Paris - VEJA.com
Sábado, 19 de Maio de 2007

7/5/2007 - 13/5/2007


Domingo, 13 de Maio de 2007
O Norte da bússola | 12:45


A reportagem de capa da revista VEJA desta semana é A Verdade de Bento XVI. A edição do semanário britânico The Economist pergunta como a história irá julgar o primeiro-ministro Tony Blair. A edição européia da revista Time tem como principal assunto as conseqüências para as economias do continente, americana e mundial com a chegada ao poder de Nicolas Sarkozy, novo presidente da França, e de Gordon Brown, o substituto de Blair. O que esses quatro personagens que representam a linha de frente do pensamento europeu têm em comum? Em uma palavra: o pragmatismo. Nenhum deles tem uma posição pessoal e outra pública, nenhum tergiversa sobre princípios sólidos. É o Norte.

Sábado, 12 de Maio de 2007
Na edição de VEJA - Sarkozy é igual a ele mesmo | 18:09


O novo presidente da França ganhou as eleições sem esconder que é de direita. Falta agora endireitar o país.

Por Antonio Ribeiro

Célebres por revoluções, os franceses forjaram no último quarto de século a imagem de povo avesso a reformas em um país de economia morosa. Eles acabam de virar mais uma página de sua longa história. Na mais velha democracia da Europa continental, onde o voto não é obrigatório e a abstenção nas eleições se tornou símbolo da descrença nos políticos, quase nove entre dez eleitores foram às urnas eleger seu novo presidente. A escolha emergiu da disputa entre duas vertentes cuja denominação nasceu quando parlamentares franceses escolheram de que lado iriam sentar-se na Assembléia Nacional: a esquerda e a direita. O presidente, eleito com um número de votos superior ao de qualquer outro postulante desde 1965, quando o sufrágio universal direto se tornou o modo de escrutínio - o que lhe confere legitimidade inédita -, é Nicolas Sarkozy.

Descendente de aristocrata húngaro e criado pela família materna de origem turca sefardita, ele foi florista e sorveteiro para pagar a faculdade de direito, não o celeiro da classe política, a Escola Nacional de Administração (ENA). Pela personalidade e ação, Sarkozy lembra um extraterrestre na política francesa. Venceu as eleições no único país onde a legislação limita a jornada de trabalho a 35 horas semanais com o bordão: trabalhar mais para ganhar mais. Mas, sobretudo, o triunfo deriva da total falta de complexo e do gosto com que Sarkozy defendeu seu ideário. É uma temeridade se dizer de direita, em público, na França - ainda que, desde a queda do Muro de Berlim, esteja claro que representa o mais positivo pensamento político ocidental e a via econômica eficiente para a criação de riquezas.
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Quinta-feira, 10 de Maio de 2007
Agora é a sua vez | 15:00

 

O primeiro-ministro britânico Tony Blair e o presidente eleito da França, Nicolas Sarkozy, irão se encontrar amanhã em Paris. Blair pretende persuadi-lo de que as reformas nas instituições da União Européia são limitadas. Sarkozy pretende propor um tratado simplificado para substituir o projeto de Constituição Européia, depois que franceses e holandeses votaram "não" no referendo de 2005.

Sarkozy interrompeu suas férias de três dias na ilha mediterrânea de Malta - depois de ter trabalhado 1.802 dias no governo e em campanha eleitoral - para participar, ao lado de Jacques Chirac, da cerimônia de abolição da escravatura nas colônias francesas. Diante da polêmica criada pelo convite do empresário francês Vincent Bolloré para que Sarkozy passasse férias no seu iate, o presidente eleito foi taxativo: "Não tenho por que me desculpar, não gastei um centavo da República e Bolloré nunca teve negócios com o estado francês."

Tony Blair anunciou que ira deixar o governo britânico no dia 27 de junho. Seu mais provável substituto será o ministro das finanças Gordon Brown. Blair aproveitou para fazer um balanço dos seus dez anos de governo:

"Só existe um governo depois de 1945 que possa gabar-se de promover mais emprego, menos desemprego, melhores resultados na saúde e educação pública, reduzir a criminalidade e aumentar o crescimento econômico. Esse governo é o nosso."
(...)
Eu acho que dez anos é um período bastante longo, não somente para mim, mas igualmente para o país."
(...)
Foi uma honra servir a Grã-Bretanha. Eu agradeço ao povo britânico pelas ocasiões quando as coisas funcionaram bem. Eu apresento minhas desculpas pelas vezes onde eu não estive à altura."


Quarta-feira, 09 de Maio de 2007
Royal sim, fatal não | 16:06

Maître Jean-Pierre Mignard, advogado do casal Ségolène Royal e François Hollande (ele na foto) - secretário geral do PS e pai dos quatro filhos da candidata derrotada - anunciou que moverá uma ação na justiça para impedir a publicação de trechos do livro La Femme Fatale (A Mulher Fatal), cujo lançamento está marcado para sexta-feira, 11 de maio. O livro de Raphaëlle Bacqué e Ariane Chemin, jornalistas do vespertino Le Monde, trata da influência da crise conjugal na política. Em um dos trechos, o deputado socialista Julien Dray conta que Ségolène teria dito ao companheiro: 'Se você for procurar o Jospin [ex-primeiro-ministro socialista] para barrar a minha candidatura, não verá nunca mais nossos filhos.'

Enquanto a maioria dos países ocidentais adotou o "direito de saber" da Declaração dos Direitos Humanos, a França optou pela proteção do direito à vida privada - cuja quebra é punida não apenas pelo código civil, mas também pelo criminal. Como não há definição legal muito precisa sobre o que seja "vida privada", os tribunais cuidaram de fazer isso na prática, considerando violação severa a revelação sem consentimento pela imprensa de detalhes sobre as amizades, os laços familiares, a condição social, a inclinação política ou religiosa - e, certamente, os casos amorosos. A proteção da lei vale para todos, mas quem mais se aproveita dela são os políticos e as celebridades

Uma ruidosa separação conjugal atirou Nicolas Sarkozy, o presidente eleito e na ocasião ministro do Interior, nos braços da bela Anne Fulda, jornalista do Figaro. Cécilia, mulher de Sarkozy, por sua vez, iniciou namoro com o publicitário Richard Attias. A cena do novo casal procurando apartamento em Nova York foi parar, com a permissão de ambos, na capa da revista Paris Match. Magoada, madame Sarkozy dedicou horas de entrevista contando miudezas, todas juntas, sobre o malogro matrimonial a ser condensado em 240 páginas de um livro consentido.

Enquanto as rotativas da gráfica lançavam tinta sobre o papel, produziu-se uma reviravolta. Nicolas reconciliou-se com Cécilia. O editor do livro, convocado às pressas ao Ministério do Interior, teve uma conversa a portas fechadas com Sarkozy, no gabinete do ministro. Resultado: em vez de irem às livrarias, pilhas e pilhas do livro Cécilia entre le Coeur et la Raison foram recicladas e viraram papelão. Alain Genestar, diretor de redação da Paris Match, foi demitido. O dono da revista, Arnaud Lagardère, é amigo de Sarkozy.

Nova missão para Tony Blair | 15:53

Amanhã o primeiro-ministro britânico Tony Blair, 53 anos, vai anunciar um calendário cuja data final é a sua renúncia. Eleito no dia 2 de maio de 1997 - o mais jovem governante inglês desde 1812 - Blair após deixar o número 10 Downning Street, sede do governo inglês, irá criar uma fundação para promover o ecumenismo entre as três grandes religiões abraâmicas: o judaísmo, islamismo e cristianismo. Ele acredita na ação para resolver uma miríade de conflitos focada nesse denominador comum e não vê muita gente dedicando o empenho necessário.

No ano passado o mais religioso dos primeiros-ministros britânicos desde o inicio do século XX, segundo seu biógrafo Mick Temple, encontrou-se com Bento XVI para discutir meios eficazes pelos quais a voz dos moderados de cada fé tenha destaque. Cristão, Blair já era um entusiasta leitor do Corão muito antes dos ataques terroristas às Torres Gêmeas em Nova York. Ele diz: 'A maioria dos cristãos tem grande surpresa com a descoberta no Corão de Jesus reverenciado como profeta. Muitos judeus e muçulmanos são completamente ignorantes do rico legado de Abraão que nós dividimos.' Em uma entrevista em março de 2006, Blair foi confrontado com a questão da sua aliança com George Bush na invasão do Iraque, ele foi sucinto: 'Deus me julgará.'

Aos navegantes | 15:43


Caro leitor,

A partir de hoje este espaço, ancorado as margens do rio Sena, em Paris, passa a ser nosso ponto de encontro permanente. A cobertura das eleições francesas, um acontecimento pontual, abriu o caminho que se transformou em estrada. Nosso desejo é ampliá-la para que você possa viajar em questões, idéias, informações práticas, imagens, sobre Paris, Franca, Europa e além.

A imagem acima - a bússola e os quatro pontos cardeais - é o emblema desses novos rumos. A palavra news - notícias, em inglês - deriva do termo francês do século XV noveles que por sua vez, vem do latim nova, plural de novum. NEWS é também uma sigla para Norte, Leste, Oeste, Sul.

Este espaço tem um Norte. A sua opinião é importante, seja ela qual for e de onde vier, desde que expressa dentro das regras elementares da convivência integrada. As sugestões são muito bem-vindas.

Agradeço a sua companhia nessa jornada e a atenção que vier a merecer.

De Paris, um abraço.

Antonio Ribeiro


Terça-feira, 08 de Maio de 2007
2007, na França | 20:23


Cartaz de Maio de 68: Menores
de 21 anos aqui está o seu voto

Os principais sindicados de estudantes franceses UNEF e UNL tomaram distância dos vandalismos - marginais - contra os bens públicos e privados em protesto contra a eleição de Sarkozy. "Não há nenhuma razão de contestar essa vitória eleitoral, convocar assembléias gerais nas universidades ou manifestações que tenham como objetivo protestar contra a vitória de Sarkozy", disse Bruno Julliard, presidente da UNEF e líder das manifestações contra o Contrato Primeiro Emprego, no ano passado. "Esses movimentos são contraproducentes e arriscam mostrar os jovens como anti-republicanos", completou.

O liberalismo segundo Saint-Etienne ou a "revolução Sarkô" | 17:22


O gráfico de Saint-Etienne.

Autor do livro L'État efficace (O Estado Eficaz), Christian Saint-Etienne é um dos mais brilhantes economistas franceses da nova geração. Comentarista freqüente das TVs, revistas, jornais franceses, Saint-Etienne sentou para conversar com VEJA on-line no Lutécia, um bistrô da Ilha de Saint Louis, entre as margens direita e esquerda do rio Sena, no centro de Paris. No final de um papo delicioso, Saint-Etienne tomou a caderneta desse signatário e desenhou um gráfico resumindo parte da conversa.

Segundo Saint-Etienne, o liberalismo tem dois eixos. O eixo horizontal (x) vai do estatismo à não interferência do governo no mercado. Enquanto o outro, vertical (y), começa no igualitarismo total e vai até a recompensa do esforço individual. Dito de outro modo: a valorização moral do sucesso, redução fiscal nos ganhos e no patrimônio.

No esquema de Saint-Etienne, Nicolas Sarkozy aparece no canto superior esquerdo. Os EUA e a Inglaterra se posicionam no canto superior direito, sendo que o país de Tony Blair está mais à direita.

A "revolução Sarko" - grafada em vermelho - promete passar da parte inferior do gráfico, onde está o tradicional "debate francês" para a superior, não da esquerda para direita.

O "debate francês" dos últimos 25 anos tem sido uma linha diagonal na parte inferior à esquerda do gráfico. Em cima dessa linha - ela começa no comunismo e vai até o encontro dos eixos x e y -, o economista marcou as posições de políticos franceses. Em uma ordem crescente, eles são: José Bové, François Mitterrand, Ségolène Royal e Jacques Chirac.

Sarkozy superstar na mira dos paparazzi | 09:10


Sarkozy no iate com o filho Louis, o jatinho e saindo do Hotel Fouquet's

Se depender dos paparazzi, o presidente eleito da França, Nicolas Sarkozy não terá sossego. Desde que sua vitória foi anunciada, um batalhão de caçadores de imagem - nem todos que usam máquina fotográfica são fotógrafos - seguiram Sarkozy até o restaurante Fouquet's, na Avenida dos Champs Elysées, onde ele jantou com sua mulher Cecília, o velho roqueiro Johnny Halliday e o ator Jean Reno. Na manhã de ontem, ao sair do hotel, de blazer, jeans e mocassins de camurça preto, Sarkozy despistou os jornalistas. Durante todo o dia se especulava onde o presidente eleito iria descansar. Houve a hipótese que ele iria para a casa do ator francês Christian Clavier, na Córsega, a belíssima ilhota mediterrânea onde nasceu Napoleão Bonaparte. Nada disso. As autoridades maltesas do aeroporto internacional de La Valette informam que o presidente eleito havia pousado na ilha a bordo de um jatinho particular, Falcon 900 EX, às 14h (horário local).

À noite a foto do jatinho já estava disponível. Hoje pela manhã uma outra imagem, mostra Sarkozy e o filho Louis a bordo do Le Paloma, um luxuoso iate de 60 metros com bandeira britânica cujo proprietário é o empresário francês Vincent Bolloré. O iate foi construído em 1985 no Japão. Ele custou 3,5 milhões de dólares e Bolloré gastou mais 5 millhoes de euros para reformá-lo. O barco tem sete cabines com capacidade para acolher 12 convidados e uma tripulação de 17 marinheiros. O andar superior está equipado com uma banheira Jacuzzi ao ar livre e grande salão com telas de plasma. A chegada de Sarkozy surpreendeu os habitantes de Malta. Bem, nem tanto quanto em 1798, quando Bonaparte tomou a ilha dos cavaleiros de São João, no caminho da sua campanha egípcia. E muito menos do que os franceses que acabam de saber de Claude Guéant, chefe de campanha de Sarkozy que o presidente eleito poderá escolher políticos de esquerda para compor seu ministério.


Segunda-feira, 07 de Maio de 2007
Questão de proporção | 19:28


A Direção Geral da Polícia Nacional (DGPN) divulgou novos números do vandalismo após as eleições francesas: 730 veículos incendiados, 592 detenções e 78 policiais feridos. São números impressionantes? São.

O vandalismo ao bem público para demonstrar desagrado contra um presidente eleito que ainda nada fez, e só pelo que ele representa, é coisa feia. Levando-se em conta o processo democrático - 85% dos eleitores inscritos votaram em um país onde o voto não é obrigatório e o índice de abstenção tem sido alto -, é pior ainda.

Se 730 carros queimados forem colocados ao lado de 18 milhões de votos, tem-se a noção da proporção entre a vontade democrática e o vandalismo.

Tony Blair aos franceses, naturalmente, em francês | 13:32

Trechos:

"Bonjour a todos. Eu decidi me arriscar lhes endereçando esta mensagem em francês. Talvez seja uma má idéia. Vocês devem ser indulgentes comigo se eu ferir o seu idioma. A mudança nunca é uma coisa fácil, eu sei bem. Mas nós não podemos evitá-la. Nós permanecemos fiéis aos nossos valores, mas devemos rever como os colocamos em prática. Eu sei bem que o seu novo presidente compreende.

As eleições francesas apaixonaram o mundo inteiro e nos impressionaram tanto pela qualidade do debate quanto pela participação dos eleitores. Do fundo do coração, eu felicito Nicolas Sarkozy. Ele é alguém que eu admiro e considero como amigo. Claro, há uma tarefa imensa que lhe espera, mas ele tem a envergadura necessária para enfrentá-la com sucesso.'


As edições históricas das revistas semanais | 12:15


Le Point e L'Express, duas das principais revistas semanais da França, chegam às bancas hoje com edições histórias sobre o novo presidente Nicolas Sarkozy.

Segue abaixo o primeiro perfil de Sarkozy publicado pela imprensa brasileira.

VEJA - Edição 1832 - 10 de dezembro de 2003

Crime
O xerife francês

Um filho de imigrantes húngaros é o ministro mais popular da França com a política de tolerância zero contra o crime

Por Antonio Ribeiro

A nova estrela da cena política francesa é um xerife. O filme começa em 1975 durante a convenção do maior partido de direita do país. Junto à escada que conduz ao palanque, o presidente da França, Jacques Chirac, na época primeiro-ministro, determinava o tempo dos discursos de seus correligionários. Um mocinho de 20 anos aproximou-se e parou diante do cacique político. Chirac espetou-lhe o peito com o dedo indicador: "Você é Nicolas Sarkozy? Suba, tem só cinco minutos para falar". O pequeno Nicolas, filho de imigrantes húngaros, desobedeceu, falou vinte minutos. Arrebatou a platéia. Hoje, o rapaz de barba rala é homem feito, político popular e todo-poderoso. Sarkozy ocupa o Ministério do Interior, que na França equivale à cadeira de "tira número 1" da polícia. Em recente aparição na televisão, o ministro admitiu a mais de 6 milhões de telespectadores que, ao barbear-se, "vê no espelho a imagem do próximo presidente da República".

Metade dos franceses, mostram as pesquisas, acredita que Sarkozy é mesmo o político mais capaz de mudar a França depois das eleições presidenciais de 2007. O desempenho de Sarkozy como ministro do Interior recebeu aprovação de 64% da população. E o que ele fez? Em dezoito meses, a exemplo de Rudolph Giuliani, ex-prefeito de Nova York, dedicou ao crime tolerância zero. Baixou de forma drástica os índices de delinqüência juvenil e, com vigilância eletrônica, fez despencar o número de acidentes mortais nas estradas. Numa ação que os detratores de Sarkozy percebem como estratégia deliberada para demolir a iniciativa do líder de extrema direita Jean-Marie Le Pen, o ministro tem sido feroz no combate à imigração ilegal, a ponto de relançar os vôos que deportam os imigrantes clandestinos para seu país de origem. A popularidade de Sarkozy explodiu com a captura do foragido mais procurado da França, um independentista da Córsega acusado de metralhar o chefe da polícia. O impacto foi equivalente à prisão do traficante carioca Fernando Beira-Mar. Sarkozy ainda está na ofensiva. Guarda na gaveta um projeto de lei que dobra a pena máxima para os criminosos reincidentes.

Sarkozy enfrentou com realismo a questão das mulheres islâmicas que queriam usar véu na escola - contrariando a tradição laica da educação na França. "Registramos 1.256 casos de meninas muçulmanas com véu. Vinte desses casos foram difíceis de resolver, mas, no final, quatro foram expulsas." A diversidade étnica, racial e religiosa está mudando a face da França. Sarkozy é vigoroso defensor da "discriminação positiva", para facilitar que as minorias étnicas dos subúrbios pobres se integrem na sociedade, e até prometeu nomear um chefe de polícia muçulmano. As críticas não demoraram. "O critério deve ser a competência, pertencer a uma religião não merece discriminação positiva ou negativa", disse a VEJA Alain Juppé, ex-primeiro-ministro. Sarkozy não se intimida e bate à esquerda, à direita, abaixo e acima. "Quando se sabe que os dias estão contados, tem-se pressa em realizar, mas quando o mandato é ilimitado o desejo é só ficar", afirmou, numa crítica direta a seu chefe, Jacques Chirac, que se arma para disputar o terceiro mandato presidencial consecutivo.

Reparem bem: a melena não
sofreu ação da água oxigenada
| 10:28


A vitória eleitoral de Sarkozy é tão autentica -- e bela -- quanto a simpatizante, na Praça da Concórdia. Os protestos que seguiram a eleição presidencial francesa -- 367 carros incendiados e 270 pessoas detidas -- foram marginais. Embora isso possa assustar os incautos, todo fim de semana 140 carros são incendiados na França. As manifestações de rua são um esporte nacional. Os franceses dormem há quatro décadas com duas convicções. A de que depois da noite virá o dia e a de que, com ele, haverá uma manifestação nas ruas de Paris. Ontem, os autores dos protestos gritavam : 'Sarkô, Sarkô, o povo vai te arrancar o couro'. Bem, é preciso entender o que a turma do barulho entende por povo. Sarkozy obteve 18.983.408 votos enquanto madame Royal recebeu 16.790.611. A França tem 64 milhões de habitantes. Os manifestantes não passaram de 500.

Um três por quatro do novo presidente | 08:27


Eleito, o primeiro traço notável do novo presidente da França é sua timidez quando a euforia lhe cerca. Ele não está acostumado com isso. Nicolas Sarkozy sente-se mais a vontade nas disputas, golpeando, atacando, defendendo-se com vigor. Em um segundo instante, é visível seu pequeno talhe em permanente luta para conter a imensa emoção do momento. Diante de 30.000 simpatizantes que comemoravam sua vitória na Praça da Concórdia, Sarkozy tentou por cinco vezes começar seu discurso com o tradicional 'Meus queridos amigos'. Os aplausos o emudeceram. Ele hesitava, buscava na dezena de artistas ao seu lado no palco -- escolados em situações análogas -- uma espécie de 'o que eu faço?'. Se durante o debate na TV com Ségolène Royal os franceses surpreenderam-se com a serenidade de Sarkozy, na festa da vitória na Concórdia, eles viram, pela primeira vez, um sorriso tão amplo e espontâneo no rosto do seu novo presidente. Não durou muito para que ar grave voltasse a tomar conta do pequeno Nicolas, aos pés do obelisco egípcio, troféu da campanha africana de Napoleão Bonaparte. Sarkozy disse: 'Eu tenho noção do peso que doravante está nos meus ombros.' Foi o anúncio de uma nova batalha que se desenha no horizonte -- arrancar a França do marasmo. Ela não será menos árdua do que os trinta anos de luta política para forjar o seu o comandante. O mais curioso é que a maior resistência vem dos compatriotas de Sarkozy -- a parcela mais radical dos 47% de eleitores que votaram contra ele. Ela não se opõe à vitória, mas à estratégia e aos meios escolhidos pelo novo presidente para vencer. Desde seu primeiro discurso Sarkozy clama por 'uma só França,' a pedra fundamental de uma ponte de assombroso vão livre para atingir a margem oposta. Será interessante observar essa formidável empreitada cujo sucesso ou débâcle irá transpor as fronteiras da França.

Por Antonio Ribeiro - 01:06  

6/5/2007


Domingo, 06 de Maio de 2007
Sarkozy: o primeiro discurso
do presidente eleito
| 19:55


Meus caros compatriotas,

Ao me dirigir a vocês hoje, neste momento que é, todos vocês sabem, extraordinário na vida de um homem, sinto uma grande emoção.

Sinto desde muito cedo um orgulho indescritível de pertencer a uma grande, velha e bela nação, a França. Eu amo este país como eu amo todos os caros seres que nos deram tudo. Agora, é a minha vez de dar tudo de volta eles.

Esta noite, meu pensamento vai para os milhões de franceses que confiaram em mim. Quero dizer-lhes que me deram a maior honra, julgando-me digno de ser o presidente do destino dos franceses.

Meu pensamento vai para todos aqueles que me acompanharam nessa campanha. Quero expressar minha gratidão e meu afeto. Meu pensamento vai para a senhora Ségolène Royal. Quero dizer-lhe que a respeito, ela e suas idéias com as quais se identificaram tantos franceses.

Meu pensamento vai para todos os franceses que votaram em mim. Quero dizer-lhes que além dos combates políticos, além das divergências de opinião, que existe para mim somente uma França.

Quero dizer-lhes que serei o presidente de todos os franceses, que falarei em nome de cada cidadão. Quero dizer-lhes que esta noite, não é a vitória de uma França contra outra. Para mim, só existe uma vitória, a dos valores que nos unem, a do ideal que nos une. Minha prioridade será de trabalhar para que os franceses tenham sempre a liberdade se expressar, de se entender, de trabalhar juntos.

O povo francês se expressou. Ele escolheu romper com as idéias, os hábitos e os comportamentos do passado. Quero reabilitar o trabalho, a autoridade, a moral, o respeito, o mérito. Quero voltar a honrar a nação e a identidade nacional. Quero dar de volta aos franceses o orgulho de ser francês. Quero acabar com o arrependimento que é uma forma de ódio e com a rivalidade das memórias que alimenta o ódio dos outros.

O povo francês escolheu a mudança. Essa mudança eu a colocarei em prática pois essa foi a tarefa que recebi do povo e por que a França precisa dela. Mas eu a farei com todos os franceses. Eu a farei num espírito de união e de fraternidade. Eu a farei sem que exista um sentimento de exclusão, de ser deixado de lado. Eu a farei com o desejo que cada um possa encontrar seu lugar na nossa República, que cada um se sinta reconhecido e respeitado em sua dignidade de cidadão e de ser humano. Todos aqueles de vida difícil, que se sentem feridos pela vida devem saber que eles não serão abandonados, que eles terão ajuda, que serão socorridos. Aqueles que sentem sem oportunidades na vida, pouco importa o que fazem, devem saber que eles não serão abandonados, que terão as mesmas chances que os outros.

Invoco o povo francês, acima de qualquer filiação partidária, de qualquer crença, de qualquer origem, para se unirem a mim para que a França encontre o seu caminho.

Invoco cada um para que não se deixe impregnar pela intolerância ou pelo sectarismo, mas que se abram para os outros, para aqueles que têm idéias diferentes ou outras convicções. Quero fazer um apelo aos nossos parceiros europeus, aos quais nosso destino está ligado, para dizer-lhes que toda a minha vida eu fui europeu, que acredito na construção européia e que, esta noite, a França está de volta à Europa. Mas eu rogo, que ouçam a voz dos povos que querem ser protegidos, que não sejam surdos à cólera dos povos que vêem na União Européia não uma proteção mas um cavalo de Tróia de todas as ameaças que trazem nelas as transformações do mundo.

Quero fazer uma apelo a nossos amigos americanos para dizer-lhes que eles podem contar com nossa amizade que se formou nas tragédias da História que enfrentamos juntos. Quero dizer-lhes que a França será sempre do lado deles quando eles precisarem. Mas quero dizer-lhes também que a amizade é também aceitar que seus amigos pensam de maneira diferente, e que uma grande nação como os Estados Unidos tem o dever de não barrar a luta contra o aquecimento global, mas que, ao contrário, devem tomar frente, pois o que está em jogo é o destino da humanidade.

Quero fazer um apelo a todos os povos do Mediterrâneo, para lhes dizer que é no Mediterrâneo que todo acontece e que nós devemos ultrapassar todos os nossos ódios para dar lugar a sonhos de paz e de civilização. Quero dizer a eles que é hora de construirmos juntos uma União Mediterrânea que será um caminho de união entre a Europa e a África.

Quero lançar aos africanos um apelo fraternal para lhes dizer que queremos ajudá-los a vencer as doenças, a fome, a pobreza, e a viverem em paz. Quero dizer a eles que decidiremos estabelecer uma política de imigração controlada e uma política de desenvolvimento conseqüente.

Quero lançar um apelo a todos aqueles que, no mundo, acreditam nos valores de tolerância, de liberdade, de democracia e de humanismo. A todos que se sentem perseguidos por tiranias ou ditaduras, a todos as crianças e mulheres martirizadas no mundo, quero dizer que a França estará ao lado deles, que eles podem contar com ela.

Caros compatriotas, vamos escrever juntos uma nova página da nossa história. Tenho certeza que ela será grande e bela, e do fundo do coração eu lhes digo:

Viva a República.

Viva a França.
Nicolas Sarkozy eleito presidente da França | 15:31


As primeiras estimativas indicam Nicolas Sarkozy com 53 % dos votos. Ele é o novo presidente da França, eleito com a maior participação eleitoral da história. A candidata socialista Ségolène Royal foi derrotada, segundo as estimativas, com 47% dos votos.

Com a saída do primeiro-ministro da Inglaterra Tony Blair, Sarkozy tem a chance de se tornar a liderança política mais importante da Europa.

Filho e neto de imigrantes que fugiram do comunismo húngaro, o petit Nicolas ouviu do pai: "Com o nosso nome você não irá longe na França."
UMP: Sarkozy 54,5% - Royal 45,5% | 12:50

A informação é de uma fonte de VEJA on-line no União por um Movimento Popular (UMP), o partido de Sarkozy.
Sarkozy 53,5% - Royal 46,5% | 12:49

A informação é de uma fonte de VEJA on-line no Ministério do Interior francês.
Os franceses batem o seu recorde
de participação eleitoral
| 12:19

Até as 17 horas de Paris 31 milhões de franceses já tinham votado. A participação superior aos 75,11% dos eleitores inscritos irá conferir uma legitimidade sem precedentes ao novo presidente da República.

PS: Sarkozy 55,1% - Royal 44,9% | 11:08

A informação é de uma fonte de VEJA on-line no Partido Socialista francês.
Bons sinais para Nicolas Sarkozy | 10:52


O maior índice de participação registrado nas eleições presidenciais francesas até as 12 horas de Paris foi no departamento do Cantal, forte reduto do candidato de centro-direita Nicolas Sakozy. O maior índice de abstenção foi no departamento de Seine-Saint-Denis -- onde começaram os atos de vandalismo que se alastraram pela França, no fim de 2005 -- reduto da candidata socialista Ségolène Royal.
Os franceses estão votando massivamente | 08:21


O total de participação até ás 12 horas de Paris foi de 34,11%. Ele é maior que a participação dos eleitores franceses no primeiro turno (31,21%) que foi a maior desde que o presidente da França passou a ser eleito pelo sufrágio universal direto, em 1965.

O cenário desta festa democrática é um belíssimo domingo de primavera, sol, céu azul e agradáveis 19 graus Celsius.

Sarkozy, Royal e Chirac já votaram.
Paris: onde será a festa da vitória? | 07:32


Paris amanheceu com belo céu azul de primavera. O mês de maio é propício a revoluções na França. Hoje a mudança na história do país passará pelo voto de 43,5 milhões de eleitores. Os franceses vão eleger seu próximo presidente da República que governará até 2012. Dois candidatos da nova geração de políticos franceses -- ambos com personalidades fortes e uma formidável eloqüência para defender de suas idéias -- materializam a tradicional disputa entre a esquerda e a direita, entre a manutenção dos direitos sociais adquiridos e a conquista pelo mérito individual. Nicolas Sarkozy, 52 anos, o candidato de centro-direita da União por um Movimento Popular (UMP), quer que os franceses trabalhem mais para ganhar mais --- sua eleição significa uma mudança de estratégia radical para criar empregos, diminuir o colossal déficit público, reformar o modorrento estado providência e buscar o crescimento econômico robusto. Ségolène Royal, 53 anos, a candidata do Partido Socialista (PS), tem como centro do seu programa de governo o fortalecimento do estado de bem-estar social generoso sustentado por impostos pesados -- sua eleição significa a chegada, pela primeira, de uma mulher à presidência da República. A derrota de madame Royal abre as chances para o pai dos seus quatro filhos, François Hollande, secretário-geral do PS, se candidatar à presidência daqui a cinco anos.

A última pesquisa de intenções de voto indica as seguintes posições:

Nicolas Sarkozy: 55%
Ségolène Royal: 45%

Eleitores que não declaram o voto: 18%
Eleitores que estão seguros em quem vão votar: 14%
Eleitores que admitem mudar de idéia: 14%

Sarkozy e Royal gastaram em torno de 26 milhões de euros em suas campanhas eleitorais para entrar no Palácio do Elysée, sede do governo francês. O estado irá reembolsar metade das despesas. No dia 11 de maio, o presidente eleito deverá apresentar sua declaração de bens. Ele assumirá sua nova função no dia 17 de Maio.

A primeira estimativa dos resultados da eleição presidência será anunciado às 16 horas (horário de Brasília). Aqui em VEJA on-line você ficará sabendo antes.

Se o Sarkozy vencer, a festa será na Praça da Concórdia, depois de sua declaração na Salle Gaveau, no oitavo distrito de Paris. O velho roqueiro francês Johnny Hallyday, que mudou do país porque o estado taxava 70% dos seus ganhos, será a grande atração da festa -- seu amigo Sarkozy promete cortar 20 bilhões de euros em impostos. Ségolène Royal promete uma declaração, seja qual for o resultado, na Maison de l'Amerique Latine, no badalado boulevard Saint-Germain -- o lugar foi escolhido por ser o maior espaço mais próximo do quartel-general da sua campanha socialista. No caso de vitória de madame Royal, a festa popular será na Praça da Bastilha, tradicional ponto de encontro dos militantes da esquerda francesa.

Ontem, Sarkozy foi correr no Bois de Boulogne, o grande parque do oeste da capital francesa, enquanto Ségolène se reuniu em sua casa com a 'ségosphére', a rede de blogueiros que militam pela candidata socialista na internet.

VEJA on-line acompanhará está jornada que irá mudar a história da França com boletins e comentários. Você poderá nos escrever pelo e-mail: deparis.aribeiro@gmail.com.
Leonardo de Souza, de Paris:
Sarkozy para presidente do Brasil
| 06:58


Socorro! A direita está voltando

Mensagem do leitor Leonardo de Souza

Caro sr. Antônio Ribeiro (ou, como preferem os franceses, M. RIBEIRO Antônio...)

É uma pena que apenas há poucos dias o senhor passou a mostrar seu e-mail no blog de VEJA. Desde que passei a ler, cotidianamente, suas informações sobre as eleições francesas, desejo trocar impressões sobre a campanha, embora saiba que o senhor tenha a ler muitas outras matérias e opiniões mais importantes do que a deste que lhe escreve. Contudo, por ser o blog um formato mais informal e impessoal, aventuro-me a escrever-lhe.

Aproveito essa oportunidade para felicitar-lhe pelo seu blog dinâmico e inteligente.

Chamo Leonardo de Souza, sou médico e moro em Paris desde setembro de 2005, para fazer uma especialização na minha área.

Muitas pessoas no Brasil me perguntam sobre a campanha e as eleições aqui na França. A primeira coisa a dizer é que, ao contrário do Brasil, a campanha não emporcalha as ruas com outdoors, cartazes e toneladas e toneladas de santinhos. Contudo, no caminho para o trabalho, vi os dois cartazes cujas fotos lhe envio. Imediatamente, veio-me à mente que os jogos políticos não são tão diferentes assim de um lado e de outro do Atlântico. Diante de uma derrota iminente, Ségolène Royal adota agora uma estratégia semelhante àquela da campanha do PSDB, em 2002: invoca o medo. Diz que haverá mais tensão social, ruptura na sociedade francesa, etc, etc, por causa da eleição de um 'radical' como Sarkozy. Como o senhor escreveu muito bem em seu 'post' mais recente, Ségolène tenta atemorizar a população. Só falta que ela convoque a Regina Duarte para declarar na TV J'ai peur!.

Se antes eu já na nutria uma aversão à candidata dita socialista, depois do debate minha posição contra ela se consolidou. Logo eu, que sempre fui muito mais à esquerda do que à direita... A maneira como ela terminou o debate foi típica de um populista latino-americano, falando a uma população alienada e desinformada. Ela se disse 'mãe de quatro filhos', lembrou que na Alemanha a Ângela Merkel faz um bom governo e que ela também é uma mulher que merece uma chance, 'um voto de audácia'. Como durante toda a campanha, Ségolène quer passar uma imagem maternalmente protetora... Sua 'cólera' a respeito das crianças deficientes só fez reforçar essa vontade de conquistar votos pelo viés deste espúrio sentimento de maternidade política. Isso é desonesto, é indigno. É como Lula no Brasil, que tantas vezes quer se mostrar um pai para os desfavorecidos... Já conhecemos o filme.

Fico impressionado com o fato de que, no hospital em que trabalho, mais de 90% das pessoas, na sua maioria jovens contratados pela Assistance Publique, irão votar pela candidata do PS. A resposta para mim é clara: nenhum jovem funcionário público quer perder os privilégios assistencialistas garantidos pelo Estado (ou melhor, 'estado', como preconiza a nova linha editorial de VEJA) francês. Os jovens apóiam Ségolène porque, ora bolas, também querem trabalhar pouco, aposentar-se cedo e serem amparados incondicionalmente pelo governo. Entre meus colegas que são profissionais liberais, contudo, a opção de voto se inverte, por motivos óbvios.

É verdade que Sarkozy é um personagem controverso e que muitas de suas posições são inquietantes. Pode até ser que eu tenha que enfrentar mais burocracia para renovar meu Titre de Séjour, em setembro... Mas Ségolène é vazia e desorientada. Não sei se Sarkozy será um bom presidente para a França. De qualquer forma, acho que Sarkozy seria um ótimo presidente... Do Brasil!

Cordialmente, com apreço,

Leonardo de Souza

RESPOSTA: Caro Sr. Leonardo, a sua opinião assim como a de todos os nossos leitores é muito importante. Seja ela qual for, seja de onde ela vier. Aventure-se sempre. Muito obrigado.

Por Antonio Ribeiro - 01:04  

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