 Sábado, 25 de Agosto de 2007
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FRANÇA Pneu e derrapagem | 13:22
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 O Bibendum da Michelin e o sumiço do "pneu" de Sarkozy |
A França é mundialmente famosa pela alta qualidade da sua gastronomia. A simples menção de um prato francês em cardápio de restaurante, mesmo se a cozinha não tem lastro para prepará-lo, revela a intenção de propor o sofisticado. Em um universo mais restrito, o país tornou-se respeitável também pela sua tecnologia na fabricação de pneus. O responsável pela imagem é a tradição do grupo Michelin, cujo mascote, uma pilha de pneus com traços humanos, o Bibendum, faz parte do cotidiano dos franceses desde a tenra idade --- a meninada tem uma afeição por ele semelhante a da garotada americana pelo palhaço Ronald, da rede de lanchonetes MacDonald's. Em 1900, André de Michelin, o proprietário da fábrica de pneus de mesmo nome, teve a boa idéia de distribuir, gratuitamente para os motoristas, um manual de manutenção que listava borracharias, mecânicos de automóveis, postos de gasolina e também, hotéis e restaurantes. Nasceu daí o Guia Michelin, o célebre 'anuário vermelho'. Ao longo dos anos, ele foi deixando de lado as informações automobilísticas, ganhando indicações turísticas e, sobretudo, gastronômicas, até se transformar na bíblia da boa culinária. Os cozinheiros franceses fazem de tripas, coração para conseguir uma estrela no Michelin --- e chegam a se matar, literalmente, só com o boato de que uma crítica ruim sobre seus restaurantes irá constar na próxima edição do anuário, como foi o caso do chef Bernard Loiseau que suicidou em 2003. Pneu e comida na França estão ligados não pela mesma razão que alhures. Da mesma forma, a palavra academia não evoca no imaginário do francês, lugar para modelar o corpo.
A França acaba de descobrir que pode ouvir falar muito dela também quando escondem o 'pneu' do seu presidente. A reportagem 'Sarkozy - Porque ele fascina' de 14 páginas na revista L'Express propôs explicar as razões pelas quais o índice de popularidade do presidente francês mantém-se elevado, 100 dias depois da sua eleição. A revista revelou que sua concorrente Paris Match manipulou uma fotografia que mostra Nicolas Sarkozy, dorso nu, remando um caiaque com o filho, durante as férias de verão nos EUA. Match fez desaparecer da fotografia, uma protuberância na cintura do presidente francês, o popular 'pneu'. A notícia divertiu o editor de fotografia de Paris Match. Ele explicou que a posição de Sarkozy sentado no barco, a incidência do contraluz e o angulo inferior pelo qual a fotografia foi feita, davam a impressão de que o 'pneu' era maior do que na verdade. Qualquer amador de fotografia sério é capaz de julgar a explicação perfeitamente plausível. No entanto, o excesso de cuidado com Sarkozy não se faz presente quando a revista mostra outras realidades nuas e cruas. Junto com a exclusividade, o aspecto chocante e o espetacular são as principais razões do grande sucesso de suas fotografias --- algumas delas são capazes esgotar edições da revista poucas horas depois de ir as bancas. A amizade de Sarkozy com Arnaud Lagardére, dono de Paris Match, ajudou apimentar a história da manipulação. Lagardére teria sido, a pedido de Sarkozy, o responsável pela demissão do redator-chefe de Match depois da publicação de uma capa da revista mostrando a primeira-dama Cecília Sarkozy com seu amante em Nova York, ano passado.
A maioria dos franceses achou engraçada história do "pneu" e depois, reservou a ela, a condição de banalidade. Isso não significa "me engana que eu gosto", mas sim, repudio a histeria. Os franceses acompanharam durante toda campanha eleitoral, a tentativa de pintar o candidato Sarkozy de diabo que, se fosse eleito, iria conduzir o país a estagnação por provocar confronto permanente. Qual o quê. O resultado é bem o contrário (leia a excelente reportagem 'Cem dias de emoção com Super-Sarko', de Diogo Schelp, na edição de VEJA desta semana). Parece também muito pouco verossímil, ainda que Sarkozy preze a atividade esportiva, que ele exija que o mostrem mais magro. Na França a obsessão com culto do corpo é bem menos frequente. Quer parecer mais alto vá lá --- Sarkozy sapatos com saltos mais altos --- seria mais crível. Entretanto, a dramaturga francesa Yasmina Reza fez outra revelação no livro que escreveu sobre Sarkozy: o presidente manca. Se for o caso, o presidente vem disfarçando o gesto há muito tempo. E, sozinho, sem ajuda do Photoshop, o programa de computador para tratamento de imagens.
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REVISTA VEJA Cem dias de emoção com Super-Sarko | 13:18
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Na política externa e em questões domésticas, Sarkozy é uma usina de idéias e ações enérgicas
Por Diogo Schelp
Pouco antes de ser eleito presidente da França, Nicolas Sarkozy voltou de um almoço com o então primeiro-ministro inglês Tony Blair dizendo a seus assessores, em tom jocoso: "Tony e eu acabamos de tomar uma decisão. Vamos conquistar a Europa". O episódio é descrito em um livro lançado na semana passada pela dramaturga francesa Yasmina Reza, que acompanhou os bastidores da campanha presidencial de Sarkozy. Há 100 dias no cargo, completados na semana passada, o presidente francês dá mostras de querer muito mais do que simplesmente conquistar a Europa. Ele demonstra tal energia e capacidade de apresentar novas idéias - e de transformar rapidamente muitas delas em fatos concretos - que até os franceses mais bem informados estão tendo dificuldade em acompanhar. Super-Sarkô, Hiperpresidente e Nicolas Bonaparte (em referência ao agitado e centralizador Napoleão Bonaparte) são alguns dos apelidos que a imprensa francesa cunhou para o ativo Sarkozy. O assinante lê mais aqui.
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 Sexta-feira, 24 de Agosto de 2007
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Código de Defesa do Consumidor | 07:26
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A história é uma coleção de conhecimentos a disposição dos contemporâneos. Quem faz bom uso, aumenta a chance de manobrar melhor no presente. No compêndio referente ao início do século XX há uma frase do teórico ucraniano Dimitri Zacharowicz Manuilski, responsável pela ligação entre o Comitê Central do Partido Comunista soviético e a Internacional Comunista, o Komintern, organismo encarregado de disseminar a ditadura do proletariado além fronteiras da União Soviética. A frase do camarada diz o seguinte: 'Acuse o adversário de fascista, o tempo que ele gasta para se justificar, você prepara o ataque seguinte.' Em um primeiro instante, a tática serviu aos simpatizantes. Mais tarde, foi útil para entender o funcionamento do regime soviético no varejo e o comunismo com seus derivados, no atacado. Mas hoje, trata-se de uma lição extraordinária de como economizar tempo não dando nenhuma peteca à bobagens. Toda vez que a imprensa for acusada de fascista, ela prestará melhor serviço se, com toda serenidade e altivez, ocupar o espaço das justificativas com mais informações. No mínimo, a prática é um respeito ao consumidor, conceito presente desde o código de Hamurabi --- o mais antigo --- e no Brasil, desde o 11 de Setembro de 1990 pela lei número 8.078.
ADENDO: A chamada na página de abertura da VEJA.com para essa nota menciona o substantivo feminino 'manopla". É a luva de ferro que fazia parte das antigas armaduras de guerra, na Idade Média. Uma mão, uma ajuda.
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 Quarta-feira, 22 de Agosto de 2007
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VIDA SEVERINA Rachida | 17:12
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Em fevereiro de 2007, Jamal Dati, 35 anos, foi condenado pelo Tribunal Correcional de Verdun por tráfico e consumo de heroína e maconha. A sentença de seis meses permitia ao réu cumprir a pena em liberdade condicional. A promotoria recorreu. Ontem, 21 de Agosto, depois de seis meses de suspensão da sentença, o Tribunal d'Appel de Nancy proferiu o veredicto definitivo. O réu passará um ano encarcerado. Jamal tem origem modesta. O pai é operário, um imigrante marroquino casado com uma argelina analfabeta. O casal criou os doze filhos em um apartamento de Conjunto Habitacional, no subúrbio de Paris. A segunda filha da família Dati é um ícone, um exemplo de sucesso da integração dos filhos da imigração de origem árabe muçulmana na sociedade francesa. Advogada brilhante --- teve que trabalhar duro para pagar os estudos --- já foi quatro vezes capa dos principais semanários franceses. Duas vezes no Le Point, uma vez no L'Express e outra, no Nouvel Observateur. Seu percurso será relatado em sete biografias. Ela se chama Rachida. É a ministra da Justiça da França. Irmã de Jamal que cumprirá sua pena sem choro, vela ou fita amarela. |
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 Terça-feira, 21 de Agosto de 2007
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FRANÇA Sarkozy quer castração química para os pedofilos recidivos | 07:56
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 A ministra da Justiça, Rachida Dati e Nicolas Sarkozy |
Noves fora a estatura --- física --- é difícil encontrar pontos de contato entre Nicolas Sarkozy, presidente da França, e seu homólogo brasileiro, Lula da Silva. Se ambos são baixinhos, a percepção do crime os coloca em dimensões opostas. Sarkozy mostra tolerância zero com os criminosos enquanto Lula, sempre que pode, busca circunstâncias atenuantes ---- a mais comum delas parte da premissa de que indivíduos desrespeitam a lei empurrados pela sua condição miserável. As declarações do presidente Lula depois do assassinado bárbaro do menino João Helio, arrastado até a morte pelas ruas do Rio de Janeiro, decepcionou tanto os pais do menino quanto deram munição a leniência e a impunidade, principais aliados do crime no Brasil. A fotografia mais eloquente da campanha eleitoral de Lula mostra o presidente acariciando a cabeça de um menino, no ombro do pai. A imagem coincide com outro adulo, menos propício a efeitos de propaganda, a entrevista de Lula ao Jornal Nacional, na qual o presidente chama de 'nossos meninos' os integrantes de seu partido acusados de envolvimento com o mensalão. Sarkozy vai por caminho inverso.
Os franceses estão estarrecidos desde a notícia de que Francis Evrad, 61 anos, condenado a 27 anos de prisão por pedofilia, aproveitou do regime de liberdade condicional, depois de cumprir 18 anos de pena, para seqüestrar e violar Enis Kocacurt, um menino de 5 anos. Agrava o caso, ainda que o médico da prisão alega desconhecer a ficha criminal de Evrad, a prescrição de Vigra para o criminoso --- o medicamento para impotência sexual masculina foi encontrado na roupa do pedófilo, pego em fragrante delito. Isso acontece uma semana depois de aprovada a lei que estabelece um limite pelo qual as condenações de criminosos recidivos não podem ser inferior. Mas não impediu Sarkozy de propor ontem, 21 de Agosto, tornar a legislação ainda mais severa. O presidente quer submeter os delinqüentes sexuais, depois de cumprirem sua pena, a um exame realizado por uma comissão médica para determinar a necessidade de uma hospitalização carcerária. O primeiro hospital de regime carcerário --- esta prevista a construção de uma dezena, na França --- entrará em funcionamento em 2009, na cidade de Lyon.
Aos pés da escadaria do Palácio do Elysée, sede da presidência francesa, e ao lado da ministra da Justiça, Rachida Dati, depois de receber o pai e o avô do menino Enis, Sarkozy disse o seguinte: 'Aqueles que não aceitarem ser tratados ficarão nos hospitais-prisão o tempo em que se estimar que os delinqüentes ainda são perigosos para sociedade.' E completou com seu estilo inconfundível: 'Aqueles que não aceitarem ser tratados nos hospitais-prisão poderão sair a condição que utilizem uma pulseira eletrônica de rastreamento e se submetam a um tratamento hormonal. Quem quiser chamar o tratamento de castração química, pode fazê-lo, o termo não me causa nenhum medo.' Dois tipos de moléculas são utilizadas no tratamento antiodrogênico: o acetato de ciproterona e a leuprorelina. Elas são ministradas por injeções diárias ou mensais de acordo com a gravidade do caso e tem como objetivo inibir a testosterona de estimular certas zonas do cérebro que influenciam as pulsões da libido.
Segundo o ultimo relatório do Observatório Nacional da Delinquencia --- OND, na sigla em francês - referente a julho e agosto, terceiro e quarto meses depois da posse de Nicolas Sarkozy, a delinquencia baixou 2,23% em relação a 2006.
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 Segunda-feira, 20 de Agosto de 2007
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APAGÃO AÉREO O atoleiro | 09:15
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Na história da aviação vários aviões ultrapassaram o limite da pista durante o pouso. Foi o caso do A320 da TAM na tragédia de Congonhas. Não será nenhuma surpresa, pela natureza do empreendimento, que isso vai continuar ocorrendo, e você ou um ente querido seu poderá estar dentro de uma aeronave, como aconteceu com as 199 pessoas mortas no maior acidente aéreo do Brasil. Quando autoridades agem com responsabilidade tirando lição das tragédias, tem se colocado a tecnologia a serviço da proteção de vidas humanas. Embora não sejam conflitantes, a questão do espaço entre as poltronas dos aviões, apresentada de forma demagógica, é bem menos importante do que a construção de um 'atoleiro' na pista do Aeroporto de Congonhas, projeto que a Infraero ainda hesita em levar a cabo. A simples observação dessa precaução, adotada em aeroportos modernos com características do Congonhas, bastaria para derrubar indecisões. Não fosse a temerária mixórdia em que se transformou a administração da aviação civil no país, a decisão se não foi tomada antes, deveria ter sido a primeira do primeiro minuto da aurora seguinte a tragédia.
O que é o 'atoleiro'? Trata-se de uma área no final da pista --- tem em torno de 8 por 23 metros ---, pavimentada com concreto poroso ou 'cimento celular' que se rompe quando a força do peso do avião é exercida sobre sua superfície. O 'atoleiro' é mais eficaz que uma caixa de areia ou brita nas zonas de escape das pistas de automobilismo. Ele tem a função de desacelerar o avião de forma controlada causando-lhe pouco dano e mais importante, permitindo que os passageiros sejam desembarcados com vida. Em alguns casos, completa o sistema de contenção a instalação uma rede de aço --- muito comum em porta-aviões para impedir que os aviões terminem a trajetória de pouso no fundo mar. O sistema, criado em 1996, conhecido como EMAS --- Engineered Material Arresting System --- é capaz de reter um jato comercial de grande porte a 130 km/h. |