ZÉ RODRIX

Rodrix nas lentes de Antonio Guerreiro
Por Julio Cesar de Barros
Faz um ano da morte do compositor Zé Rodrix, no Hospital das Clínicas, em São Paulo, onde foi internado depois de sofrer um mal súbito. Tinha só 62 anos e não viveu para ver o quarto álbum do grupo, que estava em produção e foi lançado em março deste ano. Cantor, compositor e publicitário, José Rodrigues Trindade, o Zé Rodrix, integrou a banda Momento 4, que ganhou o festival da TV Record, em 1967, cantando Ponteio, de Edu Lôbo. É autor de Casa no Campo (com Tavito), música com a qual venceu o festival de Juiz de Fora, classificando-se automaticamente para o Festival Internacional da Canção, da TV Globo e se tornando um grande sucesso na voz de Elis Regina. ”Fomos a Juiz de Fora porque não tínhamos o que comer em casa.
Meu pai me deu cinco contos, eu comprei um sanduíche e um Tio Patinhas, e levei uma música que tinha composto com Tavito em Goiânia”, contou Rodrix ao Jornal do Brasil, anos depois, com seu humor característico. Às vésperas de se tornar pai pela primeira vez, o jovem e já exigente compositor, na flor de seus 23 anos, declarou que seria uma felicidade se seu filho nascesse em pleno ginásio do Maracanãzinho, “mas quando estiverem apresentando uma boa música; o maior crime seria colocar uma criança no mundo para ouvir besteira”. Estudou no Colégio de Aplicação, no Rio, e trocou a faculdade de Direito no último ano pela música, explicou assim a opção pela simplicidade de Casa no Campo: “Já quis fazer coisas sofisticadas. Hoje, curto feijão com arroz, salada de alface, televisão, praia, campo”.
Ouça Casa no Campo, de Rodrix e Tavito:
httpv://www.youtube.com/watch?v=LspQ1OWRSD4
Encontro com Sá e Guarabyra
Ao sair da Momento 4, Rodrix integrou, em 1970, a banda de rock progressivo Som Imaginário, ao lado de Tavido, Wagner Tiso, Fredera, Luiz Alves e Robertinho Silva. Durou pouco a experiência. Um ano depois formou com o carioca Luís Carlos Pereira de Sá e o baiano Gutemberg Nery Guarabyra Filho (integrante do Grupo Manifesto e vencedor do II Festival Internacional da Canção com Margarida, em 1967), um trio que enfeitou a trilha sonora da vida de muita gente.
Roupa Nova canta Margarida, de Guarabyra:
httpv://www.youtube.com/watch?v=uqeQ4duW394
Carimbados como criadores do rock rural, os três fizeram escola e estabeleceram quase que um novo gênero musical, entre o regional e o universal, entre o telúrico e o espiritual. Um ano depois da criação do grupo, saiu o primeiro disco, Passado, Presente, Futuro, que abria com Zepelin:
Eu queria passear de zepelin
Na cadeira ao lado do Conde Ferdinando
Num balão de gás inflamável
Pelos ares da Europa viajando
Passado, Presente e Futuro: primeiro álbum
Em 1973, o trio lançou o LP Terra, no qual se destacou o hit Mestre Jonas. Depois desse segundo disco, Rodrix deixou o grupo. Enquanto ele fazia sucesso na publicidade com jingles brilhantes, compunha trilhas para o cinema e fazia experiências ousadas com a banda Joelho de Porco (com Tico Terpins e Próspero Albanese), Sá e Guarabyra seguiam carreira em dupla, até que em 2001, depois de quase três décadas separados, eles retornaram para uma participação no Rock in Rio 3 e gravaram novo disco, Outra Vez na Estrada, que resultou numa turnê e num DVD. ”A gente sempre manteve o contato e volta e meia pintava uma idéia ou outra para uma nova música. Aí decidimos nos reunir de novo e gravar. Mais ou menos na mesma época pintou o convite para o Rock in Rio 3”, contava Rodrix.
Ouça Mestre Jonas, com Sá, Rodrix e Guarabyra:
httpv://www.youtube.com/watch?v=e-x86iiozsc
Outra vez na estrada, de 2001: ao vivo
Um disco de canções inéditas
O último disco do trio, Amanhã, saiu em março último pela Roupa Nova Music, com doze faixas inéditas, entre elas Sonho Triste em Copacabana (Rodrix e Sá), Dia do Rio (Sá, Rodrix e Guarabyra), Marina, Eu Só Quero Viver (Guarabyra) e Logo Eu, Saudade (Sá, Rodrix e Guarabyra). A produção artística é de Tavito (Rua Ramalhete), que participa ainda dos arranjos vocais. Piano e voz (Rodrix) e um coro afinado em Copacabana mostram que há um estranho no ninho da MPB atual. Com temperos de rock e blues, a faixa não se encaixa no novidadeiro filão “universitário”, cujo rótulo pespega o sertanejo, o forró e o pagode. É o velho som ainda na estrada. É música sem subterfúgios, tocada com prazer e talento. Em Marina, Guarabyra solta a voz apoiado por um coral “a la Golden Boys”, sem medo de ser romântico, com arranjo farto em cordas, teclados e metais. Na humorosa Novo Rio, de Sá, o aquecimento global leva os peixes a um passeio no 30° andar de um shopping, e não há mais Arpoador. O acordeon de Tiago Costa enfeita a calma Amar Direito, na qual Sá deixa claro que o romantismo não precisa ser derramado, pode ser leve e sereno:
No meio da noite me pegue e me mostre um destino
Me faça um sentido, me faça sonhar
Guarabyra canta Marina, Eu Só Quero Viver:
httpv://www.youtube.com/watch?v=7JyyVlJHvdo
A morte de Zé Rodrix pode ter dado uma meia trava no planejamento de shows e turnês, seria impossível imaginar Sá e Guarabyra deixando a peteca cair. A agenda da dupla segue cheia: um novo CD e a estruturação de uma turnê, agora novamente em dupla. Amanhã é um disco para quem gosta de ouvir música, para quem acredita que a canção não morreu. Mas balançará as roseiras por onde a caravana passar, como já fizeram no passado Dona, Espanhola e Sobradinho. São décadas de estrada, mas o caminho é largo e ainda longo.
O trio canta Sobradinho, de Sá e Guarabyra:
httpv://www.youtube.com/watch?v=8ERBwtuaYmY&feature=related
Tags: Casa no Campo, gutemberg guarabyra, Luís Carlos Sá, Margarida, rock rural, Zé Rodrix































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11 Comentários
Germano osias
-03/01/2011 às 1:07
Lembrei de uma viagem de trem para o interior de Pernambuco de ouvindo as musicas do Ze Rodrix, viajei no tempo!
Érico San Juan
-28/11/2010 às 16:20
Legal o blog, Julio, sempre estou lendo. Tive a honra de ser o designer do CD Amanhã, por um desses felizes acasos. Participei de uma lista de discussão musical, ainda no tempo da internet discada, onde estavam o Zé Rodrix e o Guarabyra. Fiz uma caricatura do trio e postei na lista, junto com caricaturas de vários integrantes da lista. Alguns anos depois fui chamado para fazer o projeto gráfico do CD Amanhã. A caricatura do trio de anos antes também está no encarte. Adorava o humor do Zé na lista de discussão, e em tudo que acompanhei dele. Cheguei a visitá-lo duas vezes em casa, ele sempre ágil e gentil. Lamentei muito a morte dele, e viajei 180 km para lhe dar o meu adeus no velório. Era o mínimo que eu podia fazer pra agradecer. Por tudo: pela arte, pelo humor, pela gentileza.
Érico San Juan
-28/11/2010 às 16:17
Legal o blog, Julio, sempre estou lendo. Tive a honra de ser o designer do CD Amanhã, por um desses felizes acasos. Participei de uma lista de discussão musical, ainda no tempo da internet discada, onde estavam o Zé Rodrix e o Guarabyra. Fiz uma caricatura do trio e postei na lista, junto com caricaturas de vários integrantes da lista. Alguns anos depois fui chamado para fazer o projeto gráfico do CD Amanhã. A caricatura do trio de anos antes também está no encarte. Adorava o humor do Zé na lista de discussão, e em tudo que acompanhei dele. Cheguei a visitá-lo duas vezes em casa, ele sempre ágil e gentil. Lamentei muito a morte dele, e viajei 180 km para lhe dar o meu adeus no velório. Era o mínimo q
jbarros
-04/07/2010 às 16:31
Valeu, Doris! Volte sempre
doris
-04/07/2010 às 12:09
Adorei, sempre gostei muito do som deles.
bacana o blog! parabens!
jbarros
-03/07/2010 às 11:13
Lizzie,
Obrigadão. Não sei de onde tirei isso. Acho que foi o Mal de Eisenhower…
lizzie bravo
-03/07/2010 às 9:13
muito boa matéria! só reparei uma informação que saiu errada: o zé nasceu no rio de janeiro, em botafogo, e não na bahia. participei, gravidíssima da marya, do festival de juiz de fora e do fic, como vocalista – foi o máximo. é muito difícil aceitar a morte do zé: ele ainda tinha muito que oferecer, como músico e escritor.
jbarros
-30/06/2010 às 15:11
Valeu, Lenise!
Lenise
-30/06/2010 às 10:52
Estou adorando o seu blog sobre a boa música brasileira. PARABÉNS!
jbarros
-30/06/2010 às 7:25
Oi, Rômulo,
Obrigado pela correção.
Romulo
-30/06/2010 às 0:05
Na sequência do nome de Luís Carlos Pereira de Sá está escrito Espanhola entre parentêses. Na verdade essa canção é do Guarabyra em parceria com o mineiro do 14 Bis, Flávio Venturini. Sá não tem culpa nenhuma nessa;-)