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02/10/2014

às 17:23 \ Eu faço drama

Sabe aquela que toca na novela?

Eu chorando pela estrada/ Mas o que que eu posso fazer?/ Trabalhar é minha sina/ Eu gosto mesmo é d'ocê

Eu chorando pela estrada/ Mas o que que eu posso fazer?/ Trabalhar é minha sina/ Eu gosto mesmo é d’ocê (Divulgação)

A gente ainda não viveu o suficiente da eternidade para poder afirmar com certeza, mas com o que se tem até aqui pode-se desconfiar de que algumas poucas canções sobreviverão para sempre. Tocantes de todos os modos e por vários motivos, quando reinterpretadas, relidas e rearranjadas lá vão passando de geração para geração – um Cole Porter aqui, um  Luiz Gonzaga ali, entre as Anittas e os Tiaguinhos com quem convivem numa boa. Jamais passam despercebidas. “Que música é essa que o Zeca Baleiro canta na novela, gente?”, é mais ou menos o que se lê no Twitter quando entram as românticas – e diárias – cenas de Cristina (Leandra Leal) e Vicente (Rafael Cardoso) em Império (Globo, 21h20).

No meio disso, há de se reconhecer que a Globo andou dando uma boa repensada nas suas trilhas, especialmente em projetos de diretores como Luiz Fernando Carvalho, José Luiz Villamarim e Rogério Gomes, que têm conseguido fisgar o público com música boa. À frente de Império, Gomes, o “Papinha”, tem uma cartela extensa de músicas para editar suas cenas, de Ed Sheeran a Cartola, e, em meio até a improváveis Information Society e Coldplay, relançou Ai que saudade d’ocê. O leitor certamente já ouviu ou cantarolou esse forró gracioso que o paraibano Vital Farias, aclamado violeiro de Taperoá, lançou em Cantoria 1, LP de 1984 em parceria histórica com Elomar, Geraldo Azevedo e Xangai. Há 30 anos ela foi registrada pela primeira vez no disco ao vivo e nunca mais deixou de ser cantada e de embalar arrasta-pés de terra batida às baladas de forró universitário.

O tema caiu bem para o casal de protagonistas da novela de Aguinaldo Silva, mocinhos raro nos últimos tempos: são jovens de excelente caráter, buscam vencer com estudo e trabalho, mas mantém a doçura bonita de ver que os excessivamente bons perdem em novelas – nada de pamonhice, em resumo. A letra fala sobre um imaginário beijo levado por meio de um beija-flor, indo de um sujeito de excelente lábia que trabalha viajando e sofre com saudade da amada. “O que é que eu posso fazer? Trabalhar é minha sina. Eu gosto mesmo é d’ocê”, diz o personagem, um sucesso sempre lembrado na voz de Fábio Jr, que a gravou em 1992 e a emplacou na trilha de Renascer (1993), para os personagens Ritinha (Isabel Fillardis) e Damião (Jackson Antunes).

Mas era a música original, na voz do recluso Vital – o músico vive em Taperoá e faz poucos shows no Sudeste – que Zeca Baleiro, o intérprete atual da música, assobiava havia 20 anos até ser convidado pela gravadora Som Livre para gravá-la. “Conheço a canção desde a gravação do Vital Farias, de quem sou fã e cujo trabalho acompanho desde o início”, contou ele ao QUANTO DRAMA!. “Já havia assoviado bastante a canção por aí, mas nunca a havia tocado. Cantei sim outras canções suas em shows, como Caso Você Case e Veja.”

Além de Fábio Jr., Elba Ramalho, Geraldo Azevedo, Dominguinhos, Fagner gravaram a música ou a cantaram em shows. Vale ainda contar as dezenas de aspirantes a cantores que divulgam suas versões no Youtube. A fama da música chegou a preocupar Zeca.

Como cantar de novo algo já tão cantado?

Zeca não se fez de acanhado. Seu arranjo dá uma nova amplidão à música, sofisticando-a. O narrador da letra é um sujeito simples, como costumam ser os personagens das músicas de Vital Farias. Você ouve e vê claramente um sujeito de uns 40 anos, calça de tergal e cabelo penteado para o lado com gumex. Na nova versão, esse sujeito é outro; Zeca deu a ele um violoncelo que impôs uma leve dramaticidade. Agora, esse novo viajante que sente saudade da namorada e pede carta – veja só, ainda de papel – combina bem com o belo nordestino íntegro e trabalhador de Rafael Cardoso. “E tudo o que eu sabia é que a música serviria a um par romântico. Foi isso que me fez buscar exacerbar o lirismo que há na canção”, justifica o músico. “Quando veio o convite para gravá-la, fiquei bem feliz, mas também fiquei num belo impasse, porque a música já foi muito regravada. As gravações anteriores são lindas, especialmente a da Elba”, detalha. “Mas eu tinha que buscar uma saída diferente pro arranjo, sem descaracterizá-la totalmente de sua origem “nordestina”. Tirei o acento mais regional e busquei fazer um baião “estilizado”, com piano, violoncelo e uma percussão leve”, explica ele.

Aqui, você ouve a versão de Zeca Baleiro para Ai que saudade d’ocê, acompanhado de Adriano Magoo (piano), Fernando Nunes (baixo), Jonas Moncaio (cello), Leonardo Shina (percussão). Abaixo, uma lista com as versões mais marcantes da música de Vital Farias.

Vital Farias

Qualquer canção é sempre mais especial na voz do próprio compositor, tenha ele a voz que tiver. A de Vital Farias é forte, sertaneja, de construções amplas.

Elba Ramalho

No show O Grande Encontro II, de 1997, Elba Ramalho canta com Geraldo Azevedo e Zé Ramalho

Fábio Jr.

Já em 1992, mas com umas notas meio ointentistas no “estilo Cassino do Chacrinha”,  a versão de Fábio Jr. só se rendia ao xote no refrão. Em shows, mais tarde, o cantor acabou deixando o baião rolar, e passou a cantar a música de um jeito mais solto.

Geraldo Azevedo

Vira e mexe confundido com o compositor original da música, Geraldo Azevedo tem um jeito único de interpretar a canção do amigo e parceiro.

Fábio Jr. e Elba Ramalho

Num programa especial (não datado no vídeo, infelizmente) Fábio Jr. recebe Elba, em todo o seu esplendor.

Fagner

Raimundo Fagner também se rendeu aos versos de Vital Farias, nesta apresentação ao vivo, em 2000.

Banda Scracho

Da novíssima geração, a banda Scracho fez uma versão meio reggae, com bastante delicadeza.

30/09/2014

às 13:33 \ Entrevista

‘Muitos são preconceituosos por ignorância’, diz Suzy Rêgo

Casada com Cláudio (José Mayer) por 30 anos, Beatriz aceita a bissexualidade do marido. Autor leva público a julgar personagem, expondo como o moralismo pode ser nocivo ao amor (Divulgação)

Casada com Cláudio (José Mayer) por 30 anos, Beatriz aceita a bissexualidade do marido. Autor leva público a julgar personagem, expondo como o moralismo pode ser nocivo ao amor (Divulgação)

Quem é casado e tenta ter, pelo menos, um pouco de reflexão sobre a vida a dois no seu cotidiano sabe que cada casamento tem códigos próprios – alguns os mais simplistas possíveis e outros nem tanto. Num mundo cada vez mais cheio de rótulos, variações e avanços no que diz respeito à psique humana, nada pode ser mais sem graça do que aquela união que segue monocórdia de segunda a segunda. Mas há casamentos que, ainda que envernizados pelas mais cristalizadas convenções, podem parecer chocantes para a maioria quando vistos de perto.

E se de perto ninguém é normal, como diz Caetano Veloso, o que dizer de personagens de novela que saem da cabeça fervilhante e provocativa de Aguinaldo Silva? Soa cada vez mais perturbante para alguns  – e, que fique claro, o termo é usado  aqui num sentido positivo – a conduta da Beatriz (Suzy Rêgo) da novela das 9, Império. O autor poderia ter repetido Manoel Carlos, que criara lá em 1997 o dentista Rafael (Odilon Wagner), casado e pai de dois filhos que escondia a bissexualidade da mulher, Virgínia (Ângela Vieira) em Por Amor.

Com sinais de homofobia desde o início da novela, Enrico (Joaquim Lopes) surtou ao descobrir que o pai, Cláudio (José Mayer) é bissexual: discussão que tem pautado a campanha política aparece também com destaque em 'Império' (Divulgação)

Com sinais de homofobia desde o início da novela, Enrico (Joaquim Lopes) surtou ao descobrir que o pai, Cláudio (José Mayer) é bissexual: discussão que tem pautado a campanha política aparece também com destaque em ‘Império’ (Divulgação)

Mas a sociedade evoluiu um tanto, o telespectador um bocadinho e a TV tenta se equilibrar entre a modernidade que se impõe e os guardiões da moral e dos bons costumes. Por isso, 17 anos depois, Aguinaldo criou uma esposa esclarecida que sabe das aventuras homossexuais do marido, Cláudio Bolgari (José Mayer), com quem vive há 30 anos, feliz da vida. É um passo importante na construção do retrato dos homossexuais na telenovela brasileira, ainda o produto cultural mais consumido no país. E que só gera pano para a manga porque um tal fofoqueiro de internet, Téo Pereira (Paulo Betti), acha que se assumir gay é uma obrigação. Será?

“Personagens afetados, tipos divertidos e figuras extravagantes, sempre habitaram o núcleo de humor das novelas com destaque, são clowns que invariavelmente agradam ao público. Os gays (homens e mulheres)  em sua grande maioria, eram  retratados apenas como exagerados, “fantasiados” e espalhafatosos”, analisa a atriz Suzy Rêgo em conversa por e-mail com o blog. Ela tem uma boa teoria para o sucesso dos personagens homossexuais, atualmente os de maior destaque dentro das tramas da Globo. “Há algum tempo, felizmente, as novelas mostram o que também acontece ao nosso lado, seres humanos com família, trabalho, conflitos, sonhos, problemas, dúvidas, conquistas, felicidades, objetivos, sucesso e alma. Por meio de algumas tramas é possível discutir temas polêmicos e fornecer informação, esclarecimento, reflexão e claro, diversão. E combater as intolerâncias através de uma obra de ficção. Muitas pessoas são preconceituosas por pura ignorância”.

Foi curiosa a reação do público que acompanha a novela nas redes sociais quando ficou claro que Beatriz sabia o tempo todo do romance – de dez anos – entre Cláudio e o bonitão Leonardo (Klebber Toledo). Em termos de telenovela, foi uma bomba – perfeitamente calculada pelo autor, que tem dezoito novelas no currículo. “Pensei na personagem sabendo que ela seria rejeitada, execrada, amaldiçoada… E aceitando o desafio de fazer com que as pessoas mudassem de opinião a respeito dela”, detalha o autor em conversa com QUANTO DRAMA! diretamente de Portugal, onde participa do lançamento de Império, que começa a ser exibida ali em outubro. É o que está acontecendo agora. Beatriz luta por seu homem e por sua família feito uma leoa… E os que a rejeitaram inicialmente começam a agora admirá-la. Não pense que foi fácil impor Beatriz à telespectadora padrão, que é o pavor de todas as pesquisas de opinião sobre a novela. Mas parece que eu consegui.”

É nas sutilezas que estão as grandes qualidades da novela de Aguinaldo Silva. Cláudio Bolgari ganha o público pela cumplicidade que manteve todos esses anos com Beatriz. Não é nada bonito fazer julgamento moral das pessoas da vida real, mas é algo inevitável quando estamos diante da ficção – especialmente de novelas, cujos personagens estão dando a cara a tapa praticamente todos os dias. Neste ponto, vale ressaltar o crucial da trama dos Bolgari em Império: a verdade é sempre louvável, mas até que ponto alguém é obrigado a sair do armário, assumir-se gay (ou, que seja, bissexual)?

Leia também: Os 7 tapas mais doídos das novelas

“Conheci várias Beatriz e convivo com algumas”, revela Aguinaldo. Tenho profunda admiração por essas mulheres que fazem esse tipo de escolha – se apaixonam por um homem que foge ao padrão habitual do marido e, desde que eles as queiram, decidem viver essa opção a qualquer preço. E sinto que elas são felizes. Veja bem, não estou falando das que casam sem saber e quando descobrem que os maridos gostam de homens​ levam um choque terrível (como a personagem de Ângela Vieira citada acima). A história de Beatriz é outra – ela escolheu Cláudio mesmo sabendo da (outra) opção dele.“

No começo da novela, como era de se esperar, a incógnita sobre o que unia Cláudio e Beatriz talvez tenha gerado a incompreensão sobre as atitudes da personagem. Mas mais importante do que tentar imaginar o que o casal faz entre quatro paredes – afinal, eles têm dois filhos biológicos – foi a reação homofóbica de Enrico (Joaquim Lopez) ao descobrir a bissexualidade do pai. Foi forte, e drástico. Mas, sobretudo, humano, quando você pensa na curva dramática do personagem. ”O Enrico tem exibido uma intolerância e intransigência que até os pais desconheciam, e além disso é imaturo e dissimulado profissionalmente. A outra filha, Bianca (Juliana Boller) revelou há pouco que  respeita a orientação sexual de cada um. Jovem e madura. Novela é ‘novelo’ e o nosso está bem enrolado”, pontua Suzy.

Leia também: Dar ou não dar pinta, eis a questão

O núcleo, temperado com numa medida interessante entre o humor do blogueiro rancoroso Téo Pereira e o drama da família Bolgari, que pode se desfazer diante da vida sexual do seu patriarca é assunto para conversas no Twitter, no sofá, nos salões de beleza e até mesmo nos mestrados da vida. Mas nem todos estão dispostos a pescar as sutilezas. “Encaro os comentários com muita satisfação, Beatriz Bolgari é uma personagem muito interessante, marcante, desafiadora e carismática”, observa Suzy. “Tenho recebido muitos cumprimentos pela novela e respeito a opinião das pessoas. Mas o que a grande maioria quer, na verdade, é fazer uma selfie. Simples assim.”

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29/09/2014

às 21:41 \ Maestro, uma nota

“Queria 15 latinhas pra reciclar…”

(Divulgação)

(Divulgação)

Cada vez menos visto pelas bandas de Xerém e mais habitué de Santa Teresa, Ismael (Jonas Torres) é um catador de material reciclável  que não quer saber de 15 minutos de fama. “Eu queria é 15 latinhas para reciclar”, disse ele para Vicente (Rafael Cardoso), numa das melhores frases do capítulo desta segunda (29) de Império (GloBo, 21h20).

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Os 7 tapas mais doídos das novelas

 

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29/09/2014

às 16:57 \ Eu vejo novela

Os 7 tapas mais doídos das novelas

Há algo de podre no reino de  'Império' (Reprodução)

Há algo de podre no reino de ‘Império’ (Reprodução)

“Eu faço picadinho de  você. E quando você vier me pedir uma mão, sabe o que vai acontecer? Eu vou te dar isso…”, disse Maria Marta (Lilia Cabral), num tom de dar medo na cena em que a rainha das joias de Império esbofeteou a nora insolente, Danielle (Maria Ribeiro), exibida pela Globo no capítulo do último sábado (27). “Ela me tira do sério, gente”, justificou depois de encher a mulher do primogênito José Pedro (Caio Blat) de bofetões, fala proferida com fôlego quase perfeito – que megera em plena forma.

A cena, mais um dos barracos que tentam atrair o público de Império em tempos de horário eleitoral gratuito a atrapalhar o Ibope, faz QUANTO DRAMA! relembrar os tapas mais doloridos da teledramaturgia.

1. Branca e Isabel, em Por Amor (1997)

A briga entre Branca Letícia (Susana Vieira) e Isabel (Cássia Kis Magro) teve tentativa de tesourada e guerra de almofadas. Mas o tapa veio mesmo quando Isabel, que ameaçava denunciar os podres da família, disse: “Você vai precisar empenhar as unhas e os dentes para poder comer um pedaço de pão.”

2. Lucimar e Lívia, em Salve Jorge (2013)

Mãe coragem, Lucimar (Dira Paes) quer saber o que a traficante de pessoas Lívia (Cláudia Raia) fez com sua filha, Morena (Nanda Costa). Debochada, a vilã insinua que Morena era prostituta.

3. Helena e Luiza, em Em Família (2014)

Tapa de mãe é sempre dolorido, mas imagine levar um tapa da mãe por causa de um mesmo flautista charmoso e internacionalmente conhecido? (no caso, o Laerte de Gabriel Braga Nunes)

4. Maria Escandalosa e Sabrina, em Deus nos Acuda (1992)

Não precisa muita coisa para a Maria Escandalosa de Cláudia Raia aprontar um barraco em Deus nos Acuda. Nesta cena, ela bate na “perua dourada” Sabrina (Paula Manga), que fingia estar grávida de Ricardo (Edson Celulari)

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5. Edu e Maria do Carmo, em Rainha da Sucata (1990)

Muito antes da Lei Maria da Penha, o playboy Edu (Tony Ramos), não pensa duas vezes antes de esbofetear a mulher, Maria do Carmo (Regina Duarte). Na cena, ela provoca seu ciúme, uma vez que o casamento dos dois aconteceu por interesse.

6. Vitoria e Bia Falcão

É inesquecível a frieza que Fernanda Montenegro demonstra na cena em que Bia Falcão conta  a todos que Vitória (Cláudia Abreu) matou um homem no passado. O sujeito, na verdade, era um patrão que tentou abusar da personagem, quando ela tinha apenas 13 anos. Mas quem disse que a bruxa tinha coração. Levou um tapa na cara, bem dado, mas menos dolorido que o estrago que causou.

7. Iris e Cíntia, em Laços de Família (2000)

Mulher brigando por personagem de José Mayer é um clássico das telenovelas. Nesta cena, a lolita birrenta Iris dá uns tapas da veterinária, um tanto sonsa, Cíntia.

25/09/2014

às 15:23 \ Folhetinescas

Na reta final, ‘Geração Brasil’ tenta ser ‘A Favorita’

Jonas Marra (Murilo Benício) tem momento serio-sincero com Herval (Ricardo Tozzi) no capítulo desta quinta (25): tomara que a cena termine com os dois cantando "Beijinho Doce" (Divulgação)

Jonas Marra (Murilo Benício) tem momento sério-sincero com Herval (Ricardo Tozzi) no capítulo desta quinta (25): tomara que a cena termine com os dois cantando “Beijinho Doce” (Divulgação)

Não há dúvida de que Jonas Marra é um personagem incrível e valioso para qualquer autor. O fato de o personagem ser interpretado por Murilo Benício só engrandece aquela figura ambiguamente charmosa que estrela a novela das 7 da Globo, Geração Brasil. Mas, da mesma forma, não se pode negar que é um pouco incômoda a tentativa de atrelar – para não dizer clonar – sua história da trajetória de vida à de Steve Jobs, Mark Zuckerberg e até Lex Luthor.

Quem acompanha o QUANTO DRAMA! sabe que eu adoro uma referência, quando o autor pinça algo de um seriado, filme icônico ou uma novela –  mesmo que seja uma novela sua, como Aguinaldo Silva e Silvio de Abreu costumam fazer tão bem.

Mas, depois de 120 capítulos, Geração Brasil passou do limite das referências bacaninhas. E a coisa anda feia – o que é uma pena para autores como Filipe Miguez e Isabel de Oliveira, que se mostraram tão talentosos quando escreveram Cheias de Charme em 2012.

A novela vive um momento A Favorita, sucesso de João Emanuel Carneiro de 2008, famosa por confundir o público com mistério em torno de quem era a mocinha e de quem a vilã – como se sabe, era a Flora (Patrícia Pillar). Na mesma forma, Jonas Marra passou o tempo todo meio “beijinho doce”, fazendo-se de mocinho que, ora bolas, precisava pisar em alguns desavisados para sobreviver no mundo competitivo do Vale do Sicílio. Herval (Ricardo Tozzi) foi retratado como o recalcado que não aceitava o sucesso do “Marra Man” – por um motivo misterioso.

Desde a semana passada, a coisa começou a se desenrolar. Jonas é a Flora – não só roubou a ideia do ex-amigo e a poupança da mãe, mas também seduziu uma jornalista um tanto ingênua para estar nesta profissão. Herval é um justiceiro, uma espécie de Donatella que vem minando a vida daquele que o passou para trás. Jonas descobrirá no capítulo desta quinta (25) que Herval é que aquele ex-amigo de 20 anos atrás. Mas não é a primeira vez que os dois personagens da novela se encontram. E, pergunta-se o noveleiro um tanto de má-vontade: como Jonas não reconheceu Herval?

A resposta só pode ter vindo de O Amor é Cego (Shallow Hall, 2001), talvez mais uma das tantas referências pop da novela: há 20 anos, Herval era gordo. Por isso, agora no estilo “gato levemente de esquerda” se tornou irreconhecível. Ah, agora deu para entender.

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20/09/2014

às 10:47 \ Folhetinescas

Bruno Gagliasso vai ao topo em ‘Dupla Identidade’

No papel do serial killer ambicioso Eduardo, Bruno Gagliasso se alterna entre o charme e a perversidade, e acerta ao estabelecer uma rara cumplicidade com o público (Reprodução)

No papel do serial killer ambicioso Eduardo, Bruno Gagliasso se alterna entre o charme e a perversidade, e acerta ao estabelecer uma rara cumplicidade com o público (Reprodução)

O serial killer costuma ser o tipo de personagem dos sonhos de qualquer autor: rico em composição, imprevisível e, com sorte, sedutor o suficiente para assustar e conquistar a plateia ao mesmo tempo. Não é uma figura frequente na nossa teledramaturgia, muito menos no cinema, uma vez que sempre foi associado às histórias policiais americanas – mas jamais vamos esquecer o Donato que Miguel Falabella interpretou em Noivas de Copacabana, minissérie que o grande Dias Gomes escreveu em 1992.

Com seu Eduardo Borges que apareceu pela primeira vez na noite desta sexta (19) em Dupla Identidade (Globo, sextas, 23h30), Gagliasso, ator dos mais dedicados de sua geração, conseguiu inscrever na TV brasileira o tipo que mata por matar a granel. Muito bem na estreia, o ator fez dos seus encantadores olhos azuis dois espelhos embaçados pela maldade. Esteve ótimo nas cenas e se é verdade que ele teve de lutar pelo papel, como andou contando as entrevistas que precederam a estreia, fez valer a escolha da autora Glória Perez e dos diretores Mauro Mendonça Filho e René Sampaio.

Com boa parte dos cacoetes mais batidos dos autores policiais americanos, cujos criadores exploram as mentes perturbadas desde antes de Conan Doyle e Agatha Christie, Dupla Identidade fez um belo primeiro episódio. Câmera viva na medida – nada daquele balanço vertiginoso e sem sentido andou sendo usado por aí –, fotografia perfeita para mostrar um Rio de Janeiro além do “purgatório da beleza e do caos”, trilha sonora vigorosa de Andreas Kisser, do Sepultura, e uma abertura matadora, ainda que com “leve”inspiração em Homeland e American Horror Story.

Em meio à onda de assassinatos, Dias (Marcello Novaes) espera ansiosamente a indicação para secretário de segurança, o que dá um tempero especial ao seriado, Já a Vera de Luana Piovani precisa de algum remédio anti-mononia, para poder burlar o tipo "fria e sexy" que é clichê na literatura policial (Divulgação)

Em meio à onda de assassinatos, Dias (Marcello Novaes) espera ansiosamente a indicação para secretário de segurança, o que dá um tempero especial ao seriado. Já a “caçadora de mentes” Vera de Luana Piovani precisa de algum veneno antimonotonia, para burlar o tipo “fria, sexy e determinada”, que é clichê na literatura policial (Divulgação)

Mas se o primeiro dos 13 episódios previstos deixou algum porém no ar, pode-se dizer que é a personagem Vera, de Luana Piovani. A “caçadora de mentes” que, em geral, mede forças com sua “caça” nunca está numa posição confortável perante o espectador. Vira e mexe é enganada, persegue pistas falsas e, não raro, tenta passar a imagem de concentrada, do tipo “missão dada é missão cumprida”. Há várias policiais como Vera nos CSI da vida.

Acontece que Vera, por enquanto, é fria demais, certinha além da conta. Mesmo com a beleza exuberante de Luana Piovani, não tem charme. E, pior, é ela que narra a série, a partir dos valiosos conhecimentos que obteve num tal estágio no FBI americano.

Não é à toa que, em meio aos tantos elogios que a série recebeu no Twitter durante a exibição, o nome de Luana tenha sido enxovalhado – muito mais do que a atriz merecia. O público tem uma implicância excessiva com ela. De  minha parte, confesso que prefiro vê-la em comédias, mas jamais se pode criticar um ator por arriscar algo novo, fora do que se espera dele.

E, sejamos justos, mais exposta do que o próprio protagonista Bruno, Luana segurou com afinco a sua Vera. Ela consegue imprimir em cena a sensualidade quase fria da investigadora clássica das histórias policiais. É dura porque é determinada, treinada pelos bambambãs do combate ao crime. Mas talvez falte à personagem – ou ainda virá a aparecer – alguma loucura particular a lhe temperar a personalidade, como uma Carrie Mathison (Claire Danes) de Homeland ou até mesmo uma Clarice Starling  (Josie Foster) de Hannibal. Esperemos.

De um modo geral, a série tem bons personagens, e seria impossível conhecer todos num primeiro episódio. Por falar em arriscar. Marisa Orth ainda deve arrasar como Sylvia Veiga, uma típica ex-mulher-raivosa-de-político-mulherengo, papel moldado por um humor fino misturado com tensão.

A Ray de Débora Falabella é um bom complemento para Bruno, e uma ótima sacada da autora. É uma jovem adulta à beira dos 30 anos, com uma filha pequena e um jeitinho alternativo e um pouco infantil, absolutamente perdida no campo afetivo. Doida para encontrar alguém, conhece um bonitão na praia e se entrega, sem saber que ele é um psicopata. O material de divulgação da série chega a dizer que ela é uma boderline, vocabulário que, na ficção, pode servir para uma criatura carente de algum carinho.

Outro acerto do seriado é o pano de fundo político. Glória Perez provoca com a ideia de que Brasília é um campo agradável para os psicopatas e o próprio Eduardo diz que será presidente da República um dia. Há ainda uma disputa pelo cargo de secretario de segurança, que Dias (Marcello Novaes) almeja, jogo que acaba se misturando com a série de assassinatos. É um recurso já muitas vezes usado nos roteiros americanos, mas não costuma cair mal.

Carente de tudo, Ray (Débora Falabella) conhece um bonitão atencioso e divertido na praia – nem passa pela cabeça dela que quando a esmola é muita o santo desconfia (Divulgação)

Carente de tudo, Ray (Débora Falabella) conhece um bonitão atencioso e divertido na praia – nem passa pela cabeça dela que quando a esmola é muita o santo desconfia (Divulgação)

Como se, dizem, não há crime perfeito na vida real, também não há história policial que consiga explicar o modus operandi de um assassino com verossimilhança a toda prova – em Dupla Identidade não é diferente. A autora optou, por exemplo, em mostrar o mínimo possível de sangue. Assim, o telespectador não consegue entender como Eduardo arrasta suas vítimas e o que faz, de fato, na “sessão de tortura” citada pela polícia. Da mesma forma, não se sabe qual a motivação do serial killer para cometer os assassinatos e o que une as vítimas – moças jovens e bonitas, por enquanto –, o que só faz enfraquecer o personagem. É que a “maldade em estado puro”, como diz Gagliasso, existe na vida real. Mas na ficção, certas justificativas são essenciais para garantir um bom programa.

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Leia também: Maldade ‘made in brazil’ conduz ‘Dupla Identidade’

19/09/2014

às 16:11 \ Fotonovela

‘Império’ vive dia de ‘O Rebu’

Juju Popular (Cris Viana) é a estrela do desfile de joias, em noite que dará muita dor de cabeça aos anfitriões José Alfredo (Alexandre Nero) e Maria Marta (Lilia Cabral) (Divulgação)

Juju Popular (Cris Viana) é a estrela do desfile de joias da Império, em noite que trará muita dor de cabeça aos anfitriões José Alfredo (Alexandre Nero) e Maria Marta (Lilia Cabral) (Divulgação)

Figurinos exuberantes, boa comida circulando nas bandejas de prata e música animada, além de penetras, personas non gratas, barracos, ligações perigosas e declarações de amor. Império (Globo, 21h20) terá seu momento O Rebu a partir do capítulo desta sexta (19) quando, após muito planejamento do cerimonialista Cláudio Bolgari (José Mayer), será lançada com pompa a nova coleção da joalheria que ambienta a trama de Aguinaldo Silva.

Bem longe da festa, Téo Pereira (Paulo Betti) publicará a fofoca que logo estará em todos os smartphones dos convidados (Divulgação)

Bem longe da festa, Téo Pereira (Paulo Betti) publicará a fofoca que logo estará em todos os smartphones dos convidados (Divulgação)

A primeira gafe da noite deve ser do anfitrião José Alfredo (Alexandre Nero), que levará um susto ao esbarrar com Cristina (Leandra Leal), a sobrinha e suposta filha. Nada boba, a mocinha não terminará a festa na rua da amargura já que, coincidentemente, seu grande amor de infância é o responsável pelos comes e bebes servidos no evento – vai ter beijo, com direito a registro da paparazzo Érika (Letícia Birkheuer).

Cristina não é a única convidada indesejável. A “sweet child” Maria Isis (Marina Ruy Barbosa) também deve balançar as madeixas ruivas no regabofe patrocinado pelo Comendador. Lembremos que ela recebeu um convite especial do filho fura-olho de José Alfredo, João Lucas (Daniel Rocha) – será que ela vai? Se for, é claro que a “imperatriz” Maria Marta (Lilia Cabral) não vai gostar nada da presença da amante do marido.

Como revelou o próprio autor no seu Aguinaldo Silva Digital, a atrapalhada Lorraine (Dani Barros), que conseguiu um bico como copeira, vai roubar um valioso anel de esmeraldas. Mas o maior bas-fond da noite certamente virá de fora do evento, a jato, pela internet: Téo Pereira (Paulo Betti) vai, enfim, revelar no seu blog a identidade do “beijoqueiro” que fora flagrado em intimidades com um jovem bonitão em pleno passeio público.

A fofoca cairá como uma bomba. Mas, menos mal, não há previsão de que um cadáver apareça boiando na piscina.

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‘Sexo e as Negas’ diverte e expõe ridículo do racismo

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17/09/2014

às 13:20 \ Folhetinescas

‘Sexo e as Negas’ diverte e expõe o ridículo do racismo

Num clima The Marvelettes, as protagonistas encerraram o episódio de estreia, que não fugiu da polêmica do racismo (Divulgação)

Num clima The Marvelettes, as protagonistas encerraram o episódio de estreia, que não fugiu da polêmica do racismo (Divulgação)

Nada como esperar a estreia de um programa para criticá-lo ou aplaudi-lo. Após um lançamento marcado pela tentativa de censura prévia sob acusação de racismo, o seriado Sexo e as Negas (Globo, 23h30) mostrou enfim a que veio: é um retrato positivo e franco da mulher batalhadora, bem-humorada e vaidosa, que tem orgulho de ser quem é.

Se Soraia (Maria Bia), Zulma (Karin Hills), Lia (Lilian Valeska) e Tilde (Corina Sabbas) representam as mulheres negras brasileiras ou não é um tema para páginas e páginas. Mas levemos em conta que a maioria das mulheres negras brasileiras está nas classes C e D. O programa é protagonizado, portanto, por tipos verossímeis, o que faz dele um acerto como entretenimento.

O autor escolheu pontos-chave do seriado americano que o inspirou, Sex and the City, e os transpôs com graça e inteligência de Manhattan para a Cidade Alta do Cordovil, complexo de favelas e conjuntos habitacionais na zona norte do Rio. Uma ao lado da outra, as meninas dão a mesma caminhada que foi a marca registrada de Carrie, Charlotte, Miranda e Samantha durante as seis temporadas na HBO e são tão marrentas e levemente atrapalhadas quanto as personagens novaiorquinas. Outro ponto em comum – e não muito louvável – é a exaltação da mulher por meio da má conduta do homem. Mas quem nunca ouviu um sujeito dizer que “elas são doidas pra engravidar e garantir pensão” que atire a primeira pedra.

Também na cola de 'Sex and the City' e com pitadas de 'Desperate Housewives', o canal americano Lifetime exibe desde o ano passado 'Devious Maids', sobre domésticas latinas que trabalham para ricaços de Bervely Hills – todo poder as batalhadoras e tudo para agradar ao público-alvo (Divulgação)

Também na cola de ‘Sex and the City’ e com pitadas de ‘Desperate Housewives’, o canal americano Lifetime exibe desde o ano passado ‘Devious Maids’, sobre domésticas latinas e charmosas que trabalham para ricaços de Bervely Hills: todo poder às batalhadoras – e tudo para agradar ao público-alvo (Divulgação)

Faltou dar uns goles num Cosmopolitan, mas não a diversão no fim da noite – veja como, pelo menos na ficção, o Cordovil pode ser tão fervido quanto o Soho. E tem o seu Mr. Big. No original americano, o personagem de Chris Noth é o homem dos sonhos de Carrie (Sara Jessica Parker). Na versão de Falabella, ele é o paquera de Jesuína (Claudia Jimenez). “Big é grande em inglês”, explicou, dando ênfase ao duplo sentido.

Durante a discussão sobre racismo que envolveu o seriado na última semana, muito se falou sobre a função social da TV, que deveria educar e blablablá. Mas, digamos melhor, dar formação cultural não pode ser feito por meio de uma cartilha, com conceitos politicamente corretos mastigados. Quem deixou a crítica rabugenta de lado ontem e assistiu a Sexo e as Negas teve, logo na primeira cena, contato com a história da Cidade Alta de Cordovil, nascida na zona norte com a remoção dos moradores da Favela da Praia do Pinto, as margens da elegante Lagoa Rodrigo de Freitas, na zona sul, que sofreu um terrível incêndio em 1968. Nos dias de hoje, como revelou o Radar on-line, a equipe da Globo desistiu de gravar no lugar por causa da violência. Ambientar uma história no bairro é uma premissa interessante, que merecia atenção.

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Houve ainda uma crítica contundente às dificuldades de mobilidade dos trabalhadores que vão da periferia para o centro. O nó em pingo d’água que as amigas dão para comprar um carro usado é o “rir para não chorar” diante do crescimento no número de veículos. Na rádio comunitária, Jesuína diz questiona: “Como sua vida vai para a frente se te tiram o direito de ir e vir?” O alívio cômico vem do depoimento de Zulma: “Quando quase todo mundo mora longe de você, aí meu amor, fica difícil arrumar um homem”, diz para a câmera, levantando a questão da solteirice difícil de resolver nos tempos atuais.

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No Twitter, entre muitos elogios, o seriado recebeu críticas sobre o perfil saliente das meninas – como se não fossem usuais os comentários sobre sexo entre amigas da vida real – e as pérolas mais clichês de todos os tempos ditas pelos personagens masculinos – como se os machistas de plantão não estivessem por aí, nas esquinas da vida.

Parte do público brasileiro ainda tende a confundir o que um autor escreve para um personagem e o que ele pensa realmente. Escrever ficção é criar conflito – impressionante estarmos discutindo isso após 60 anos de teledramaturgia, mas vá lá. Por isso, a série não poderia prescindir de diálogos machistas e racistas. Mas é claro que eles são espelho da realidade – é nesta que precisamos agir. O ridículo do racismo apareceu nas cenas, como parte do cotidiano das personagens e em suas conversas. “Quatro pretas dentro de um carro velho? Vamos ser paradas pela polícia”, debochou Zulma. Cenas depois, na churrascaria onde trabalha, Lia ouve do cliente: “Morena, avisa lá que eu gosto de carne bem passada. Bem passada mesmo, quase preta.”

Como não poderia ser diferente, Sexo e as Negas teve sexo, claro, porque faz parte da vida adulta e cabe bem num programa que vai ao ar depois das 23h30. Foi de bom gosto e com direito a muitos assobios para Rafael Zulu (Elder) nas redes sociais. De quebra, as moças cantam no final, num clima The Marvelettes – um charme.

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15/09/2014

às 15:23 \ Folhetinescas

Falabella, “as negas” e a polêmica

Miguel Falabella entre as protagonistas de 'Sexo e as Negas' – Maria Bia (Soraia), Karin Hils (Zulma), Lilian Valeska (Lia) e Corina Sabbas (Tilde): ao mesmo tempo em que cobra mais participação dos negros na TV, campanha tenta levar a censura prévia do seriado, estrelado por maioria negra (Divulgação)

Miguel Falabella entre as protagonistas de ‘Sexo e as Negas’ – Maria Bia (Soraia), Karin Hils (Zulma), Lilian Valeska (Lia) e Corina Sabbas (Tilde): ao mesmo tempo em que cobra mais participação dos negros na TV, campanha tenta levar à censura prévia do seriado, estrelado por maioria negra (Divulgação)

Até o telespectador mais acostumado as polêmicas que correm como fogo de palha na internet por causa de programas de televisão deve ter se surpreendido com a repercussão alcançada pelo bloco dos descontentes com o anúncio de Sexo e as Negas, seriado de Miguel Falabella que estreia amanhã na Globo.

Paródia com pano de fundo suburbano do seriado americano Sex and the City (HBO), vai mostrar a vida de quatro mulheres negras numa favela da zona norte do Rio. De antemão, seria o caso de festejar a abertura de um grande espaço para atores negros na TV, como protagonistas. E rir do trocadilho que o autor tirou da mistura do título original com uma gíria que circula no Rio da zona norte a zona sul – “as nêga”, dizem as cariocas, de negras para negras, de negras para brancas, de brancas para brancas.

Mas desde a semana passada cresce nas redes sociais uma campanha pelo boicote do seriado, com direito a denúncias por racismo na Secretaria Especial da Promoção da Igualdade Racial (Seppir). Começou com a implicância com o título – “Não somos suas negas, Falabella”, postam as incomodadas – e, agora, mira na profissão das personagens – cozinheira, recepcionista, camareira e operária desempregada –, que reforçariam a imagem da serviçal sensual.

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Todos os argumentos sobre as poucas oportunidades para atores negros na TV são fortes e é verdade que já demora demais uma solução que amplie a imagem do afrodescendente além do estereótipo. Mas não é um contrassenso pedir mais papéis para atores negros e, ao mesmo tempo, tentar impedir que vá ao ar um programa estrelado por maioria negra?

Precisamos ver negros protagonistas de suas histórias e é isso o que deve estar em primeiro lugar quando estamos no campo da ficção. A profissão é apenas um dos ingredientes, o que vale são os sentimentos envolvidos e a luz que se põe sobre a vida do personagem em questão.

Claro que  Soraia (Maria Bia), Zulma (Karin Hills), Lia (Lilian Valeska) e Tilde (Corina Sabbas) de Sexo e as Negas poderiam ser médicas, advogadas, esteticistas ou pertencer a qualquer profissão que não fosse configurada como serviçal. Mas por que, afinal, a doméstica não pode falar sobre sexualidade? Quem disse que as negras de Falabella são mulheres-objeto ou figuras com grande carga sensual?

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Vale dizer que, como em Sex And The City, as histórias não são sobre exatamente sobre sexo, mas sobre feminilidade na vida moderna. O primeiro episódio, por exemplo, trata da mobilidade urbana. Cansadas de pegar ônibus para chegar ao trabalho na zona sul, as personagens decidem para comprar um carro em conjunto. Elas são batalhadoras, não coitadinhas. Se bobear, vamos ver mulheres de mais garra do que as novaiorquinas da HBO. Mas se elas não forem é porque a ficção não precisa criar um tratado sociológico a cada vez que resolver passear por temas sensíveis para determinado grupo.

O mais irônico da situação é que Falabella sempre reservou espaço especial para personagens negros em suas novelas – e eles nunca passaram despercebidos. Veja abaixo uma amostra “das negas” do autor:

 

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Jacinta (Zezeh Barbosa), de ‘Salsa e Merengue’ (1996)

Quando a TV ainda nem sonhava com o fenômeno “empreguetes”, Miguel criou Jacinta para Salsa e Merengue, novela das 7 de 1996. Vivida por Zezeh Barbosa, foi um tipo bastante elogiado pela forte atitude em cena, espelhando a modernização dos empregados domésticos que explodiria nos nossos dias. Jacinta era governanta da ricaça Bárbara Amarante Paes (Rosamaria Murtinho) e ficou famosa por dizer o que pensa a patroa, que a tinha como braço direito e amiga.

 

 

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Latoya, (Zezeh Barbosa), de ‘A Lua Me Disse’ (2005)

“Não como chocolate, café nem feijão. Porque preteja”, dizia a Latoya de A Lua Me Disse, em 2005. Batizada Anastácia e utilizando-se de codinome inspirado pela irmã de Michael Jackson, a vilã tinha vergonha de sua negritude e gritava isso aos quatro ventos, ao mesmo tempo em que se metia em negociatas para tentar subir na vida.

 

 

 

 

 

 

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Tamanco (Mart’nália) e Marcão (Maurício Xavier), de ‘Pé na Cova’ (Mart’nália)

Mecânica lésbica, Tamanco fisgou Odete Roitman, a mulher mais bonita do Irajá de Pé na Cova, que estreou no ano passado. Não bastasse, num clima meio Modern Family tropicalista, casou-se com ela e adotou um garoto negro. Vale dizer que Odete era filha de Ruço, papel do próprio Falabella, que terminou o seriado ainda como avô de uma bebê oriental. Tamanco, não se pode esquecer, era irmã de Marcão (Maurício Xavier), mecânico durante o dia e travesti à noite.

13/09/2014

às 8:35 \ Folhetinescas

Ao final de um dia longo demais, ‘O Rebu’ volta a 1974

Que dia, meninas!: Duda (Sophie Charlotte) confronta Angela Mahler (Patrícia Pillar), que matou Bruno (Daniel de Oliveira) congelado, na delegacia (Divulgação)

Que dia, meninas!: Duda (Sophie Charlotte) confronta Angela Mahler (Patrícia Pillar), que matou Bruno (Daniel de Oliveira) congelado, na delegacia (Divulgação)

A Globo testou a paciência do telespectador fiel de O Rebu, que teve de esperar até as 23h40 para assistir ao último capítulo, exibido na noite desta sexta (12). Os que resistiram a um Globo Repórter sobre sono – que ironia – descobriam que não era Duda (Sophie Charlotte) a assassina de Bruno (Daniel de Oliveira), como o penúltimo capítulo fez supor, mas Angela Mahler (Patrícia Pilar).

A anfitriã da festa mais glamourosa e problemática da teledramaturgia teve chance de salvar a vida do namorado de sua protegida, mas aproveitou para dar um fim ao funcionário inconveniente derrubando a temperatura do freezer onde Duda o escondera, após a discussão que terminou com ela batendo na cabeça dele. Angela se livrou da polícia porque, ainda de olho na herança de sua protetora, Duda assumiu sozinha a culpa. Mas não chegou viva ao fim do mais longo dos seus dias: levou um tiro, que atravessou uma das vidraças da mansão, em cena épica – Severino (Claudio Jaborandy), que continuava escondido na mata, foi o autor do disparo. Um pouco antes, foi também genial o momento que uniu as duas pontas da história, quando as cúmplices jogaram o corpo da vítima na piscina e voltaram para a festa – direto para o belo plano-sequência que atravessou a pista de dança no início da trama. Aquele ar de Flora de A Favorita que Patrícia usou ao tomar um gole de champanhe parece agora a melhor dica de que era ela a vilã.

Quando o rebu acabou na mansão, a solitária Angela Mahler (Patrícia Pillar) foi assassinada pelo garçom Severino (Claudio Jaborandy): produção impecável prejudicada pela quantidade excessiva de capítulos, a novela não conseguiu envolver o telespectador no seu "quem matou?" (Divulgação)

Quando o rebu acabou na mansão, a solitária Angela Mahler (Patrícia Pillar) foi assassinada pelo garçom Severino (Claudio Jaborandy): produção impecável prejudicada pela quantidade excessiva de capítulos, a novela não conseguiu envolver o telespectador no seu “quem matou?” (Divulgação)

A revelação, portanto, não chegou a ser surpreendente. Pelo contrário, foi um desfecho próximo do que Bráulio Pedroso escreveu para a O Rebu original, em 1974: Angela é uma releitura do anfitrião Conrad Mahler (Ziembinski), que matou Silvia (Bete Mendes) por ciúme de seu protegido e amante, Cauê (Buza Ferraz).

Os autores George Moura e Sérgio Goldenberg mudaram o enredo, mas chegaram ao mesmo ponto de 40 anos atrás. Após um longo jogo de esconde-esconde pela posse do dossiê que incriminava Carlos Braga (Tony Ramos), o crime pareceu ter como motivo principal a vontade de Angela de afastar Duda e Bruno. Envolvido em negociatas que cercavam a exploração de uma plataforma do pré-sal, Braga terminou preso.

De certa forma, mesmo com um verniz de seriado americano, a novela teve um impacto semelhante ao de 1974, quando foi apresentada na faixa das 22h. Inovadora na narrativa, elogiada pela crítica e com grande influência do cinema, não conseguiu, entretanto, segurar o público ao longo da história, que se passou em 24 horas mas que foi contada em mais capítulos do que deveria. Antes, foram 112 e agora, 36. Quem sabe uma minissérie, em vez de uma novela, aproveitaria melhor a produção impecável, mais um biscoito fino da equipe do diretor José Luiz Villamarim (de O Canto da Sereia e Amores Roubados) que foi palco para atuações sempre notáveis de nomes como Tony Ramos, Patrícia Pillar, Cássia Kis Magro e Sophie Charlotte, no seu melhor trabalho na TV até aqui.

No fim das contas, a solução do mistério sobre quem matou Bruno estava o tempo todo numa mensagem de celular que a vítima mandou de dentro do freezer para Kiko (Pablo Sanabio), antes de morrer congelado. Tão malandro, o técnico de TI bem que poderia ter arriscado uma chamada para bom e velho 190 ou, se quisesse escapar em alto estilo, atualizado o status no Facebook, como fizeram os convidados da festa freneticamente. Em vez disso, mandou um SMS para o amigo da onça, a principal pista do mistério. E a sensação é de que a equipe do delegado Pedroso (Marcos Palmeira) poderia ter sido mais ligeira – mas, lembre-se, só se passaram 24 horas.

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