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27/09/2010

às 14:15 \ AVENIDA, FIGURAS

JAMELÃO

Há dois anos morria o cantor


Jamelão: cantor e puxador, sim!

Por Julio Cesar de Barros

José Bispo Clementino dos Santos, o Jamelão, o maior puxador de samba-enredo de todos os tempos e um insuperável intérprete de Lupicínio Rodrigues, morreu no dia 13 de junho de 2008, aos 95 anos, de falência múltipla dos órgãos, na Clínica de Saúde Pinheiro Machado, no Rio. Jamelão era diabético e hipertenso e havia sofrido dois derrames. Carioca do bairro de São Cristóvão, onde nasceu em maio de 1913, Jamelão foi um mangueirense fiel. Ingressou na escola nos anos 30 do século passado, tocando tamborim. Logo descobriu-se cantor, vocação que desenvolveu nas gafieiras dos subúrbios do Rio. Entrou para o rádio como calouro em programas de auditório e acabou contratado no final da década de 40 pela extinta Rádio Clube do Brasil. Foi crooner da famosa Orquestra Tabajara, do maestro Severino Araújo, e construiu uma sólida carreira em discos, gravando sambas dos maiores nomes da era de ouro da música popular brasileira. Mas foi como cantor de sambas-canção e intérprete de Lupicínio que ele se consagrou junto ao público e à crítica. “É o cantor que expressa melhor o desespero que eu procuro colocar em algumas letras”, dizia Lupicínio. Do compositor gaúcho ele gravou sucessos como Ela Disse-me Assim e Esses Moços. Imortalizou também clássicos de outros grandes compositores do gênero, como Matriz ou Filial, de Lúcio Cardim. Apesar de grande intérprete de sambas-canção, talvez o maior de todos, Jamelão ficou muito popular como puxador-de-samba da Mangueira, função que exerceu por quase 60 anos.

 
Lupicínio: sambas-canção para Jamelão

Ouça Ela Disse-me Assim:
httpv://www.youtube.com/watch?v=2EdGDsqNQkg

Só os problemas de saúde o afastaram do microfone. Em 2007, devido a dois derrames sofridos em pouco mais de um mês, entre outubro e novembro do ano anterior, não pôde puxar o samba da escola. Até então, seu ritmo era intenso e o descuido com a saúde permanente. “Bebi até três meses atrás, mas o homem do jaleco me mandou parar”, disse em outubro de 1999. Em setembro de 2006, “cantou por quase três horas no Bar Brahma, esticou conversa com os fãs por mais uma hora e terminou a madrugada em um restaurante, onde devorou um cheese-picanha e um cheese-salada” (Monica Bergamo, Folha de S. Paulo). “Eu só paro no dia em que morrer. Enquanto estiver vivo e tiver garganta, estou aí…”, dizia. O artista desprezava a denominação tradicional de “puxador-de-samba”. “Puxador não, sou cantor!”, resmungava.

Ouça Jamelão cantando o samba-enredo Lendas do Abaeté (1973):
httpv://www.youtube.com/watch?v=0ml-OvbxYDE&feature=related

Não há como não atribuir essa implicância à rabugice, uma de suas marcas registradas. Mas o fato é que enquanto os puxadores de samba funcionam como halterofilistas da voz, botando força no ato, Jamelão cantava com uma técnica própria dos cantores líricos, com um bom trabalho de respiração, diafragma e dicção, o que o ajudou a preservar a qualidade de sua voz até o fim da vida. O mau humor o acompanhou ao longo da carreira. “Não sou galo para cantar de graça”, reclamou em 1989 dos “trocados” que recebeu para gravar o samba-enredo de sua escola. Em março de 2000, diante da insistência da Mangueira em homenageá-lo no carnaval seguinte, foi ríspido: “Não quero ser enredo de nada, nem agora nem nunca”. A escola acabou desfilando com o enredo A Seiva da Vida, de Max Lopes, sobre as “conquistas e descobertas dos fenícios”. Convidado a se sentar, reagia, traindo uma homofobiazinha típica de sua geração: “Não me sento, me acomodo. Sentar é outro verbo”.

Unanimidade dentro e fora do samba, o cantor recebeu em 2001 a medalha da Ordem do Mérito Cultural, entregue pelo presidente Fernando Henrique Cardoso. Por essa época ele se queixava da falta de gravadora e buscava um empresário para agenciá-lo, já que os shows haviam-se escasseado. Em julho daquele ano, depois de obter alta no Instituto Dante Pazzanese, “onde ficara internado por mais de três meses com problemas vasculares, que causaram a proliferação de feridas em suas pernas”, Jamelão resmungava na Gazeta Mercantil: “Se eu não catar milho todo dia, ninguém come lá em casa”.


Em 2001 com FHC:  Ordem do Mérito

A vida dura que conhecera desde pequeno, no Engenho Novo, vendendo jornal, engraxando sapatos ou como operário na fábrica de tecidos Confiança, a dos três apitos cantados por Noel, o rondava novamente, muito embora fosse funcionário público aposentado da Secretaria de Segurança do Estado do Rio. O disco que lançara no ano anterior Por Força do Hábito, pela Som Livre, não havia funcionado bem, apesar de sua disposição para divulgá-lo. “É só me chamar que eu vou, para emissoras de rádio, televisão, entrevistas, shows. Tô nessa!”, disse em entrevista ao jornal O Globo. Com Jamelão desapareceu o último grande cantor de sambas-canção em atividade e um tipo de puxador de samba de escola que deixou raríssimos seguidores, todos eles pouco expressivos.

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9 Comentários

  1. marcel ap olivera

    -

    10/03/2011 às 22:46

    o mlhor do mundo!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

  2. desilos thiago

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    19/02/2011 às 1:39

    saudades do jamelão… se é que posso? dai de cima abençoa nossa mangueira campea 2011

  3. Pking

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    17/11/2010 às 18:41

    gente ele e de samba enredo??

  4. Pking

    -

    17/11/2010 às 18:41

    falou e disse jbarros

  5. Iara

    -

    21/07/2010 às 13:41

    Um dos melhores cantores do Brasil, que voz linda tinha o Jamelão!!
    Aqui ele falando um pouco sobre ele mesmo, e, melhor, cantando.
    http://www.youtube.com/watch?v=GTaNEz2TceI&feature=PlayList&p=8C419B1301FD5F51&playnext_from=PL&playnext=1&index=31
    Abraços

  6. jbarros

    -

    21/07/2010 às 11:56

    Falou e disse, Luiz….

  7. LUIZ Pira

    -

    21/07/2010 às 11:04

    Foi um prazer ler e recordar a passagem histórica desse grande cantor. Já está passando da hora de a imprensa começar a divulgar nomes que dignificam a pessoa humana. O povo conhece mais os nomes e destinos de bandidos, do que de pessoas que fazem muito por nossa cultura, ciência e tecnologia. Muito oportuna essa homenagem. Peço ao repórteres que comecem a viajar pelas diferentes cidades e divulgar os grandes nomes que com seus trabalhos melhoram a nossa vida

  8. jbarros

    -

    21/07/2010 às 10:50

    Bem lembrado, Mandacaru…

  9. DJ Mandacaru

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    21/07/2010 às 8:12

    Jamelão recusando o beijo de uma fã mais assanhada: “Não sei onde você andou botando essa boquinha…”

 

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