Paris - VEJA.com
Quinta-feira, 24 de Maio de 2007

14/5/2007 - 18/5/2007


Sexta-feira, 18 de Maio de 2007
Kleber Sernik, de Sacramento, Califórnia | 07:20


California State Capitol
Caro Antonio,

Me deu a impressão que Sarkozy será mais um "conservador envergonhado".

Na sua avaliação ele terá condições de promover algum tipo de mudança palpável na França?

Um grande abraço

Kleber

Resposta:

Caro Kleber,

Todos os candidatos à presidência francesa eram, em certa medida, conservadores. Daí a opção pela classificação ideológica do Nicolas Sarkozy mais precisa: centro-direita.

Na acepção política do termo, "conservador" assim como "liberal", tem significados distintos nos EUA, Inglaterra, França e Brasil, onde a denominação pode ter até conotação pejorativa. Repare, no Brasil, conservador e liberal andam de braços dados enquanto nos EUA, são opostos. No Brasil, para muitos, um político de esquerda é progressista, o Sarkozy é direitista e a Ségolène Royal não é esquerdista, mas socialista. O Fidel Castro é líder dos cubanos. O Pinochet foi um ditador do Chile. A esquerda faz revoluções enquanto a direita dá golpes de estado.

Eu não diria que o Sarkozy é envergonhado. Há sim, um claro empenho de conquistar corações e mentes de uma parte dos franceses, resolutamente, contra ele. A tentativa está presente no discurso de posse e desde o segundo turno da eleição. Embora a tarefa seja mais árdua, Sarkozy parece determinado a promover reformas a despeito da resistência. Nesse particular, refiro-me aos sindicatos.

No campo econômico, há boa chance de uma redução de impostos e a promessa de não substituir um em cada dois funcionários que se aposentarem. Mas é uma ilusão imaginar que o Sarkozy não se mova pela intervenção estatal e protecionismo no plano nacional e europeu Isso não é boa notícia para o Brasil no que respeita as tarifas alfadegárias. A agricultura brasileira deixa de ganhar 10 bilhões de euros anuais por conta do protecionismo europeu.

A escolha de François Fillion como primeiro-ministro deriva não só de uma velha amizade. O senador da Sarthe fez a reforma do sistema de aposentadorias francês -- a única de algum peso durante o governo Chirac. Ele tem fama de bom negociador. Um presidente expedito e um primeiro-ministro consensual formam uma dupla complementar. A ver se isso fará a fila andar.

De Paris, um grande abraço.

Antonio Ribeiro

Quarta-feira, 16 de Maio de 2007
Cerimônia de investidura do
Presidente da França - 1
| 09:01


Nicolas Sarkozy tornou-se oficialmente o sexto presidente da V República francesa durante uma cerimônia no Palácio do Elysée na qual Jacques Chirac lhe transmitiu o poder. Ele disse: "Eu penso com gravidade no mandato que o povo francês concedeu-me e a exigência forte que representa. Eu não tenho direito de decepcionar." Em seguida, protagonizou uma cena inédita neste tipo de solenidade: beijou a mulher Cecília nos lábios. Doravante, Sarkozy está também de posse da Combinação Júpiter, o código para disparar os mísseis nucleares franceses. O dia marca uma contagem regressiva que termina no 16 de junho, quando Chirac perde a imunidade presidencial. Ele poderá finalmente ser convocado pelo juiz do pólo financeiro de Paris, Xavière Simeoni, que investiga o uso indevido de dinheiro público e nepotismo, durante os mandatos de Chirac e seu sucessor, Xavier Tiberi, na prefeitura de Paris.
Cerimônia de investidura do
Presidente da França - 2
| 09:28


Nicolas Sarkozy beija sua mulher Cecília sob os olhares dos filhos e 500 convidados, na Sala de Festas do Palácio do Elysèe

 

Cerimônia de investidura do
Presidente da França - 3
| 09:54

Louis Sarkozy, filho do novo presidente, examina o colar de grão mestre da Legião de Honra que foi entregue ao seu pai -- desde a posse de Giscard d'Estaing, em 1974, os presidentes franceses não portam a condecoração de 16 placas de ouro com os nomes do seus antecessores durante a cerimônia de posse. No segundo plano, Pierre tenta dissuadir seu irmão mais novo de tocar na peça.

 

Cerimônia de investidura do
Presidente da França - 4
| 15:43

Discurso de posse de Nicolas Sarkozy

Neste dia em que tomo posse oficialmente da minha função de presidente da República francesa, penso na França, esse velho país que atravessou tantas provas e que sempre se levantou, sempre falou por todos e doravante tenho a pesada missão de representar aos olhos do mundo.

Penso em todos os presidentes da V República que me precederam.
Penso no general De Gaulle que salvou duas vezes a República, ele devolveu a soberania à França e ao estado, sua dignidade e autoridade.
Penso em Georges Pompidou e Valéry Giscard que, cada um a sua maneira, fizeram tanto para que a França entrasse inteira na modernidade.


Penso em François Mitterrand, que soube preservar as instituições e encarnar a alternância política em um momento onde ela se fez necessária para que a República fosse de todos os franceses.

Penso em Jacques Chirac, que durante doze anos obrou pela paz e fez raiar pelo mundo os valores universais da França. Eu penso no papel que foi dele na tomada de consciência por todos os homens da iminência do desastre ecológico e a responsabilidade de cada pelas gerações futuras.

Mas neste momento tão solene, meu pensamento vai primeiro ao povo francês que é um grande povo, dono de uma grande história e que levanta para dizer sua fé na democracia, para dizer que ele não quer mais se submeter. Penso no povo francês que sempre soube ultrapassar as provas com coragem e encontrar nele mesmo a força para transformar o mundo.

Penso com emoção nessa esperança, essa necessidade de crer em um futuro melhor que se exprimiu tão fortemente durante a campanha que acaba de se encerrar.

Penso com gravidade no mandato que o povo francês me confiou e na exigência tão forte que ele representa. Eu não tenho o direito de decepcionar.

Exigência de unir os franceses porque a França só é forte quando unida e que hoje ela precisa ser forte para relevar os desafios os quais ela confronta.


Exigência de respeitar a palavra dada e honrar as promessas porque jamais a confiança foi tão abalada, tão frágil. Exigência moral porque jamais a crise de valores foi tão profunda, porque jamais a necessidade de reencontrar os parâmetros foi tão forte.

Exigência de reabilitar os valores do trabalho, do esforço, do mérito, do respeito, porque esses valores são o fundamento da dignidade da pessoa humana e condição do progresso social.

Exigência de tolerância e abertura porque jamais a intolerância e o sectarismo foram tão destruidores, porque jamais foi tão necessário aos homens e mulheres de boa vontade colocar em comum seus talentos, suas inteligências, suas idéias para imaginar o futuro.

Exigência de mudança porque jamais o imobilismo foi tão perigoso para a França em um mundo em plena mutação onde cada um se esforça mais rápido do que os outros, onde o atraso pode ser fatal e tornar-se irrecuperável.

Exigência de segurança e proteção porque jamais foi tão necessário lutar conta o medo do futuro e contra esse sentimento de vulnerabilidade que desencoraja a iniciativa e o risco. prejudiciais

Exigência de ordem e autoridade porque nos cedemos muito a desordem e a violência, que são prejudiciais aos mais vulneráveis e aos mais humildes.

Exigência de resultado porque os franceses estão fartos que na sua vida cotidiana nada melhora, porque os franceses estão fartos que sua vida é cada dia mais pesada, sempre mais dura, porque os franceses estão fartos de sacrifícios que lhes são impostos sem nenhum resultado.

Exigência de justiça porque depois de muito tempo tantos franceses não provaram um sentimento tão forte de injustiça, nem o sentimento que os sacrifícios foram igualmente repartidos, nem direitos iguais para todos.

Exigência de romper com comportamentos do passado, o pensamento tradicional e o conformismo intelectual porque jamais os problemas a resolver foram tão inéditos.

O povo me confiou um mandato. Eu o cumprirei, Eu o cumprirei escrupulosamente, com a vontade de ser digno da confiança que me foi manifestada pelos franceses.

Eu defenderei a independência e identidade da França.

Eu velarei o respeito da autoridade do estado e sua imparcialidade.

Eu me esforçarei para construir uma República fundada nos direitos reais e uma democracia inacusável.

Eu lutarei por uma Europa que protege, pela união do Mediterrâneo e pelo desenvolvimento da África.

Eu farei da defesa dos direitos humanos e da luta contra o aquecimento global as prioridades da ação diplomática da França no mundo.

A tarefa será difícil e longa.

Cada um de vocês terá o lugar que é o seu no estado e cada cidadão aquele que é o dele na sociedade e todos têm vocação a contribuir.

Eu quero dizer que na minha convicção o serviço da França não tem campo. Há somente as boas vontades daqueles que amam seu país. Há somente competências, idéias e convicções daqueles que são animados pela paixão do interesse geral.

A todos que querem servir seu pais, eu digo que estou pronto para trabalhar junto com ele. Eu não pedirei para mudarem de convicção, trair as amizades ou esquecer sua história. Cabe a eles decidirem, em alma e consciência de homens livres, como querem servir a França.

O 6 de Maio houve uma só vitória, a da França que não quer morrer, que quer ordem, mas deseja também o movimento; quer o progresso com fraternidade; quer a eficácia, mas quer a justiça; quer a identidade, mas quer a abertura.

O 6 de Maio só teve um vencedor, o povo francês que não quer renunciar, não quer se deixar fechar no imobilismo e no conservadorismo, que não quer tampouco que decidam por ele o seu lugar e que pensem por ele.
E então, a essa França que quer continuar a viver, a esse povo que não quer renunciar, que merece nosso amor, nosso respeito, eu quero expressar minha determinação de não decepcioná-lo.

Viva a República!
Viva a França!


Terça-feira, 15 de Maio de 2007
Au revoir, Chirac | 16:58


Termina hoje à meia noite um dos governos mais tediosos na história da República francesa. Os dois mandatos consecutivos de Jacques Chirac - 12 anos - não deixam dívidas aos reinados no que diz respeito ao imobilismo e às pomposas declarações de princípios. As saudades de Chirac serão restritas a sua entourage, mas ele tampouco desperta rancor na maioria dos franceses. O sentimento geral é de um grande hiato que acelerou a percepção da perda de brilho da França e uma apreensão pelo futuro. Hoje, o presidente fez sua ultima declaração em cadeia de TV e rádio. Um aperitivo para os telejornais que, em seguida ao habitual palavrório do presidente, recapitularam o seu governo. Chirac disse que passara o poder para Nicolas Sarkozy com o "orgulho do dever cumprido."

Nos 40 anos de carreira política, Jacques Chirac, 74, foi deputado, ministro, prefeito de Paris e primeiro-ministro até chegar à presidência em 1995. Já no primeiro ano de governo, ao tentar encetar tímidas reformas, Chirac enfrentou uma longa greve de funcionários públicos. Ao invés de apoiar seu primeiro-ministro Alain Juppé, Chirac seguiu os conselhos de Dominique de Villepin: demitiu Juppé, dissolveu a Assembléia e convocou eleições legislativas. Um desastre político que o marcou provocando exagerada prudência durante o tempo em que governou. Os socialistas ganharam as eleições obrigando Chirac a governar cinco anos com um primeiro-ministro de oposição, o socialista Lionel Jospin.

Reeleito em 2002 com 82% dos votos com a ajuda da rejeição a Jean-Marie Le Pen, o candidato de extrema-direita xenófoba, Chirac perdeu a oportunidade de um novo começo nomeando um primeiro-ministro submisso e recordista de impopularidade. Em 2005, Chirac organizou um referendo para o projeto de constituição européia no qual os franceses disseram um "não" robusto, não menos um claro manifesto do descontentamento com seu governo. A dívida pública sob o comando de Chirac passou de 740 bilhões de euros a 1,14 trilhão de euros. O índice de desemprego, um dos maiores da Europa, sempre esteve acima de 8,5% da população ativa. A "fratura social", o inimigo numero um dos discursos de campanha de Chirac, continua intacta.

No ano passado, Chirac escreveu mais uma página na história das capitulações humilhantes. Desta vez, nenhum exército estrangeiro foi responsável pela debacle. Bastou a resistência de estudantes, sindicalistas e funcionários públicos franceses. Durante nove semanas, eles bloquearam colégios e universidades, fizeram greves e marcharam em protesto nas ruas. No fim, conseguiram a rendição no grito. Acuado, o governo engavetou a lei do Contrato do Primeiro Emprego, que havia sido aprovada pela Assembléia Nacional e pelo Senado, respaldada pelo Conselho Constitucional, promulgada pelo próprio Chirac e publicada no Diário Oficial.

Chirac foi o primeiro presidente francês a reconhecer a responsabilidade do estado pela deportação de judeus para os campos da morte dos nazistas. Nessa linha, ele foi um incansável e corajoso combatente contra o extremismo, racismo e intolerância contra o diferente e as minorias. O governo Chirac melhorou a integração dos deficientes físicos obrigando por lei a igualdade de chances, participação e cidadania. Nenhum governo fez tanto pelo combate ao câncer no plano legislativo e alocando 500 bilhões de euros em recursos para prevenção, tratamento e pesquisa. Chirac será lembrado pela sua amizade com os governos de países árabes - onde ele é mais querido que na França - e sua oposição à invasão anglo-americana do Iraque.

O belo adormecido | 07:02


Bernard Kouchner tira uma soneca na sala de reunião do seu escritório em Pristina, no Kosovo

O presidente eleito da França, Nicolas Sarkozy, que toma posse na quarta-feira, 16 de maio, está em tratativas para compor seu governo enxuto -- quinze ministérios. Para surpresa de alguns, Sarkozy consultou três socialistas para, eventualmente, tomar parte. O mais flamejante entre eles é Bernard Kouchner, líder dos estudantes de medicina em Maio de 68, ex-ministro da Saúde, co-fundador das organizações humanitárias Médicos sem Fronteiras e Médicos do Mundo, das revistas L' Evenement du Jeudi e Actuel, representante da ONU para administração interina do Kosovo e casado com a jornalista belga Christine Ockrent -- incisiva apresentadora de telejornais franceses. Kouchner é considerado pioneiro da promoção das ações humanitárias pela massiva cobertura da imprensa. A mais polêmica delas foi o desembarque de mantimentos nas praias da Somália, para abastecer a população carente durante o conflito. Apesar da ação cinematográfica -- na areia e sob sol escaldante, Kouchner dava ordens e ajudava o descarregamento cercado por um batalhão de fotografos e cinegrafistas -- os viveres acabaram nas mãos dos chefes de guerra locais. No lugar de distribuí-los aos famintos, foram comercializados ou trocados por armas. Kouchner defende a 'arrogância do bem'. Dito de outro modo: o direito de ingerência em países ditatoriais. Ao contrário de seus colegas socialistas e Jacques Chirac, ele foi favorável à intervenção no Iraque. Resumia sua posição assim: 'Nem Saddam nem a guerra'. Muito popular entre os franceses, Kouchner nunca teve um posto de destaque no Partido Socialista. Ele pertence à ala minoritária, desejosa de converter o partido numa social-democracia -- no primeiro turno defendeu a aliança de Royal com Bayrou e frequentemente se posiciona pela privatização de estatais francesas. Ao retirar Kouchner do ostracismo socialista propondo-lhe o ministério das Relações Exteriores, Sarkozy mostra-se mais aberto do que diabólico como foi pintado pela oposição. Bem, não é esse o ponto de vista dos socialistas, ainda longe da 'verità effettuale della cosa' -- a verdade efetiva --, no conto de fadas e torpor causado pela derrota de Royal. Eles enxergam na movimentação do presidente eleito um gesto inspirado no Príncipe -- o personagem de Nicolau Maquiavel (1469-1527) -- e o beijo de Judas.

Na história da V República francesa, apenas uma vez um político de esquerda fez parte de um governo de direita. Trata-se de André Boulloche, nomeado ministro da Educação do governo de Michel Debré, em 1959. Um ano depois, Boulloche se demitiu por discordar de um projeto de lei favorável ao ensino privado.

Segunda-feira, 14 de Maio de 2007
A novela | 14:55


Nicolas e Cecília Sarkozy durante
a noite da vitória eleitoral
 

O site Rue89, de antigos jornalistas do Liberation, afirma que o Journal du Dimanche, cujo proprietário é Arnauld Lagardère, amigo de Nicolas Sarkozy, sofreu pressão para não publicar noticia que Cecília Sarkozy, mulher do presidente eleito, não compareceu para votar no 6 de maio durante o último turno da eleição presidencial francesa.

Os jornalistas do JDD fotografaram a lista de votantes em Neiully-sur-Seine, acessível ao público. Na lista, em frente ao nome de Cecília Sarkozy não consta nenhuma assinatura, provando assim que ela não votou.

Jacques Espérandieu, diretor de redação do JDD, diz: "A decisão de não publicar foi minha porque o assunto está na esfera da vida privada. Eu assumo totalmente a decisão em alma e consciência. Quando a reportagem me foi apresentada eu pedi, de forma expressa, que entrassem em contato com a principal interessada." O jornal não obteve resposta de madame Sarkozy.

Nicolas Sarkozy foi eleito com 18.983.408 votos.

Nota na seção Gente de VEJA desta semana:

Haverá primeira-dama?

Nem a hipótese de mexer na abreviada semana de trabalho de 35 horas pode despertar tantas emoções quanto a vida conjugal do presidente eleito Nicolas Sarkozy. Presença aleatória durante a campanha, Cecília Sarkozy, executiva de relações públicas e ex-modelo, rompeu com o marido em 2005 e se mudou para os Estados Unidos com seu novo amor, o publicitário Richard Attias. No ano passado, o casal Sarkozy se reconciliou. Cecília acompanhou o marido, com o filho Louis, na controvertida escapada no iate do milionário Vincent Bolloré. A imprensa francesa quase não toca no assunto, por hábito e por força da lei que protege a vida privada, invocada pela candidata derrotada, Ségolène Royal, para tentar embargar um livro segundo o qual a campanha socialista foi prejudicada pelo caso do marido dela, François Hollande, figurão do partido, com uma jornalista.

A seção Gente é editada por Bel Moherdaui. Colaborou Silvia Rogar.

A novela II | 16:29


As duas fotos do Journal de Dimanche não publicadas mostram detalhes do livro de comparecimento para votar na seção eleitoral de Neiully-sur-Seine onde Cecília Sarkozy vota. Sua assinatura não consta. Segundo o site Rue89, de antigos jornalistas do Liberation, as imagens comprovam que madame Sarkozy não votou no segundo turno da eleição presidencial francesa, portanto, não teria votado no seu marido, o novo presidente do pais. O voto não é obrigatório na França.

Homo futurus | 16:06


É possível prever qual será a morfologia humana no futuro? Em detalhes, a resposta é negativa. O processo evolutivo das espécies obedece uma mecânica aleatória e ao ritmo de uma triagem, a seleção natural. No entanto, o paleontólogo francês Jean Chaline, autor do livro Un million de générations (Um milhão de gerações), diretor do Laboratório de Paleobiodiversidade e Pré-história da Universidade da Borgonha, sustenta algumas hipóteses plausíveis através da existência de tendências globais depois de milhões de anos. Elas são:

1. Aumento do cérebro e por conseqüência, do crânio - A progressão é uma constante a 65 milhões de anos, desde os prossímios (lemurídeos). O crânio passou de 100 cm3 nos babuínos a 2.000 cm3 nos homens. Empurrando a mutação ao extremo, os homens pareceriam com os personagens do filme Mars Attacks! (Marte Ataca). Essa evolução se processa depois do nascimento, caso contrário, as mulheres não poderiam dar à luz em razão do tamanho do quadril.

2. Diminuição da mandíbula - Esta tendência obriga os dentistas, desde os anos 70, extrair dentes pré-molares de algumas crianças - 40% da população - por falta de espaço. Os molares nascem primeiro, daí a extração dos pré-molares. Essa evolução data de 5 milhões de anos, quando os australopitecos se tornaram bípedes. Se a redução continuar, a alimentação liquida dos humanos no futuro será maior.

3. Aumento de estatura - Nota-se uma aceleração na altura de certas populações de tamanho pequeno e médio. Os franceses, por exemplo, tiveram um crescimento médio de um centímetro a cada década depois da Primeira Guerra Mundial. Este fenômeno está ligado à alimentação e à composição genética. O aumento de estatura tem também relação com o ambiente. Os pequenos pigmeus, habitantes das florestas densas africanas, começaram a crescer duas gerações depois do seu deslocamento para as savanas.

4. Os homens continuarão maiores que as mulheres - Ainda que tenham o mesmo regime alimentar, os fatores genéticos (dimorfismo), a fisiologia, a estrutura e funcionamento do cérebro se opõem a esse tipo de igualdade.

Por Antonio Ribeiro - 17:42  

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