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wembley

11/08/2012

às 18:45 \ London Calling

Here, There and Everywhere

Para os brasileiros, foi uma decepção do tamanho do Big Ben. A derrota para o México na decisão do torneio olímpico de futebol, neste sábado, foi um desfecho melancólico para uma campanha que prometia acabar com o jejum de ouros do Brasil na sua modalidade favorita, num esporte que é a sua cara. Ignore-se por um momento, porém, o resultado da final. Com mexicanos ou brasileiros subindo ao topo do pódio, a partida deste sábado já teria uma peso diferente na comparação com outras decisões olímpicas do futebol. Porque a Olimpíada de Londres não poderia ser encerrada sem uma celebração do esporte que, na Grã-Bretanha assim como no Brasil, é mais que só um jogo. O torneio olímpico da modalidade mais praticada do planeta não é dos mais empolgantes, todos sabem. Mas Londres, uma das capitais mundiais da bola, merecia assistir a uma finalíssima com estádio cheio (mais de 86.000 pessoas), com grandes jogadores em ação, com lances emocionantes e com um enredo surpreendente. São esses alguns dos melhores ingredientes da inigualável fórmula de sucesso do futebol – e foi em Londres que toda essa magia começou a se revelar.

A capital britânica é a cidade com maior número de estádios no mundo – só na primeira divisão, são seis equipes, todas com sede própria, incluindo o atual campeão da Europa, o Chelsea, do bairro de Fulham, no sudoeste da cidade, e um dos mais populares do país, o Arsenal, instalado em Holloway, na região norte. Fica aqui a sede da Football Association, a federação inglesa de futebol, criada em 1863 e pioneira na definição das regras do jogo. E está em Londres também, evidentemente, o colossal Estádio de Wembley, o palco do fiasco de Neymar, mas também das glórias de Messi, por exemplo – foi onde o Barcelona do supercraque argentino chegou ao auge, na final da Liga dos Campeões do ano passado, numa vitória incontestável e categórica sobre o Manchester United. Em sua encarnação mais recente, trata-se de uma arena moderna e confortável. Na história olímpica, porém, o Wembley de que todos se lembram é mesmo o velho estádio erguido em 1923 e demolido em 2003, palco principal da Olimpíada de 1948. Ele ficava exatamente no mesmo local onde hoje existe a nova arena, mas as semelhanças entre um e outro são pouquíssimas. No estádio atual estão preservadas, por exemplo, as enormes placas de pedra que registram os nomes de todos os medalhistas dos Jogos de 1948.

Foi um trabalho hercúleo remover as peças intactas antes da demolição da antiga fachada, mas os britânicos insistiram na preservação da memória do templo sagrado em que foram campeões do mundo, seu único título em Copas, em 1966. Depois da final, em 30 de julho, um 4 a 2 controverso e espetacular contra a Alemanha Ocidental, a rainha Elizabeth II entregou a taça ao capitão Bobby Moore, imortalizado numa estátua colocada bem na entrada principal do novo estádio. Uma semana depois, os Beatles lançavam Revolver, talvez seu melhor álbum. Foi um verão glorioso para os britânicos, assim como este de 2012 também vem sendo. Pode parecer estranho falar em conservação das lembranças do antigo Wembley depois de ver que os britânicos simplesmente o reduziram a pó. Mas eles tiveram seus motivos. Neste sábado, depois da derrota brasileira, um funcionário veterano perguntava aos visitantes, em sua enorme maioria estreantes em Wembley, o que eles tinham achado do estádio. Depois, contava suas recordações do antigo palco – e sem nenhuma saudade. “Quando o clima estava úmido, era um horror. Ficava um baita cheiro de urina no ar. Os banheiros eram poucos e velhos. Não dava mais.” Sobre o novo estádio, o funcionário era só elogios, e não só por causa do conforto. Ele lembrava que a história do futebol seguia sendo contada aqui, em Wembley e nos outros gramados, velhos ou novos, que se espalham pela cidade.

 

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Here, There and Everywhere - Beatles, Revolver (1966)

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11/08/2012

às 12:58 \ Loja de Antiguidades

Recordações magiares

A derrota para o México por 2 a 1 diante de 86.000 pessoas no estádio de Wembley subtraiu do futebol brasileiro uma medalha de ouro que, insistentemente, parece não querer vir. De busca incansável, tornou-se drama. Nos Jogos de 2016, no Rio, será quase uma obrigação. O time de Neymar deixa Londres com o amargo, amaríssimo, gosto da prata. Em outras modalidades, o segundo lugar no pódio é uma posição respeitável, por vezes heroica – não no futebol. Pé de página da história, ao menos até a Copa de 2014, a seleção de Mano Menezes perdeu a chance de fazer companhia a outros selecionados de enciclopédia – embora, sejamos honestos, mesmo o ouro olímpico seria incapaz de fazer com que os onze de Londres empolgassem.

Nos ranking dos Jogos Olímpicos, nenhuma seleção se compara ao escrete magiar de 1952, em Helsinque. A Hungria venceu com jogadores que, ao sair dali, se tornariam totens do futebol: Puskas, Czibor, Kocsis e cia. Na final contra a Iugoslávia, a vitória foi de 2 a 0, com gols de Puskas e Czibor – naquele tempo, os países do Leste Europeu, satélites de Moscou, é que dominavam o futebol olímpico, então chamado de amador. A lenda de Puskas, o Major Galopante, apenas se iniciava.

Em 1953, depois do ouro na Finlândia, os magiares foram ao estádio de Wembley – ainda em sua versão anterior, antiga, de ferro fundido e tijolos avermelhados – onde derrotaram os ingleses por espetaculares 6 a 3. Foi o equivalente, para os inventores do football, à derrota do Brasil na Copa de 1950. Desenhava-se o caminho húngaro para a Copa do Mundo da Suíça, em 1954. Eles entraram como favoritos, imbatíveis – muito mais do que o Brasil contra o México – venceram a Alemanha (desfalcada de alguns de seus melhores jogadores) por 8 a 3 na partida inaugural, mas perderam o título numa tarde, para prosseguir na didática mania de a tudo dar nomes, recurso que povoa este texto, alcunhada de “Milagre de Berna”. Derrotados pelos alemães por 3 a 2, a seleção da Hungria deixou o Olimpo e desceu para a Terra.  A era de ouro de um time que cujos nomes se cantavam como um poema, desde que se soubesse húngaro, chegou ao fim em 1956, com a Revolução Húngara, a revolta popular contra as políticas impostas pela União Soviética. Puskas, o Major Galopante, transferiu-se para o Real Madrid. Naturalizou-se espanhol e chegou a disputar a Copa do Mundo de 1962 pela Fúria ao lado de outro expatriado, o argentino Alfredo Di Stefano. Mas isso é história para outra Loja de Antiguidades, em 2014. Até lá

08/08/2012

às 6:03 \ Torre de Londres

Chegou a hora de jogar bem

Egito, Bielorússia, Nova Zelândia, Honduras e Coreia do Sul. Nenhum bicho-papão. Nenhuma grande força internacional. Aqui entre nós, a seleção brasileira de futebol tinha mesmo que vencê-los. E foi o que fez, marcando três gols em cada um deles. Não chegou, por enquanto, a dar uma exibição de fato brilhante e nem mesmo convincente. Exceto no encontro com os neo-zelandeses, que não têm qualquer intimidade com a bola redonda – seu negócio é a oval, do rúgbi –, o time enfrentou dificuldades, às vezes mais, às vezes menos, e passou por alguns assustadores, inesperados momentos de sufoco.

Foi o que se viu no final da primeira partida, no início da segunda, durante boa parte do jogo das quartas-de-final e na meia hora inicial da semifinal diante dos sul-coreanos. Em termos de resultados, porém, conseguiu até agora alcançar o objetivo a que se propunha: veio vindo, veio vindo, deu sustos, tomou cinco gols, quase todos evitáveis, mas enfim se credenciou para disputar a medalha de ouro em Wembley.

Reconheça-se que não é pouca coisa e, mesmo para quem é pentacampeão mundial e o maior colecionador de glórias nos gramados do planeta, ir a uma finalíssima não acontece todos os dias. Para não recuar muito no tempo, basta lembrar que, na nossa história olímpica, a última decisão ocorreu em Seul, há longos 24 anos. Na Copa do Mundo, há dez. Depois disso, a seleção caiu logo no segundo mata-mata. Nos Jogos Olímpicos, após a medalha de prata de 1988, perdida para os russos, duas vezes não se classificou e em três ocasiões foi alijada da luta antes da hora.

Em termos práticos, no entanto, a verdade é que para ser campeão em competições curtas e intensas, como a Copa e a Olimpíada, basta jogar bem – ou melhor, vencer – duas ou três partidas importantes, como sempre observou o técnico Carlos Alberto Parreira. O treinador Mano Menezes adota mais ou menos esse pragmatismo. “Não é porque você esteja sendo dominado que deve perder”, ele afirmou após a vitória de 3 a 0 contra a Coreia do Sul em Manchester. “É o que sempre digo para os jogadores.”

A questão é que em Londres o Brasil terá pela frente o México, que vem preparando sua equipe para os Jogos Olímpicos desde o Pan-Americano do ano passado. Não é um simples participante, ao contrário dos nossos cinco adversários anteriores. Trata-se de um rival respeitável. O sábado promete grandes emoções. Vamos torcer juntos.

16/07/2012

às 9:40 \ Diário Olímpico

O que restou dos Jogos de 1948

Em uma movimentada avenida de Harringay, zona norte de Londres, há um centro de compras chamado Arena Shopping Park. Por muitas vezes passei em frente ao local, que abriga uma grande unidade do supermercado Sainsbury’s, lojas de roupas, móveis e eletrônicos. Só depois de muito tempo descobri que ali ficava a Harringay Arena, onde a seleção brasileira de basquete conquistou o bronze nos Jogos Olímpicos de 1948.

Londres é uma cidade que preserva seu passado como poucas, em que edifícios modernos convivem com construções erguidas há seculos. Mas quando pouco restou das instalações esportivas para contar a história dos “Jogos da Austeridade”, os primeiros após a Segunda Guerra Mundial. Assim como a Harringay Arena, boa parte dos locais de competições já não existe.

A começar pelo estádio que recebeu a cerimônia de abertura e encerramento, as competições de atletismo, futebol, hóquei sobre a grama e hipismo. Londres havia construído o estádio de White City na primeira vez em que sediou os Jogos Olímpicos, em 1908, mas 40 anos depois ele já estava obsoleto e abandonado. A solução para 1948 foi adaptar o Empire Stadium, mais conhecido como Wembley, que havia sido construído em 1924. Anos mais tarde, o estádio entraria para a história como o local em que a Inglaterra conquistou sua primeira e única Copa do Mundo.

Mas os ingleses demonstraram um desapego incomum ao decidir demolir o antigo estádio para dar lugar ao Novo Wembley, inaugurado em 2007. O estádio em nada lembra seu predecessor (foto acima), mas pode-se dizer que será uma das poucas sedes dos Jogos de 2012 que também sediaram eventos em 1948 – receberá alguns jogos do torneio de futebol, inclusive as finais.

A largada e a chegada da maratona de 1948 também aconteceram em Wembley, mas o percurso em nada lembra o da edição atual. Em 2012, o comitê organizador escolheu um roteiro que contempla marcas icônicas do centro da cidade, como o Big Ben e a catedral St. Paul’s – um percurso pela zona leste da cidade, onde está o Estádio Olímpico, seria menos fotogênico. Em 1948, ocorreu o contrário: a organização evitou o centro da cidade, severamente bombardeado durante a Segunda Guerra. Os atletas correram pelos subúrbios da região noroeste da capital.

Ao lado do estádio está a Wembley Arena, que também passou por uma reforma completa e foi reaberta em 2006. Neste ano, o local sediará as competições de badminton e ginástica rítmica. Em 1948, recebeu natação – pela primeira vez disputada em uma arena coberta -, saltos ornamentais, pólo aquático e boxe. Outro local que receberá pela segunda vez os Jogos é o centro de exposições de Earls Court, onde será disputado o vôlei. Em 1948, o local sediou competições de boxes, ginástica, lutas e levantamento de peso.

Mas a lista para por aí. Alguns dos estádios que receberam jogos de futebol há 64 anos ainda estão na ativa, como White Hart Lane, do Tottenham, Craven Cottage, do Fulham ou Selhurst Park, do Crystal Palace – mas nenhum deses receberá partidas neste ano. O estádio de Highbury, do Arsenal, deu lugar a um condomínio residencial, embora a fachada tenha sido preservada.

Se em 2012 discute-se exaustivamente que uso terão os locais de competição após os Jogos, em 1948 o tema estava longe de estar em pauta - até porque eles não foram construídos para os Jogos Olímpicos, e sim adaptados para recebê-los em uma época de escassez de recursos. A grande exceção em termos de legado é o velódromo de Herne Hill, no sul de Londres, que ainda está em uso.

Apesar do momento de recessão enfrentado pelo Reino Unido, o país desta vez teve tempo e recursos para planejar os Jogos e o destino de seus locais de competição. Mas por mais cuidadoso que tenha sido o planejamento, é um exercício extremamente difícil prever o que restará para contar a história dos Jogos Olímpicos daqui a 64 anos.

06/07/2012

às 3:47 \ Diário Olímpico, Guia de viagem

Guia de viagem: Wembley

Para quem é fã de futebol, Londres é uma cidade única em termos de opções para assistir a partidas. Na próxima temporada da Premier League, Londres será representada por nada menos que seis clubes – Arsenal, Chelsea, Fulham, Queens Park Rangers, Tottenham e West Ham. A segunda divisão terá Charlton Athletic, Crystal Palace e Millwall. A terceira, Brentford e Leyton Orient.

A lista poderia seguir pelas demais divisões do futebol inglês – são cerca de 40 clubes nas oito primeiras. As opções não são muitas apenas em quantidade, mas também na diversidade do tipo de experiência que oferecem. Pode-se assistir a uma partida no Emirates Stadium, do Arsenal, um dos estádios mais modernos do mundo, ou em Brisbane Road, a acanhada casa do Leyton Orient.

Quem pretende visitar a cidade durante os Jogos Olímpicos não terá a oportunidade de assistir a partidas dos clubes locais, que só voltarão das férias em agosto. Nesse intervalo, porém, é possível fazer visitas guiadas à maioria dos estádios. Neste verão, por exemplo, o tour de Stamford Bridge é uma boa opção para quem quiser ver de perto a taça da Liga dos Campeões, conquistada recentemente pelo Chelsea.

Mas se você tiver que escolher um estádio para visitar em Londres, não pense duas vezes antes de optar por Wembley. Inaugurado em 2007, o estádio nada tem a ver com o original, demolido em 2003. O antigo Wembley havia sido construído em 1924 e foi sede de momentos históricos do esporte, como a Olimpíada de 1948 e a final da Copa do Mundo de 1966, vencida pela Inglaterra.

O novo Wembley impressiona não apenas pelo seu tamanho, mas pelo conforto com que abriga 90000 pessoas. O estádio também conta com requintes tecnológicos, como o teto retrátil que se desloca para permitir maior incidência da luz do sol sobre o gramado. O que não significa que a construção de Wembley não tenha tido seus contratempos – como atraso nas obras e estouro de orçamento.

Casa da seleção inglesa e sede de algumas finais de campeonatos de futebol e rugby, Wembley estará fechado para visitas entre 21 de julho e 14 de agosto para receber o torneio de futebol olímpico. Quem chegar à cidade um pouco antes dos Jogos ou estender sua visita pode conhecer o estádio de pontos de vista diferentes, como o vestiário, a sala de imprensa e o camarote real. Mas ainda há a opção de conhecer Wembley por uma perspectiva mais convencional: o torneio de futebol é um dos raros eventos olímpicos para o qual ainda há ingressos disponíveis.

Visita guiada a Wembley
Horários: 10h à 16h, de hora em hora.
Ingressos:
Adultos: £16
Menores de 16 e maiores de 60 anos: £9
Crianças menores de 5 anos: gratuito

18/11/2011

às 15:19 \ Diário Olímpico

A Olimpíada sem carro

No último sábado estive em Wembley, para assistir ao amistoso entre Inglaterra e Espanha. Foi um dia de casa cheia, com um público total de 87.189 pessoas. Tentei me lembrar da última vez em que estive em uma partida de futebol no Brasil com um público semelhante – talvez tenha sido no Mineirão, no início da década passada.

Minhas lembranças se dividem entre a atmosfera única que um público deste porte proporciona no interior do estádio e o caos provocado nos seus arredores. Era preciso sair de casa com muita antecedência e esquecer a perspectiva de regressar cedo. Normalmente levava-se mais tempo no trânsito que no estádio.

A cena que mais me impressionou no sábado foi o momento da saída. A rua que liga Wembley à estação de metrô Wembley Park – uma das duas que atendem ao estádio – estava completamente tomada pelos espectadores da partida, cuja imensa maioria utilizou transporte público para chegar ao estádio.

Todos caminhavam a passos lentos rumo à entrada da estação, onde alguns policiais controlavam a entrada para evitar tumultos. Em cerca de 20 minutos eu já estava dentro do metrô, a caminho de casa. Tentei imaginar o choque cultural que as pessoas ao meu redor sofreriam se confrontadas com a ideia de pagar 20, 30 reais a um guardador de carro.

O transporte público de Londres nem sempre é exemplo de organização, mas utilizar o carro na cidade é sinônimo de dor de cabeça. A começar pela congestion charge – um pedágio de 10 libras (aproximadamente 28 reais) para circular de segunda à sexta, das 7h às 18h na zona central da cidade. Estacionar também é um problema: quem encontrar uma vaga na rua pode ter que desembolsar até 4 libras (11 reais) por hora. Londres faz de tudo para que seus cidadãos deixem o carro em casa.

Durante as Olimpíadas, não poderia diferente. Para evitar um colapso no trânsito e alinhar os Jogos com o crescente apelo de sustentabilidade, Londres quer fazer em 2012 uma Olimpíada sem carro. Além de investir 6,5 bilhões de libras em melhorias no sistema de transporte, especialmente o acesso ao Parque Olímpico, a cidade pretende multar os motoristas que estacionarem nas vias que levam aos locais de competição.

A princípio, as multas seriam de 100 libras (280 reais) para quem fizer o pagamento no momento da autuação a até 500 libras (1400 reais) para quem tiver o veículo removido. Mas a prefeitura já considera a possibilidade de aumentar os valores, para que grupos de amigos não sucumbam à tentação de arcar com a multa e dividir o valor entre si.

08/11/2011

às 7:00 \ Diário Olímpico

Segurança, uma paixão nacional

Primeiro-ministro David Cameron encontra-se com jovens aprendizes no Parque Olímpico

Eles estão em toda a parte: são usados por operários, policiais, bombeiros, socorristas, funcionários do metrô, motoristas, motociclistas, ciclistas, corredores… Basta uma volta pelas ruas de Londres para se perder a conta do número de coletes e jaquetas fluorescentes que se veem. Ontem mesmo avistei um grupo de crianças que passeavam por um parque, guiadas por seus professores – todas vestidas com seus coletinhos marca-texto.

Recentemente, o colunista Jon Kelly, do site da BBC, afirmou que as roupas de alta-visibilidade “simbolizam o Reino Unido dos anos 2010 do mesmo modo como as minissaias resumiam os anos 1960”. Se do ponto de vista estético elas não são das mais atraentes, certamente o são do ponto de vista da segurança – como ciclista, eu mesmo me rendi à moda.

Segurança é uma espécie de obsessão nacional que permeia a vida cotidiana britânica. Estima-se, por exemplo, que o Reino Unido tenha 1,85 milhões de câmeras de vigilância – uma para cada 32 habitantes. Portas corta-fogo, cobertores anti-fogo em cada cozinha, testes semanais de alarmes de incêndio são outros detalhes corriqueiros que revelam o excesso de zelo dos londrinos, parte deles justificados pelo trauma de dois grandes incêndios sofridos pela cidade ao longo da história.

Mas quando se tratam de eventos, tenho a impressão de que as buscas são menos ostensivas que no Brasil. No último sábado, estive em Wembley em um evento de rúgbi league. Após passar pelo controle de ingressos, instintivamente abri a jaqueta, tirei carteira e celular dos bolsos e caminhei rumo ao policial que aguardava de pé alguns metros à frente. Confuso, ele sorriu e fez sinal para que eu seguisse em frente. Sua função era revistar somente mochilas.

Semanas antes, em uma partida do Chelsea no estádio Stamford Bridge, o policial pediu apenas que eu colocasse a bolsa no chão e deixou o trabalho por conta de um cão farejador. Não houve outro tipo de revista.

Durante as Olimpíadas, no entanto, pode-se esperar um sistema de segurança bem mais rigoroso. O temor de atentados terroristas, especialmente após os ataques de julho de 2005, deve resultar em mais critério nas buscas durante os Jogos. O comitê organizador já tem recomendado aos visitantes que cheguem às instalações olímpicas com bastante antecedência e levem em conta o tempo gasto controles semelhantes aos de aeroportos, como equipamentos de raio-X e detectores de metais. Ao todo, deverão ser mais de 20.000 agentes de segurança, incluindo voluntários e até membros das forças armadas.

Na Copa do Mundo de 2010, na África do Sul, os equipamentos de raio-X e os milhares de agentes também estavam lá, mas muitas vezes os próprios seguranças quebravam o protocolo e abriam mão de fazer qualquer tipo de busca. Felizmente não houve nenhum tipo de incidente, mas ficou a impressão de fragilidade do sistema.

Na Olimpíada de 2012, em um país tão obcecado por segurança, o controle certamente não será apenas para inglês ver.

07/11/2011

às 6:35 \ Diário Olímpico

Templo multiuso

Chicago Bears x Tampa Bay Bucaneers, disputado em outubro em Wembley (REUTERS/Suzanne Plunkett)

A primeira vez em que fui ao Maracanã foi um pouco decepcionante. Era um Flamengo x Fluminense de uma das primeiras rodadas do Brasileirão, sem grandes ambições para as equipes – mais ainda assim um Fla-Flu. A partida terminou empatada em 0 x 0, mas a decepção maior não foi pelo placar, e sim pelo grande número de cadeiras vazias.

Por isso levei um susto quando o público presente foi anunciado pelo sistema de som: 44.321 presentes. Em qualquer outro estádio brasileiro, já seria o suficiente para se ter a sensação de casa cheia.

Ontem tive a mesma impressão ao pisar pela primeira vez em Wembley. Como amante do futebol, senti-me um herege pelo fato de meu primeiro encontro com um dos maiores templos do futebol, palco da final da Copa do Mundo de 1966, ter sido em uma partida de… rúgbi league (a versão menos popular do esporte, com regras diferentes do rúgbi union). Era a segunda rodada do Gillette Four Nations, torneio disputado entre Inglaterra, Austrália, Nova Zelândia e País de Gales.

O estádio dava a impressão de estar às moscas, o anel superior completamente vazio. Público total: 42.344 pessoas. É o preço que se paga por ser um gigante de 90.000 assentos.

Mas a experiência de se estar em um lugar tão grandioso para a história do esporte supera qualquer expectativa frustrada de público. Não à toa, o estádio recebe mais de 2 milhões de visitantes todos os anos. Totalmente reconstruído e reinaugurado em 2007, é o estádio mais caro do planeta, com um custo total de 798 milhões de libras (2,1 bilhão de reais). Houve atrasos na conclusão e estouro de orçamento, mas apenas 41 milhões de libras do total investido foram verbas públicas.

Apesar de sua importância, Wembley tem baixa freqüência de eventos esportivos, se comparado a outros estádios: recebe apenas os jogos da seleção inglesa, finais de torneios como a FA Cup e eventos especiais – como o torneio de rúgbi league disputado ontem. Para tornar o estádio lucrativo (o que só deve acontecer de fato em 2014), a empresa criada para administrá-lo aposta no conceito de arena multiuso, oferecendo espaços para shows, exposições, lançamentos de produtos e até casamentos.

Em julho deste ano, a banda Take That se apresentou por oito noites seguidas no estádio, totalizando um público de mais de 600.000 pessoas. No dia 23 de outubro, o estádio recebeu uma partida da NFL (Liga Nacional de Futebol Americano), entre Chicago Bears e Tampa Bay Buccaneers. Mesmo na terra que inventou o “soccer”, o futebol americano fez um enorme sucesso, com um público de 76.981 pessoas. Até 2016, ao menos uma partida da NFL será disputada por ano em Wembley. Na Olimpíada 2012, o estádio será o palco de nove partidas dos torneios de futebol masculino e feminino – inclusive as finais.

É inevitável a comparação com o Maracanã, que têm o mesmo status mítico e passa por uma reforma quase tão radical – e cara – quanto Wembley. Se por um lado o estádio carioca já largou atrás por ser reformado inteiramente com dinheiro público, por outro leva a vantagem de contar desde já com os jogos de Flamengo e Fluminense para torná-lo lucrativo. Resta a quem administrar o novo estádio inspirar-se no templo inglês para diversificar suas receitas. Mesmo que para isso às vezes seja necessário usar um gol de formato meio esquisito ou uma bola oval.

 

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