Paris - VEJA.com
Terça-feira, 08 de Maio de 2007

23/4/2007 - 29/4/2007


Domingo, 29 de Abril de 2007
No maior comício da campanha, Sarkozy reafirma: 'Eu quero virar a página de Maio de 68 na França' | 19:37

AFP

Em mais uma formidável demonstração de força, depois de vencer o primeiro turno com a maior votação desde a eleição do general De Gaulle, em 1965, Nicolas Sarkozy, o candidato de centro-direita, comandou o maior comício da campanha presidencial francesa - a direita na França sempre foi considerada 'maioria silenciosa', avessa a grandes comícios e manifestações de rua, apanágios da esquerda. Diante de 20.000 simpatizantes, no complexo esportivo de Bercy, em Paris, o candidato favorito voltou a fustigar os socialistas, 'os herdeiros de Maio de 68', aqueles que impuseram o 'relativismo intelectual e moral' na França. Para enfatizar sua fala, Sarkozy imitou durante o seu discurso de uma hora o gestual e as pausas de Charles de Gaulle, figura lendária contra a ocupação nazista, esteio das instituições democráticas na França moderna, embora para os estudantes trotskistas de 68 o velho general era fascista e ditador. Sarkozy disse: 'Depois de Maio 68, deixou de haver diferença entre o bem e o mal, entre o belo e o feio, entre o verdadeiro e o falso e o aluno passou a valer o mesmo que o mestre.' Em referencia à posição dos socialistas durante recentes atos de vandalismo nos subúrbios o candidato fez uma analogia: 'Os herdeiros daqueles que bradavam 'CRS* = SS' tomam sistematicamente partido dos delinqüentes, dos vândalos, dos fraudadores e contra a policia.'

*CRS - Companhia Republicana de Segurança, a tropa de choque francesa.

A última pesquisa IPSOS indica Sarkozy liderando com 52.5% das intenções de votos enquanto Ségolène Royal recolhe 47, 5%.
A dança do ventre | 17:04

A seis dias da eleição presidencial, a candidata socialista Ségolène Royal afirma 'não se proibir de nomear François Bayrou o seu primeiro-ministro', se for eleita presidente da República. Durante a semana, a relação entre Bayrou e Royal lembrou uma dança do ventre, onde cada movimento deixou cair um véu que revela, gradativamente, as intenções dissimuladas. Royal depende dos votos dos eleitores de Bayrou para vencer Sarkozy. A candidata está disposta a sacrificar até a chefia do seu eventual governo pela vitória. Bayrou prefere a derrota de Sarkozy porque a perspectiva lhe oferece melhor possibilidade de se tornar primeiro-ministro a frente do novo partido Democrata, que junto com PS formaria a maioria de apoio a Royal. A timidez da socialista e do centrista em revelar seus objetivos, claramente, está na mensagem que ambos propagaram aos eleitores: a independência de princípios e sobretudo, uma nova maneira de fazer política na França, quesito o qual 54% dos eleitores julgam prioritário na sua escolha. Ségolène Royal e François Bayrou passaram a campanha eleitoral trocando farpas. Isso porque Bayrou, à frente de um pequeno partido, dono de um eleitorado restrito, dependia do voto de eleitores de outros partidos para chegar ao segundo turno. Bayrou capturou votos, sobretudo, de Royal. Os socialistas descontentes com a candidatura Royal impulsionaram Bayrou a uma ascensão fulgurante. Até a abertura das urnas, Royal sofreu o drama de repetir a eliminação no primeiro turno do socialista Lionel Jospin, em 2002. A perspectiva de Bayrou como futuro primeiro-ministro ameniza a reticência de 46% dos seus eleitores - 3 milhões - com a falta capacidade de Ségolène Royal para exercer o poder presidencial.

VEJA - A era do consenso | 10:37

Apesar da polarização entre esquerda e direita na eleição francesa, os dois campos nunca estiveram tão próximos

Por Jerônimo Teixeira

Os dois candidatos que disputam o segundo turno das eleições presidenciais na França, no domingo, dia 6, estão encenando mais uma vez o clássico embate entre esquerda e direita. A socialista Ségolène Royal e Nicolas Sarkozy, do partido de centro-direita UMP, têm posições distintas sobre geração de emprego e leis trabalhistas, entre outros problemas-chave para um país que amarga baixos índices de crescimento e uma dívida pública de 1,2 trilhão de euros.

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O debate será na quarta-feira, 2 de maio | 09:58

Os franceses acordaram ontem, 28 de abril, com a possibilidade de assistir mais uma dessas bizarrices cujo pudor e o eufemismo nacional apelida de 'exceção francesa'. Dito de outro modo: algo que acontece, exclusivamente, na França. Tratava-se de um debate entre a candidata eleita para disputar segundo turno das presidenciais, a socialista Ségolène Royal (26% dos votos), e um dos dez candidatos eliminados, o centrista François Bayrou (18%). Entretanto, o vencedor do primeiro turno, Nicolas Sarkozy (30%), fazia campanha entre os operários de uma fábrica no norte do pais.

A primeira dificuldade - só para os assinantes de televisão a cabo, quem não era nem viu o programa - foi achar o canal a cabo da obscura BFM TV, responsável pela transmissão do encontro realizado em um hotel do centro de Paris. Os canais abertos ignoraram o encontro. Os socialistas e Bayrou acusaram a decisão à um complô organizado por Sarkozy, como se o candidato tivesse o poder sobre a justiça eleitoral francesa. Os canais abertos previram a natureza do encontro: oportunismo eleitoreiro. Trataram-no como tal. A confirmação veio na primeira intervenção de madame Royal: 'Isso não é um debate, mas um diálogo.' Ora, se dois políticos querem dialogar, 'percorrer um pedaço do caminho juntos', como explicou madame Royal, o espaço reservado a esse tipo de iniciativa são os programas eleitorais, comícios, manifestações públicas. Em todo caso, a BFM TV obteve às 11 horas da manhã de um sábado, a maior audiência desde sua criação.

O tom ameno entre Royal e Bayrou, durante o encontro, só foi surpresa para os incautos. Royal não iria afrontar seu interlocutor, ela precisa dos votos dos eleitores de Bayrou para vencer Sarkozy. A derrota do candidato de centro-direita, por sua vez, serve a Bayrou na eleição legislativas de junho. Ela vai determinar o novo primeiro-ministro da França e pela qual Bayrou quer lançar o seu novo Partido Democrata. O que é o Partido Democrata? Um partido social-democrata que a França nunca teve porque não conseguiu reformar o partido socialista a exemplo dos vizinhos europeus. Bayrou pretende liderar esta transformação. Uma evolução que Royal não conseguiu fazer dentro do seu partido - não por ser mulher, mas porque os 'elefantes do PS', a velha guarda do partido, não viram na candidata qualidades suficientes e estatura para presidente da República. É bem por isso que Royal criou um movimento paralelo ao PS, o Désir d'avenirs, base principal de sua candidatura. Um partido social-democrata, tal qual concebido por Bayrou, tem mais chances de aliar-se, influir e mesmo fazer um primeiro-ministro com um presidente da República socialista do que com outro, de direita.

É um engano supor que Royal esteja, do dia para noite, persuadindo eleitores do centro a votar nela. Uma parcela significativa de eleitores que votaram no centrista Bayrou - os responsáveis pela sua formidável ascensão no primeiro turno - sempre votaram nos socialistas. Eles também julgaram Royal desprovida de qualidades para ser presidente. Uma vez mais, não porque ela é mulher, a questão nunca foi problema entre os franceses, mas pelo anacronismo das idéias e um amadorismo econômico apresentado por Royal quando explica o financiamento de suas promessas. Esses eleitores estão migrando de volta para candidatura socialista. Naturalmente, acham Royal a opção menos ruim se comparada o candidato de centro-direita Nicolas Sarkozy. O pleito presidencial francês é mais um referendo a candidatura Sarkozy do que o simbolismo que representa a eleição da primeira mulher a presidência da França.

O encontro entre Royal e Bayrou revelou afinidades no que respeita a concepção da maneira de fazer política na França e também de reformas institucionais. Isso se deve mais à percepção de dois políticos da mesma geração do que proximidades ideológicas. Ambos acham que a França deve sair da clivagem tradicional direita contra esquerda. Sarkozy coloca a questão num outro contexto. Segundo ele, a mentalidade criada pelo movimento estudantil trotskista de Maio 68 intimidou os até os políticos de direita a reformar um estado de bem-estar social que gastou 7% acima da arrecadação nos últimos dez anos - tanto Mitterrand quanto Chirac fizeram um governo onde a presença do estado na economia continuou fortíssima. Sarkozy diz: 'Reafirmo e assumo, eu vou virar a página de Maio de 68 na França.' Essa é a novidade da eleição francesa. Essa seria a nova revolução na França. Isso é romper com o silêncio. Uma presidência feminina de Royal só muda a aparência do presidente, a França continuaria ou até reforçaria a presença do estado na economia.

O estado francês recolhe 63% das riquezas produzidas no pais, é o maior empregador e produziu um déficit público crônico de 1,2 trilhão de euros. Na França, 40% dos impostos servem para pagar os juros da dívida. Isso representa a soma total do orçamento gasto na agricultura, ensino superior, transportes, pesquisa e segurança pública. Sarkozy promete não substituir um funcionário público em cada dois que se aposentarem, quer baixar impostos, mas não é um político liberal, digamos, à moda de Margareth Thatcher ou Ronald Reagan. Ele é intervencionista, defende a ajuda as empresas francesas em dificuldade. Protecionista, defende a revitalização da agricultura européia através de subsídios e taxas aos produtos importados. O peso do estado francês está no coração da campanha. A frase mais emblemática do encontro entre Bayrou e Royal, o resumo das profunda diferença no campo econômico entre eles foi:

- Madame Royal quer colocar o estado em todo lugar, já não chega?, disse Bayrou.

O debate das eleições presidenciais francesas, digno do nome, acontecerá na próxima quarta-feira, dia 2 de maio, entre Sarkozy e Royal, os vencedores do primeiro turno.

Sexta-feira, 27 de Abril de 2007
Aviso aos navegantes | 17:58

É mais fácil a Ségolène Royal ganhar as eleições do que a França boicotar os Jogos Olímpicos de Pequim. A questão não tem a mínima importância no debate eleitoral francês. E um eventual boicote francês teria menos ainda. A França perderia nos dois casos. Vão aqui mais três dicas para entender a eleição francesa: desemprego, desemprego, desemprego.

Um peso, sete medidas | 09:46

Pierre Méchain (1744-1804) foi um astrônomo francês. Em 1772, a Academia de Ciências francesa lhe encarregou de medir o arco de uma linha entre Dunquerque e Barcelona, o Meridiano da França, para servir como base do sistema métrico. Méchain não comunicou suas medidas porque observou uma anomalia. Ele não conseguiu resolver a questão até a morte. Há anomalias na percepção dos candidatos presidenciais franceses. Quem conseguir responder as sete questões abaixo, entende melhor a eleição francesa e muitas outras entre a esquerda e a direita.

1. Se a candidata é a Ségolène, por que o candidato não é o Nicolas?

2. Se o candidato é o Sarkozy, por que a candidata não é a Royal?

3. Se a candidata é socialista, por que o candidato é conservador e não de centro-direita?

4. Qual o (a) candidato(a) francês(a) que não é conservador(a)?

5. Qual o (a) candidato(a) francês(a) que é progressista?

6. Se o candidato é direitista, por que a candidata não é esquerdista?

7. Por que a eleição de Nicolas Sarkozy significa uma ameaça para os brasileiros ilegais na França e não uma eventual implementação e reforço da legislação contra todos os imigrantes que estão, clandestinamente, em situação irregular na França?
Sarkozy: maioridade penal de 18 para 16 anos | 16:40

Um dos pilares da campanha que conduziu Nicolas Sarkozy a ser o favorito à presidência foi sua ação como ministro do Interior, cargo conhecido como "o policial número 1 da França". Hoje Sarkozy, que baixou a criminalidade na França, disse: "Se for eleito presidente da República, em julho, proporei lei que estabelece uma pena mínima severa para criminosos reincidentes. Os menores reincidentes, entre 16 e 18 anos, serão punidos como os maiores. Aliás, vou propor a redução da maioridade penal, de 18 para 16 anos. Proporei também a interdição de prisão aberta para delinqüentes sexuais. Eles serão obrigados a fazer um tratamento médico e serão submetidos a um sistema de pontuação, no que diz respeito ao comportamento, a cada 15 dias. Construirei um hospital-prisão em cada região: prisão não é lugar para quem tem problemas psiquiátricos."


Quinta-feira, 26 de Abril de 2007
Bayrou aposta no terceiro turno | 08:38


Novo cartaz eleitoral de Bayrou.
A aliança? Com quem?
 

Os franceses elegeram dois candidatos para disputar a presidência da República: Nicolas Sarkozy e Ségolène Royal. A julgar pelo palavreado intenso, o papel, tinta e bytes gastos nos últimos três dias, fica a impressão de que quem ganhou o primeiro turno das eleições foi o terceiro colocado, o candidato do centro François Bayrou. Sarkozy obteve 31% dos votos, Royal 26% e Bayrou 18%. A premissa dominante alçou Bayrou à condição de árbitro da disputa. Bastaria ele apontar para uma direção e voilá o novo presidente da França, eleito pelo voto de cabresto. Criou-se um anticlímax para a entrevista coletiva de Bayrou como se a eleição fosse ser decida por antecipação, entre câmeras e microfones. Bayrou aproveitou a oportunidade para lançar um novo partido, dar uma estocada firme em Sarkozy e intimar madame Royal para um debate na TV. Bayrou não revelou seu apoio, mas disse que poderá fazer mais para frente. Está mantido o suspense e a velha astúcia de só exercer autoridade quando se tem certeza que ela vai ser seguida.

Madame Royal não quer desagradar Bayrou. Além de ter chegado em segundo lugar, a maioria dos eleitores de Bayrou diz que vai votar nela. Royal convidou Bayrou para irem juntos a uma entrevista coletiva à imprensa regional. Os jornalistas fizeram saber que estão interessados -- e não é de hoje -- no que Ségolène Royal fará se eleita. E claro, como ela irá financiar suas promessas. O debate entre Royal e Bayrou já aconteceu no primeiro turno. Nicolas Sarkozy diz que não quer conversa com Bayrou, mas com os membros do seu partido. O candidato de centro-direita está mordido porque veio a público a gravação de uma antiga entrevista de Bayrou, onde o candidato de centro conta que Sarkozy lhe propôs, na época, uma aliança contra o presidente Jacques Chirac. Sarkozy nega.

Bayrou já está de olho nas eleições legislativas de junho. Elas irão determinar a maioria parlamentar na Assembléia Nacional. O primeiro-ministro é nomeado pelo presidente da Republica entre os deputados do grupo majoritário. É o terceiro turno de Bayrou.

***

A última pesquisa IFOP de intenções de votos indica um ligeiro avanço de Sarkozy (53%) sobre Royal (47%).

A revista automobilística Argus encomendou pesquisa na qual os eleitores de Royal e Bayrou dizem preferir a marca Renault, enquanto os de Sarkozy gostam mais de carros Peugeot e Citroën.


Quarta-feira, 25 de Abril de 2007
Presidência monárquica - 1 | 20:49

Daqui a três semanas, o Palácio do Elysée em Paris, terá um novo inquilino. Os franceses vão dizer quem será na eleição para o presidente da França do dia 6 de maio: Sarkozy ou Ségolène. E Jacques Chirac? O ex-presidente não vai aumentar a população dos SDFs - os sem domícilio fixo. Jacques e Bernatte Chirac vão morar, 'muito provisoriamente', num apartamento de 180 metros quadrados à beira do Rio Sena, no 3 quai de Voltaire (foto). O apartamento pertence à família do ex-primeiro-ministro libanês Rafic Hariri, assassinado em Beirute em 2005. Segundo Ayman Hariri, o casal Chirac irá morar no apartamento emprestado até encontrar uma residência definitiva.
Presidência monárquica - 2 | 21:00

A família Chirac é proprietária do Château de Bity (foto), um castelo do século XVI no meio de um domínio isolado de 10 hectares, em Sarran, Corrèze, no centro sul da França. A propriedade foi comprada em 1969 e, um mês depois, tornou-se monumento histórico, o que dá direito a uma ajuda do estado para preservação. A família tem um apartamento de 114 metros quadrados no 95 rue de Seine, no elegante sexto distrito de Paris, onde mora a filha Claude. Segundo a declarção de renda Chirac herdou da mãe uma casa com quatro quartos em Donzenac, Corrèze, onde a mulher Bernadette foi eleita conselheira departamental. De acordo com o Journal Officiel, o patrimônio mobiliário do casal Chirac é de 580.000 euros mais o castelo, avaliado em 500.000 euros. Chirac terá uma aposentadoria de ex-presidente de 30.000 euros mensais, carro oficial, motorista e seguranças.
Silêncio quebrado (na França) | 17:33

"Eu vou virar a página do Maio de 68 na França" - Nicolas Sarkozy


O jornalista do jornal Folha de S.Paulo, Clovis Rossi, escreve que o sociólogo francês Edgar Morin aceitou um desafio lançado por Ségolène Royal em um 'raro momento de recaída no grandeur' da candidata socialista. No seu discurso do dia 22 de abril, Royal disse: 'Quando a França encontra uma grande idéia, elas fazem juntas a volta ao mundo.' Morin, por sua vez, escreveu um artigo de 9.921 caracteres no vespertino Le Monde com propostas para o mundo, Europa e França - no seu país, ele sugere a criação de Casas de Fraternidade nas cidades e nos bairros de metrópoles como Paris.

Recaídas no grandeur de políticos são freqüentes por aqui, o raro tem sido levantar-se delas. Os eleitores franceses não reclamam de falta de grandeur, mas de pequenezas como a falta de empregos. Mesmo sendo apenas o quadragésimo país em área territorial, a França não faz feio em número de 'casas de fraternidade' por metro quadrado. E não entra nessa conta os postos da Cruz Vermelha, do Exercito da Salvação e associações do tipo Restos du Coeur, criadas pelo ex-candidato a presidência da República, o divertido comediante Coluche (1944-1986). Os franceses encabeçam a lista de doações para instituições humanitárias, ainda que seu crescimento econômico médio é de 1,5% do PIB e o estado recolhe 63% das riquezas produzidas por eles.

Edgar Morin só foi obrigado a respeitar a 'lei do silêncio' quando foi jovem comunista e membro resistência francesa, durante a ocupação nazista na França. A partir da liberação, em 1945, Morin tornou-se um dos autores mais prolíferos do país. Ele não está rompendo nenhum silêncio agora, mas seguindo uma velha tradição. Suas idéias 'fazem barulho' desde que tomou parte ativa no movimento estudantil de Maio de 68 quando substituiu o sociólogo marxista Henri Lefebvre (1901- 1991), na Universidade de Nanterre.

Os intelectuais franceses não precisam de nenhum desafio para propor soluções, eles fazem isso todos os dias, em toda parte e em todos os meios. Eles são cada dia menos ouvidos. A França tem uma velha vocação de difundir idéias pelo mundo. Mas o que está em jogo nessas eleições presidenciais é outra coisa: a disposição da França de se parecer com o resto mundo.

Sarkozy pode perder? | 08:11


A dez dias da eleição do novo presidente da França, as três principais revistas semanais do país colocam em suas capas a mesma questão:

L'Express (545.00 exemplares) - Pode ele ser derrotado?

Le Nouvel Observateur (550.000 exemplares) - Pode ela derrotar Sarkozy?

Le Point (410.000 exemplares) - Sarkozy pode perder?

A última pesquisa de intenções de voto, TNS Sofres para Le Figaro-RTL-LCI, indica um empate técnico entre Sarkozy (51%) e Royal (49%).

Ségolène Royal beneficia de vantagem entre os eleitores que votaram no centrista François Bayrou -- 46% deles preferem a candidata socialista enquanto 25% dizem que irão votar em Sarkozy.

Na votação do primeiro turno, os franceses demonstraram, em um país onde o voto não é obrigatório, a maior mobilização eleitoral da sua história republicana. Quatro em cada cinco deles continuam interessados pelas eleições. Um terço do eleitorado ainda não decidiu em quem vai votar.


Terça-feira, 24 de Abril de 2007
O voto derruba as falsas idéias - Fim | 15:43

As crianças francesas preferem Ségolène Royal

- Verdade.

A maioria das crianças francesas acha Ségolène mais simpática. Além da beleza física, seu visual é estudado. Royal veste-se, quase sempre, de branco em aparições na TV e em comícios. O branco que evoca pureza. Seu gestual é delicado. No inicio e no fim dos comícios, permanece com os braços abertos enquanto duram os aplausos dos seus simpatizantes. A postura lembra a figura maternal protetora. As crianças associam o nome 'Royal' - real - com rei, rainha, príncipe, princesa, cavaleiros medievais, castelos. Mas, por enquanto, só os adultos votam na França. Eles deram 11,3 milhões de votos para um baixinho agitado que se veste, invariavelmente, de terno escuro e porta gravatas de cor azul-marinho com bolinhas. Sarkozy quer parecer 'presidencial' o quanto antes.

O voto derruba as falsas idéias - 4 | 08:37

A periferia das cidades francesas vota em Royal e contra Sarkozy.

- Falso

É uma imprecisão afirmar que os subúrbios franceses votaram contra Nicolas Sarkozy. O candidato de centro-direita só perdeu em um único departamento situado nos arredores de uma grande cidade francesa: Seine-Saint-Denis, um dos cinco subúrbios de Paris. Foi lá, precisamente, na comunidade de Clichy-sous-Bois, o estopim dos atos de vandalismo que se alastraram pela França, no fim de 2005. O total de votantes de Clichy-sous-Bois, no primeiro turno da eleição presidencial francesa, foi de 7.577 entre os 36,9 milhões da França. Royal recebeu 3.154 votos e Sarkozy, 1.857.
O voto derruba as falsas idéias - 3 | 08:33

A maioria dos operários* franceses vota na socialista Ségolène Royal e nos partidos de esquerda.

- Falso

O campeão de votos na classe operária francesa é Jean-Marie Le Pen (foto), o candidato de extrema-direita. Isso já não é de hoje. No primeiro turno das eleições presidenciais francesas de domingo passado, Le Pen obteve 24% do voto operário. Nicolas Sarkozy ficou com 20% e Royal com 20%. É curioso notar que desde a queda do Muro de Berlim, boa parte do eleitorado de extrema esquerda francesa passou a votar na extrema-direita. Os cientistas políticos explicam o comportamento como 'identificação dos extremos.' O Partido Socialista é hoje, sobretudo, o preferido dos funcionários públicos. Isso porque temem que direita possa vir a diminuir a maquina estatal. Curiosidade: o governo do socialista Lionel Jospin foi quem mais privatizou na França. Em um país com alto índice de desemprego, os sindicados e os partidos de esquerda defendem mais quem tem empregos do que quem não tem -- isso não quer dizer que a direita o faça. Nicolas Sarkozy aproveitou do fato já no primeiro discurso do segundo turno, na segunda-feira, em Dijon: 'Marie-George Buffet -- candidata do Partido Comunista -- fala mais sobre Sarkozy do que de trabalho'. É notável a insistência com que Sarkozy convida Ségolène Royal ao 'debate de idéias'. Ele está certo que a esquerda já perdeu nesse campo há muito tempo. Ele diz: 'Não tenho vergonha de defender idéias da direita, faço com gosto'. Isso é novidade na política francesa. Éric Brunet, autor do livro Être de Droite, un Tabou Français -- "Ser de direita, um tabu francês" -- escreve : 'Quem ousa dizer hoje 'Eu sou de direita'? Qual artista? Qual jornalista? Qual professor? Qual funcionário? A constatação pode parecer estranha depois de onze anos de governo Chirac, mas é difícil de ser de direita na França. É ainda mais difícil de dizer que é.'

* Há uma disputa política na França pelo adjetivo 'trabalhador'. Segundo Le Robert, dicionário do idioma francês, trabalhador é aquele que trabalha. Empresários, executivos, banqueiros, profissionais liberais e etc. trabalham. Eles reivindicam o adjetivo também. Os desempregados também se consideram trabalhadores - se tivessem empregos, trabalhariam. Há os quem têm emprego sem trabalhar e os que não têm emprego e nem querem tê-lo porque recebem do estado como se o tivessem. Esses dois casos se enquadram numa outra categoria.

Segunda-feira, 23 de Abril de 2007
O voto derruba as falsas idéias - 2 | 15:23

A maior preocupação dos franceses é a 'identidade nacional', tema preferido da extrema-direita.

- Falso

44% do eleitorado francês coloca o desemprego como a sua principal preocupação. O índice de desemprego na França está em torno de 9%. Ele é um dos mais altos da Europa. Na população ativa, um jovem em cada cinco está desempregado -- três vezes mais do que na Dinamarca e Irlanda e o dobro na Inglaterra. Mais de 60% dos homens e mulheres com mais de 50 anos não conseguem encontrar trabalho. Há 1,3 milhão de desempregados não contabilizados oficialmente. Mais de dois milhões de franceses recebem 42 bilhões de euros do estado para ajudar a conseguir e criar emprego. Durante os últimos 25 anos, nenhum governo -- Mitterrand ou Chirac -- conseguiu reduzir a taxa abaixo de 8%.

O voto derruba as falsas idéias - 1 | 15:20


Aos pés de Ségolène,
uma rosa, símbolo do PS

As francesas preferem a socialista Ségolène Royal e o eleitorado masculino é machista.

- Falso


A maioria do eleitorado francês é formado por mulheres -- 53%. As francesas votaram ligeiramente mais para Sarkozy (32%) do que para Segolene (27%). O fato de Royal ser mulher não constitui uma desvantagem para os franceses: 94% dos eleitores afirmam que uma mulher tem qualidades para ser presidente. Ser mulher é um trunfo para a candidata: os franceses julgam as mulheres mais honestas do que os homens. Uma semana antes da votação, Royal convocou o eleitorado feminino a 'escrever uma nova página na história da França'. Em um encontro com funcionárias de um supermercado, Royal disse: 'O mundo inteiro está olhando para vocês'. A colunista da revista Elle Michel Fitoussi tomou as dores do eleitorado feminino: 'As mulheres votarão para Ségolène Royal se ela for a melhor qualificada e não porque é mulher. É um insulto à nossa inteligência nos pedir isso.'

Por Antonio Ribeiro - 14:54  

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