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27/09/2010

às 14:26 \ FIGURAS

GERMANO MATHIAS

Seis décadas de samba sincopado


Germano e sua latinha: instrumentos exóticos

Por Julio Cesar de Barros

No dia 2 de junho, o sambista Germano Mathias completou 76 anos. Mas ninguém diz. Camisa estampada, sapado “couro de chupa-cabra” e chapéu de aba estreita, ele continua o mesmo garoto serelepe do samba sincopado apelidado de Catedrático do Samba. Filho de pai carioca e mãe paulista, Germano nasceu no bairro do Pari e se iniciou no samba nas rodas de engraxates do centro velho da cidade. Quando o movimento começava a cair, eles batucavam na caixa e levavam o samba, que atraía os tradicionais frequentadores da região: marreteiros, entregadores e biscateiros. Fã do samba carioca, que ouvia no rádio, frequentador das escolas de samba e cordões do Bixiga e da Barra Funda, Germano foi contratado pela Rádio Tupi, em 1955, depois de se apresentar em um programa de calouros da emissora (À Procura de Um Astro). O sucesso na rádio o credenciou a figurar no filme O Preço da Vitória (1956), de Oswaldo Sampaio, ao lado de Joel de Almeida, Inezita Barroso e outros atores e cantores consagrados. Em 1956, lançou seu primeiro disco, com a polêmica e politicamente incorretíssima Minha Nega na Janela (parceria com Doca), em que cantava:

Minha nega na Janela
Diz que está tirando linha
Êta nega tu és feia
Que parece macaquinha
Olhei pra ela e disse
Vai já pra cozinha
Dei um murro nela
E joguei ela dentro da pia
Quem foi que disse
Que essa nega não cabia?

Hoje, seria preso e enquadrado em vários artigos de variadas leis. Embora não seja filho de pai assustado, Germano prefere evitar problemas e não canta mais a música nem que lhe paguem. O samba foi o carro-chefe de seu primeiro LP, lançado em 1957, Germano Matias, o Sambista Diferente, cujo título revelava sua forma irreverente de cantar o sincopado acompanhando-se de uma latinha de graxa e imitando um trombone com a voz, o que lhe valeu no registro em carteira na rádio Tupi a informação de que era cantor e tocador de “instrumentos exóticos”. A latinha ele não toca mais, desde que se machucou em um acidente (Serelepe, o septuagenário Germano achou um jeito de cair do palco durante um show do Projeto Pixinguinha, em São Luís do Maranhão e teve de colocar três pinos no ombro). O primeiro álbum lhe valeu o prêmio Roquete Pinto, o mais importante do rádio e TV naquela época, e abriu-lhe o caminho para o segundo disco, Em Continência ao Samba, com aquele que seria um de seus maiores sucessos, Guarde a Sandália Dela (em parceria com Sereno). Germano também ficou marcado pela gravação de poderosos sambas de Zé Kéti, como Nega Dina, Malvadeza Durão e Roberto Piva, como o clássico Tem Que Ter Mulada.

Germano canta Nega Dina:

Em 1959, lançou mais dois discos, Malvadeza Durão e Malandro de Araque, e cantou no filme Quem Roubou Meu Samba?, uma comédia musical no gênero das chanchadas, dirigido por José Carlos Burle e Hélio Barroso, com participação de Ankito, Marlene e Angela Maria. Nos anos 60, foi contratado da TV e da rádio Record, teve programa na TV Paulista (Nosso ritmo é sucesso) e lançou novos álbuns (Ginga no Asfalto, 1962; Samba de Branco, 1966; O Catedrático do Samba, 1967). Na década seguinte, perdeu um pouco do espaço no cenário musical para o “sambão jóia” e outros ritmos da moda. Mesmo assim gravou diversas marchinhas carnavalescas em álbuns solo ou em “paus de sebo”, aqueles discos caça-níqueis com diversos artistas dividindo as faixas. Mas continuou fiel às suas origens, relançando velhos sucessos e novos sambas sincopados, em álbuns como Samba é Comigo Mesmo (1971), Germano Mathias (1974), Antologia do Samba-choro (1978) em que divide as faixas com Gilberto Gil. Germano sempre foi o rei da caitituagem, a arte da divulgação sem jabaculê (divulgação paga). Invadia redações e estúdios de rádio levando embaixo do braço seu último lançamento e atormentava colunistas e programadores que, vencidos pelo cansaço ou rendidos ao seu talento, não deixavam de lhe reservar um pouco do espaço cada vez mais disputado pela indústria fonográfica.

Ouça Guarde a Sandália Dela:
 httpv://www.youtube.com/watch?v=87CYO_rfOhY

Depois de passar os anos 80 em relativo ostracismo, voltou a ser prestigiado e vive hoje um instante de reconhecimento. “Eu me agarro a esses bons momentos com unhas e dentes. Agora, com mais unhas do que dentes, porque esse aqui, ó, eu perdi na semana passada”, brinca. No final dos anos 90 participou da antologia História do Samba Paulista, do selo CPC-Umes. Depois de gravar os CDs Talento de Bamba (2002) e Talento do Samba (2004), em 2005 lançou o disco Tributo a Caco Velho, em homenagem ao seu ídolo e modelo de interpretação, de quem mantém um retrato na parede de seu apartamento da CDHU, no bairro paulistano da Brasilândia. Foi com o sambista gaúcho que ele aprendeu a cantar o samba “malandreado”. Em 2007, o pianista Guilherme Vergueiro produziu seu DVD Ginga no Asfalto, com participação do trombonista Raul de Souza.

Há dois anos, participou do projeto O Samba Pede Passagem, em que relembrou os velhos sucessos do baiano Waldeck Artur de Macedo, o Gordurinha (1922-1969), uma produção do compositor Eduardo Gudin com direção de Livia Mannini. Hoje, Germano tem um show estruturado no embalo da Copa da África do Sul, Futebol e Gafieira, no qual canta músicas relacionadas ao esporte das multidões, como Bola de Meia, de Nerino Silva e Samba Rubro-Negro, de Wilson Batista e Jorge Castro.

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6 Comentários

  1. jbarros

    -

    02/07/2010 às 22:44

    Oi, Iara, bem lembrado…

  2. iara

    -

    02/07/2010 às 21:34

    Julio! Acabou a comida acabou a bebida acabou a canja, sobrou pra nós o bagaço da Laranja…Tóin!

    http://www.youtube.com/watch?v=_Z0i9PEerSU&feature=player_embedded#!

    Abraços!

    Iara

  3. Regina

    -

    02/07/2010 às 21:31

    Oi Josias, em que parte do QUEM DA MAIS do Noel faz referência a Vornoff?
    Abraços
    Iara

  4. Josias Benicio

    -

    30/06/2010 às 12:01

    As seguintes músicas brasileiras fazem referência a Voronoff:

    1. Minha Viola, embolada de NOEL ROSA. Gravada em 1930 pelo próprio autor e regravada posteriormente por outros intérpretes. A primeira gravação foi pela Parlophon.
    2. Quem dá mais, samba de NOEL ROSA. Gravado em 1932 pelo próprio autor e regravado posteriormente por outros intérpretes. A primeira gravação foi pela Odeon, disco 10.931.
    3. Seu Voronoff, marcha, música de LAMARTINE BABO e letra de JOÃO ROSSI. Gravada em 1928, na voz de Francisco Alves, pela Odeon, disco 10.286.
    4. O Voronoff Chegou, marcha de ROQUE VIEIRA. Gravada em 1928.(*) Esta música está incluída no disco A Memória da Pharmácia e a Música Popular, gravado pela Emi-Odeon, em 1981, em vinil, na voz de Francisco Alves, com a orquestra Pan Americana.
    5. Fox-Mix, embolada de ARI CALAZÃES FRAGOSO. Desconhece-se sua gravação, mas foi cantada no filme Alô, Alô Carnaval, de 1936.
    6. Voronoff, samba carnavalesco. Letra de ARY KERNER e música de EDUARDO SOUTO. Gravado, em 1927, na voz de Frederico Rocha, pela Odeon, disco 123.206.
    7. Samba de Campinas, de João Frazão, embolada gravada em 1929, pelo conjunto Turunas da Mauricéia, cantada por Augusto Calheiros. Disco Odeon 10.557-b.
    8. Atraca… Atraca, batuque de JOSÉ JANNYNI, gravado, na voz do autor, em 1929, pela Parlophon, disco 13.053-a.
    9. Vitamina V, paródia composta por Teopompo Moreira. A música original, Vitaminas, de AMARO SILVA, DJALMA MAFRA e DOMÍCIO AUGUSTO, foi gravada pela Odeon, disco 1244, em 1942, cantada por Odete Amaral.

  5. jbarros

    -

    28/06/2010 às 14:11

    Obrigado pela sugestão, Ximenes, vou ver isso…

    Abs

  6. Jose Pereira Ximenes

    -

    28/06/2010 às 10:42

    Voronoff, o médico franco-russo que morou em Parati (RJ), foi tema de pelo menos uma dúzia de músicas brasileiras (Noel, Lamartine e outros). Que tal se o blog fizesse uma pesquisa sobre ele?

 

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