, o Brasil seguiu atrás como cachorro vagabundo atrás do caminhão de gás, e José Miguel Insulza, o asqueroso socialista chileno que preside a OEA, estrilou e anteviu guerra civil… Aí veio o governo de Barack Hussein, que terceirizou para Madame Clinton o “setor América Latina”. E a imprensa mundial, incluindo a brasileira, que chega a estar infiltrada pela assessoria de imprensa de Celso Amorim, saiu, bovinamente, a protestar contra o “golpe”.

Que golpe? A Constituição evidencia que Zelaya caiu para preservar as instituições. Ele estava fazendo um plebiscito declarado ilegal pela Justiça e rejeitado pelo Congresso. Deu ordens ao Exército que contrariavam a Constituição. Foi deposto pela Justiça. Mas um erro grave foi cometido: foi retirado do país. Conta-me uma fonte ligada ao governo hondurenho que os representantes da Justiça e do Congresso que negociaram com Zelaya caíram num truque infantil. A decisão inicial, com base na Constituição e nas leis, era prendê-lo e processá-lo. Ele teria pedido para sair. Convenceu os interlocutores que isso evitaria confrontos e eventuais mortes. Cederam a seus apelos. O pijama já fazia parte de sua pantomima. Chávez, o real organizador e financiador do plebiscito, tratou de cada detalhe da saída de Zelaya e, depois, da “resistência”. O governo provisório de Honduras apostou que o madeireiro milionário pensaria nos próprios negócios e na fortuna que tem no país e não criaria problemas. Deu no que deu.

A fonte é muito boa, o que não significa que acredite sem reservas na história. O comandante do Exército já havia dito a Zelaya que não cumpriria uma ordem declarada ilegal pela Justiça. Ele sabia que iria ser deposto. Não queria ser preso. E não foi. Retirá-lo do país, à força ou numa negociação, foi um erro estúpido. Conferiu ares de verdade à mentira evidente de que teria havido um golpe. Sigamos.

Honduras vivia, então, relativamente em paz. Cedo ou tarde, o governo que saísse das urnas acabaria sendo reconhecido. MAS UMA NOVIDADE INSUPORTÁVEL ESTARIA DADA PARA OS BOLIVARIANOS E SEUS AMIGOS: PRESIDENTE QUE RECORRER ÀS ELEIÇÕES PARA AFRONTAR A CONSTITUIÇÃO CAI. E é derrubado democraticamente. O próprio Lula, pesquisem, chegou a comentar: “Se isso vira moda…” Pois é, se isso “vira moda”, o bolivarianismo vai para o vinagre. HONDURAS, COM EFEITO, É UM PÁIS PEQUENO DEMAIS PARA INCOMODAR TANTO. A QUESTÃO É DE PRINCÍPIO PARA OS AUTORITÁRIOS. Eles precisam da soberania absoluta – e absolutista – das urnas para levar adiante o seu projeto de ditadura.

Assim, Lula, Ortega e Chávez se articularam para instaurar em Honduras o caos, a desordem, o clima de guerra civil. E pouco se importaram ou se importam com o destino dos hondurenhos. A sorte do governo provisório – e da população  – é que Zelaya tem o apoio de uma minoria que chega a ser ridícula. Por isso, os distúrbios de rua são contidos com relativa facilidade. Chávez estava e está determinado a provocar um banho de sangue no país, como ficou evidente nas duas outras vezes em Zelaya tentou voltar Na semana seguinte ao conflito, esquerdistas da Venezuela e da Nicarágua foram presos no país. Estavam lá com o único fito de participar das manifestações.

O que está em jogo em Honduras é mais do que reinstalar ou não Zelaya no poder. O que está em jogo é saber qual é o limite da dita soberania de um governo eleito pelo povo. Será ele tão poderoso que pode afrontar a própria Constituição que dá legitimidade à escolha democrática? Ora, para um democrata, a resposta óbvia é “Não”. O povo não é soberano para rasgar a Constituição que declara a sua soberania, entenderam? E isso significa que há regras. As da Constituição hondurenha foram violadas por Zelaya.

Trata-se, em suma, de um choque entre a legalidade democrática e, se me permitem, o populismo absolutista. Houvesse um governo nos EUA e não um garoto-propaganda das ONGs, que tem a ambição de governar o país a partir da TV e da Internet, isso já teria ficado claro há tempos. E esses ratos gordos não estariam tão assanhados. O problema é que o gato está cuidando da maquiagem para mais um espetáculo, mais uma entrevista, mais um show midiático.

 

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  1. Comentado por:

    Ze Mane

    Hoje cedo ouvi o Heitor Cony indignado com o corte temporario de luz e telefone na embaixadinha brasileira. Que o Brasil não aceita o atual governo “golpísta” – sic, demonstrado pela retirada do embaixador brasileiro. Mas não vi nenhuma indignação pela ingerencia do Brasil no já calmo conflito particular hondurenho, até que o ratinho Zelaya voltasse a fosse cutucar a ferida. Confrontado, disse que o Thiago de Melo se jogara num jardim particular quando perseguido no tempo da Dita-Mole. Usou exemplos diferentes para justificar seu raciossimio e disse que Lulla estava correto em invocar a ONU. Zelaya esteve no Brasil com Lulla. E volta a Tegucigalpa justa/te pra embaixada sem avisar????

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  2. Comentado por:

    Continuação do Leon 1

    “… en su embajada, anoche hubo toque de queda sin embargo hubo saqueos de los seguidores de -zelaya- hubo mucho daño a la propiedad privada, y como te digo te dire que el 80 por ciento de los seguidores de zelaya son personas delincuentes decididos a todos y les pagan por manifestacion . mira la situacion si se puso mucho peor, y lastima que estan colaborando grandes paises si
    solo en manos de nosotros estuviera este problema le aseguro ya lo hubieramos resuelto porque nuestra constitucion lo permite, lastima que se metieron otros paises, o sus gobernantes y no se quieren tomar la molestia de interpretar nuestra constitucion.”

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  3. Comentado por:

    Surfista Prateado

    O impressionante é que a sua tão decantada Globo, sempre faz questão de dizer que Micheletti, o presidente GOLPISTA de Honduras… E falam com um tom especial, aumentado, GOLPISTA… Todos os jornais, seja de manhã, seja à tarde, seja no JN… Parece que o “bom” jornalismo da Globo (você classifica assim), não fez o óbvio, leu a Constituição de Honduras…

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  4. Comentado por:

    Malu

    Nada a ver ou tudo a ver, mas o último parágrafo do artigo de Olavo de Carvalho, dia 21 de setembro, 2ª feira, diz tudo:
    “Por falar em articulações, vocês já repararam que as fontes do antitabagismo militante são as mesmas da campanha pela liberação das drogas pesadas? Estudem, pesquisem, raciocinem, e obterão aí uma lição inesquecível sobre como funciona o poder no mundo de hoje.”

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  5. Comentado por:

    TC

    O circo foi montado e os patetas cafajestes bolivarianos liderados por Chávez e Apedeutakoba estão na Assembléia da ONU a defender a legitimidade do golpista Zé laya e seu ato heróico no retorno a Honduras… pelas próprias pernas, após 15 horas de peregrinação. Caraça!, foi bater, claro, logo na porta da embaixada do Brasil em busca de guarida, mas não de asilo político porque teria de ficar de bico calado. Mas fez comício e convocou marginais para a guerra e sangue. Destarte, poderia ser preso pelo atual governo sem problema nenhum, e, fosse séria a embaixada brasileira, entregaria a cabeça do bandidão Zé laia numa bandeja de prata ao governo hondurenho. Yes, Obama, can at be a banana.

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  6. Comentado por:

    Nicão

    Seria cômica, não fosse trágica, a cobertura da “noça” imprensa dita séria. Jornalistas, cuja especialização, aparentemente, vai de mania de perseguição até física quântica, passando por economia, clima, política, etc estavam indignados. Ao mesmo tempo que chamavam o governo atual de Honduras de golpista, mostravam-se “In-di-gui-na-dos” com a “tomada” da embaixada brasileira pelo bando do presidente deposto. Pareciam cachorro tentando pegar o próprio rabo.
    Pensando bem, “cômica”, lá de cima, pode ser trocada por “patética”, “vergonhosa”, ou coisa pior.
    Sugiro, Reinaldão fundar uma outra ABI. Algo do tipo ABIS – Associação Brasileira de Imprensa SÉRIA!

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  7. Comentado por:

    Malu

    Lula não é tonto!
    Se conseguir em Honduras vai tentar fazer aqui.
    Ele já acabou com o PT e vai querer acabar com o país, até porque a herança de seus dois mandatos será trágica e recheada de crimes de toda espécie.
    Quem viver verá!

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  8. Comentado por:

    Siqueira

    Uma operação clandestina levou o golpista deposto até um refúgio seguro na embaixada do Brasil. Como em todos os casos escabrosos que espoucam por aqui, Lula e Amorim não sabiam de nada, mas já que o cara entrou, resolveram dar a maior força para reinstalar o pilantra no poder. História para boi dormir, daquelas que contam por ter certeza da impunidade.
    Lula não tem limites, usa nossa embaixada para a política de sua turma bolivariana, e não a do Brasil, enquanto tenta enfiar goela abaixo seu advogado como ministro do STF. Está fácil governar sem oposição, prá que golpe?

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