11/08/2012
às 18:45 \ London CallingHere, There and Everywhere
Para os brasileiros, foi uma decepção do tamanho do Big Ben. A derrota para o México na decisão do torneio olímpico de futebol, neste sábado, foi um desfecho melancólico para uma campanha que prometia acabar com o jejum de ouros do Brasil na sua modalidade favorita, num esporte que é a sua cara. Ignore-se por um momento, porém, o resultado da final. Com mexicanos ou brasileiros subindo ao topo do pódio, a partida deste sábado já teria uma peso diferente na comparação com outras decisões olímpicas do futebol. Porque a Olimpíada de Londres não poderia ser encerrada sem uma celebração do esporte que, na Grã-Bretanha assim como no Brasil, é mais que só um jogo. O torneio olímpico da modalidade mais praticada do planeta não é dos mais empolgantes, todos sabem. Mas Londres, uma das capitais mundiais da bola, merecia assistir a uma finalíssima com estádio cheio (mais de 86.000 pessoas), com grandes jogadores em ação, com lances emocionantes e com um enredo surpreendente. São esses alguns dos melhores ingredientes da inigualável fórmula de sucesso do futebol – e foi em Londres que toda essa magia começou a se revelar.
A capital britânica é a cidade com maior número de estádios no mundo – só na primeira divisão, são seis equipes, todas com sede própria, incluindo o atual campeão da Europa, o Chelsea, do bairro de Fulham, no sudoeste da cidade, e um dos mais populares do país, o Arsenal, instalado em Holloway, na região norte. Fica aqui a sede da Football Association, a federação inglesa de futebol, criada em 1863 e pioneira na definição das regras do jogo. E está em Londres também, evidentemente, o colossal Estádio de Wembley, o palco do fiasco de Neymar, mas também das glórias de Messi, por exemplo – foi onde o Barcelona do supercraque argentino chegou ao auge, na final da Liga dos Campeões do ano passado, numa vitória incontestável e categórica sobre o Manchester United. Em sua encarnação mais recente, trata-se de uma arena moderna e confortável. Na história olímpica, porém, o Wembley de que todos se lembram é mesmo o velho estádio erguido em 1923 e demolido em 2003, palco principal da Olimpíada de 1948. Ele ficava exatamente no mesmo local onde hoje existe a nova arena, mas as semelhanças entre um e outro são pouquíssimas. No estádio atual estão preservadas, por exemplo, as enormes placas de pedra que registram os nomes de todos os medalhistas dos Jogos de 1948.
Foi um trabalho hercúleo remover as peças intactas antes da demolição da antiga fachada, mas os britânicos insistiram na preservação da memória do templo sagrado em que foram campeões do mundo, seu único título em Copas, em 1966. Depois da final, em 30 de julho, um 4 a 2 controverso e espetacular contra a Alemanha Ocidental, a rainha Elizabeth II entregou a taça ao capitão Bobby Moore, imortalizado numa estátua colocada bem na entrada principal do novo estádio. Uma semana depois, os Beatles lançavam Revolver, talvez seu melhor álbum. Foi um verão glorioso para os britânicos, assim como este de 2012 também vem sendo. Pode parecer estranho falar em conservação das lembranças do antigo Wembley depois de ver que os britânicos simplesmente o reduziram a pó. Mas eles tiveram seus motivos. Neste sábado, depois da derrota brasileira, um funcionário veterano perguntava aos visitantes, em sua enorme maioria estreantes em Wembley, o que eles tinham achado do estádio. Depois, contava suas recordações do antigo palco – e sem nenhuma saudade. “Quando o clima estava úmido, era um horror. Ficava um baita cheiro de urina no ar. Os banheiros eram poucos e velhos. Não dava mais.” Sobre o novo estádio, o funcionário era só elogios, e não só por causa do conforto. Ele lembrava que a história do futebol seguia sendo contada aqui, em Wembley e nos outros gramados, velhos ou novos, que se espalham pela cidade.

.
.
..
Here, There and Everywhere - Beatles, Revolver (1966)
.
Tags: beatles, copa do mundo de 1966, futebol, grã-bretanha, londres, olimpíada de londres 2012, wembley

















