Paris - VEJA.com
Sexta-feira, 04 de Maio de 2007

17/4/2007 - 22/4/2007


Domingo, 22 de Abril de 2007
A surpresa foi não ter havido surpresa | 21:43

Os franceses, através da maior participação eleitoral da história republicana de seu pais, armaram um confronto clássico para que dele faça emergir seu próximo presidente. De um lado, Nicolas Sarkozy, um liberal moderado cuja visão é uma França que trabalha mais, paga menos impostos, rigorosa com os criminosos e com controle rígido da imigração - isso inclui a expulsão de clandestinos e seleção de pretendentes. Seu comportamento enérgico, pragmático e, sobretudo, franco o faz um político francês atípico. Com Tony Blair, primeiro-ministro inglês, saindo de cena, Sarkozy tem cacife para se tornar a figura política mais expressiva da Europa.

Do outro lado, Ségolène Royal, uma socialista à moda antiga cuja visão de estado provedor e gerente de leis trabalhistas rígidas está no centro do seu projeto. Ela deseja aumentar o salário mínimo, construir 120.000 moradias para cidadãos de baixa renda e educação para as crianças francesas igual a que recebeu seus quatro filhos. Os recursos virão dos impostos pesados e de um eventual crescimento econômico. Sua beleza física, porte elegante lhe confere uma vantagem, mas a falta de carisma é notável desde que começa a falar. Sua candidatura conta ainda com um simbolismo: tornar-se a primeira mulher presidente da França. Ela diz que isso será um evento mundial de peso.

Na reta final, cuja chegada está marcada para o dia 6 de maio, os dois candidatos terão que convencer o eleitor que serão capazes de baixar o índice de desemprego de 9% - um dos mais altos da Europa. Reduzir colossal déficit púbico, que se fosse cotizado entre a população, cada francês teria que desembolsar 18.000 euros. Reformar um estado de bem estar social que suga 63% das riquezas produzidas no país. Promover um crescimento econômico robusto - a média dos últimos anos é de apenas 1,5% do PIB. E o mais difícil, prescrever a boa receita sem desagradar muito os franceses.

Os dois candidatos farão um debate na televisão dia 2 de maio. As primeiras pesquisas indicam que Nicolas Sarkozy vencerá o segundo turno com 52% a 54% das intenções de voto. A candidata socialista, Ségolène Royal tem 46% a 48%.

O presidente da França será Nicolas Sarkozy ou Ségolène Royal | 14:25

Sarkozy e Royal estão no segundo turno da eleição presidencial francesa, conforme VEJA on-line antecipou de forma exclusiva, 8 horas antes do fechamento das urnas na França.

A televisão francesa TF1 divulgou o resultado médio entre os institutos de pesquisa IFOP, IPSOS, CSA, TNS-Sofres:

Nicolas Sarkozy - 30%

Ségolène Royal - 25,2%

François Bayrou - 18,3%

Jean-Marie Le Pen - 11%


A expectativa agora é saber qual candidato o centrista François Bayrou irá apoiar na reta final.


Nova pesquisa de boca de urna: Sarkozy e Royal vencem | 14:12

CSA

Sarkozy - 29%

Royal - 26%
Boca de urna : Sarkozy e Royal vencem | 13:00

IPSOS
Nicolas Sarkozy: 27%
Segolene Royal : 26 %

SOFRES
Nicolas Sarkozy: 26%
Segolene Royal : 26 %
Nova taxa de participação: 73. 87% | 12:25

Os franceses estão votando em peso num belo domingo primaveril - 24 graus Celsius. Isso é bom para o Sarkozy e Ségolène.
Índice de participação alto favorece Sarkozy e Royal | 11:57

Até o meio-dia (horário de Paris), quatro horas após a abertura das urnas, o índice de participação dos eleitores franceses no primeiro turno da eleição presidencial foi de 31, 21%. O índice é 10% superior em relação à última eleição, em 2002, e também superior ás três últimas presidências. Os números confirmam o alto interesse dos franceses nessa eleição presidencial, considerada a mais importante em meio século. Normalmente a forte mobilização de eleitores favorece os candidatos dos grandes partidos. No caso, Nicolas Sarkozy, da UMP e Ségolène Royal, do PS. Na última presidencial, Le Pen surpreendeu passando para o turno final. Em 2002, o índice de abstenção foi de 28,2%, o mais alto desde 1965 quando as presidenciais francesas passaram a ser decidas pelo sufrágio universal direto.
EXCLUSIVO: Sarkozy e Royal vencem, segundo estimativa do serviço de informação da polícia francesa. Le Pen chega em terceiro | 09:15

Segundo uma fonte de VEJA-online no serviço de informação da polícia francesa, a estimativa é de que Nicolas Sarkozy, candidato de centro-direita, vencerá o primeiro turno da eleição presidencial francesa com 25% a 26% das intenções de voto. Ségolène Royal será a segunda colocada com 22% a 24%. Portanto, os dois passam para fase final cujo a votação acontecerá no dia 6 de maio.

A surpresa, ainda segundo a polícia, é Jean-Marie Le Pen. O candidato da extrema-direita seria o terceiro colocado com 19% a 20%. O centrista François Bayrou teria de 14% a 16% dos votos.

A Direction Centrale des Renseignements Généraux (DC RG), mais conhecida por RG, é um serviço da Polícia Nacional francesa. Sua missão é informar o governo sobre a segurança interior do país. Ele participa na luta anti-terrorista, vigilância dos cassinos e formula análises e prospectivas de conflitos sociais. Em todas as eleições, os agentes do RG fazem sua própria pesquisa de intenções de voto. Nos últimos cinco anos, as estimativas do RG ficaram muito mais próxima do resultado do que as sondagens de intenções de votos realizada pelos institutos de pesquisa. Até às 16h (horário Brasília) de hoje a divulgação de pesquisas é proibida na França.

Sexta-feira, 20 de Abril de 2007
As últimas pesquisas antes do voto | 20:21

Nicolas Sarkozy (foto) lidera as intenções de voto nas duas últimas pesquisas antes da votação do primeiro turno da eleição presidencial francesa do domingo, 22 de abril. Enquanto seus adversários passaram o último dia de campanha cavando votos, o candidato de centro direita aproveitou para vaqueirar na Camargue, no sul da França. Segundo a pesquisa do CSA encomendada pelo jornal Le Parisien, Jean-Marie Le Pen, o candidato de extrema direita, ultrapassa pela primeira vez o centrista François Bayrou. Na mesma sondagem, Ségolène Royal está apenas a um ponto percentual de Nicolas Sarkozy. Já o IPSOS dá uma vantagem de 7% para Sarkozy. Metade dos 44 milhões de eleitores ainda não decidiu em quem votar. As primeiras estimativas do resultado serão anunciadas às 16h (horário de Brasília) no domingo. Até lá, a divulgação dos resultados é proibida. Na tarde do dia de votação, jornalistas próximos à polícia francesa obtêm estimativas colhidas pelo RG, o serviço de informações. Nas últimas presidenciais, jornais suíços e belgas divulgaram sondagens antes da hora.

As pesquisas:

CSA - Le Parisen

Nicolas Sarkozy - 26,5%
Ségoléne Royal - 25,5%
Jean-Marie Le Pen - 16,5%
François Bayrou - 16%

IPSOS

Nicolas Sarkozy - 30%
Ségoléne Royal - 23%
François Bayrou - 18%
Jean-Marie Le Pen -13%
O trem bala e o voto eletrônico | 15:07

Os brasileiros descobriram, recentemente, que ir de um ponto a outro de avião não é tão simples como já foi um dia. Os franceses, por sua vez, acabam de colocar nos trilhos um modelo do Trem a Grande Velocidade, o TGV, que roda a 385 km/h. Domingo, 22 de abril, o jogo é outro. Apenas 1,5 milhão de eleitores franceses, em um total de 44 milhões, poderá votar em urnas eletrônicas. Não há, no mundo, um sistema de votação eletrônica tão bem sucedido como o brasileiro.

O brasileiros adoram, os franceses morrem de medo. Aqui, quando se fala em votar por um sistema que não seja o local, quer dizer, colocar o papelzinho com o nome do candidato no envelope e depositá-lo na urna transparente, os nativos lembram do caos eleitoral na Flórida. Aliás, esse é um dos dardos preferidos lançados nos americanos: sistema indireto até por máquina. Entende-se. Não há fraude eleitoral na história da França. O francês mediano não conhece o sistema brasileiro.

Todos os partidos foram contra a instalação de urnas eletrônicas. Sarkozy, uma vez mais, foi exceção. Ele era até outro dia, o ministro do Interior, responsável pela organização das eleições. Sua oposição seria um contra-senso. Uma petição com 73.000 assinaturas de internautas pede o fim do voto eletrônico.

O laboratório da Universidade Paul Verlaine, de Metz, testou dois modelos de urnas eletrônicas entre as três que serão utilizadas. A conclusão foi a seguinte: um em cada quarto eleitores corre o risco de errar, anular o procedimento ou não conseguir concluí-lo. Isto significa que 375.000 votos podem vir a ser questionados. Em 1974, o ex-presidente da França Giscard d'Estaing venceu François Mitterrand por uma vantagem de 400.000 votos. Na última eleição presidencial, Le Pen surpreendeu a França chegando ao segundo turno com uma diferença de apenas 180.000 votos. As pesquisas revelam, desta vez, vantagens curtas entre o segundo e terceiro candidato.

Caso haja litígio eleitoral, ele será resolvido pelo Conselho Constitucional que emitiu no mês passado um parecer favorável ao voto eletrônico.

Se for do seu interesse, assista a reportagem do canal a cabo francês iTELE com o holandês Rop Gonggrijp, técnico em informática. Gonggrijp mostra como fraudar e identificar, à distância, o voto eletrônico em uma máquina que será utilizada na eleição francesa. O fabricante Nedap afirma ter feito melhorias depois da demonstração de Gonggrijp.

"Escoria!" - Nicolas Sarkozy | 10:20


Sarkozy: a polêmica não é se ele disse.

Disse ou não disse não merece disse-não-disse porque ele disse. Ele disse ontem que disse.
Joana, a francesa | 08:14


Joana d'Arc na coroação de
Charles VII, por Jean-Auguste
Dominique Ingres (1854)
Joana d'Arc (1412-1431), heroína francesa da Guerra dos Cem Anos e santa do catolicismo, tem sido ao longo dos anos imagem inspiradora. Na França, Jean-Marie Le Pen, baluarte da xenofobia nacional, rende homenagem à santa guerreira sempre que lhe parece útil e, em especial, no 1º de maio. Joana foi levada à fogueira sob acusação de heresia no mês de maio. Le Pen serve-se da coincidência e comanda, anualmente, uma passeata de simpatizantes que termina aos pés de um palanque, pedestal para seus discursos. É dia de grande negócio para quem vende sanduíches de lingüiça merguez e bandeirinhas tricolores. O ato foi concebido para rivalizar com as manifestações de sindicatos e partidos de esquerda no Dia do Trabalho.

Faz sentido comparar a candidata socialista Ségolène Royal com Joana d'Arc? Por enquanto, não vejo nenhuma semelhança além de serem francesas. No próximo 6 de maio, os eleitores vão decidir quem será o presidente da França. Será uma prova de fogo. Em todo caso, aqui vai uma historinha:

Depois da II Guerra Mundial, o general americano Dwight Eisenhower, comandante supremo das forças aliadas, e o general Charles de Gaulle, chefe das tropas da França Livre, encontraram-se no Palácio do Elysée, em Paris. Na época, os dois eram presidentes dos seus países. Charles rememorou os tempos da guerra: 'Ike, o Rooselvelt achava que eu era a Joana d'Arc, eu não nunca fui nada além de Charles de Gaulle.'

Ségolène Royal não é nada além de Ségolène Royal.

Quinta-feira, 19 de Abril de 2007
52 eleições por ano | 12:57


'The Economist' e 'Le Nouvelobs' dizem o que pensam

Nas democracias modernas, os políticos se submetem ao sufrágio universal no fim dos mandatos.

O mandato presidencial na França já foi de sete anos com direito a tantas reeleições quanto desejava o mandatário. Ele foi reduzido para cinco anos. É o caso do segundo mandato de Jacques Chirac. O presidente da França eleito em dia 6 de maio só terá direito a uma reeleição. E, como nos EUA, nunca mais poderá ser presidente outra vez. É o caso de Bill Clinton. Bem, ele poderá vir a palpitar, mas no banco traseiro. Isso se americanos colocarem madame Clinton no volante e ela deixar o marido lhe indicar a rota.

As grandes revistas semanais de informação se submetem a 52 'eleições' por ano através da livre escolha do leitor. Elas não governam nem legislam. Sua saudável missão nas democracia é informar, avaliar e sugerir caminhos.

Na semana passada, o semanário britânico The Economist manteve sua tradição de opinar nas eleições presidenciais dos sete países mais ricos do mundo. O Economist fez ressalvas e, na falta de melhor escolha, acha que os franceses deveriam votar em Nicolas Sarkozy. A revista já deu seu endorsement -- apoio -- às candidaturas do socialista inglês Tony Blair, do democrata americano John Kerry e desaconselhou o italiano Silvio Berlusconi, 'um pasticho liberal'.

Hoje foi a vez do semanário francês Le Nouvel Observateur. A revista também respeitou sua tradição: variar na tendência, mas sempre apoiar um candidato de esquerda. O editor Jean Daniel sugeriu aos franceses votar em Ségolène Royal.

Quarta-feira, 18 de Abril de 2007
"O florentino" | 20:45

'No primeiro turno é preciso dominar seu campo e no segundo, conquistar o centro.'
(François Mitterrand)

Na segunda metade do século XX, a política francesa teve duas figuras centrais. Um foi estadista e o outro, um artista. O primeiro foi o General Charles de Gaulle (1890 - 1970). O segundo, François Mitterrand (1916 - 1996), um político hábil e cínico cujo o período de governo foi o mais longo da história republicana: 14 anos.

Mitterrand, 'o florentino', ensinou a seguinte estratégia para ganhar as eleições na França: "No primeiro turno é preciso dominar seu campo e no segundo, conquistar o centro." Socialista como Mitterrand, com quem aprendeu a dar os primeiros passos na política, Ségolène Royal ainda não conseguiu dominar seu campo, a 4 dias da eleição. Ela ainda tenta cavar votos no terreno adversário.

Nicolas Sarkozy cumpre a risca a tática de Mitterrand. Foca sua campanha no eleitorado de direita. Hoje ele recebeu o apoio importante do ex-presidente Valéry Giscard d'Estaing, fundador da UDF, o partido de Bayrou. A UDF sempre aliou-se com a direita. Agora metade dos eleitores de Bayrou é de socialistas descontentes com Royal.

Uma curiosidade: o cartaz da campanha eleitoral de Sakozy é inspirado no famoso "Força Tranqüila" feito pelo publicitário Jacques Séguéla para campanha que elegeu Mitterrand presidente da França, em 1981.

Sarko e Sego no Rick's Bar | 15:30

Num ambiente que lembra o Rick's Bar em Casablanca, os dois principais candidatos à presidência da França, Nicolas Sarkozy e Ségolene Royal, colocam em evidência a 'identidade nacional'. Eles contornam os principais problemas da França: o desemprego crônico, o decrépito estado provedor, o colossal déficit público e o crescimento econômico anêmico.

As quatro frentes da Guerra das Gálias | 07:56

Gamma

Da esquerda para a direita: Royal, Bayrou, Le Pen e Sarkozy

A disputa do primeiro turno vale duas vagas para a etapa decisiva e tem quatro frentes:

1. Esquerda contra direita. É duelo clássico entre os dois maiores partidos da França. Ele domina a política do país desde 1965, quando os franceses referendaram o sufrágio direto proposto pelo general De Gaulle. Sarkozy representa a União por um Movimento Popular (UMP), o partido do atual presidente da França, Jacques Chirac, herdeiro distante do gaulismo. A UMP tem maioria na Assembléia Nacional, pilar do primeiro-ministro Dominique de Villepin, o chefe do governo parlamentar. Ainda que Sarkozy tenha sido ministro do governo Chirac e faça parte do mesmo partido do presidente, os dois são adversários. Protagonizaram rinhas públicas. O ministro foi insolente com seu presidente e este tentou sabotar sempre que possível seu ministro do Interior. A forte popularidade de Sarkozy impediu Chirac de disputar um terceiro mandato. O presidente declarou apoio ao ex-ministro, mas mantém-se distante da campanha. Chirac já não atrai mais votos. O presidente é o símbolo maior da França imobilista, temerosa de reformas, alvo recorrente de Sarkozy. Ele promete uma 'ruptura' com o passado. Ségolène Royal, a primeira mulher com chances reais de se tornar presidente da França, pertence ao Partido Socialista (PS). Sua escolha como candidata se deu à revelia e contra as velhas lideranças do partido, os "elefantes do PS'. Eles têm uma presença discreta na campanha. Embora concorra com as cores do PS sugerindo uma bandeira da França em cada lar -- tentativa clara de conquistar eleitores da direita à extrema-direita -- Ségolène criou sua base eleitoral fora do PS, no movimento Désirs d'avenir. Madame Royal, ex-aluna da Escola de Administração Publica (ENA), celeiro dos políticos franceses, acredita que o estado de bem-estar social deve continuar com papel preponderante na França. Em termos econômicos, ela prega a velha ladainha do keynesianismo: gastos governamentais para estimular o crescimento. Sarkozy propõe aos franceses trabalhar mais para ganhar mais. Estima que a jornada semanal de trabalho de 35 horas, exclusividade mundial Made in France, é um suicídio econômico. Embora Ségoléne seja mulher -- a predominância da classe política francesa é masculina -- a grande novidade fica por conta de Sarkozy, que parece um extraterrestre no cenário político francês. Pragmático, quer saber porque os britânicos baixam o índice de desemprego, e se gosta, encampa o método. Ele é liberal ma non troppo, falta-lhe o tempero genuíno dos anglo-saxões. Quando se trata de empresas francesas em risco, ele evoca um negócio chamado 'patriotismo econômico' para dar socorro. Voluntarista e com a coragem de negociar, diretamente com um seqüestrador armado, a liberação de reféns, crianças de uma escola da cidade onde Sarkozy era prefeito. Propôs ser trocado por elas. Atlantista -- eufemismo para pró-americano. Mas sobretudo, Sarkozy usa uma rara franqueza para abordar assuntos sensíveis e controversos como controle da imigração, a falta de apego ao trabalho e os limites dos direitos individuais. O candidato consegue seduzir mais pela clareza do que pelo conteúdo e tem dificuldade de parecer bom moço. Ele tem a mesma estatura de Bonaparte, é baixinho.

2. A captura do centro. No setor mais belicoso da campanha a figura central -- com perdão do pleonasmo -- é François Bayrou. O candidato preside a União pela Democracia Francesa (UDF), o resultado a fusão de sete pequenos partidos na maioria de apoio ao aristocrático ex-presidente da França, Valéry Marie René Giscard d'Estaing, nos fins dos anos 70. A UDF tem apenas 27 deputados entre os 577 da Assembléia. Sempre se aliou com a maior partido da direita. A chegada de Bayrou trouxe mais independência para os centristas. A fulgurante subida do candidato nas pesquisas, passando de 6% das intenções a 21% em três meses, se deve à adesão à sua candidatura dos socialistas moderados e descontentes com Ségolène Royal. Metade do eleitorado de Bayrou vota, tradicionalmente, nos socialistas. Há também, em menor número, eleitores de direita que acham as idéias de Sarkozy muito liberais ou próximas da extrema-direita. Esses eleitores descontentes formam o contingente mais volúvel do eleitorado. O eleitorado de Bayrou cresce ou retrai pelo ideário e desempenho do candidato, mas também pelo movimento pendular de Sarkozy e Ségolène. Dito de outro modo: sempre que Sarkozy ou Royal saem do eixo, indo mais para direita ou esquerda, há mudança no eleitorado de Bayrou. Três expoentes do Partido Socialista, o ex-primeiro-ministro Michel Rocard, o ex-ministro da Saúde Bernard Kouchner, co-fundador dos Médicos Sem Fronteiras, e o ex-ministro da Educação Claude Allègre sugeriram uma aliança, já no primeiro turno, entre Royal e Bayrou. Um golpe duro para Ségolène. Ela concorda e, indo ainda mais longe, diz: 'Não fui poupada em nada nessa campanha.' Para seduzir o eleitores dos seu dois principais adversários, Bayrou promete, se eleito, um primeiro-ministro do PS ou da UMP. Bem, isso dependerá, igualmente, das eleições legislativas de junho.

3. Le feu ami. Sarkozy e Len Pen travam um embate feio pelos eleitores de extrema direita. O primeiro quer conquistá-los com promessas de reforçar a legislação contra criminosos recidivistas, manutenção da ordem e controle da imigração, nesse particular, com a criação de um ministério que provoca calafrios em que se lembra do governo de Vichy, durante a ocupação nazista. Le Pen empenha-se para manter o rebanho que criou e de quem foi a voz mais expressiva, no seu curral. As críticas mais contundentes contra Sarkozy derivam dessa sua dança do ventre para seduzir, segundo seu jargão eleitoreiro, 'os desgostosos da República'. Sarkozy pergunta: 'Recuperar o voto da Frente Nacional é ruim?" Le Pen responde: 'O original é melhor do que a cópia.' Bem, 'original' significa também, segundo Le Pen, a condição obrigatória para ser presidente da França. Trocando em miúdos: ele, cujos antepassados franceses remontam ao século XVII. Sarkozy é filho e neto de aristocratas húngaros que imigraram para a França fugindo do comunismo. Ele foi criado pela avó de origem grega e crença judaica. Sarkozy é católico, defensor da tradição cristã européia e contra a entrada da Turquia -- estado laico de maioria muçulmana -- na União Européia.

4. A batalha dos anões. Aqui os personagens são um jovem carteiro trotskista e a datilógrafa extremista. O pecuarista que quebra lanchonetes e destrói campos de transgênicos contra a globalização. A representante dos verdes e o defensor dos caçadores. Há outros. Todos com histórias interessantes que desaguaram no proselitismo político. Todos com ambição de ser presidente da França sem a mais remota chance. Quando adquirirem alguma, serão mais comentados aqui. Eles têm um prazo: 4 dias.


Terça-feira, 17 de Abril de 2007
Pela primeira vez Ségolène
empata com Sarkozy | 11:44

AFP

A candidata socialista durante comício na segunda-feira, em Nantes

A cinco dias do primeiro turno da eleição presidencial na França, a disputa ganhou uma nova perspectiva com a divulgação da pesquisa do CSA encomendada pelo jornal Le Parisien. Ela revela um empate técnico entre Nicolas Sarkozy e Ségolène Royal nas intenções de voto no turno decisivo. Os dois candidatos aparecem com 50% das intenções. A situação é inédita desde o início da campanha. Isso significa que Ségolène Royal torna-se uma opção mais viável para quem tem como primeiro objetivo a derrota de Sarkozy. Essa alternativa pertencia ao terceiro colocado, François Bayrou, o candidato de centro. Numa eventual disputa com Sarkozy, na reta final, Bayrou sairia vencedor. As sondagens dos próximos dias -- desde o início do ano foram realizadas mais de uma centena por sete institutos -- dirão se a tendência é consistente.

As diferenças se mantêm nas pesquisas para o primeiro turno. Sarkozy, o candidato de centro-direita, lidera com 27% a 30%. Ele é seguido de perto pela socialista Ségolène Royal com 23% a 26%. O terceiro colocado, o azarão François Bayrou, está com 17,5% a 19%. Jean-Marie Le Pen, o septuagenário candidato da Frente Nacional, segue em uma espécie de emboscada eleitoral. A cotação do candidato de extrema-direita provoca desconfiança porque o seu eleitorado é o mais reticente para declarar o voto -- os simpatizantes de Ségolène são os mais espontâneos. Le Pen foi a grande surpresa da última presidencial, quando eliminou o candidato socialista Lionel Jospin no primeiro turno. Dessa vez, provavelmente a última participação de Le Pen em uma eleição presidencial, ele estaria em quarto lugar, com 13,5% a 15,5% das intenções.

Três em cada dez franceses ainda não decidiram em quem irão votar. As projeções estimam uma abstenção em torno de 13% -- ela representa menos da metade do índice registrado na última presidencial, em 2002.

O próximo post irá abordar as quatro frentes da disputa para conquistar o eleitor francês, cada vez menos obediente a filiação partidária e as ideologias.

"Todo homem tem dois países, o dele e a França." - Thomas Jefferson | 00:52


Retrato de Thomas Jefferson pelo
pintor Rembrandt Peale (1805)

A percepção do terceiro presidente dos Estados Unidos (1801-1809) e principal autor da Declaração de Independência (1776) reflete hoje pouca proximidade com a realidade e muitas reações derrisórias. Nenhuma nação moderna atrai mais a admiração tal qual a França magnetizou outrora. No entanto, o país dos franceses ainda faz parte de um clube restrito. O papel do estado tão bem codificado nos fundamentos da liberdade, direito individual e secularismo republicano permite a França chamar a si um modelo civilizatório. A exceção francesa baseia-se num debate de idéias rico e diversificado onde os representantes de cada lado - concorde-se com eles ou não - argumentam com rara propriedade. Nem sempre a França tira beneficio próprio dessas discussões. Muitas vezes, elas acontecem aqui primeiro. O Brasil, o maior parceiro comercial da França na América Latina, não está fora do terreno de influência.

No próximo domingo, 22 de Abril, 44 milhões de franceses vão as urnas. Trata-se do primeiro turno para eleger o novo presidente da França. Doze candidatos disputam duas vagas para entrar na reta final. Todos eles, sem exceção, da extrema-direita aos trostkistas, gostariam que o mundo venha se parecer com o seu projeto de França. Na mais importante eleição para os destinos do pais nos últimos 50 anos, estará em jogo o quanto o país dos franceses irá se parecer com o resto do mundo. O momento é muito interessante. VEJA on-line vai acompanhá-lo, diariamente, até o dia 6 de maio, quando será conhecido o vencedor. Vamos tentar fazê-lo como se a França fosse o seu país.

Por Antonio Ribeiro - 17:24  

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