Paris - VEJA.com
Sexta-feira, 15 de Junho de 2007

3/6/2007 - 8/6/2007


Sexta-feira, 08 de Junho de 2007
REUNIÃO DO G8
Vá, vá, Lula, lá
| 09:06


O raciocínio do presidente Lula é um atentado permanente a lógica pelo seu especial apreço a incoerência. Em uma entrevista em Berlim, Lula acusa o presidente americano George W. Bush de tentar fazer do G8, o grupo dos países que detém 63% do PIB mundial, um 'clube de amigos.' Ora, o G8 é um clube de amigos desde que se reuniu pela primeira vez em 1975. Trata-se de um encontro anual onde líderes dos países mais ricos e Rússia discutem, informalmente, problemas transnacionais. Lula pressupõe a expectativa de Bush que os colegas digam amém às suas propostas. Vá, vá, Lula, lá. Mas na mesma entrevista, questionado sobre as novas revelações da Polícia Federal, envolvendo o seu irmão Genival Inácio da Silva, o Vavá, o presidente diz: "Eu não acho justo que depois de uma reunião como essa com cinco países importantes me peçam para falar algo que eu poderia falar na segunda-feira em São Paulo ou em Brasília." Em primeiro lugar, os jornalistas não perguntaram apenas sobre Vavá. Mas aqui cabe uma outra questão. O que Lula espera dos jornalistas? Um clube de amigos? Embora, haja os que optam pela simpatia em detrimento a informação, quem decide ser jornalista coloca-se em oposição a subserviência ao governo. Não se refere aqui, a imprensa oficial ou digamos, seus impostos leitor, travestidos de jornalistas.

Imagine o leitor se Jeb Bush, irmão do presidente americano, fosse acusado pelo FBI de pedir dinheiro para favorecer terceiros, como é o caso de Vavá. Os jornalistas americanos sabatinariam o presidente dos EUA onde e na circunstância que ele estivesse. No caso, a diferença entre Bush e Lula é que o americano teria interesse em explicar aos seus compatriotas na primeira hora. Atitude análoga teria Tony Blair, Nicolas Sarkozy, Ângela Merkel, Romano Prodi e outros.Ninguem coloca o gato debaixo do tapete nessas horas. Trata-se de um requisito básico das democracias: prestar contas.

Agora imagine o leitor se o presidente Bush decidisse fechar um canal de TV americano como a NBC, ABC, CBS ou CNN. O presidente Lula, em entrevista a Folha de São Paulo --- com prévio acerto para não tratar do assunto Vavá e do compadre --- justifica o fechamento da RCTV venezuelana pelo coronel Hugo Chavez. O presidente Lula avança como democrática a prática de não renovar concessões de TVs segundo a 'visão' do presidente de cada país. Diz Lula: 'Nos Estados Unidos, há concessões. Algumas são renovadas.' É um despautério. Não há na história americana uma só TV fechada porque discordou da 'visão' do presidente ou por não pertencer ao clube de amigos. Seria uma agressão intolerável a Primeira Emenda da Constituição. Fazer apologia dos limites da liberdade de expressão, vá, vá, Lula, lá. Mas querer que todos se prestem a ignorância e subserviência é muito.


Quinta-feira, 07 de Junho de 2007
G8
Lula: pressão arterial "10 por 6"
| 16:51

Lula acordou às 5h30 hoje, quinta-feira, 7 de Junho. Caminhou a volta da embaixada do Brasil em Berlim. Fez fotos aos pés da estátua do poeta alemão Heinrich Zille. Sentou-se em um banco de jardim. Mediram-lhe a pressão arterial: 10 por 6

A pressão arterial normal de uma pessoa é "12 por 8", ou seja, 12 cmHg acima da pressão atmosférica no auge da contração (pressão arterial sistólica) e 8 cmHg no relaxamento do coração (pressão arterial diastólica).
REUNIÃO DO G8
Os ricos no banco. Vavá entra em campo. Lula tira o time.
| 13:41


De verde, a chanceler alemã Ângela Merkel anunciou que das primeiras reuniões dos lideres do G8 emergiu o consenso de considerar um corte de 50% nas emissões de CO2 até o ano 2050. E também, negociar um acordo para substituir o Protocolo de Kyoto que termina em 2012. O que significa isso? Num primeiro instante: 'a conversa vai indo bem.' São saudáveis intenções, boa vontade, mas não se sabe, por exemplo, qual é o ano de base para o cálculo. Merkel quer metade do nível das emissões de 1990 e um aumento no aquecimento global em 2050 de, no máximo, 2 graus Celsius. Bush não quer ouvir falar em números ou metas precisas ---- mais uma razão para Laura Bush não ter ciúmes, o marido seduz pouco. Os europeus querem que a China e Índia participem do compromisso. Os dois países que mais crescem no mundo estão longe de concordar. No fundo, acham que isso é astúcia de quem cresceu fazendo fumaça e agora que não conseguem mais, querem impedir os outros. Em todo caso, Frau Merkel não iria aparecer para dizer que a fila não está andando, sobretudo, sabendo que 9.000 manifestantes estão bem bravos do outro lado da cerca do Grande Hotel Kempinski, onde acontece a reunião do G8.

A notícia mais interessante veio de Putin, considerado, anteriormente, o galo de briga da reunião. Ele propõe a construção de um sistema de radares antimíssil, em joint venture com os americanos, no Azerbaijão. A proposta dos americanos é construir o sistema na Polônia e na Republica Checa. Respondendo uma questão de um jornalista, Putin disse que a instalação do sistema apontado para Rússia equivaleria ao seu país mirar os mísseis atômicos para Europa. Os mais alarmistas viram sinais do reinício da Guerra Fria. Vale repetir que as expectativas sobre os resultados do G8 devem respeitar seus propósitos. O encontro não serve para decidir nada, os lideres dos paises que representam dois terços do PIB mundial, não tem mandado para isso. A reunião é para conversar. A propósito: noticias de Berlim dão conta que desde que Vavá entrou, Lula tirou o time de campo. Ele não quer conversa com jornalistas brasileiros. Anda fugindo deles como o diabo da cruz. Segundo sua agenda, hoje as 19h, o presidente tem um encontro com os jornalistas. A ver.

Terça-feira, 05 de Junho de 2007
REUNIÃO DO G8
Ainda vale a pena?
| 13:13


Da esquerda para direita: Romano Prodi (Italia), Nicolas Sarkozy (França), Tony Blair (Inglaterra), Angela Merkel (Alemanha), George Walker Bush (EUA), Shinzo Abe (Japão), Stephen Harper (Canada) e Vladimir Putin (Russia)

Os contribuintes alemães já gastaram 120 milhões de euros para sediar no balneário de Heiligendamm, norte do país, o encontro do G8 - o grupo dos sete paises mais ricos e a Rússia. Segundo a tradição, a reunião provoca, no mínimo, dois tipos de reações. A primeira, acontece antes e durante. Milhares de indivíduos que se denominam antiglobalistas, ecológicos, pacifistas e contra a pobreza, protestam ora de forma pacifica e ora brutal. Este ano, há um grupo novo, o Bloco Negro. São jovens anarquistas violentos que, tal qual muitas vertentes protestarias, nasceu dos movimentos da esquerda alemã dos anos 60 e 70. Eles se vestem de negro e portam máscaras de esquiadores para não serem identificados. Seu confronto com as tropas de choque já causou, até agora, mais de mil feridos --- a vasta maioria é nas fileiras policiais. Terminada a reunião dos lideres, começam as indagações se custo beneficio de realizá-la ainda vale a pena? E logo são esquecidas até o ano seguinte.

Afinal, ainda tem sentido as reuniões do G8? A julgar pelo custo da operação, a violência dos manifestantes e adicione o fato que delas nunca surgiu uma decisão significativa da 'diretoria do mundo' --- não tem mandado para tal ---, a resposta é não. No entanto, a réplica negativa não é completamente satisfatória. O ex-presidente francês Valéry Giscard d'Estaing, organizador do primeiro encontro no Castelo de Rambouillet, na França, em 1975, explica qual era o objetivo original: 'Permitir que os lideres dos paises mais industrializados do mundo se engajassem em discussões com intimidade, cara a cara, sobre os problemas econômicos.' A prática existe desde que monarcas organizavam caçadas convidando seus pares para participar e discutir alianças. A necessidade do encontro entre líderes dos países que representam 63% do PIB mundial para trocar idéias, buscar consensos em soluções para resolver problemas transnacionais não é sem valor.

Alguns reivindicam a participação da China, Índia, Brasil e sabe-se lá mais quem no G8. Para eles, a reunião seria mais representativa das novas forças que surgiram nos últimos 30 anos. Por que não? Mas é preciso levar se em conta que o G8 não é um corpo decisório. Ele não é o Conselho de Segurança da ONU. Os lideres se encontram para conversar, se possível, espontaneamente --- vem daí o fato das gafes nos encontros serem mais famosas do que as tomadas de posição. Mais importante: é falsa a percepção que os poderosos se reúnem sempre para conspirar contra o interesse dos mais fracos.

Segunda-feira, 04 de Junho de 2007
O ESTADO FRANCÊS
O reino de Barnabé
| 18:03


- População da França: 64 milhões de habitantes

- O estado é o maior empregador na França, 21,9% dos indivíduos da população ativa são funcionários públicos. Nos últimos 20 anos o estado criou 800.000 empregos.

- O concurso é principal modo de recrutamento do serviço público francês --- 96%. Mais de um milhão de candidatos se inscrevem anualmente nos concursos.

- Em 2005, através do concurso externo (candidatos não funcionários) foram preenchidas 47.590 vagas. A média foi de 10 candidatos por vaga. O concurso interno (reservado aos funcionários) foi responsável por 16.120 vagas. O estado dispôs 1.510 postos a serem preenchidos pelo chamado 'terceiro concurso' --- a grosso modo, é uma seleção entre candidatos que já exerceram, no setor privado, as funções equivalentes a que estão postulando. Os ministérios empregaram 164.400 funcionários sem concurso, os non-titulaires. O estado 'titularizou' --- outra forma de preenchimento de cargos --- 4.996 funcionários.

- Os servidores públicos na França são divididos em 3 categorias :

1. La fonction publique d'État - Embora o pais não seja uma federação, essa função equivale ao funcionalismo federal brasileiro. Total de funcionários em 2005: 2.543.351 (51%)

2. Fonction publique territoriale - São os funcionários dos municípios, departamentos e regiões. Total: 1.522. 143 (30%).

3. Fonction publique hospitalière - São os funcionários administrativos do Ministério da Saúde, médicos, enfermeiros e etc. Total: 966.340 (19%)

Total das 3 categorias : 5.031.834 funcionários

- O funcionalismo francês tem 500 postos catalogados, 99,9% dos funcionários não são remunerados pelo mérito e 4.000 decretos e circulares organizam o sistema. Ele é hierarquizado em três grupos salariais A, B e C.

- As mulheres representam 63% dos funcionários públicos franceses.

Salário

- O salário líquido médio anual do servidor francês equivalente ao servidor federal brasileiro (salaire annuel net dans la fonction publique d'Etat): 23.125 euros.

- O salário líquido médio anual no setor privado: 21.500 euros

- Jornada de trabalho anual no serviço público: 1.580 horas

- Jornada de trabalho anual no setor privado: 1.670

Aposentadoria

- Duração da cotização para aposentadoria no setor público :

2007 - 37,5 anos
2008 - 40 anos
2012 - 41 anos

- Duração da cotização para aposentadoria no setor privado:

2007 - 40 anos
2012 - 41 anos

- Porcentagem no salário bruto da contribuição no setor público: 7,85%

- Porcentagem no salário bruto da contribuição no setor privado: 12,75%

- Cálculo da aposentadoria no setor público: 75% do ultimo salário, seis meses antes da aposentadoria --- 60 anos inicio do benefício e 65 anos data limite para aposentadoria

- Cálculo da aposentadoria no setor público: 61% do ultimo salário a partir da data de aposentadoria que acontece aos 65 anos.

- Os policiais e membros da Guarda Republicana podem se aposentar depois de 15 anos de serviço. Caso decidam depois da aposentadoria iniciar uma outra carreira profissional, não perdem os benefícios. Os funcionários da SNCF e RATP (setor ferroviário público - trens e metrôs) podem se aposentar a partir dos 50 anos.


Comparações com outros paises

- Funcionários públicos na população ativa:

França - 21,9 %
Canadá - 15,5 %
EUA - 14,1%
Alemanha - 10,8%

- Professores do nível secundário por mil habitantes:

França - 83
Japão - 71
Alemanha - 66
Inglaterra - 60

- Policiais por mil habitantes

França - 4,2
EUA - 3,5
Alemanha - 3,2
Inglaterra - 2,5

- Agentes do fisco por mil habitantes

França - 2,2
Inglaterra - 1,3
Suécia - 1,2
Canadá - 1,2

- Diplomatas no exterior encarregados de ajudar a exportação e participação do país no comercio mundial:

França - 1.987 - 4,9%
Inglaterra- 1.500 - 4,6 %
Alemanha - 1.046 - 9,3%
Itália - 730 - 3,8 %
Espanha - 263 - 2,3%

Curiosidades

- Os 48.000 funcionários da Prefeitura de Paris beneficiam de 12,5 semanas de férias por ano.

- Os 4.300 controladores aéreos franceses tem uma jornada de trabalho semanal de 24 horas.

- Os professores universitários dedicam apenas 4 horas por semana ensinando nas salas de aula.

- Os funcionários da Prefeitura de Montpellier, cidade do sul da França, são os recordistas de faltas por motivo de 'doença' --- 32 dias por ano. Isso equivale a 21% do total anual de dias de trabalho. A média no setor privado é de 6,1%

- O Ministério da Cultura e os funcionários da administração central do Ministério da Educação lideram o número de faltas com justificativa médica.

- O Ministério da Educação paga 32.000 professores sem salas de aula para fazer nada.

- O policial francês que excede 5 minutos além do horário de expediente tem direito a uma hora de recuperação. Isso significa que se ele trabalhar 35 minutos além do expediente normal, terá direito a um dia suplementar nas férias.

- Os 4.430 diplomatas franceses da ONU e os 4.240 que trabalham na União Européia não pagam imposto de renda.

- O estado francês tem uma frota de 142.000 veículos para utilização 'pessoal' dos funcionários. Isso custa ao estado 530 milhões de euros por ano. Estacionamento, mecânica e motoristas são pagos a parte.

- O estado tem 200.000 moradias de função. O Delegado Geral do Armamento, por exemplo, mora em um apartamento de 400 metros quadrados no elegante sétimo distrito parisiense (Inválidos), com vista para Torre Eiffel --- o aluguel de um apartamento equivalente é de 30.000 euros por mês. Se os gastos com moradias de função forem adicionados ao salários, eles representam um complemento de 6.000 a 120.000 euros por ano.

- Os agentes do fisco recebem um bônus de produtividade entre 1.000 a 8.600 euros por ano. A gratificação não tem relação alguma com a produtividade, mas com a hierarquia.

- Os técnicos em informática do fisco recebem um bônus de 1.095 euros por ano. Eles serve de complemento ao bônus de produtividade.

- Os agentes do fisco recebem 577 euros por ano como bônus técnico. O conceito 'técnico' não corresponde a nenhuma aptidão específica. Todos são técnicos, todos ganham o bônus.

- Os agentes do fisco que moram a mais de 20 km de distancia do trabalho beneficiam de um bônus de mutação. Ele varia de 1.300 a 5.300 euros por ano de acordo com distância.

- Os agentes do fisco recebem uma indenização provisória de 1.400 euros nos primeiros 3 anos da carreira. Ela serve para 'encorajá-los,' segundo a justificativa do Ministério da Economia.

- Todos os diretores do fisco francês recebem 960 euros por ano para compensar gastos com papelaria (canetas, envelopes, papel e etc.). As despesas já correm por conta do Ministério das Finanças.

- Todos agentes do fisco beneficiam de um bônus de fidelidade de 1.095 euros por ano. Ele serve para desencorajar os agentes a abandonar o emprego. Isso porque eles ganham mais quando deixam o fisco e vão aconselhar o setor privado a como burlar o fisco.

- Em 1985, a Convenção de Schengen aboliu as fronteiras entre 15 paises europeus, mas a França guardou seu 19.000 agentes fronteiriços.

- O número de funcionários do Ministério da Agricultura aumentou em 8% nos últimos 25 anos enquanto a produção agrícola diminuiu em dois terços.

- La Banque de France que não administra mais uma moeda nacional desde a criação do euro, emprega 13.000 funcionários. The Bank of England, o banco central britânico --- a libra inglesa ainda é a moeda do reinado --- emprega 1.800 pessoas. Ou seja, 7 vezes menos. The Bank of Canada tem 1.200 empregados. Ou seja, ele é onze vezes menor do que o banco central francês.

- La Banque de France financiou um belíssimo livro de luxo sobre a indústria de rendas de Calais, no Calvados. A tiragem total foi de 60 exemplares entre os quais, 45 deles foram presenteados aos diretores do banco. La Cour des comptes --- o Tribunal de Contas --- quer saber por quê?

- As máquinas de contar notas de dinheiro do banco central francês são capazes de tratar 9.277 delas por hora. As máquinas inglesas processam 108.000 por hora.

- The Met Office, o serviço meteorológico inglês, considerado o melhor do mundo, emprega 1.800 pessoas. La Meteo France emprega 3.732 funcionários.

Domingo, 03 de Junho de 2007
ENTREVISTA : CHRISTIAN SAINT-ÉTIENNE
O estado eficaz
| 11:21


Ele mede 15 por 20 centímetros, pesa 285 gramas e tem apenas 200 páginas, mas é um grande livro. L'État efficace --- O estado eficaz --- é o último bestseller do francês Christian Saint-Étienne, um dos mais brilhantes economistas da sua geração. O autor, diplomado pela Universidade Carnegie Mellon e The London School of Economics, faz uma anatomia do estado francês e o confronta com as melhores experiências dos vizinhos continentais e paises ultramarinos. O exercício permitiu formular uma dieta para o obeso monstrengo estatal, conseqüência das desastrosas gestões públicas. O resultado é o conceito de um estado dinâmico que opera em beneficio do cidadão e do crescimento econômico. Comentarista recorrente dos jornais, revistas e TVs européias, presidente do Instituto France Stratégie, Saint-Étienne conversou com a VEJA no seu escritório, em Paris. Na entrevista, ele aborda o papel do estado moderno, o alçapão do assistencialismo, o sindicalismo radical e a 'revolução Sarkozy.'

Veja - Qual é o papel do estado em uma nação moderna?
Saint-Étienne - Ele deve ter três componentes. Primeiro, o estado regaliano, cuja missão é fazer respeitar o estado de direito pela ação da justiça, assegurar a segurança interna e externa da nação. O estado regaliano é o guardião dos direitos imprescritíveis do individuo. Em seguida, o estado providência, responsável pela garantia de direitos fundamentais: a educação e a saúde pública. Ele deve empenhar-se também para criar um sistema mínimo de seguridade coletiva contra os riscos da vida como o envelhecimento, o desemprego, os acidentes do trabalho. Cabe a ele ajudar indivíduos em dificuldade a se integrar no mercado de trabalho. Não me entenda mal, isso não quer dizer assistencialismo, a armadilha da dependência. O estado providência deve contribuir para que o individuo se eleve a dignidade de cidadão ativo, exigindo contrapartida Ele deve prover infra-estrutura e capacidades competitivas que facilitem a criação de riqueza para que a população melhore de vida. Por fim, um estado estratégico a serviço da liberdade coletiva na preparação do longo termo. No desempenho dessas três missões, o estado deve gastar pouco e bem os recursos que recolhe dos contribuintes. O tamanho do estado deve corresponder entre 40 a 45% do PIB. Seu papel é estar a serviço do cidadão, não o contrário.

Veja - Como funciona na prática?
Saint-Étienne - Um estado eficaz atende as tarefas atribuídas pelo corpo político sem gastar um centavo além da arrecadação, fornecendo serviços da maior qualidade possível. É imperativo estabelecer para toda ação pública, três instrumentos: objetivo claro, um responsável competente e orçamento definido. As missões muito genéricas e vagas impedem avaliações dos resultados que devem merecer sempre recompensa ou sanção. A Suécia depois de uma década de avaliações e reflexões, desenvolveu um princípio da maximização da eficácia estatal através da especialização. Ao invés de grandes ministérios, responsáveis por um número colossal de missões amplas, os suecos fracionaram a administração pública em centenas de agências, cada uma, com missão específica e precisa. Elas são avaliadas pelo Escritório Nacional de Auditoria (NAO), organismo independente do executivo e sob a autoridade do Parlamento. Os americanos têm algo equivalente, o Escritório Orçamentário do Congresso (CBO).

Veja - Houve outras vantagens?
Saint-Étienne - Sim, no caso da Suécia, o mecanismo trouxe uma economia considerável para o contribuinte. Em 15 anos, o governo reduziu 15% a despesa pública em relação ao Produto Interno Bruto. O Canadá cortou, em uma década, mais de 20% dos seu servidores públicos excedentes. O governo pagou indenizações elevadas para evitar disputas que podem durar anos na justiça trabalhista. O direito de greve no serviço público foi suspenso durante 7 anos. Na Espanha, o governo negociou com sindicatos responsáveis a criação do serviço mínimo nos transportes. Os suíços, por referendo, suprimiram a garantia de emprego dos servidores públicos. A folha de pagamento enxuta permite ao governo investir em infra-estrutura. No Brasil há uma admirável capacidade de produção da agricultura, uma das melhores do mundo. Ela está contida pela insuficiência de escoamento. As estradas são ruins e portos obsoletos. É uma pena que o governo brasileiro seja tão desatencioso com os potenciais do país. Quando ele não está justificando a corrupção endêmica, esforça-se numa política assistencialista. Há governos que ainda não se deram conta ou preferem fazer de conta que não é a criação de riquezas que melhora a vida do indivíduo. Para eles a riqueza brota na natureza e os mais fortes se apropriam. Era assim no tempo das cavernas, mas desde que o homem inventou a agricultura, o primeiro sistema de produção, ficou claro o benefício da criação de riqueza na vida da humanidade.

Veja - Como o estado eficaz define uma missão?
Saint-Étienne - Tome o exemplo do ensino superior. A premissa habitual é de capacitar o estado para oferecer a transmissão de conhecimento a quem desejar. Ora, ninguém em sã consciência pode ser contra propósito tão nobre. O problema é de outra ordem. Trata-se de um objetivo vago, impossível de avaliar o resultado. O sucesso nesse domínio tem sido gabar-se do número estudantes matriculados nas universidades, o tamanho do corpo docente e o metro quadrado de área construída. Esse critério, puramente quantitativo, continuará apenas multiplicando alunos, professores, universidades e despesas. Na França, 20% dos alunos deixam o primário sem saber, simultaneamente, ler, escrever e contar. Igual numero deles saem das universidades sem diploma. Em contrapartida, na Alemanha, Japão e Coréia do Sul há uma escolha clara de prover conhecimento preparando o aluno para o emprego. As universidades são aferidas pelo número de empregos obtidos pelos seus ex-alunos, pela adequação entre a formação recebida e a função profissional efetiva. No domínio da pesquisa, enquanto os japoneses registraram 106 patentes e Alemanha 90, a França só conseguiu chegar a 40. A definição do objetivo é uma questão chave. Sem ela não há avaliação possível. Alguns governos, por esperteza ou incompetência, preferem ficar no aspecto genérico, assim não precisam prestar contas, o que é um requisito básico das democracias. Ou seja, como os impostos que eu pago estão sendo aplicados e quais são os resultados?

Veja - E na questão da segurança pública?
Saint-Étienne - Uma vez mais, o estado só ganha a batalha se definir claramente seu objetivo, onde irá concentrar sua energia. Em nada adianta propagar o combate à violência. O que significa violência ao certo? Tampouco é eficaz aumentar, indiscriminadamente, o número de policiais, veículos, helicópteros e armas. O estado deve antes ter claro que o problema é a prática do crime, merecedor de punição severa para quem o pratica. Precisa identificar os criminosos e de forma urgente, tirá-los da rua, do convívio com os cidadãos de bem, suas vítimas. Essa questão deve ser encarada como catástrofe natural. Ela aniquila a moral, rompe o tecido social e inibe a capacidade produtiva.

Veja - Qual é o futuro do estado de bem-estar social europeu?
Saint-Étienne - Ele está em plena transformação em função da profunda dívida pública de países como Itália, França e Alemanha. Eles gastam muito mais do que se arrecadam. E tornou-se insuportável para o contribuinte e contraproducente para enfrentar a competição mundial, a velha política de taxar, taxar, taxar. Na década passada, o ex-presidente americano Bill Clinton desenvolveu a noção de ativação das despesas do estado. Ela foi adaptada na Europa por Tony Blair e, em seguida, pelo ex-chanceler alemão Gerhard Schröder e José Maria Aznar, primeiro ministro espanhol. No que respeita a duração do seguro desemprego, houve reduções significativas para os padrões europeus. Na Alemanha, por exemplo, ele passou de 18 para 12 meses. O benefício tornou-se um complemento salarial e não é mais calculado em função da condição social. Caso o beneficiário encontre um trabalho, a diminuição da ajuda do estado é gradual. Doravante, o desempregado inglês não pode recusar mais de duas ofertas de emprego equivalentes a sua capacidade no lugar onde mora sob pena de perder a alocação social. A França foi o único país europeu que se manteve longe das reformas.

Veja - Por quê?
Saint-Étienne - Porque aqui ainda vigora a ideologia marxista de que toda intervenção do estado é boa. Mesmo com seus efeitos perversos e alto custo, ela foi cultivada até por governos liberais. Criamos o que eu chamo de alçapões de pobreza. Uma vez que se caí neles, não há nenhum incentivo do estado para o indivíduo sair de lá.

Veja - Como é isso?
Saint-Étienne - Quando se perde o emprego, o estado dá, sem exigir nenhuma contrapartida, até 4.000 euros durante, no máximo, dois anos e meio. Depois, o desempregado recebe a Remuneração Mínima de Inserção, o famoso RMI. Um 'erremista' ganha entre 445 a 794 euros por mês dependendo do numero de filhos. Ele recebe ainda 300 euros por mês para pagar o aluguel e não paga transporte público nem serviço médico-hospitalar nem a cantina da escola gratuita dos filhos nem a colônia de férias. Se arrumar emprego, perde todos os benefícios. A única coisa que o 'erremista' não recebe do estado é incentivo para sair da comodidade.

Veja - Quantos estão no alçapão?
Saint-Étienne - A população ativa na França gira em torno de 27 milhões de indivíduos entre os quais 5 a 6 milhões o fato de trabalhar ou permanecer inativo é totalmente irrelevante porque a remuneração é a mesma. Mais grave: 2 milhões de 'erremistas' ganham mais se não trabalharem. O tamanho do estado francês é da ordem de 54% do seu PIB. Os 10% acima do considerado uma despesa ideal deve-se, sobretudo, a benefícios sociais ausentes na grande maioria dos países.

Veja - Para entrar na forma ideal, qual o melhor caminho para a França e os países de modelos similares?
Saint-Étienne - Cortar gastos supérfluos, não gastar mais do que arrecada e promover a reengenharia descrita anteriormente. Ou seja, definir claramente, para cada missão do estado, um objetivo, um responsável e um orçamento. Em dez anos, a França pode reduzir a diferença de 10% do PIB, mantendo o estado como ator de desenvolvimento, mas dinamizando sua ação. Na situação atual, ele é um freio. Antigamente, as empresas pareciam com os estados. Elas funcionavam segundo o modelo inflacionista, sujeito a critérios quantitativos. A maior parte delas fez o dever de casa, promovendo a eficiência operacional nos anos 80. Agora está na hora dos estados mirarem no exemplo das empresas. E não me venham dizer que estou questionando sua existência nem suas funções essenciais. Sempre que se fala em eficiência do estado, há resistência de um grupo temeroso de perder seus emolumentos paroquiais e outro, para quem o desempenho jamais deve ser avaliado. São os autores do falso alarme que se quer transformar a ação do estado em simples mercadoria. Isso não é defesa do estado, mas sim, autodefesa. O risco do estado de vocação onipotente tem sido, invariavelmente e por toda parte, sua ausência lá onde mais se precisa dele.

Veja - Quem resiste as propostas para reformar do estado na Franca?
Saint-Étienne - Sobretudo os sindicalistas intransigentes. Eles ainda acham que tudo se explica e resolve nas sociedades modernas pela luta de classes. Ao contrario dos sindicados alemães que evoluíram para uma postura consensual de co-gestão da economia de mercado, os franceses permanecem no velho esquema irresponsável do confronto total. Engano achar que a França não é um pais competitivo e empreendedor. Ela sempre foi ou não teria acumulado essa monumental riqueza que está aí para todo mundo ver. Nos últimos 30 anos, qualquer esforço para adaptar a França a competição mundial foi repelida pelos sindicatos. Todos os governos recentes, seja de direita ou esquerda, capitularam diante deles.

Veja - Qual o tamanho dessa força?
Saint-Étienne - A França tem 25 milhões de assalariados, entre os quais, 20 milhões estão no setor publico e 5 milhões no privado. Apenas 10% deles são sindicalizados, o índice é inferior ao dos EUA. Mas note, no setor privado, apenas um milhão deles é sindicalizado. No setor publico eles são 3 milhões. Ou seja, no universo sindical francês, dois terços são funcionários públicos. Eles dominam setores fundamentais da sociedade: os transportes coletivos, a educação nacional e a saúde pública. Quando param, tem-se a falsa impressão que o país inteiro parou. O nível de greves na França não é superior ao da maioria dos paises ricos, mas aqui ele parece muito mais espetacular. Os sindicalistas franceses desenvolveram um know-how impar. As técnicas são copiadas no mundo todo. Quando os protestos antiglobalização começaram nos anos 90, os principais conselheiros para organizar as manifestações de grande visibilidade, eram franceses. Antigamente nós exportávamos mercenários para treinar exércitos na África. Agora exportamos sindicalistas para o mundo. Na verdade, o sindicato é um dos coletivos menos representativos da sociedade francesa, trata-se de um tigre de papel.

Veja - Qual a disposição do novo presidente da França, Nicolas Sarkozy, para confrontar os sindicatos?
Saint-Étienne - Acho que muita. Ele foi eleito com um mandato claro para essa missão. Como Ronald Reagan, mesmo nos momentos mais difíceis da campanha, Sarkozy jamais arredou o pé de suas propostas de reformas. Se não as fizer, seu governo perderá o sentido, será mais um a capitular. Em dezembro de 1995, no oitavo mês do primeiro mandato de Jacques Chirac, a França assistiu uma paralisação dos ferroviários contra a proposta de reforma do primeiro-ministro Alain Juppé. A medida visava alinhar com o restante dos funcionários o regime especial dos ferroviários que garante, por exemplo, aposentadoria aos 50 anos. A iniciativa era simbólica porque foi a primeira de uma série prevista pelo novo governo para reformar o estado. A resistência dos sindicatos foi a de sempre. Juppé, ao contrário de outros governos, permaneceu estóico. Pouco antes do natal, Chirac mandou Juppé negociar. Se o governo tivesse resistido três meses, a França teria um enorme prejuízo, mas poderia ter acertado seu futuro. A rendição do governo sinalizou para os sindicatos a força que eles tinham para determinar o rumo do país. Em razão do trauma inicial, nos doze anos seguintes, Chirac só conseguiu realizar uma tímida reforma da previdência. Sarkozy conhece bem este antecedente. Acho que ele prefere seguir o exemplo da obstinação quase nevrótica de Maggie Thatcher, responsável por quebrar o poder absoluto dos sindicatos ingleses na década de 80.

Veja - O que é plausível esperar do governo Sarkozy?
Saint-Étienne - Quem acalenta a expectativa que o estado francês será menos intervencionista na economia corre o risco ficar decepcionado. Isso significa que o socorro a empresas francesas em dificuldade, os subsídios agrícolas e o protecionismo a nível nacional e europeu vão continuar. Sarkozy não esconde esse desejo de ninguém. Em contrapartida, o tamanho do estado poderá diminuir. O novo presidente promete não substituir metade dos funcionários que se aposentarem, o que representa um corte 40.000 postos por ano. O problema é que fora de sua alçada, nos municípios, departamentos e regiões houve um aumento médio de 25.000 funcionários por ano. Será preciso fazer uma reforma institucional que empeça a funcionalismo publico fora do controle central crescer tanto. Em todo caso uma redução de 10.000 funcionários públicos por ano já é considerável para França. Ele promete também criar um serviço mínimo nos transportes. A idéia é de 1970.

Veja - Qual é o avanço liberal, a 'revolução Sarkozy'?
Saint-Étienne - Justamente, esse aspecto é menos evidente a ser percebido para quem não acompanha a França com atenção. A diferença de renda entre os 10% da população francesa que ganham mais e os 10% que ganham menos é apenas três vezes e meia superior. Na Alemanha, ela é quatro vezes maior. Cinco na Inglaterra e onze, nos EUA. A baixa disparidade de renda não é, necessariamente, um bom índice. O importante é fazer os ganham menos chegarem a um patamar elevado, sem sancionar os que ganham mais. O liberalismo não está só no eixo entre o estatismo e pouca intervenção no mercado. Há um outro, cuja uma ponta começa no igualitarismo total e termina na recompensa do esforço individual, na valorização moral do sucesso. Isso se traduz pela redução fiscal sobre a renda e o patrimônio. Trata-se de um motor formidável para o crescimento econômico. Sarkozy quer reduzir os impostos recompensando quem trabalha. Ele se nega a incentivar o ócio. Isso explica o mote 'trabalhar mais para ganhar mais' que o fez ganhar a presidência da França.
Por Antonio Ribeiro - 18:35  

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