Blogs e Colunistas

27/09/2010

às 14:25 \ FIGURAS

CACO VELHO

O gaúcho bom de samba


O Sambista Infernal: modelo de intérprete

Vamos relembrar Caco Velho, o Sambista Infernal, que com uma voz pequena, mas bem colocada, criou um estilo que influenciou uma geração de intérpretes, mostrando que a bossa não está na força, mas no jeito. O gaúcho Matheus Nunes, o Caco Velho, morreu jovem, aos 50 anos, em 14 de setembro de 1971. Conheça um pouco da vida e da carreira desse genial sambista, que teve a honra de ser gravado com imenso sucesso pela portuguesa Amália Rodrigues, a maior fadista de todos os tempos, clicando abaixo:

Um gaúcho bom de samba


Caco Velho: inspiração para Germano

Por Julio Cesar de Barros

Matheus Nunes, o Caco Velho, cantor, compositor e ritmista que inspirou Germano Mathias, nasceu no Rio Grande do Sul, no dia 12 de junho de 1920, e morreu em São Paulo, onde desenvolveu sua carreira. O apelido ele ganhou, ainda na infância, devido a um sucesso de Ary Barroso (Caco Velho, 1934) que costumava cantar enquanto vendia balas e cigarros num tabuleiro pelos bares da cidade:

Reside no subúrbio do Encantado
Num barracão abandonado
João de tal, cabra falado
Dizem que viveu fora da lei
Foi um rei que zombava da morte
E tinha um santo forte
No meio da gente bamba
O seu prazer era tirar um samba
Pulava, dava rasteira
Topava briga de qualquer maneira
Mas hoje é um caco velho
Que não vale nada

De vendedor, ele acabou passando a músico de um desses bares, fazendo o ritmo em caixa de fósforos, tamborim e pandeiro com uma habilidade que acabou por levá-lo para o rádio, onde passou a integrar um conjunto regional. “Ele começou como pandeirista. Era muito bom, tinha muito ritmo. Um dia faltou o cantor, ele foi quebrar o galho e se consagrou”, diz Germano, que teve no gaúcho o modelo para seu modo de cantar, um estilo cheio de bossa, que compensava a voz pequena. Aos 22 anos de idade, Caco Velho venceu um concurso de músicas carnavalescas com o samba Eu Ando à Procura, superando ninguém menos que Lupicínio Rodrigues, que ficou em segundo lugar. Para espanto geral, Caco Velho emplacou outro samba, Que Coisa Louca, em terceiro lugar. Aos 24 anos compôs a toada Mãe Preta, sua primeira música gravada (com Piratini). Em 1944, já em São Paulo, gravou o primeiro disco, pela Odeon, com os sambas Briga de Gato (Lupicínio Rodrigues e Felisberto Martins) e Maria Caiu do Céu (em parceria com Nilo Silva). Nos anos 50, já conhecido como “o Sambista Infernal”, Caco Velho chegou a gravar músicas nordestinas, seguindo uma onda da indústria fonográfica, mas logo voltou ao samba, gênero no qual imprimiu sua marca. “Ninguém dividia como ele”, diz Germano.

Caco Velho canta Por Um Beijo Teu:
httpv://www.youtube.com/watch?v=t9lIIBDdl5Q

Ainda nos anos 50, Caco Velho passou dois anos em Paris, como crooner da orquestra de George Henri, firmando-se como uma das vozes mais respeitadas da música brasileira. Grande sucesso dos anos 60, Tem Que Ter Mulata, de Túlio Piva, foi uma das marcas de sua carreira:

O samba pra ser samba brasileiro
Tem que ter pandeiro
Tem que ter pandeiro
O samba pra ser samba na batata
Tem que ter mulata
Tem que ter mulata

O sucesso o transformou em empresário da noite. Os anos 60 o encontraram como dono da boate Brasilian’s Bar, que se tornou um ponto de encontro de artistas nacionais e estrangeiros em visita à cidade, gente do naipe de Agostinho dos Santos e do francês Sacha Distel. Consagrado em sua terra, em 1966 ele foi para San Francisco, Califórnia, onde ficou até 1968. Durante uma temporada em Portugal, a grande fadista Amália Rodrigues gravou sua composição Barco Negro(Mãe Preta*), com estrondoso sucesso. A diva portuguesa regravaria muitas vezes Barco Negro, que recebeu letra do ilustre poeta português David Mourão-Ferreira (1927-1996):

De manhã, que medo, que me achasses feia
Acordei, tremendo, deitada n’areia
Mas logo os teus olhos disseram que não
E o sol penetrou no meu coração

Ouça Amália Rodrigues cantando Barco Negro no filme Os Amantes do Tejo:
httpv://www.youtube.com/watch?v=h10E-isDTF0

De volta a São Paulo, em 1970, abriu nova casa noturna (Sem Nome Drinks) e participou do programa Som Livre Exportação, na TV Globo. Morreu no ano seguinte, aos 51 anos, no Hospital das Clínicas, onde estava internado havia algum tempo. Deixou a mulher e quatro filhas. Seu corpo foi velado no Araçá, com a presença da fina flor da velha música brasileira, como Joel de Almeida (o Rei das Marchinhas), Germano Mathias e Noite ilustrada.

Ouça Mãe Preta com Rolando Boldrin e Germano Mathias:
httpv://www.youtube.com/watch?v=XFDLVAfuYuY

Deixe o seu comentário

Aprovamos comentários em que o leitor expressa suas opiniões. Comentários que contenham termos vulgares e palavrões, ofensas, dados pessoais (e-mail, telefone, RG etc.) e links externos, ou que sejam ininteligíveis, serão excluídos. Erros de português não impedirão a publicação de um comentário.

» Conheça as regras para a aprovação de comentários no site de VEJA

10 Comentários

  1. Adriana Nunes

    -

    27/09/2011 às 11:41

    Julio, que distração a minha…um ano depois é que fui parar pra ver esta reportagem…sou a neta primogênita do Caco Velho,nasci uma semana após o falecimento dele, mas herdei os mesmos talentos, sou musicista e dançarina. Parabéns e muito obrigada por este trabalho, realmente é emocionante, e uma ótima referência para os que não tiveram a oportunidade de conhecer um dos melhores sambistas do país!

  2. Luiz Paulo Lima

    -

    21/09/2011 às 18:10

    Julio Cesar, parabéns pelas informações postadas sobre este importante cantor e compositor gaúcho e brasileiro. Estou produzindo um filme que faz parte de uma série chamada “Outros carnavais”, onde os conteúdos versam sobre os diferentes “sotaques” do samba no Brasil. Poucos conhecem Matheus Nunes -Caco Velho, Zilah Machado entre outros compositores cantores que contribuiram para esta original e diverso ao mesmo tempo,g~enero genuinamente brasileiro. Voc~e me ajudou muito com as informações presentes no seu artigo. Parabéns e obrigado. Luiz Paulo Lima

  3. jbarros

    -

    07/09/2010 às 19:43

    Izabel, você fez uma obervação importante, eu não havia me dado conta disso. Incluí essa informação, que retifica o post. Valeu!

  4. izabel gomes

    -

    07/09/2010 às 19:29

    O cantor, músico, compositor é o primeiro apresentador negro da televi-
    são brasileira, foi um artista para sua época completo, e atou em fil-
    mes brasileiros também. Compositor de “Mãe Preta” também com o título de “Barco Negro” conhecida mundialmente, está tão esquecido no Brasil.
    Caco Velho(Matheus Nunes) era conhecido como o sambista infernal, São Paulo nunca poderia ser chamada de túmulo do samba, ele era e é uma re-
    ferência do samba paulista e do samba brasileiro.

  5. jbarros

    -

    07/07/2010 às 15:13

    É Iara, Caco Velho era um monstro, mesmo fora do samba….

  6. Iara

    -

    07/07/2010 às 14:09

    Jota, qeu música mais linda do mundo essa “Barco Negro”, menino!

  7. jbarros

    -

    02/07/2010 às 20:42

    Elizabeth, Caco Velho é um orgulho nacional.

  8. Elizabeth

    -

    02/07/2010 às 18:11

    Adorei esta reportagem e fico até emocionada, falando de meu Pai, nem tem o que dizer, só tenho que agradecer pela reportagem.
    Um abraço

  9. jbarros

    -

    28/06/2010 às 14:10

    Pois é, Lya,

    Sou um folião fazendo bico de jornalista…

  10. lya luft

    -

    28/06/2010 às 13:57

    Julio,nunca imaginei voce entendido de musica popular,samba.Mas,casada com um carioca há quase sete anos,estou me contagiando.Parabéns.adorei.Lya


 

Serviços

 

Assinaturas



Editora Abril Copyright © Editora Abril S.A. - Todos os direitos reservados