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27/09/2010

às 14:18 \ FIGURAS, TERREIRO

CANDEIA

 Há 75 anos nascia um mestre


Candeia: baluarte do samba

Por Julio Cesar de Barros

Antonio Candeia Filho nasceu no dia 17 de agosto de 1935 e morreu no dia 16 de novembro de 1978 na cidade do Rio de Janeiro. Filho de um tipógrafo que tocava flauta, o menino Candeia cresceu no meio de músicos, nas festas que seu pai promovia ao som do choro e do samba. Jovem dinâmico, Candeia tocava violão e cavaquinho, jogava capoeira e frequentava terreiros de candomblé. Vítima de uma fatalidade, foi parar numa cadeira de rodas, seguiu em frente e se tornou mentor e mito entre os sambistas. Compôs em 1953, aos 17 anos, seu primeiro samba-enredo, Seis Datas Magnas, com Altair Marinho, o Prego, levando a Portela ao título com notas dez em todos os quesitos. Foi a primeira de seis vitórias no concurso interno de samba-enredo da escola. Compôs também Festas Juninas em Fevereiro (com Valdir 59), de 1955, classificando a escola em terceiro lugar no desfile. Em 1957, o samba-enredo Legados de D. João VI (também com o irmão), levou a escola a novo título.

 
Samba campeão aos 17 anos

Voltou a vencer em 1959 com Brasil, Panteão de Glórias (com Casquinha, Bubu, Valdir 59 e Picolino) e a Portela obteve mais um título no carnaval carioca. No ano do IV Centenário do Rio de Janeiro, o samba Histórias e Tradições do Rio Quatrocentão deu à agremiação de Osvaldo Cruz a terceiro colocação. Seus sambas-enredo, no entanto, não fizeram o mesmo sucesso que seus partidos-altos, cujos refrões são cantados até hoje nos terreiros de samba de norte a sul do país. É o caso de Filosofia do Samba, gravado por Paulinho da Viola. Ouça esse samba na voz de Candeia:

httpv://www.youtube.com/watch?v=GvuEnAwVOv4

Ou  A Flor e o Samba, de refrão simples, sucesso na voz de Martinho da Vila, que dizia:

Vem sambar Iaiá
Vem sambar ioiô
Iaiá, Ioiô

Essas letras animam as rodas em que os cantores improvisam versos, que intercalam com o refrão. Candeia era também um mestre improvisador. Alguns de seus versos improvisados se tornaram tão famosos que foram gravados junto com refrões de terceiros, como se fizessem parte da música original. Seus dotes de partideiro foram imortalizados em três álbuns denominados Partido em 5, lançados entre 1975 e 1977, com a participação de outros quatro sambistas. No início dos anos 60, Candeia dirigiu o conjunto Mensageiros do Samba e participou do movimento de revitalização do samba promovido pelo Centro Popular de Cultura, CPC. Mas o que poderia dar em militância política gorou, quando ele entrou para a polícia. Foi um policial truculento, que acabou se afastando do convívio dos antigos companheiros. Várias vezes interrompeu rodas de samba por perturbação da ordem pública, estranhando os amigos e sua origem. Contam que certa vez chegou a prender o próprio irmão, Valdir. Certo dia enquadrou o ainda desconhecido Paulinho da Viola, que jogava sinuca num bar. Numa discussão de trânsito, em 1965, desceu do carro e descarregou o revólver contra o motorista de um caminhão, que revidou, acertando-lhe um tiro na coluna vertebral. Candeia ficou paraplégico. A tragédia transformou sua vida. Ou o devolveu às suas origens. Na letra de seus sambas se podem notar os reflexos de seu sofrimento:

Se eu tiver que chorar
Choro cantando
Pra ninguém me ver sofrendo
E dizer que estou pagando

 E foi cantando que ele chorou. Mas Candeia ergueu a cabeça e firmou-se como líder entre os grandes sambistas cariocas. Passou a reunir a fina flor do samba em sua casa para memoráveis pagodes de fundo de quintal. O compositor e partideiro estava em plena forma e encantava a todos com bons sambas de melodia rica. Tirá-lo de casa, no entanto, foi tarefa difícil. Em cadeira de rodas, temia que sentissem pena dele. Até que um dia os amigos conseguiram fazê-lo se reencontrar com o público. Foi numa noite, no Teatro Opinião. A casa cheia de amigos e convidados, ele entrou em sua cadeira de rodas e foi cantando um samba novo, De Qualquer Maneira, ao som de um violão:

Sentando em trono de rei
Ou aqui nesta cadeira
Eu já disse, já falei
Que eu canto de qualquer maneira
Quem é bamba não bambeia
Digo com convicção
Enquanto houver samba nas veias
Empunharei meu violão
De qualquer maneira meu amor eu canto
De qualquer maneira, meu encanto
Eu vou cantar

Poucos conseguiram conter as lágrimas. A peça É sangue na veia, é Candeia, de Eduardo Rieche, vencedora do concurso nacional de dramaturgia promovido pelo CCBB, em 2007, mostrou a cena. Candeia lutou contra a melancolia até o fim da vida, mas ela não o abandonou. Nos versos de Preciso Me Encontrar (gravado por Cartola e mais recentemente por Marisa Monte), a sombra da tragédia pessoal:

Deixe-me ir, preciso andar
Vou por aí a procurar
Sorrir pra não chorar
Quero assistir o sol nascer
Ver as águas do rio correr
Ouvir os pássaros a cantar
Eu quero nascer, quero viver
Deixe-me ir, preciso andar
Vou por aí a procurar
Sorrir pra não chorar


Cena da peça É Sangue na Veia, É Candeia

Ouça Marisa Monte:
httpv://www.youtube.com/watch?v=doU59v5LxVY

Em 1970 lançou seu primeiro LP, Candeia (relançado como Samba da Antiga, em 1975) e, em 1971, um segundo disco, Seguinte…Raiz Candeia, no qual se destaca Quarto Escuro, de tom romântico e melancólico :

Não acende a luz dentro do quarto
Volto para os teus braços aceso de amor
Deixei lá fora os meus fracassos
Meus lábios contaram-me os segredos
Verdade do amor sem medo

A melancolia e o tom soturno dos sambas líricos de Candeia reaparecem naquele que é apontado como seu melhor disco, Axé, de 1978. Na faixa Pintura Sem Arte, ele chora:

Me sinto igual a uma folha caída
Sou o adeus de quem parte
Para quem a vida é pintura sem arte

Ouça Pintura Sem Arte:
httpv://www.youtube.com/watch?v=JFOShYF1gB4&feature=PlayList&p=788995FEDEF5CEEC&playnext_from=PL&playnext=1&index=36

Outra faixa desse disco, Amor não É Brinquedo, pinta com cores fortes velhas cicatrizes:

(…) Se estás procurando distração
O romance terminou mais cedo
Peço por favor
Pra não brincar com meu segredo
Verdadeiro amor não é brinquedo (…)

Aos jovens que o procuravam para mostrar seus sambas, sempre dava conselhos: “Estude, sem estudo você nunca será nada na vida”. Respeitado no morro e no asfalto, Candeia foi um militante negro avesso ao preconceito de mão invertida. Jamais fez distinção entre negros e brancos, que ele sabia estarem igualados na luta pela vida. Aos cultores de africanismos e americanismos ele contrapunha estes versos:

Eu não sou africano
Nem norte-americano
Ao som da cuíca e pandeiro
Sou mais o samba brasileiro

 Sem radicalismos, cantou as desigualdades sociais, exaltou o samba e a cultura negra, cultuou os orixás. Mesmo não chamando para si uma missão, virou um mito, líder de uma resistência que se confundia com a oposição à ditadura militar. Mas sua preocupação maior era cultural. Convencido de que a escola de samba era uma “árvore que perdeu a raiz”, deixou a Portela, que julgava descaracterizada, e com um punhado de companheiros fundou, em dezembro de 1975, o Grêmio Recreativo de Arte Negra e Escola de Samba Quilombo, sob a bandeira do “samba autêntico”. Candeia chegou a escrever um livro com suas críticas à forma como as escolas se apresentavam àquela altura e, de modo saudosista, indicando como saída a retomada de tradições antigas, que os sambistas por motivos os mais variados haviam abandonado. Trata-se de Escola de Samba – Árvore que Esqueceu a Raiz, Antônio Candeia Filho e Isnard Araújo, Editora Lidador, 1978. A saga da criação da Quilombo foi mostrada no documentário Eu sou o povo (2008), de Bruno Bacellar, Luiz Fernando Couto e Regina Rocha.

 Ouça o belo samba da Quilombo de 1978, Ao Povo em Forma de Arte, de Wilson Moreira e Nei Lopes, cantado no Fantástico:
httpv://www.youtube.com/watch?v=0jkw7B_6Dto

Doce ilusão. Candeia morreu e com ele a escola, que desfilando fora das passarelas oficiais saiu pela última vez em 2003. Um núcleo remanescente ainda realizou até recentemente rodas de samba na sede, na Fazenda Botafogo, em Coelho Neto, bairro da Zona Norte carioca, e movimentou um vagão no Trem do Samba, que todo ano, por ocasião do Dia Nacional do Samba (2 de dezembro), sai da estação da Central até Osvaldo Cruz carregado de sambistas. A face dura e militante e as emboscadas do destino não conseguiram esconder o homem afável, justo e de grande sensibilidade no qual Candeia se transformou. Mais conhecido por seus sambas de partido alto, Candeia deixou uma vasta coleção de sambas líricos, menos conhecidos. Em sua curta existência de 43 anos, ele amou e soube como poucos cantar esse sentimento.

DISCOGRAFIA

 Mensageiros do Samba (1964) – Philips - LP

Candeia (1970) – Equipe - LP (relançado como Samba da Antiga, em 1975)


Seguinte…Raiz Candeia (1971) - Novo Esquema - LP 

Samba de roda (1975) - Tapecar – LP

Partido em 5 volume 1 (1975) – Tapecar -LP 

Partido em 5 volume 2 (1975) - Tapecar – LP 


Luz da inspiração (1977) - Atlantic/WEA - LP

Partido em 5 volume 3 (1977) - Tapecar - LP

Quatro grandes do samba (c/ Elton Medeiros, Guilherme de Brito e Nelson Cavaquinho) (1977) - RCA Victor - LP

Axé! (1978) – Atlantic/WEA - LP

Candeia e Elton Medeiros - Coleção Nova História da Música Popular Brasileira (1978) - Abril Cultural – LP


Candeia (1988) – Funarte – LP

Mestres da MPB – Candeia - (1993) Warner Music -  CD

Candeia, Aniceto do Império, Mestre Marçal e Velha-Guarda da Portela (1997) – Funarte – CD

Eterna chama – Perfil Musical – (1998) - CD
 

 Candeia - Warner 30 ANOS (2006)

Candeia - (2007) – WEA
 

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5 Comentários

  1. fábio d'ávila

    -

    23/05/2011 às 16:30

    Sou fã de mestre Candeia e da divina Clara Nunes, mas nunca vi os dois juntos em vídeos nem em fotos. Pergunto, eles estiveram juntos em alguma roda de samba ou programa de tv?

  2. jbarros

    -

    30/08/2010 às 15:24

    Fernanda,
    Você deve saber bem do que está falando. Vou confiar em você. Sabe como é, no samba há muitas fontes que são fruto da fabulação dos personagens. Li algumas vezes que Valdir seria irmão de Candeia. Eram, então, apenas parceiros muito próximos. Valeu. Quanto à entrada dele na polícia, várias fontes dizem que foi em 61. O título do álbum de 1970 que publiquei é o que consta do jogo de palavras dos quadradinhos da capa. Eu creio que o título do LP era só Candeia, vindo o título Samba da Antiga a dominar a capa do CD, anos mais tarde. Mas não tenho o LP para conferir. O que eu faço é uma crônica, as letras em geral eu mando de cabeça. Os lapsos ocorrem. Conto com a generosidade de pessoas como você para me alertar desses equívocos. Bjs

  3. Fernanda Morari

    -

    30/08/2010 às 11:06

    outra alteração….
    Enquanto houver SAMBA na veia e não sangue.
    Ficou faltando espaço entre as músicas, mas acho que dá para entender.

  4. Fernanda Morari

    -

    30/08/2010 às 11:04

    Lembranças da vida de Candeia são sempre bem vindas, pois o mesmo merece este reconhecimento.
    Parabéns pela iniciativa com esta matéria, porém alguns dados estão incorretos.
    Segue algumas correções.

    -Valdir 59 não é irmão de Candeia.
    -Candeia entrou para a polícia aos 22 anos portanto no ano de 1957 e não 61 como está no texto.
    -O album lançado em 1970 chama-se Samba da Antiga.
    -O Grêmio Recreativo de Arte Negra e Escola de Samba Quilombo não acabou, a escola passa por dificuldades financeiras mas continua na Rua Ouseley, em frente à estação de metrô da Fazenda Botafogo com Selma Candeia (filha de Candeia) a frente da presidência.

    Quanto as letras das músicas algumas também estão incorretas, abaixo elas já se encontram já com as devidas correções.

    Mas se é pra chorar
    Choro cantando
    Pra ninguém me ver sofrendo
    E dizer que estou pagando

    Sentando em trono de rei
    Ou aqui nesta cadeira
    Eu já disse, já falei
    Que seja qual for a maneira
    Quem é bamba não bambeia
    Falo com convicção
    Enquanto houver sangue nas veias
    Empunharei meu violão
    De qualquer maneira meu amor eu canto
    De qualquer maneira, meu encanto
    Eu vou cantar

    Deixe-me ir, preciso andar
    Vou por aí a procurar
    Rir pra não chorar
    Quero assistir o sol nascer
    Ver as águas do rio correr
    Ouvir os pássaros a cantar
    Eu quero nascer, quero viver
    Deixe-me ir, preciso andar
    Vou por aí a procurar
    Rir pra não chorar

    Eu não sou africano
    Nem norte-americano
    Ao som da viola e pandeiro
    Sou mais o samba brasileiro

  5. Iara

    -

    18/08/2010 às 10:00

    Pintura Sem Arte é genial! Outro que gosto demais é o ” Dia de Graça”, a letra é linda!
    “Hoje é manhã de carnaval ( Há o esplendor)
    As escolas vão desfilar (garbosamente)
    Aquela gente de cor com a imponência de um rei, vai pisar na passarela (salve a Portela)
    Vamos esquecer os desenganos (que passamos)
    Viver alegria que sonhamos (durante o ano)
    Damos o nosso coração, alegria e amor a todos sem distinção de cor
    Mas depois da ilusão, coitado
    Negro volta ao humilde barracão
    Negro acorda é hora de acordar
    Não negue a raça
    Torne toda manhã dia de graça
    Negro não se humilhe nem humilhe a ninguém
    Todas as raças já foram escravas também
    E deixa de ser rei só na folia e faça da sua Maria uma rainha todos os dias
    E cante o samba na universidade
    E verás que seu filho será príncipe de verdade
    Aí então jamais tu voltarás ao barracão.”

    http://www.youtube.com/watch?v=1mElb9-0ZCg


 

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