Blogs e Colunistas

27/08/2010

às 9:53 \ Sem categoria

Cumplicidade por omissão

Como recomenda o regulamento não escrito do clube bolivariano, a Venezuela saiu na frente – e abriu caminho para a imediata reprise da infâmia por um sócio dependente. A pretexto de impedir a publicação de imagens que possam ferir a sensibidade dos leitores, Hugo Chávez impôs nesta semana um mês de censura prévia aos jornais do país. Estimulada pelo parceiro e eventual patrocinador, a argentina Cristina Kirchner deu outra volta no garrote forjado para estrangular o grupo Clarín.

Incluída na Declaração dos Direitos Humanos, a liberdade de expressão precede e ampara a liberdade de imprensa. São igualmente intoleráveis quaisquer tentativas de cerceá-la – ou com proibições ostensivas, caso da Venezuela, ou com a interrupção do suprimento de papel, como se tenta na Argentina. Abusos ou delitos cometidos pela imprensa só podem ser punidos depois da publicação do texto. Abortá-lo previamente é censura. Configura um ato liberticida, e como crime deve ser tratado por todos os países democráticos.

O governo brasileiro não se manifestou sobre nenhum dos casos. Até que quebre o silêncio conveniente, é cúmplice por omissão.

19/08/2010

às 16:39 \ diplomacia

O direito do indivíduo e a preocupação do estado

A rigorosa reação de Seul às tuitadas de Kim Jong-il pode ser discutida a partir de três pontos de vista: o do cidadão, o do estado e o prático. Para o indivíduo sul-coreano, que diante de seu computador quer conhecer o mundo, ter censurado – sob ameaça de prisão – o acesso ao perfil no Twitter do ditador pigmeu é um abuso ao estilo norte-coreano. Cabe negociação a respeito? Não. O direito de os sul-coreanos acompanharem os delírios de Pyongyang não deveria ser tocado. Há uma única exceção a essa lei: se as mensagens vindas do norte de fato colocassem em risco o próprio direito dos sul-coreanos de conhecê-las – ou seja, caso ameaçassem a democracia, a liberdade de expressão. E, então, passamos ao segundo ponto de vista da questão, o do estado. Tecnicamente, norte e sul estão em guerra, alimentada diariamente por Pyongyang com ameaças atômicas. Por esse prisma, ao reagir aos tweets do norte, Seul apenas executa um contra-ataque na guerra de informação. O terceiro viés – o prático – pode devolver aos elementos desta história sua real dimensão, mostrando que, entre os sul-coreanos, o direito do indivíduo deve prevalecer sobre a preocupação do estado. Basta uma pergunta: faz algum sentido a próspera nação do sul temer tuitadas vindas do roto território do norte, onde a opressão é abundante e a comida, escassa? Não, nenhum sentido. Seul tem se preocupado com pouco mais de 8.000 de seus cidadãos que seguem o perfil de Kim Jong-il, mas é quase desnecessário dizer, porque tão óbvio, que boa parte dessas pessoas deve espiar as mensagens do norte como quem espreita a grama do vizinho por sobre o muro, descrente da terra arrasada que vê.

16/08/2010

às 7:16 \ Campanha política

Um coquetel explosivo

Ao transformar-se em patrono e cabo eleitoral de uma candidata à sucessão, o presidente da República agrediu a democracia e a ética. Ao colecionar punições por propaganda antecipada, agrediu a democracia, a ética e a lei. Ao decidir que os ministros devem juntar-se ostensivamente ao palanque de Dilma Rousseff, como fez agora, Lula atropela simultaneamente a democracia, a ética, a lei e o conceito de nação.

O governo existe para atender aos interesses de todos os brasileiros, não de um partido. Ministros são pagos pelos contribuintes para resolverem problemas públicos, não privados. A mistura de coisas que não podem andar juntas era, por enquanto, lastimável. O coquetel tornou-se explosivo. Cabe à Justiça impedir que seja servido.

12/08/2010

às 19:54 \ Sem categoria

Intervenção oportuníssima

A anistia política sempre figurou entre as mais belas tradições nacionais, e poucos países souberam utilizá-la com tanta eficácia. Foi esse o providencial escape que, ao longo da história, livrou o Brasil de inúmeros becos aparentemente sem saída. Foi assim em 1979, quando a decretação da anistia ampla, geral e irrestrita permitiu a volta dos exilados e apressou a ressurreição da democracia.

Neste começo de século, como notou Millôr Fernandes, a farra financeira promovida pela Comissão de Anistia do Ministério da Justiça pareceu transformar em investimento o que seria uma opção ideológica — e ameaçou desmoralizar uma fórmula especialmente cara a quem valoriza a conciliação. A oportuníssima intervenção do Tribunal de Contas da União pode corrigir os desvios já ocorridos e paralisar de vez o trem da alegria. Melhor para os cofres públicos.

Os brasileiros que pagam todas as contas da gastança agradecem.

10/08/2010

às 21:55 \ Sem categoria

A entrevista ganhou do debate

As entrevistas com Dilma Rousseff e Marina Silva atestaram que os 48 minutos distribuídos por quatro candidatos pelo Jornal Nacional serão muito mais interessantes, animados e reveladores que as duas horas e meia do debate na Band que reuniu as duas concorrentes à Presidência, José Serra e Plínio de Arruda Sampaio. O debate excessivamente engessado caducou. Para ser muito mais eficaz, a TV Globo limitou-se a ressuscitar a velha receita: os entrevistadores perguntam com objetividade e procuram impedir que o entrevistado fuja da resposta.

Enquanto a Justiça eleitoral não remove as algemas que impedem saudáveis duelos entre candidatos escolhidos pelos organizadores do debate, as emissoras de TV devem adotar e aperfeiçoar a fórmula do Jornal Nacional, ampliando o tempo da conversa. Quem viu as entrevistas na Globo hoje sabe muito mais sobre Dilma e Marina do que quem só assistiu ao debate na Band.

06/08/2010

às 0:23 \ Sem categoria

O primeiro debate presidencial: quinto bloco

Nas considerações finais, Marina foi surpreendentemente insossa, Dilma foi previsivelmente confusa, Serra foi exageradamente vago e Plínio exemplarmente preciso:  “Aqui, todos se mostraram dispostos a fazer o bem e evitar o mal. Isso não quer dizer nada”. No primeiro debate na TV, não houve nada parecido com um debate.

06/08/2010

às 0:11 \ Sem categoria

O primeiro debate presidencial: quarto bloco

Entre todas as camisas-de-força que sufocam os debates eleitorais no Brasil, nenhuma parece mais asfixiante que a supressão do direito à réplica dos jornalistas que formulam perguntas. No quarto bloco, nenhum candidato ofereceu respostas claras, sólidas e abrangentes. Como a réplica ficou por conta de outro participante, ouviu-se invariavelmente um discurso sem compromisso com a pergunta e sem vínculos com a resposta.

05/08/2010

às 23:47 \ Sem categoria

O primeiro debate presidencial: terceiro bloco

Sem nada a perder, Plínio de Arruda Sampaio foi o único a formular propostas que os telespectadores entendem (entendem também que são inviáveis). Marina continua em busca de um discurso consistente. Serra e Dilma acionaram a duas vozes a usina de cifras: quantidade de cirurgias de varizes, número de tratores vendidos, capacidade da indústria naval, casas populares construídas ou por construir. O terceiro bloco foi uma procissão de estatísticas improváveis.

05/08/2010

às 23:15 \ Sem categoria

Primeiro debate presidencial: segundo bloco

Os participantes do debate repetiram truques e táticas que aceleraram o desgaste da fórmula adotada pela TV brasileira. Evitaram o confronto, fizeram perguntas a si próprios para respondê-las na réplica, despejaram números que nenhum espectador consegue assimilar. Quem ligou a TV no segundo bloco pode ter chegado ao intervalo sem descobrir que se trata de um debate. A fórmula adotada nos últimos anos deve ser urgentemente aposentada.

05/08/2010

às 23:05 \ Campanha política

O primeiro debate presidencial: primeiro bloco

A maior surpresa do primeiro bloco foi o nervosismo coletivo. À exceção do tarimbado Plínio de Arruda Sampaio, todos tropeçaram em sílabas e concordâncias. Marina Silva trocou palavras, José Serra foi traído pela palidez, Dilma Rousseff não conseguiu formular uma única resposta sem estourar o prazo. Serra está mais interessado em expor as próprias idéias do que em contestar as alheias. Dilma tenta seguir um roteiro previamente estabelecido mas não consegue resistir a desvios. Até agora, ninguém se destacou do pelotão para assumir a liderança da corrida de duas horas.

 

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