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tiffany porter

12/03/2012

às 16:14 \ Diário Olímpico

Os “britânicos de plástico”

Uma das primeiras coisas que notei nos supermercados do Reino Unido foi uma inscrição recorrente nas embalagens de alguns produtos: “100% British”.

Chamou-me atenção por dois motivos. Primeiro, pela comparação com o Brasil, onde  a lógica é oposta - quando se quer atestar a qualidade de um produto, trata-se de destacar que é importado. Segundo, pelo fato de que ser 100% britânico nem sempre é sinônimo de qualidade. Às vezes daria tudo para encontrar por aqui uma carne 100% brasileira ou argentina.

Lembrei-me das gôndolas de supermercados ao acompanhar a polêmica que tem tomado conta do noticiário local sobre as Olimpíadas: os “Plastic Brits” (britânicos de plástico). O termo pra lá de pejorativo é usado para descrever os atletas nascidos em outros países que irão representar a Grã Bretanha nas Olimpíadas. Cerca de 50 dos 550 atletas ingleses nasceram foram do Reino Unido.

O ápice da polêmica aconteceu antes do Mundial de Atletismo Indoor, em Istambul, quando o treinador da equipe britânica – o holandês Charles van Comennee – anunciou que Tiffany Porter seria a capitã. Especialista nos 100 metros com barreiras, Porter nasceu nos Estados Unidos, filha de pai nigeriano e mãe inglesa. Chegou a competir pelos Estados Unidos, mas em 2010 decidiu representar o Reino Unido.

Na entrevista coletiva, um repórter do Daily Mail (segundo maior jornal britânico em circulação, com cerca de 2 milhões de cópias diárias) perguntou a Porter se ela saberia cantar “God Save the Queen”, o hino nacional britânico.

A pergunta causou constrangimento geral (veja o vídeo abaixo). “Eu sei o primeiro verso. Eu sei todo o ‘God Save the Queen’, mas não sou conhecida por minha habilidade para cantar”. Diante da insitência do repórter, Porter limitou-se a dizer que achava desnecessário. Van Comennee saiu em sua defesa. “Escolho o capitão por sua capacidade de liderança e habilidade como atleta, e não para memorizar letras ou cantar”.

A partir de então, o Daily Mail iniciou uma verdadeira cruzada contra os “britânicos de plástico”, acusando-os de oportunismo. O ministro britânico para a Olimpíada, Hugh Robertson, entrou na discussão de forma um tanto atrapalhada, ao dizer que os atletas deveriam saber cantar o hino, especialmente os que têm expectativa de ganhar alguma medalha.

Não deixa de ser irônico que a polêmica aconteça em Londres, cidade que é conhecida justamente por seu caráter cosmopolita, por ser uma espécie de esquina do mundo. Desde que o processo de naturalização seja criterioso, discutir quem são os britânicos verdadeiros ou “de plástico” – e usar o hino nacional como parâmetro – beira o insólito.

É também sintomático o fato de Porter ter se tornado o estopim da polêmica não por ter decidido defender o Reino Unido, mas apenas quando foi alçada à posição de capitã.

De Istambul, Porter trouxe uma medalha de prata nos 60 metros com barreiras. Outros quatro atletas nascidos fora do Reino Unido voltaram com medalhas – duas de ouro, uma de prata e outra de bronze. Todas 100% britânicas.

 

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