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20/01/2014

às 12:53 \ Entrevista

‘A Neide me fez sofrer muito’, diz Sandra Corveloni, a mãe da autista Linda de ‘Amor à Vida’

No capítulo de hoje de 'Amor à Vida', Neide (Sandra Corveloni) se descontrola com Linda (Bruna Linzmeyer): "Por sua causa, eu não posso fazer nada. Eu sou prisioneira aqui nessa casa, prisioneira!", dirá (Divulgação)

No capítulo de hoje de ‘Amor à Vida’, Neide (Sandra Corveloni) se descontrola com Linda (Bruna Linzmeyer): “Por sua causa, eu não posso fazer nada. Eu sou prisioneira aqui nessa casa, prisioneira!”, dirá (Divulgação)

Não é difícil chegar à conclusão de que Linda (Bruna Linzmayer) vive um conto-de-fadas em Amor à Vida (Globo, 21h15). Jovem autista super protegida pela família e fazendo jus ao nome que autor Walcyr Carrasco lhe deu, ela é a própria princesa encerrada na torre alta de um castelo, esperando que o príncipe Rafael (Rainer Cadete) venha salvá-la e despertá-la para o mundo exterior. A função dramática de impedi-lo sobrou para a mãe da moça, Neide, identificada imediatamente como a bruxa da história, já que o zelo com que cerca a filha é empecilho para o desenvolvimento e felicidade dela. “Sofri bastante na construção dessa personagem”, diz a atriz Sandra Corveloni, que antes de a novela começar já vivia embates internos contra a tentação de julgar Neide. “No começo, parecia impossível separar o que eu penso do que ela pensa. Conversei muito com os diretores, e a Nathália (Timberg, que vive a Bernarda) me ajudou muito a compreender a personagem.”

Com uma carreira construída especialmente no teatro e acostumada a plateias menores, Sandra não deixa de se espantar com a repercussão de seu primeiro papel numa novela das 9 da Globo – ainda mais depois que o “príncipe” Rafael foi preso por beijar Linda. Com certa frequência, acompanha o que falam sobre Neide nas redes sociais – onde se pede até uma morte bem dolorosa para personagem – e chega a sentir pena dela. Mas diante dos comentários nada lisonjeiros no Twitter, a atriz prefere se apegar ao fato de que, mesmo com todos os limites da ficção, a discussão sobre o convívio com pessoas especiais foi levantada. “Isso é muito importante, fico muito feliz. Mães de autistas que me escrevem e me abordam na rua mostram que esse medo que a Neide tem é bastante comum. E, com seus erros, personagem mostrou que não é com medo que se resolve as coisas”, observa a atriz.

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Premiada com a Palma de Ouro no Festival de Cannes por outra mãe sofrida, a Cleusa do longa-metragem Linha de Passe (Walter Salles e Daniela Thomas, 2008), e com uma carreira construída quase totalmente no teatro, Sandra Corveloni conversou com QUANTO DRAMA! sobre a controversa personagem que, enfim, a tornou conhecida do grande público da TV.

Em 'Linha de Passe', de Walter Salles e Daniela Thomas, em 2008: mãe sofrida da periferia de São Paulo deu a Sandra Corveloni a Palma de Ouro de melhor atriz no Festival de Cannes (Divulgação)

Em ‘Linha de Passe’, de Walter Salles e Daniela Thomas, em 2008: mãe sofrida da periferia de São Paulo deu a Sandra Corveloni a Palma de Ouro de melhor atriz no Festival de Cannes (Divulgação)

Como tem visto o momento de Linda e sua família em ‘Amor à Vida’, agora que a história chegou no ápice?

Está sendo bastante importante, estou bem feliz. Foi importante para mim, como atriz, perceber que é uma história que a gente conta em conjunto, um pedacinho cada um, e que é preciso confiar no autor, o grande regente, nesse processo. Todo o sofrimento e trajetória dessa família, mostrados em doses homeopáticas durante a novela, agora fecham um ciclo importante para o espectador. Veja quantas cenas foram feitas para mostrar como o Rafael se aproximou da Linda aos poucos, devagar. Ao mesmo tempo, foi mostrado o medo da mãe, que pode até ter parecido exagerado para alguns. Mas esse medo é bem comum. Pessoas me escrevem e falam nas ruas sobre como ajudar uma criança especial a se desenvolver. A Neide serviu para mostrar que tendo medo é que não é. É com paciência. Essa visão tem sido importante para muita gente. Ela é uma mãe que, sem querer e por amor, acaba fazendo mal.

Mais do que isso, ela virou “a bruxa” no conto-de-fadas da Linda.

Sim, eu sei. Sofri bastante no começo, foi difícil essa construção. No começo, pareceu impossível separar o que eu penso do que a Neide pensa. Tive de fazer um esforço para deixar a Sandra em casa e ir para o estúdio com a Neide, me colocando no lugar dela, lendo sobre mães de filhos especiais. Antes de começar a gravar, eu imaginava essa história como espectadora. Mas eu não posso julgar a Neide com meu caráter e minha experiência de vida. A discussão que foi levantada é muito boa, mas não se pode esquecer que é uma história de ficção e que o autor tem a liberdade para escrever.

Quem é a Neide para você, afinal?

Uma mulher sozinha, com um casamento um pouco morno – ela se anulou. Perceba como aquela família é triste, a casa parece uma micro-empresa, eles têm muitas coisas para fazer e não convivem com amor – o que é uma coisa muito real, que se vê por aí. Agora, outras coisas vão acontecer para mostrar um outro lado da Neide. Gostei muito do desfecho da minha turma – com exceção da Leila, que morreu queimada, coitada! Sofri com a morte da Leila (Fernanda Machado), fiquei bem amoada. Nós três (Bruna, Fernanda Machado e ela) ficamos bem juntinhas.

Você acha que a Linda deve namorar?

Durante o processo de preparação, conheci muitos autistas e consegui perceber que são pessoas muito diferentes entre si. Então, é um caso que não se pode avaliar de maneira geral. Por isso, digo que o namoro pode ser possível para uma pessoa com as características da Linda, que tenha encontrado alguém sincero e paciente como o Rafael – esse é o caso deles dois. Mas a gente não sabe, a vida é muito misteriosa. E não podemos esquecer que a Linda é uma criação do Walcyr, que aparece para a gente por meio da criação da Bruna e da relação com os nossos personagens naquele núcleo. É uma pessoa que só existe na novela. É uma obra de ficção que, por meio de uma metáfora e até um conto-de-fadas como você disse, passa a mensagem de que podemos dar uma chance a um sentimento sincero. Mesmo que muita gente ache um absurdo uma autista namorar, eu acredito que a mensagem é “dê uma chance ao amor”.

Elenco de 'L´illustre Molière', em cartaz no teatro Eva Herz, em São Paulo: dirigida por Sandra Corveloni, a peça levou três prêmios Shell no ano passado (Divulgação)

Elenco de ‘L´illustre Molière’, em cartaz no teatro Eva Herz, em São Paulo: dirigida por Sandra Corveloni, a peça levou três prêmios Shell no ano passado (Divulgação)

Depois que ganhou a Palma de Ouro de Melhor Atriz, em 2009, você começou a fazer TV. Coincidência?

Uma coisa leva à outra. O fato de fazer mais teatro, e ainda em São Paulo, torna mais difícil o caminho na TV e no cinema, porque você acaba não conhecendo as pessoas do audiovisual, os diretores. Mas quando começa a fazer cinema, daí sim, começa a fazer televisão. Acho que foi isso. Antes de Linha de Passe, as pessoas não me conheciam no meio e o cinema abriu essas portas. Amor à Vida está sendo uma grande experiência na televisão, uma novela longa que deu tempo para experimentar o diálogo com o autor. Então, está sendo muito legal. É engraçado porque ainda não entendo muito o posicionamento no set – eu viajo, esqueço, começo a explorar o espaço em volta sem me tocar das câmeras (risos). Televisão é muito mágico. Mesmo eu, que vejo todos os dias o estúdio, me surpreendo quando assisto à cena em casa, e até esqueço de que é um cenário.

O que virá depois do fim da novela?

Minha companhia, a Cia. da Alma, estreou no último fim de semana em São Paulo, no Teatro Eva Herz, um espetáculo chamado L’Illustre Molière, que eu dirijo (em cartaz até 23 de fevereiro). É uma comédia com música ao vivo, bem teatral, que usa trechos dos clássicos do autor, como O Doente Imaginário, As Eruditas, Don Juan e Tartufo, além dos bastidores das montagens originais, para contar a vida ele.

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7 Comentários

  1. m_sinistra

    -

    16/02/2014 às 16:27

    Eu acho que o Walcry conseguiu muito bem equilibra o romance do Rafael e da linda e que as pessoas não estão acostumados de ver o amor tão puro assim quanto foi dos dois e sem receber nada de troca

  2. cristian

    -

    20/01/2014 às 21:25

    Mas manter uma relação sexual com uma incapaz não é considerado estupro?

  3. j,

    -

    20/01/2014 às 20:19

    Não tem lógica pois ela não tem culpa a Linda

    Até NISSO O WALCYR NÃO SOUBE ABORDAR ERROU A MÃO

    NÃO TINHA NADA A VER A HISTÓRIA DE ROMANCE

    A INTENÇÃO FOI BOA MAS NÃO COLOU É COMPLICADO ESSE ” DÁ UMA CHANCE AO AMOR”

    ENFIM FRSUTADA ESSA NOVELA TOTAL

    WALCYR SAIBA APROFOUNDAR SUAS TEMÁTICAS E PERSONAGENS E ESCOLHER SEUS ATORES

    NO MAIS decepção

 

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