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legado

02/08/2012

às 17:47 \ Um Conto de Duas Cidades

O legado esportivo dos Jogos

Uma frase está estampada em toda parte nas instalações olímpicas de Londres 2012: “Inspire a generation”. Escolhido 100 dias antes do início dos Jogos, o slogan reflete uma das justificativas que o comitê organizador (LOCOG) utilizou para investir bilhões de libras no evento. Além de recuperar a região leste de Londres, os Jogos Olímpicos serviriam para inspirar os britânicos a praticarem mais esportes. As imagens de atletas conquistando medalhas levariam as crianças a querer imitá-los.

Não há nenhum estudo, porém, que comprove que receber os Jogos Olímpicos torne a população da cidade ou país sede mais fisicamente ativa. Em alguns casos, como Sideny 2000, registrou-se o contrário: a grande oferta de competições na TV faz com que a população troque atividades físicas por mais tempo no sofá de casa. Havia a expectativa que os Jogos ajudassem a tornar esportes como o handebol mais popular entre os australianos. O interesse, porém, acabou com o fim dos Jogos.

No caso de Londres 2012, o comitê organizador chegou a quantificar seu objetivo: tornar 2 milhões de britânicos mais ativos com a Olimpíada. Meses antes da abertura, porém, admitiu-se que a meta era demasiadamente ambiciosa. Ainda assim, chamou-me a atenção o discurso afinado de vários atletas com o slogan dos Jogos. Em entrevistas após suas competições, vários deles têm usado o discurso de que o mais importante é inspirar futuras gerações.

A quatro anos do início dos Jogos de 2016, é improvável que o Rio de Janeiro utilize o legado esportivo como justificativa para receber o evento. Até aqui, o desempenho dos atletas brasileiros em Londres não pode ser considerado muito diferente que o das últimas edições dos Jogos. A meta do COB de igualar as 15 medalhas de Pequim 2008 não será facilmente atingida, apesar do maior investimento que o esporte brasileiro tem recebido desde então. Por ora, nada indica que a performance brasileira em 2016 será espetacular.

18/04/2012

às 8:18 \ Diário Olímpico

A 100 dias dos Jogos, Londres lança slogan

Para marcar os 100 dias do início dos Jogos Olímpicos, o comitê organizador de Londres 2012 fez uma série de anúncios oficiais nesta quarta-feira. O mais importante deles foi o aguardado lançamento do slogan dos Jogos: “Inspire a generation” (Inspire uma geração).

O mote não é surpreendente e está alinhado com a proposta que levou Londres a vencer Paris na disputa para sediar os Jogos, em 2005. Desde a época de sua candidatura, a cidade deixava claro que seus maiores objetivos eram regenerar a zona leste da capital, onde foi construído o Parque Olímpico, e deixar um legado esportivo para o Reino Unido.

Se em 2005 o slogan seria coerente, hoje soa um pouco datado. A ideia de que os Jogos servirão para inspirar uma geração remete à meta de aumentar a participação dos britânicos em atividades esportivas. Recentemente, o próprio comitê organizador reconheceu que se tratava de um objetivo ambicioso demais, que não será atingido.

O fato é que a marca de 100 dias parece ser o sprint final de uma corrida para levar os Jogos Olímpicos de forma positiva ao dia a dia dos britânicos – e não apenas dos londrinos. Hoje, por exemplo, foram divulgados as 22 cidades do Reino Unido que receberão os “London 2012 Live Sites” – espaços com telões e arquibancadas para que os britânicos que não pretendem ir a Londres possam acompanhar os Jogos.

Também foi anunciado que, no dia da abertura dos Jogos, os Red Arrows (grupo acrobático da Royal Air Force) fará apresentações em Belfast, Cardiff, Edimburgo e Londres. E um conjunto de anéis olímpicos gigantes composto por 20000 violetas foi instalado em Kew Gardens, na região oeste de Londres (veja vídeo abaixo).

Os anéis poderão ser vistos por quem chegar a Londres pelo aeroporto de Heathrow. Desde, é claro, que se esteja sentado à janela – e que o quase sempre nublado clima londrino colabore.

09/04/2012

às 7:00 \ Diário Olímpico

O legado de Londres para os Jogos Olímpicos

Pouco antes de completar a marca de 100 dias para o início dos Jogos Olímpicos, Londres recebeu a visita do presidente do Comitê Olímpico Internacional (COI), Jacques Rogge. Na ocasião, o belga não poupou elogios à preparação da cidade, afirmando que Londres havia estabelecido um novo padrão em termos de legado para as futuras sedes olímpicas.

Londres de fato se diferencia das sedes anteriores ao colocar, desde a fase de candidatura, o legado para a cidade e o país no centro de sua proposta. Mas engana-se quem pensa que a Olimpíada é motivo de euforia entre os londrinos. Por ora, o tom é de preocupação com o caos que se tornará a cidade em agosto, por causa de um evento que poucos terão uma oportunidade de assistir de perto.

Os altos valores investidos pelo governo também são alvo de críticas por parte da imprensa britânica e pela população em geral. A maioria das obras foi concluída dentro do prazo e o orçamento de 9,3 bilhões de libras ainda está oficialmente mantido. Mas é preciso ter em conta que o valor anunciado em 2005 era de aproximadamente 3 bilhões de libras. No atual cenário de recessão, Londres provavelmente não se candidataria a sediar uma Olimpíada – e se o fizesse, teria pouquíssimo apoio popular.

A capital inglesa apoiou seu projeto em dois pilares: a regeneração da região leste da cidade e o aumento da prática de esportes entre os ingleses. O segundo pilar não demorou muito a ruir. O comitê organizador já admitiu que se tratava de uma meta muito ambiciosa, jamais alcançada. Sediar os Jogos Olímpicos pode atrair investimentos para o esporte de elite, mas nada garante que a população em geral se torne mais ativa por causa do evento.

O pilar do legado para a cidade é o que sustenta os elogios de Rogge. Ainda que os benefícios econômicos diretos para os moradores da região do Parque Olímpico sejam questionáveis, as melhorias de infraestrutura são de fato visíveis – principalmente no que diz respeito ao transporte na região leste da capital.

Para evitar que o Parque Olímpico tenha o mesmo destino de seus antecessores, Londres optou por reduzir a capacidade de parte das novas construções após os Jogos. O Centro Aquático, por exemplo, passará dos 17.500 assentos atuais para 2.500 após os Jogos. A Arena de Basquete será inteiramente desmontada e poderá ser aproveitada no Rio de Janeiro em 2016.

A grande pedra no sapato do comitê organizador é justamente a maior e mais simbólica das obras: o Estádio Olímpico. De aparência espartana, se comparado ao Ninho do Pássaro de Pequim, o estádio pode ter sua capacidade reduzida de 80.000 para 25.000 lugares após os Jogos. Mas até o momento não se sabe qual será o novo inquilino. O mais provável é que seja o West Ham, clube de futebol do leste londrino.

Para quem acompanha de perto a preparação de Londres, não é difícil apontar falhas, incoerências e mudanças no planejamento ao longo do caminho que tornaram o impacto positivo para a cidade menor que o prometido. Mas ainda que os Jogos não deixem o legado esperado para Londres, a cidade já deixou seu legado para os Jogos: a partir de agora, as futuras sedes não poderão relegar essa discussão a segundo plano.

23/12/2011

às 9:52 \ Diário Olímpico

Um balanço de Londres 2012

Às vésperas da chegada de 2012, Londres tem diversos motivos para comemorar em relação aos preparativos dos Jogos Olímpicos. As imagens aéreas divulgadas ontem pelo comitê organizador mostram um Parque Olímpico bem mais atraente que o das fotos anteriores, de julho deste ano. Ainda que pareça um enorme canteiro de obras na zona leste da capital, a imensa mancha de concreto aos poucos começa a ganhar os primeiros contornos verdes.

Segundo a organização, 90% das obras já estão concluídas, sendo que algumas já sediaram eventos-teste. O risco de que algo não fique pronto é praticamente zero; é improvável que algo não seja testado antes dos Jogos. Londres vem cumprindo seu cronograma de maneira invejável, ainda mais se comparado aos percalços da preparação do Brasil para 2014 e 2016.

Londres 2012 tem tudo para ser a melhor Olimpíada da história em termos de organização e tecnologia. Os Jogos já são um sucesso de público – o que frustrou milhares de pessoas que não conseguiram ingressos. Mas seguramente não será a Olimpíada mais espetacular de todos os tempos, especialmente quando se tem no retrovisor Pequim 2008. Basta comparar o modesto Estádio Olímpico londrino ao impressionante Ninho do Pássaro chinês. Também nisso, Londres merece aplausos. Em tempos de recessão, o mais sensato é fazer uma Olimpíada possível, condizente com a realidade do país.

Mas um dos maiores trunfos da Olimpíada de Londres aos poucos se mostra seu grande calcanhar de Aquiles. Todo o projeto foi feito para que a Olimpíada deixasse um legado para a cidade. O Parque Olímpico inevitavelmente levará algum desenvolvimento à região leste da capital – embora até o momento se resuma à presença de um enorme shopping e de um leve aumento nos preços dos imóveis.

Mas até hoje o comitê não conseguiu definir quem usará o estádio após os Jogos. O West Ham, clube de futebol da região esteve próximo de um acordo, mas todo o processo voltou ao zero após ameaças de processos na justiça por parte de outros clubes. O futuro do estádio virou até caso de polícia, com a prisão de suspeitos de espionagem. A escolha de Londres para sediar o Mundial de Atletismo em 2017 garantiu um evento a mais no estádio e deu fôlego ao comitê.

O aumento de alguns custos também pressionou o orçamento, que por ora permanece em 9,2 bilhões de libras. O comitê teve o mérito de cortar custos anteriormente e deixar uma margem para despesas de contingência, mas a opinião pública tem sido implacável com alguns gastos – como o acréscimo de 41 milhões de libras apenas para a cerimônia de abertura, ou o erro inicial no cálculo do número de seguranças.

As melhorias no transporte londrino são de fazer inveja a qualquer cidade brasileira. A estação de Stratford, ao lado do Parque Olímpico, tornou-se um grande hub de transporte público. O aeroporto de Heathrow, por exemplo, terá um terminal provisório exclusivamente no dia após a cerimônia de encerramento. Mas ainda assim, os londrinos estão especialmente pessimistas em relação ao caos que a cidade se tornará durante os Jogos. E eles têm lá sua razão: apesar de eficiente, o sistema de transporte é mesmo sobrecarregado nos horários de pico. Nada que se compare à estação da Sé, em São Paulo, mas esta jamais deveria servir de parâmetro.

Os londrinos se dividem entre a expectativa de organizar os melhores Jogos da história e o temor de que se gaste dinheiro demais. Entre a ansiedade de receber os maiores atletas do mundo e a frustração de não poder vê-los ao vivo. Entre a satisfação de ver melhorias no transporte público e o medo de que a cidade se torne um verdadeiro caos no próximo ano.

Para quem acompanha do Brasil, tudo parece perfeito. A grama do Parque Olímpico vizinho é sempre mais verdinha.

13/12/2011

às 8:21 \ Diário Olímpico

Um final feliz para o centro de imprensa


Uma das construções que mais chama a atenção no Parque Olímpico é o centro internacional de imprensa. Concluído desde julho deste ano, ele não tem uma arquitetura especialmente atraente, mas impressiona pelo tamanho: são 275 metros de comprimento e cerca de 87.000 de área construída. Em 2012, ele deverá receber mais de 20.000 profissionais de imprensa.

Mas o comitê de legado dos Jogos não teve muito tempo para comemorar a conclusão da obra. A princípio, tudo estava encaminhado para que a BBC ocupasse os dois edifícios que compõe o centro. A novela Eastenders, exibida desde 1985, trocaria os estúdios de Elstree pelo Parque Olímpico – que por sinal tem o mesmo código postal do bairro fictício onde se passa a trama, E20. Mas em setembro a emissora anunciou a desistência de ocupar o edifício, lançando uma sombra sobre o cada vez mais contestado plano de legado dos Jogos.

Na última semana, porém, o comitê de Londres 2012 anunciou ter recebido propostas de 10 empresas dispostas a ocupar o centro de imprensa após os Jogos. A tendência é que centro se torne um parque tecnológico ou um pólo de moda, mas há propostas para transformá-lo até em estação de ski indoor. O comitê prometeu anunciar em janeiro a lista final dos pretendentes dispostos a dar um final feliz a esta novela.

06/12/2011

às 15:54 \ Diário Olímpico

Que legado se espera de uma Olimpíada?

Que tipo de legado uma cidade deve esperar de um grande evento esportivo? Essa é uma discussão primordial, que deveria ser anterior à decisão de candidatar-se a sede de uma Copa do Mundo ou Olimpíada. Sem saber aonde se quer chegar, não se chega a lugar algum.

À primeira vista, a preparação de Londres 2012 parece não sofrer deste mal. Todo o projeto olímpico está bem amarrado em torno da sustentabilidade, do legado esportivo e do desenvolvimento da região leste da cidade, onde estarão localizadas as principais instalações.

Nesta semana, porém, veio à público o fato de que o primeiro ministro britânico David Cameron ordenou que os gastos com as cerimônias de abertura e encerramento dos jogos fossem dobrados, saltando de 40 para 81 milhões de libras. A justificativa é que as cerimônias são oportunidades únicas de promover o Reino Unido mundo afora – como Pequim fez muito bem em 2008.

Os gastos com segurança também saltaram de 282 para 553 milhões de libras. Graças a alguns cortes na construção do Parque Olímpico, os gastos inesperados não tiveram reflexo no orçamento total, que ainda está mantido em 9,2 bilhões de libras.

No entanto, a medida não foi bem recebida pelos britânicos. No ano passado, o governo decidiu cortar cerca de 162 milhão de libras de um programa de incentivo à prática de esportes em escolas.

Cerimônias de abertura e encerramento certamente atrairão a atenção de todo o mundo para o Reino Unido. Mas investir na formação de novos atletas traria um legado esportivo mais duradouro e condizente com o que se espera de uma Olimpíada.

 

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