03/09/2012
às 9:47 \ Heróis ParalímpicosPistorius: herói olímpico, vilão paralímpico

Pistorius cumprimenta Fonteles no pódio, nesta segunda (Foto: AFP)
O velocista sul-africano Oscar Pistorius foi apenas um coadjuvante na disputa dos Jogos Olímpicos, mas poucas pessoas foram tão aplaudidas e festejadas na competição. Primeiro atleta com amputação dupla a disputar provas do atletismo olímpico, chegou a participar de uma final, no revezamento 4 x 400 metros, mas sempre dizia que os resultados obtidos no evento eram irrelevantes – o importante era realizar seu sonho de competir como um atleta comum, em igualdade de condições, apesar das críticas pelo uso de próteses supermodernas para substituir as pernas. Saiu da Olimpíada como herói. Na Paralimpíada, entretanto, o papel do sul-africano mudou de forma dramática. Grande astro dos Jogos, garoto-propaganda do esporte paralímpico e favoritíssimo à conquista de três medalhas de ouro em Londres, amargou a perda desses três títulos num intervalo de pouco mais de 20 segundos. A derrota surpreendente para o brasileiro Alan Fonteles nos 200 metros, na categoria T44, no domingo, encerrou a série invicta de Pistorius, que jamais havia sido vencido na prova. Mas ele tornou a situação ainda pior ao sair da pista, numa entrevista ao Channel 4, a rede britânica que exibe a Paralimpíada no país-sede. O velocista, que já havia reclamado do tamanho das próteses mais altas do brasileiro, não conseguiu esconder sua irritação, disse que a corrida não tinha sido justa e classificou a situação de “absolutamente ridícula”.
Na manhã desta segunda, assustado com a repercussão negativa de suas declarações, Pistorius divulgou um comunicado pedindo desculpas a Fonteles. Mas o sul-africano não recuou em seu questionamento, mostrando que seguirá contestando o resultado obtido pelo brasileiro. “Aquele era o momento do Alan e queria deixar registrado o respeito que tenho por ele. Eu gostaria de pedir desculpas pelo timing das minhas declarações, mas acredito que exista, sim, uma questão a ser discutida.” Apesar de reconhecer que errou ao colocar em dúvida a marca do brasileiro antes mesmo de sair da pista, Pistorius deu sinais claros de que insistirá no assunto – o que o próprio Comitê Paralímpico Internacional (CPI) confirmou, ao divulgar que seus dirigentes aceitaram se reunir com o sul-africano para ouvir suas queixas. O comitê já avisa, porém, que não há nada de errado com as próteses de Fonteles, indicando que não há chance alguma de alteração no resultado da prova. De acordo com o CPI, os atletas têm seus equipamentos checados antes das provas. “Todas as próteses estavam dentro do regulamento”, avisou, em nota oficial. O diretor de comunicações do comitê, Craig Spence, deu pistas de que Pistorius só será ouvido porque é o atleta mais famoso dos Jogos Paralímpicos, e não porque tem razão em suas críticas. ”O comitê respeita muito o papel que Oscar teve na projeção dos esportes paralímpicos desde que estreou nos Jogos, em 2004″, disse o representante do CPI. “Aceitamos ouvi-lo em uma data futura para que ele possa levantar suas preocupações longe da emoção da competição.”
Com a estratégia, o comitê dá tempo para que Pistorius esfrie a cabeça e recue em suas posições. É uma chance para o sul-africano dispensar o papel de mau perdedor e manter um pouco de seu prestígio como astro paralímpico. Quem conhece o velocista, contudo, acredita que Pistorius não deixará o assunto de lado, ainda que se transforme numa figura odiada por seus concorrentes. A situação do sul-africano é absolutamente bizarra. Ele passou anos reivindicando seu direito de disputar a Olimpíada, sempre garantindo que as próteses não davam uma vantagem injusta na competição com os atletas não-amputados. No caminho, inspirou milhares de outros atletas paralímpicos – incluindo Alan Fonteles, de 20 anos, que disse ter em Pistorius um amigo e um ídolo (desde a prova, o sul-africano vira a cara para o brasileiro, conta ele). O desempenho do brasileiro foi, de fato, surpreendente – ele recuperou uma prova quase perdida com uma aceleração impressionante na reta final. Lado a lado com Pistorius, Fonteles tinha mesmo próteses mais altas. Mas surpreende que Pistorius esteja fazendo com o concorrente justamente o que fizeram com ele durante tantos anos. Fonteles teve as pernas amputadas em função de uma infecção, quando tinha apenas 21 dias de vida. Pistorius sofreu a amputação dupla aos 11 meses. Transformado em símbolo da superação dos portadores de deficiência no esporte, o sul-africano está, mais que nunca, sob os holofotes. Terá outros dois duelos contra Fonteles, nos 100 metros e nos 400 metros, em que decidirá como será visto pelo mundo – tanto pelo que fizer na pista como fora dela.

Fonteles supera Pistorius: final surpreendente em Londres (Foto: AFP)
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