Paris - VEJA.com
Sexta-feira, 08 de Junho de 2007

27/5/2007 - 30/5/2007


Quarta-feira, 30 de Maio de 2007
Renan: o que é uma nação? | 21:14


Trechos da famosa aula do filósofo francês Ernest Renan (1823-1892) no dia 11 de Março de 1882, na Sorbonne. O Renan explicou tão bem a questão que tornou-se uma referência até hoje.



'Eu me proponho analisar com vocês uma idéia, clara em aparência, mas que se presta aos mais perigosos mal-entendidos. As formas da sociedade humana são das mais variadas.

(…)

Esforcemo-nos em chegar a alguma precisão nestas questões difíceis, onde a menor confusão sobre o sentido das palavras, na origem da reflexão, pode produzir ao final os mais funestos erros. O que iremos fazer é delicado; é quase uma vivissecção; iremos tratar os vivos como de ordinário tratamos os mortos. Nós aí aplicaremos a frieza, a imparcialidade a mais absoluta.

(…)

Eis alguns pontos sobre os quais um espírito refletido deve debruçar-se, para se colocar em concordância com ele mesmo.

(…)

Os homens aplicados desejam aportar a esta matéria alguma razão e esclarecer as confusões onde se embaralham os espíritos superficiais.

(…)

Para não falsificar a ciência, é necessário dispensá-la de dar opiniões em relação a estes problemas, onde estão engajados tantos interesses. Estejamos seguros que, se a encarregamos de fornecer elementos à diplomacia, nós a surpreenderemos freqüentemente em flagrante delito de complacência. Ela tem melhores coisas a fazer: perguntem-lhe muito simplesmente a verdade.

(…)

Abrimos mão do grande ar que respiramos no vasto campo da humanidade para nos enclausurarmos em conventículos de compatriotas. Nada de pior para o espírito: nada de mais equivocado para a civilização. Não abandonamos este princípio fundamental que o homem é um ser racional e moral, antes de ser enclausurado em tal ou tal língua, antes de ser um membro de tal ou tal raça, um aderente de tal ou tal cultura.

(…)

Uma nação é uma alma, um princípio espiritual. Duas coisas que para dizer a verdade não formam mais que uma constituem esta alma, este princípio espiritual. Uma está no passado, a outra no presente. Uma é a possessão em comum de um rico legado de lembranças; outra é o consentimento atual, o desejo de viver em conjunto, a vontade continuar a fazer valer a herança que receberam esses indivíduos. O homem, Senhores, não se improvisa. A nação, como o indivíduo, é o resultado de um longo processo de esforços, de sacrifícios e de devotamentos.

(…)

Eis o que fará sorrir os transcendentes da política, estes infalíveis que passam sua vida a se equivocar e que, do alto de seus princípios superiores, tomam em piedade nossa terra à terra.

(…)

Talvez, após muitas procuras infrutíferas, retornem a nossas modestas soluções empíricas. O meio de ter razão no futuro é, em certas horas, saber se resignar em ser démodé.

Terça-feira, 29 de Maio de 2007
Carlos Ferreira da Costa, de São Carlos | 12:30


Mensagem do leitor, estudante de Ciências Socias da UFSCar:

Caro Antonio Ribeiro,

Concordo plenamente com sua opinião.

Agora é um anacronismo aberrante usar uma imagem do Churchill para explicar a atitude do Serra.

Convenhamos: São Paulo, apesar de violentíssima, está muito longe da beligerância enfrentada por Sir Churchill, durante sua vida.

A imagem do governador foi realmente inapropriada. O Serra já é muito feio. Ainda que um texto agressivo e sem sentido como o que o articulista da Folha resenhou, certamente, é muito pior.

Como muitos internautas fiquei contente do blog continuar. Seria interessante colocar um espaço para comentários.

De São Carlos, um abraço

Carlos Ferreira da Costa

Resposta:

Caro Carlos,

Obrigado pela mensagem.

Embora a fotografia que você faz referência --- o Churchill com o Tommygun --- tenha sido feita durante uma inspeção de armamentos do exercito inglês, ela serviu como propaganda nazista. Na nota 'Coragem e imagem', ela não explica atitude do governador José Serra. O texto diz:

'Homens de estado não entram para posteridade pelas fotografias que fazem deles, mas pelo que fazem. Isso inclui a coragem para enfrentar as situações difíceis e a patrulha ideológica.'

A foto que ilustra essa nota mostra um soldado alemão, em 1940, preparando os panfletos com a foto em questão para serem lançados, por balões, na Inglaterra. No texto, lê-se: 'Procurado por incitação ao assassinato".

Há um espaço para comentários no canto superior esquerdo da área de texto, abaixo do 3X4 do signatário: COMENTE, Dê sua opinião.

De Paris, um abraço

Antonio Ribeiro
Depois do Adriano de Souza, Marco Antonio Nunes de Souza, agora é a vez do Leonardo de Souza, de Paris também. | 10:06

Mensagem do leitor:

Caro Antônio Ribeiro,

Na primeira vez que lhe escrevi, tratei-lhe por 'senhor'. Mas já é essa a segunda vez que lhe escrevo e, entre brasileiros que somos, deixemos de lado os formalismos franceses, saquemos o nosso 'vous' e passemos ao nosso 'tu', bem mais simpático e amigável.

Assim, sendo, é com satisfação que vejo que seu blog não se encerrou com as eleições francesas e que você continua a escrever, sempre com brilhantismo e inteligência, sobre os mais diversos assuntos, do Kaká ao Viagra.

Fiquei particularmente tocado com o seguinte texto que você escreveu:

'Observar o Brasil de longe é uma experiência edificante. A 9.000 quilômetros de distância não se distingue a anatomia das tanajuras nem a rugosidade dos troncos das árvores. Mas o contorno da floresta, seu relevo e o essencial não escapam: a clareza é indecente.'

Compartilho com você essa experiência - estou em Paris desde setembro de 2005. Isso me faz lembrar que uma parcela importante dos astronautas regressou do espaço com uma outra concepção acerca da humanidade e da vida. Alguns abraçaram novas seitas religiosas, outros se tornaram místicos... Parece que a experiência de ver a Terra e a humanidade em sua minúscula totalidade de ponto azul no Universo catalisa uma certa reconsideração de valores e de perspectivas. A canção 'Starman', de David Bowie, revela um pouco dessa experiência. O próprio 'camaleão do rock' disse que a música foi inspirada a partir do impressionante filme '2001, uma odisséia no espaço'. 'Eu voltei mais puro do céu', cantava o grupo Nenhum de Nós, em 'Astronauta de Mármore', versão nacional da canção de Bowie.

Creio que, ao retornar ao nosso país, passarei por um processo comparável ao desses astronautas. Viver longe do Brasil está me fazendo enxergar nossa história e a nossa gente a partir de um outro prisma, por um lado mais condescendente e jovial, por outro, mais furioso e cético.

Tenho acompanhado com interesse os eventos que estão acontecendo na USP. E estou inteiramente de acordo com sua opinião de que uma intervenção governamental, amparada pela lei, é fundamental para assegurar o funcionamento da nossa 'Harvard' latino-americana.

Sei que muitos poderão taxar esta minha opinião de burguesa, neo-liberal, etc e etc... Acerca disso, permita-me contar uma pequena história, que poderia servir de exemplo.

Em 1997, eu era aluno do 4º ano da Faculdade de Medicina da UFMG. Os hospitais universitários federais - incluído o Hospital das Clínicas da UFMG - passavam por uma profunda crise financeira, o que comprometia seriamente a qualidade do ensino do bom curso médico da UFMG. Nós alunos resolvemos protestar contra a situação. Não, não... Não acampamos no bonito hall da entrada da faculdade, nem promovemos quebra-quebra. Éramos caras-pintadas: poucos anos antes, já tínhamos protestado contra o Collor, com força, mas sem baderna. Então, resolvemos ir às praças de Belo Horizonte, com faixas e cartazes, nos horários em que a população fazia caminhada ou cooper. Com aparelhos de medir pressão e estetoscópios, e vestidos de branco, medíamos a pulsação cardíaca e a pressão das pessoas. E aproveitávamos para explicar o que estava acontecendo com nosso hospital-escola. É claro, tais manifestações atraíram a imprensa local. E, é claro, a população belo-horizontina ficou ao nosso lado, pois nossa manifestação era inteligente e útil. A imprensa, então, deu visibilidade favorável à nossa causa.

Contudo, a situação não se resolveu. E, então, o diretório dos estudantes reuniu-se com a Direção da Faculdade e decidiu-se pela paralisação temporária do curso de Medicina da UFMG. Enquanto a diretoria lutava pelo saneamento financeiro do Hospital, nós estudantes continuávamos nossas manifestações nas praças, mas visitando também cursinhos pré-vestibulares, onde distribuíamos panfletos e esclarecíamos a situação da Universidade aos vestibulandos.

O impasse com o governo federal durou pouco mais de um mês, mas houve resultado. É claro, o Hospital das Clínicas da UFMG não saiu do vermelho, mas, ao menos, retomou sua operacionalidade e voltou a funcionar como nosso hospital-escola.

Será que esses alunos da USP que estão acampados na reitoria, recebendo visita da mamãe e merenda quentinha, não poderiam ir às praças, às escolas da periferia, aos cursinhos e explicarem sua queixa à população? Será que não poderiam fazer trabalhos voluntários com as pessoas nas ruas? Acho que seria mais inteligente e, se eles querem ganhar o apoio da população e da imprensa contra o governo estadual, seria um caminho bem mais curto.

Bem, mas talvez tudo isso não tenha sentido algum, pois eu e você estamos longe demais do Brasil, a mais de 9000 km de distância, como escreveu esse internauta uspiano (Adriano de Souza), cuja opinião você corajosa e democraticamente publicou.

Grande abraço,

Leonardo de Souza.

PS: Já foi à exposição Rembrandt et la Nouvelle Jérusalem (Juifs et Chrétiens à Amsterdam du Siècle d'Or), no Musée d'Art et d'Histoire du Judaïsme? Não deixe de ir, está maravilhosa !

Resposta:

Caro Leonardo,

Obrigado pela mensagem e dica da exposição.

De Paris, um abraço

Antonio Ribeiro
Marco Antonio Nunes de Souza, do Rio de Janeiro | 08:43

Mensagem do leitor

Caro Antonio Ribeiro,

A coragem é a primeira das virtudes. Ela, somente ela, permite que outras se tornem visíveis. Seu artigo de imensa coragem deixa ver o apreço pelo Brasil de quem, mesmo à distância, se aflige com as instituições em vias de se transformarem em farrapos. Seu texto lembra o célebre editorial do jornal Estado de São Paulo contra a ditadura que tomava de assalto o país em 1964.

O mesmo desprezo pela democracia se expressa hoje, de maneira diferente, pela tomada de um bem público --- a USP --- por uma minoria ululante representando nada ou coisa nenhuma. Ela é organizada por uma mentalidade igual aos dos sem-hidroelétrica. Aqueles que ameaçam, ao vivo e a cores, para todo o Brasil, apertar os botões do Sanatório Geral o que imporia ao país inteiro a mesma escuridão que lhes vai pela cabeça. Os mesmos que também comandam o MST. Eles aplaudem as infantis barricadas de pneus para conter o progresso e a modernidade. Engano total.

O e-mail do leitor Adriano Souza, meu xará de sobrenome, ao que tudo indica um entusiasta da ocupação da Reitoria --- mãe tão distraída, sem perceber que era subtraída [de sua liberdade] em tenebrosas transações ---- tenta desqualificar sem sucesso um texto inteligente com o comentário: "vindo de Paris". Dentro da linha de pensamento expresso por Adriano, um texto vindo de Cuba assinado pelo ditador em chefe, por exemplo, será sempre preciso, simples e revolucionário.

Caso Adriano escrevesse em Cuba o desabafo que lhe infla o peito juvenil --- 'Desafio a vocês a publicarem essa opinião' ---, receberia não a resposta do jornalista, mas voz sumária de prisão de uma ditadura que tem especial repulsa por opiniões contrárias a oficial, a única permitida. Aliás, em Cuba, pneu velho serve para construir balsas para fugir para Miami. Nosso Adriano deveria se espelhar nos universitários venezuelanos que defendem a liberdade de expressão e como fez cada geração anterior a dele aqui no Brasil --- contra o Estado Novo, contra a ditadura de 64, em favor das Diretas-Já, contra a corrupção do ex-presidente Collor. Contra a corrupção do governo Lula não houve um pio. Eu tenho história para contar para minha filha sobre meus os tempos de estudante e o que nós defendíamos. Ele dirá o que para os netos dele? Que lutou contra a ditadura do governo Serra?

Enfim, essa ocupação --- a tentativa de impor uma solução de força antidemocrática --- passou da hora de acabar. A não ser que o governador José Serra tenha se transformado em mais um descrente da democracia e do estado de direito, deveria agir para garantir os direitos da imensa maioria que quer estudar, trabalhar e que paga impostos. Impostos, bom lembrar, que sustentam as universidades e servem para pagar o salário do governador. Se ele preferir se omitir, não cumprir um determinação judicial clara, por sabe-se lá qual razão, não terá o meu voto.

Um abraço

Marco Antonio Nunes de Souza

Resposta:

Caro Marco Antonio,

Obrigado pela mensagem.

Sim, temos apreço pela defesa das liberdades individuais, democracia, economia de mercado, do Brasil, da USP e um postulado de François-Marie Arouet (1694-1778), o Voltaire:

'Todo homem é culpado pelo bem que ele deixou de fazer.'

Você tem razão, Marco Antonio. É a missão primeira do estado regaliano fazer respeitar a lei pela ação da justiça e segurança pública. O estado regaliano é o guardião dos direitos imprescritíveis do individuo. Ele não deve conceder uma polegada aos infratores da lei. Quem degrada o patrimônio público deve ser interpelado judicialmente. Enquanto não se restabelece o estado de direito pleno, todas as outras questões, pertinentes ou não, tornam-se secundárias.

De Paris, um abraço

Antonio Ribeiro

Segunda-feira, 28 de Maio de 2007
A USP não é o arraial de Canudos, do Conselheiro, nem a Orleans, da Joana d'Arc | 11:27


Defender a permanência dos ocupantes da reitoria da USP com fins estratégicos para que a situação se apodreça não é outra coisa senão a camuflagem do medo. A questão não cabe geometria variável nem malabarismo de retórica, mas coragem do início ao fim. Se a lógica poderosa imperar, sempre que o espaço publico for usurpado, o estado deverá ir operar alhures. Ora, a USP não é uma fortaleza medieval onde o estado é obrigado a usar a tática do sítio porque a única coragem que lhe resta consiste em deixar seus inimigos padecerem à míngua. Enquanto o estado se omite há estudantes querendo estudar, há professores querendo lecionar, há uma imensa maioria querendo viver num estado de direito. A USP é a mais prestigiosa instituição de ensino superior do país. Um tesouro a ser preservado e defendido sem tergiversar por todos os setores da sociedade paulista e brasileira. É responsabilidade primeira do governador José Serra garantir o direito de estudar do uspiano que assim o desejar.
Adriano de Souza, de São Paulo | 11:23

Mensagem do leitor:

Minha opinião: Um péssimo artigo, que somente alguem a 9.000 kilometros de distância, e que desconhece totalmente a realidade dentro da Universidade de São Paulo, provavelmente por jamais ter estudado nela, poderia escrever. Mas isso já era de se esperar de alguem que escreve pra revista veja, que distorce a informação a seu bel prazer. Quer dizer então que o sr. Antonio Ribeiro, "de Paris", acha que a policia deveria ser acionada para expulsar os alunos ("minoria", segundo ele) que ocuparam a reitoria da USP. Pois saiba, sr. antonio, que essa minoria conta com o apoio de 70% dos alunos de graduação dessa universidade, pelo menos (70% de 48.530, faça as contas!), que entraram em greve em todos os campi da USP. Sugiro que o sr. se informe melhor, antes de escrever um texto vago, pomposo e burguês como esse seu artigo! P.S.: desafio vocês a publicarem essa opinião!!

Resposta:

Caro Adriano,

Sua opinião é importante, seja ela a favor ou contra.

Da próxima vez, envie uma foto para ilustrar.

Obrigado.

De Paris, um abraço

Antonio Ribeiro
Coragem e imagem | 08:48


A imagem no alto à esquerda é de sir Winston Churchill, com um trabuco na mão. O primeiro-ministro britânico foi um exemplo raro de defesa das liberdades individuais e oposição ao totalitarismo. Até cair a ficha, liderou sozinho a luta contra o nazismo.

A imagem no alto à direita é do camarada Joseph Stalin, erguendo uma criança. O ditador do comunismo soviético -- foi o nazismo mais a mentira -- assassinou mais gente do que seu colega Adolf Hitler.

Fernando de Barros e Silva escreve nesta segunda-feira, na Folha de S. Paulo:

'Serra foi visto há poucos dias numa imagem bizarra, empunhando um trabuco, quando visitava a polícia. Os estudantes estão certos ao espalhar a reprodução da foto pelas barricadas em torno da reitoria. Áulicos incitam o tucano para que a tropa de choque entre em ação. A depender do desfecho da crise, a gestão Serra já terá produzido a sua fotografia para a posteridade.'

Homens de estado não entram para posteridade pelas fotografias que fazem deles, mas pelo que fazem. Isso inclui a coragem para enfrentam as situações difíceis e a patrulha ideológica.

Domingo, 27 de Maio de 2007
USP: os melhores perderam a convicção, e os piores estão cheios de apaixonada certeza | 19:16


Março de 2006: a polícia francesa devolve a Sorbonne a todos.

Observar o Brasil de longe é uma experiência edificante. A 9.000 quilômetros de distância não se distingue a anatomia das tanajuras nem a rugosidade dos troncos das árvores. Mas o contorno da floresta, seu relevo e o essencial não escapam: a clareza é indecente. Sob qualquer ponto de vista a ocupação da reitoria da Universidade de São Paulo (USP) por uma minoria ­- menos de 4% de sua população flutuante -­ é uma tragicomédia. A relevância e o sério que o assunto tem sido tratado provoca a falsa impressão de que se está diante da complexidade de uma Crise dos Mísseis, quando o mundo esteve no precipício da guerra nuclear. Se fosse caso, o lado do blefe está ganhando a pendenga dessa vez.

O que nos faz tratar desse tema é a sugestão de que as autoridades paulistas deveriam agir como fez o então ministro do Interior da França, Nicolas Sarkozy, quando a Sorbonne foi ocupada, em março de 2006. Não há a menor chance de que isso aconteça. Não há nem arremedo de um Sarkozy no Brasil. Isso porque para chegar a esse patamar seria preciso apropriar-se de um estado de espírito que o mais corajoso dos políticos brasileiros ainda está anos-luz do ponto de partida. Ele significa pela ordem: priorizar a ação pública pelo respeito à lei, confrontar o proselitismo de que o estado de direito é o escudo de uma classe, não da sociedade como um todo e defender suas idéias sem complexo. No Brasil isso quer dizer, entre outras coisas, que a quartelada de 1964 não é mãe do pensamento liberal e que ele é sim o mais positivo da sociedade do ocidente. O seu oposto no Brasil é uma espécie de barroco tardio, o estilo que fez o esplendor das igrejas mineiras do século XVII, mas que já tinha acabado muito antes no seu lugar de origem. Melhor dizendo, esses ideários depois de se aposentarem do hemisfério norte vão tomar sol nos trópicos. Por exemplo, o comunismo e 1968, o ano que no calendário de alguns continua rodando.

Há um traço comum em boa parte da classe política brasileira. Ele se evidencia desde a reação do presidente Lula com o roubo do bens da Petrobrás na Bolívia até o discurso coorporativo do senador Pedro Simon no que diz respeito às denúncias de corrupção do seu colega Renan Calheiros. Se entre os dois há um vasto universo, no primeiro caso, o presidente tentou persuadir a idéia da sua excelência como negociador. No segundo, o senador vendeu muito barato a cautela de um político experimentado. Em ambos os casos tratou-se de uma lorota da pior qualidade. O nome disso é medo.

Seria prudente economizar tanta verborragia. Qual é a perspectiva de uma negociação com a minoria que invadiu a reitoria da USP? Diálogo se faz necessário quando as partes têm um diferente a ser resolvido, mas que esteja no âmbito legal. Ele pode ser promissor quando as partes têm por principio comer com garfo e faca. O caso da USP é apropriação indevida do espaço público. Esse é o ponto de partida da questão. Autonomia universitária é apenas a bola da vez de uma agenda da indigência mental. Amanhã será outra coisa. Deveria ter havido, sim, um ultimato curto para a saída dos ocupantes. A essa altura, a minoria já ultrapassou em muito o limite do tolerável por uma sociedade civilizada. Ela deve ser desalojada de uma instituição responsável pela transmissão do saber sustentada pelos impostos do contribuinte: ontem. A USP pertence aos paulistas, ela é refém de um grupo bem arregimentado e pouco representativo.

No ano passado, 700 universitários - eles são 10.000 - invadiram a Sorbonne. Lá armaram barricadas com cadeiras, mesas e até computadores contra a iniciativa do governo francês de criar o Contrato Primeiro Emprego. Isso aconteceu trinta e seis anos depois do movimento estudantil de Maio 68, quando a universidade foi ocupada e se encetou uma crise só terminada para valer depois que o general De Gaulle deixou o poder. Da última vez, a ocupação não durou 72 horas. No dia 11 de Março, a tropa de choque da policia francesa desalojou os 200 ocupantes. Quem queria estudar pôde ir para a sala de aula. Quem preferiu se manifestar, teve o que lhe era de direito: a rua.

As autoridades paulistas não parecem preparadas para isso nem se preparam. A estratégia é empurrar a situação, morosamente, com a barriga. Entre o desejo de alguns universitários de estudar sem poder e a comodidade da rendição do estado para evitar o risco político, tem-se preferido à segunda opção. Os críticos mais contundentes da ocupação temem que pôr fim à crise como determina a justiça possa fabricar mártires. Outros acham que a ação da policia será uma boa imagem para programa de horário eleitoral contra o governador José Serra. Sarkozy, em situação análoga, tomou a direção oposta. Foi esse tipo de atitude que o levou a se tornar o presidente da França. Evidentemente, o caminho do Palácio do Elysée é diferente daquele que termina no terceiro andar do Palácio do Planalto. No entanto, se chegam a ambos os lugares pela vontade da maioria. Quem tem pretensão de atravessar um oceano, deveria ao menos mostrar um pouco de determinação quando tem um riacho que lhe corta o caminho.

Por Antonio Ribeiro - 22:49  

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