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olimpíada

05/08/2012

às 7:36 \ Um Conto de Duas Cidades

A perfeição está nos detalhes

Atletismo no Estádio Olímpico (Foto: Getty Images)

As atletas do heptatlo cumprem a etapa do salto em distância, quando o telão anuncia a primeira bateria dos 400m rasos. Na outra extremidade do estádio, as atletas do salto com vara participavam das eliminatórias. Depois dos 400 metros, é a vez dos 3.000 metros com obstáculos. Em seguida, chega a hora das eliminatórias dos 100 metros rasos, que acontecem ao mesmo tempo das provas do lançamento do dardo.

Em minha primeira experiência no Estádio Olímpico, tive a sorte de ver nomes como Usain Bolt, Yelena Isinbayeva, Jessica Ennis e Oscar Pistorius. Mas o que mais me chamou atenção não foi o desempenho dos atletas, e sim o das pessoas envolvidas na organização. A TV apresenta ao telespectador as estrelas do espetáculo, mas só quem assiste do estádio consegue ter a dimensão da infinidade de detalhes que envolvem o evento.

As competições de atletismo são a metáfora perfeita da complexidade de se organizar os Jogos Olímpicos. Nesse ponto, a Copa do Mundo parece algo infinitamente mais fácil de se realizar, apesar das múltiplas sedes. São tantas as funções que precisam ser desempenhadas ao mesmo tempo que parece um milagre que tudo dê certo.

Ou melhor, quase tudo. O mal estar gerado pela troca da bandeira da Coreia do Norte pela da Coreia do Sul, antes mesmo da abertura dos Jogos, foi um episódio embaraçoso para Londres 2012. Fica a lição para o Rio 2016: a de que receber os Jogos significa dedicar atenção a inúmeros detalhes – e de que um único descuido pode colocar tudo a perder.

01/08/2012

às 17:43 \ O Brasileiro do Dia

O fator Marta

Na terça-feira, o Brasil foi engolido pela Grã-Bretanha no futebol feminino, em partida realizada no novo (porém não menos lendário) estádio de Wembley. O público de mais de 70.000 pessoas pesou a favor das donas da casa, que marcaram um gol nos primeiros instantes da partida – gol esse de autoria da meio-campista Stephanie Houghton, que está fazendo história nessa Olimpíada por ter marcado mais gols nesse torneio (três) do que em duas temporadas pelo seu clube (apenas dois). O Brasil simplesmente não conseguiu jogar contra a equipe britânica. A bola custava a chegar nos pés das jogadoras mais habilidosas da equipe: Marta e Cristiane. Quando sobrava algum espaço, Marta arriscava para fora da meta. Nossa camisa 10 deu sete chutes a gol, dos quais quatro foram para fora. “Eu tenho que admitir que errei alguns passes, também”, disse Marta depois da partida. É bem verdade que a equipe foi prejudicada por duas substituições forçadas, que tiraram parte do poder ofensivo das brasileiras.

Por causa desse tropeço, o Brasil não vai pegar o Canadá nas quartas-de-final, equipe teoricamente mais fraca. A seleção terá que enfrentar na próxima sexta as atuais campeãs do mundo, as japonesas – que se classificaram com alguns empates, é verdade, mas que possuem a melhor jogadora da atualidade, a meia Homare Sawa. Por isso, é a hora de nossa de nossa craque Marta aparecer. Ela diz não estar muito acostumada com a falta de espaços no gramado, o que a incomodou muito na partida de terça-feira. Mas nas grandes campanhas da seleção brasileira, tanto nos Jogos Olímpicos quanto nas Copas do Mundo, ela fez prevalecer seu talento. Foi assim, inclusive, que ela conquistou seus cinco prêmios de melhor jogadora da Fifa.

Um alento: ao passar pela japonesas, o Brasil escapará de um confronto direto com as americanas, históricas algozes da seleção feminina, logo na semifinal. Mas para isso, o Brasil precisa de Marta. E Marta precisa descobrir um meio de voltar à posição de protagonista que lhe era tão usual há alguns anos. No discurso de boleiro, sempre ouvimos a frase de que se aprende com as derrotas. Para o próprio bem do futebol feminino brasileiro, é bom que Marta aprenda o caminho sem marcação, para termos chance de pelo menos repetir as pratas de Atenas e Pequim.

28/07/2012

às 16:15 \ London Calling

God Save the Queen

Para comemorar o Jubileu de Diamante de Elizabeth II, a National Portrait Gallery, em Trafalgar Square, inaugurou uma exposição de retratos famosos da rainha nas seis décadas que se passaram desde sua coroação (nas imagens acima, algumas das obras do catálogo). Em meio às fotos e pinturas da mostra, há algumas frases célebres de Elizabeth – e, entre elas, está uma declaração que deixa confuso quem conhece apenas a face solene e pomposa da família real. “Não vamos nos levar tão a sério”, disse Sua Majestade em certa ocasião. Essa é uma marca do povo britânico, que adora o humor autodepreciativo. E a cerimônia de abertura dos Jogos de Londres, na sexta-feira, deu pistas de que a rainha – de 82 anos – tem o mesmo gosto que seus súditos. Foi a melhor cena da noite: num vídeo exibido pela TV e nos telões do Estádio Olímpico, Daniel Craig, o ator que interpreta James Bond no cinema, entra no Palácio de Buckingham para escoltar Elizabeth até a festa. Quando a própria rainha apareceu no clipe, cheio de referências bem-humoradas ao seu estilo de vida – como a permanente companhia dos cães da raça Corgis -, o público custou a acreditar que ela tinha topado fazer parte da brincadeira. O resto do esquete cômico, que termina com a rainha saltando de para-quedas no estádio, foi gravada por sósias e dublês, é claro. Mas só o fato de Elizabeth II ter concordado em participar da festa – mesmo que em um papel tão incomum – diz muito sobre ela.

Antes que a rainha chegasse à cerimônia, a trilha sonora do espetáculo preparado pelo diretor Danny Boyle incluiu God Save the Queen – não o hino britânico, mas sim o controverso hit punk de 1977, que diz que Elizabeth “não é um ser humano”. Os Sex Pistols apareceram mais uma vez no repertório da noite, com Pretty Vacant – e já com a tribuna real ocupada. Ninguém esperneou, não houve proibições tolas, não se cogitou censurar o roteiro. A rainha – que sorriu, acenou, aplaudiu e, num breve pronunciamento, fez a abertura oficial dos Jogos – foi calorosamente recebida. E nem ligou para a música barulhenta que ajudou a embalar a solenidade. No dia seguinte, logo pela manhã, no melhor espírito olímpico, foi ao Centro Aquático, caminhou pela Vila dos atletas e, no meio do caminho, parou para comentar sua ponta na abertura. “Fiquei encantada por ter sido convidada a me envolver em algo tão excepcional”, afirmou, com a classe incomparável de quem encabeça a monarquia mais tradicional da Europa. Nos próximos dias, Elizabeth II deverá permanecer distante das pistas, piscinas, ginásios e estádios. A família real será representada por alguns torcedores ilustríssimos – como o príncipe Charles, que acompanhará o badminton e o ciclismo, o príncipe William, que torcerá pelo futebol, Kate Middleton, com presença garantida no hóquei, e o príncipe Harry, ansioso para admirar os biquínis das jogadoras do vôlei de praia. Todos eles, no entanto, serão só coadjuvantes – principalmente depois da breve mas inesquecível aparição da verdadeira dona da festa britânica.

 

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God Save the Queen – Sex Pistols, Never Mind the Bollocks, Here’s the Sex Pistols (1977)

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27/07/2012

às 11:12 \ London Calling

Who Are You?

É a pergunta de um milhão de dólares (ou, no caso, um milhão de libras) a cada contagem regressiva para a cerimônia de abertura da Olimpíada: quem será o escolhido para acender a pira no clímax da festa? Para um país como a Grã-Bretanha, com belo passado esportivo e muitas figuras notáveis, a eleição do homenageado fica ainda mais complicada. Só a cúpula do Comitê Organizador já conhece a resposta – e acredita-se que nem mesmo o escolhido tenha sido avisado até esta sexta-feira. Entre os cotados estão os maiores astros olímpicos do país sede, esportistas lendários de outros países e alternativas mais surpreendentes, como um atleta novato ou até um truque tecnológico. Na primeira categoria, o favorito é o remador Steve Redgrave, que ganhou cinco ouros consecutivos em Olimpíadas entre 1984 e 2000. Redgrave é o nome preferido nas casas de apostas de Londres. Daley Thompson, que tem dois ouros no decatlo, também está na lista, assim como os ex-corredores Roger Bannister e Kelly Holmes e a ex-saltadora Dorothy Tyler, 92 anos, dona de duas medalhas olímpicas – a última delas, conquistada em Londres-1948. Entre os atletas britânicos do presente, há candidatos como o ciclista Bradley Wiggins, campeão da Volta da França, e Tom Daley, de 18 anos, astro dos saltos ornamentais e xodó do torcedor local. A presença do ex-boxeador Muhammad Ali em Londres fez seu nome ser lembrado, assim como o de David Beckham. Existe até um rumor sobre a possibilidade de a pira ser acesa pelo príncipe William, que é embaixador do Comitê Olímpico Britânico. Seria, porém, uma escolha altamente controversa, já que William não é exatamente um grande atleta. Uma hipótese que ganhou força nos últimos dias foi a escolha de cinco pessoas que, juntas, levariam a chama olímpica, representando os cinco anéis olímpicos e os cinco continentes. Seja como for, será essa a imagem que rodará o mundo a partir desta sexta, quando os Jogos de Londres começam para valer.

 

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Who Are You? – The Who, Who Are You? (1978)

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26/07/2012

às 16:42 \ Torre de Londres

Nossa grande chance

O Brasil está diante de uma oportunidade única em sua história esportiva. Quase todo país que entra em uma Olimpíada na condição de organizador dos Jogos seguintes pode voar para subir vários degraus no ranking internacional.

Isso vale em primeiro lugar nas competições de alto rendimento, refletindo-se no número de medalhas a serem conquistadas. Vale, da mesma forma, o que é ainda mais importante do que os simples resultados, para a arrancada na massificação das atividades físicas em uma nação tão sedentária que nem a nossa, em que a obesidade ameaça se tornar uma epidemia – mantido o ritmo atual, em poucos anos ela corre o risco de atingir 30% da população, segundo alguns estudos –, com todas as suas danosas consequências para a saúde, o bem-estar e a longevidade dos brasileiros. E vale para alavancar desde já, mas em especial a partir de 2016 com a realização no Rio de Janeiro deste que é o maior espetáculo da Terra, a participação popular, resultando na formação de público assistente e praticante de tantas modalidades hoje inexpressivas.

A possibilidade de ascensão no quadro de medalhas, em um impulso comparável aos saltos com vara de Fabiana Murer, é o mais fácil de comprovar. Basta ver o que aconteceu em tempos recentes com os países que souberam aproveitar sua chance. A Grécia, em 2004, e a China, em 2008, é verdade, não são bons exemplos. Uma por não ter se destacado nem à sombra do Partenon, a outra, campeã de medalhas em Pequim (51 ouros, à frente dos Estados Unidos), pelo gigantismo de outra escala.

Recapitulemos rapidamente, porém, o que aconteceu com a Coreia do Sul, a Espanha e a Austrália. Em 1984, nos Jogos de Los Angeles, a Coreia do Sul – que estava então na mesma situação que a nossa, pois seria a próxima anfitriã– ganhou seis medalhas de ouro. Dobrou esse número em casa e o manteve em 1992. Há quatro anos, alcançou treze. A Espanha pulou de um mísero ouro em 1988 para treze em 1992, na cidade de Barcelona. Não manteve o ritmo, embora voltasse da China com cinco. A Austrália, poderosa há décadas em modalidades como a natação, foi muito além e destacou-se como uma potência tanto em Sydney quanto em Atenas ao terminar as duas competições em quarto lugar na classificação geral, atrás apenas dos EUA, Rússia e China.

Esses três países estão, nos dias que correm, em um patamar esportivo muito mais elevado do que se encontravam antes de realizarem os respectivos Jogos. Mesmo com todos os seus atuais problemas econômicos, os espanhóis também souberam construir uma herança olímpica. A bela capital da Catalunha, para citar somente um número vistoso na área que é uma óbvia vocação do Rio, recebia antes de 1992 pouco menos de 2 milhões de turistas por ano. Em 2011, acolheu 7,4 milhões. Londres, nos seus preparativos, recuperou áreas deterioradas que, em determinados aspectos, até lembravam certos cenários de pobreza descritos nos romances do escritor inglês Charles Dickens, cujo segundo centenário de nascimento é celebrado este ano.

Há grandes esperanças, para citar novamente o autor de Um Conto de Duas Cidades – com a licença dos colegas de cobertura Fábio Altman e Jonas Oliveira. Mas é preciso aproveitar agora um momento que não irá se repetir. Ou como o próprio Dickens escreveu, antecipando em pelo menos um século a onda de auto-ajuda: “Meu conselho é nunca fazer amanhã o que você pode fazer hoje”.

14/05/2012

às 5:25 \ Diário Olímpico

O Big Brother se reforça para a Olimpíada

Quantas vezes você é filmado todos os dias? Elevadores, ruas, lojas, bancos, condomínios, empresas, rodovias – nada parece estar imune às câmeras de vigilância. É inevitável lembrar-se do escritor britânico George Orwell e seu romance 1984, em que o líder totalitário Big Brother assiste a tudo de maneira onipresente.

Ao publicar o livro em 1949, Orwell talvez não imaginasse que o Reino Unido se tornaria o país mais vigiado do mundo. Em 1999, o professor Clive Norris, da Universidade de Sheffield, publicou uma estimativa de que o país contava com 4,2 milhões de câmeras de vigilância – todos os dias, cada cidadão britânico seria filmado em média 300 vezes.

O número é controverso e já foi bastante contestado, mas as autoridades britânicas admitem que é difícil precisar quantas câmeras há no país. Não sei dizer se sou filmado 300 vezes por dia, mas sempre que vou ao mercadinho da esquina me pergunto o que teria levado à instalação de 12 câmeras de segurança em um espaço tão pequeno. Durante a maior parte do dia, há mais câmeras que clientes no local.

Nem a faixa de pedestres da Abbey Road, imortalizada na capa do álbum homônimo dos Beatles, está imune à vigilância das câmeras. Pelo site dos estúdios de Abbey Road é possível assistir a imagens da travessia feitas por uma webcam. Compartilhar sua foto instantaneamente nas redes sociais parece obsoleto, quando seus amigos podem acompanhar em tempo real o momento em que ela é tirada.

Neste domingo, o site do jornal britânico Guardian publicou um vídeo que mostra o centro de controle de CCTV de Westminster, região central de Londres. Situado em uma sala subterrânea abaixo de Piccadilly Circus, o centro tem 47 telas que monitoram 120 câmeras espalhadas pelo centro da capital.

Com a proximidade dos Jogos Olímpicos, o sistema acaba de receber um investimento de 500000 libras (1,5 milhão de reais), e agora conta com equipamentos de alta-definição. A qualidade das imagens é impressionante, e permite identificar com precisão o rosto do repórter do Guardian em diferentes ângulos, durante um trajeto entre Oxford Street e Piccadilly Circus.

Segundo a reportagem, as câmeras não serão utilizadas apenas para evitar furtos e roubos ou identificar suspeitos de terrorismo. A pirataria também está na miras das lentes, que servirão para inibir a venda de produtos falsificados relacionados aos Jogos Olímpicos.

Há duas questões, porém. A primeira diz respeito à invasão de privacidade: que uso é feito dessas imagens? Quanto maior o número e a qualidade das imagens das câmeras, maior a sensação de que se está sendo vigiado durante todo o tempo, em situações que não necessariamente seriam de interesse público.

A segunda é sobre a relação custo-benefício das câmeras. Elas são de fato eficientes? A resposta não é muito otimista: não há dados que comprovem que a instalação de câmeras de TV no Reino Unido tenha diminuído as taxas de criminalidade no país. Um relatório interno da Metropolitan Police de 2009 admitiu que eram necessárias 1000 câmeras de segurança para ajudar a resolver um único crime.

Ao fim, os milhões investidos pelos britânicos na instalação de câmeras são o alto preço que se paga pela sensação de segurança – se é que alguém se sente mais seguro em um local onde é necessário tanta vigilância.

 

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