27/12/2012
às 12:20 \ FolhetinescasFernanda Montenegro pede mais classe média na TV

Fernanda Montenegro como Picucha: "Acho que está na hora da gente se ver do jeito que a gente é" (Divulgação)
Sempre chamada de “grande dama do teatro”, Fernanda Montenegro construiu uma carreira igualmente respeitável na televisão. Ela já foi chiquérrima como a Charlô, da Guerra dos Sexos (1983) original; trambiqueira como a Naná de Cambalacho (1986); cafetina e sábia, como a Jacutinga de Renascer (1993); pérfida como a Bia Falcão de Belíssima (2005); e crédula como a Bete Gouveia de Passione (2010). Mas depois de tantos papeis, a Picucha de Doce de Mãe que a leva ao ar novamente hoje na Globo (22h15), é a figura que aproxima a estrela Fernanda da verdadeira Arlette que ela é na vida real.
Com 83 anos, a atriz conserva uma vitalidade tão admirável quanto a de Picucha, apenas dois anos mais velha. Serelepe e faceira, a personagem tenta convencer os quatro filhos – Silvio (Marco Ricca), Fernando (Matheus Nachtergaele), Elaine (Louise Cardoso) e Suzana (Mariana Lima) – de que pode continuar vivendo sozinha, mesmo tendo perdido a empregada Zaida (Mirna Spritzer), até então companheira de todas as horas. “Ela tem uma identificação com a vida”, diz Fernanda ao blog, admitindo que tem pensado com frequência nas mesmas questões que rondam a personagem. “Já imaginei várias vezes se estarei sempre com saúde para continuar vivendo sozinha.”
Mas no telefilme escrito e dirigido por Jorge Furtado, a ideia da finitude não é coisa para atingir apenas a atriz ou os que já vivem a terceira idade. “É uma história de gente como a gente”, define Fernanda, de um jeito que resume a própria obra do diretor gaúcho, que fez filmes como O Homem que Copiava (2003), Meu Tio Matou um Cara (2004) e Saneamento Básico (2007).
Doce de Mãe é de fato um respiro na tão falada tentativa da TV de espelhar a “nova classe C”, que na visão de Fernanda passou dos limites. “A classe média perdeu lugar na ficção. Sinceramente, não aguento mais”, diz ela, sem meias-palavras. “Parece que, hoje em dia, a história precisa abordar os extremos, o doentio e os estereótipos para poder chamar a atenção. Acho que está na hora da gente se ver do jeito que a gente é.”
Já que se tocou no assunto, Furtado, que é mestre em atingir sentimentos profundos por meio do que há de mais simples no cotidiano, conta uma história divertida sobre os caminhos tortuosos do mercado do entretenimento. “Quando Saneamento Básico estreou, estive num cinema em São Paulo. Para minha surpresa, das cinco salas, ele era o único filme estrelado por seres humanos”, diverte-se. “O humanismo precisa resistir.”
Comédia lírica, Doce de Mãe é um telefilme de 1h20, formato que rendeu no ano passado o excelente Homens de Bem, também de Furtado, com Rodrigo Santoro e indicado ao Emmy Internacional. A produção já tem tudo para se desdobrar num seriado em 2013, no núcleo de Guel Arraes.
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