02/07/2012
às 12:59 \ Entrevista“O brasileiro ainda é provinciano no sexo”, diz diretor de ‘Gabriela’

Gabriela (Juliana Paes) e Nacib (Humberto Martins): "Ela gosta de transar, e é preciso representar esse fogo", anota Mauro Mendonça Filho (Divulgação/TV Globo)
Não se pode dizer que toda a liberdade de Gabriela ainda choque alguém que, desavisado, assista à nova adaptação do romance de Jorge Amado, exibida no horário das 23h da Globo. Espanto mesmo é perceber que 37 anos depois da primeira Gabriela, 26 anos depois de Dona Beija e 22 anos depois de Pantanal, a nudez e o sexo na TV aberta ainda causam tanto barulho, curiosidade e piadas, especialmente nas redes sociais. “Acho que o brasileiro ainda é provinciano em assuntos de sexo”, diz o diretor Mauro Mendonça Filho em conversa com o blog.
Com obras que marcaram época no currículo, como Renascer (1993) e Dona Flor e Seus Dois Maridos (1998), o diretor vem testando limites desde o ano passado, quando comandou o remake de O Astro, que inaugurou o horário das 23h como um espaço para “novelas adultas”. Com uma carga de sensualidade que não havia no original de 1978, não é exagero dizer que a novela acabou chamando mais atenção pelo desfile de beldades como Ellen Roche e Guilhermina Guinle do que pela história do protagonista Herculano Quintanilha (Rodrigo Lombardi). “Em O Astro, a gente testou os limites da ousadia – e há limite. Mas Gabriela é naturalmente mais ousada, a história pede essa sensualidade mais marcada”, observa.
A começar pela luz e a ambientação, O Astro e Gabriela são totalmente diferentes. Fora o horário, você vê uma identificação entre os dois projetos que comandou?
O Astro se aproxima mais de Gabriela do que o contrário. O Jorge Amado sempre foi um autor adulto, que sempre desmascarou a hipocrisia, seja sexual, política ou de exploração da miséria. A primeira versão de Gabriela já foi uma novela das 22h. Jorge Amado tem sido pouco adaptado no cinema, e a televisão tem a vantagem de que tudo pode parecer muito novo, então ele pode ser novidade para muita gente.

Mauro Mendonça Filho dirige Mateus Solano (Mundinho Falcão) e Nelson Xavier (Coronel Altino) (Divulgação)
Ao mesmo tempo, a obra dele já carrega uma marca audiovisual da qual é difícil fugir.
Sim. Quando você fala em Ilhéus, tem logo aquela malemolência que é quase um clichê de Jorge Amado e Dorival Caymmi, mas que é verdadeira, é uma coisa que se sente quando se chega na Bahia. E é uma história de 1925, então você tem de contextualizar. Se você tem duas meninas dentro de um quarto conversando, tem de conseguir ilustrar a solidão feminina numa sociedade dominada pelos homens. Não tem cena fácil… Se o cara vende um exemplar de O Crime do Padre Amaro para a menina, a cena tem de conseguir passar o que o livro representava na época – é difícil pra burro.
É justo que Gabriela seja considerada mais sensual do que O Astro?
Em O Astro, a gente testou os limites da ousadia – e há limite. Mas Gabriela é naturalmente mais ousada, a história pede essa sensualidade mais marcada.
Ainda que seja uma sensualidade mais ingênua, digamos?
Não sei se mais ingênua, mas livre de preceitos… Gabriela é uma mulher que foi deflorada pelo tio, ela não sabe o que é certo e errado nesses assuntos. Ela é dona de si, e é preciso representar essa liberdade, essa sensualidade e esse fogo. Ela gosta de transar – vê um moço bonito e transa. Ainda se julga as mulheres por esse tipo de comportamento, o que é muito hipócrita. Ao mesmo tempo, a história se passa numa época em que honra de marido traído se lavava com sangue, então a sensualidade das mulheres era muito reprimida – quando aparecia, era forte… Por isso, o bordel Bataclan tem de ser sensual, porque é o contraponto daquela rigidez toda que as mulheres viviam.
As cenas quentes de O Astro causaram muito barulho, como agora acontece com as de Gabriela. Como você vê essa reação?
Não estava previsto aquela sensualidade toda em O Astro, não estava no papel. Foi uma coisa da minha batuta, eu achei que deveria pisar no acelerador para caracterizar a novela como uma obra mais adulta. Acho que o brasileiro ainda é provinciano com assuntos de sexo. Faz muita piada, tem muito voyerismo, há muita sensualidade e nudez, mas na hora H, de se abrir e se colocar, é muito hipócrita. A sociedade precisa se desenvolver mais, precisamos educar nossos filhos sem tabu. Acredito nisso piamente. Sexualidade é absolutamente normal.
Já fomos menos puritanos?
A gente vive ciclos, né… Ciclos de liberdade e outros de menos liberdade, e a TV reflete esses ciclos. Já vivemos tempos de mais liberdade, então nada mal quebrar um pouco essa barreira com obras como O Astro e Gabriela… Afinal, estamos falando para 30 milhões de pessoas e isso pode formar opinião. É bom pisar um pouco no acelerador e quebrar um pouco o politicamente correto. E o horário permite.
Veja também:
Gabriela do HD fez depilação a laser
“Só quero fazer bem feitinho”, diz Juliana Paes sobre ‘Gabriela’
Não tenho que provar nada, diz Walcyr Carrasco
Núcleo duro dos coronéis será destaque em ‘Gabriela’
→ Curta o Quanto Drama! no Facebook
Tags: Gabriela, Juliana Paes, Mauro Mendonça Filho, O Astro


UFC: Dana White já promove 'trilogia' Cigano x Velasquez
Corinthians e Botafogo empatam no jogo das faixas em SP








Deixe o seu comentário
Aprovamos comentários em que o leitor expressa suas opiniões. Comentários que contenham termos vulgares e palavrões, ofensas, dados pessoais (e-mail, telefone, RG etc.) e links externos, ou que sejam ininteligíveis, serão excluídos. Erros de português não impedirão a publicação de um comentário.
» Conheça as regras para a aprovação de comentários no site de VEJA
16 Comentários
Ju Almeida
-14/07/2012 às 12:28
Bem , se olharmos para a historia da nossa colonização , veremos que nós estivemos a frente dos portugueses em materia de sexualidade .Vejamos : quando os portugueses chegaram aqui encontraram um povo nú. Os europeus trouxeram aquelas vestes toda.a carta de Pero Vaz de Caminha cita essa sexualidade toda do povo brasileiro . O que mais estou vendo nos comentarios de outros endereços eletronicos não são sobre o horario da minisserie ser muito tarde. Isso nos diz que estão contrariados porque trabalham e não podem assitir devido o horario .Ha uma incoerencia ai.Como deve -se passar mais cedo se veem como imoral e mais cedo será mais imoral ainda?
Elvira Akchourin do Nascimento
-05/07/2012 às 9:35
Interessante o contraste entre as mulheres livres (como Gabriela) e as libertinas (do Bataclã) com as feministas (como Malvina) e as infelizes no casamento, que pagam caro por seu adultério (Sinhazinha), temas que continuam atuais.
Elvira Akchourin do Nascimento
-05/07/2012 às 9:33
Realmente, muito da audiência de “O Astro” e “Gabriela” se deve às cenas dos nus. As duas tramas estão sendo levadas ao ar num horário mais tardio do que as demais por conta da ousadia dessas cenas. Mas a obra de Jorge Amado é recheada de personagens sensuais e a novela está cumprindo esse papel.
Ana
-03/07/2012 às 18:11
O que acho interessante na estória é o contraste entre as várias mulheres da cidade. As casadas fazem sexo por obrigação (caso da Sinhazinha). As do bordel fazem sexo por dinheiro. A única que faz sexo por desejo e prazer é a Gabriela… Ela é realmente uma personagem muito livre e dona de si. As outras são todas escravas dos homens (os maridos ou os clientes do bordel).
Julia
-03/07/2012 às 17:24
Também concordo com a Rosana. A obra de Jorge Amado é para um público mais adulto. E a novela está ótima. Quem se sentir envergonhado, que não assista, oras (mas aposto que o pessoal que está aqui criticando vai escondidinho ligar a TV e assistir, rsrsrs. É a hipocrisia brasileira, como o Jorge Amado sempre desmascarou nos livros dele).
www.schatzsexshop.com.br
-03/07/2012 às 13:32
Concordo com a Rosana. Jorge Amado tem romances sensuais e mais pegada. É para um publico adulto, portanto é passado às 23:00. Isso é, há muito tempo, horário de criança estar na cama e outra… cada um escolhe o que quer e deve ver!! Adoro Jorge Amado e não perco um capitulo! De qualquer forma a pessoa que diz não gostar… é mentirosa! Pode se sentir envergonhada na frente de outras pessoas, mas quando está sozinha, CERTEZA que assiste e gosta! Pois não tem nenhuma novidade!! Todos gostamos e praticamos sexo!
www.schatzsexshop.com.br
-03/07/2012 às 13:30
Concordo com a Rosana. Jorge Amado tem romances sensuais e mais pegada. É para um publico adulto, portanto é passado às 23:00. Isso é, há muito tempo, de criança estar na cama e outra… cada um escolhe o que quer e deve ver!! Adoro Jorge Amado e não perco um capitulo! De qualquer forma as pessoas que dizem não gostar… é mentirosa! Podem se sentir envergonhadas na frente de outras pessoas, mas quando estão sozinhas, CERTEZA que assistem e gostam! Pois não tem nenhuma novidade!! Todos gostamos e praticamos sexo!
Gerxes Burgues
-03/07/2012 às 13:17
Provinciano ou não brasileiro adora uma sacanagem, e sacanagem dá audiência.
Kerston
-03/07/2012 às 12:38
O brasileiro é tão provinciano que assiste e compra As Crônicas de Fogo e Gelo sem problemas, né não?
Rosana O.
-03/07/2012 às 11:45
Não é falta de talento meu caro Joe Silva. A obra de Jorge Amado é assim mesmo. Títulos como Gabriela, Teresa Batista e Tiêta tem mesmo esta pegada mais sensual.E Jorge Amado é leitura para gente grande!
Genivaldo sousa
-03/07/2012 às 11:00
É que o sexo esta tão exposto que agente já nem si encomoda mais,não é sr.mauro mendonça.
palm
-02/07/2012 às 22:06
Concordo com o Joe.
Provinciano? Fala sério. Vide as pornochanchadas.
E ainda acham pouco.
Esse mundo tá perdido mesmo…
mariney
-02/07/2012 às 21:21
Essa apelação sexual na tv,ficou absurda.
falta respeito com a família brasileira.
Thais
-02/07/2012 às 20:52
a PUTARIA já corre solta sem esses exageros na novela, imagina agora, porque sabe “né?” brasileiro se espelha em novela…
Joe Silva
-02/07/2012 às 17:33
Bom, para o brasileiro ser mais libertino só falta a gente ver sexo no meio da rua.
Quando o autor não tem talento, tem que apelar para o sexo mesmo, não é, seu Mauro Mendonça ?