Blogs e Colunistas

coi

22/09/2012

às 16:40 \ Ponte Aérea Londres-Rio

Tamanho não é documento

A Vila do Pan, na Zona Oeste do Rio, em março de 2012 (Foto: Alessandro Costa/Agência O Dia)

A Vila do Pan, na Zona Oeste do Rio, em março de 2012 (Foto: Alessandro Costa/Agência O Dia)

A Vila Olímpica de Pequim, em 2008, tinha cerca de 660.000 metros quadrados. A de Londres, deste ano, era bem menor, com menos de 400.000 metros quadrados. Numa prova de que tamanho não é documento, as dimensões mais modestas dos Jogos de Londres agradaram mais aos atletas. “A gente andava menos para se deslocar dos apartamentos para o refeitório, a academia e o ponto dos ônibus que levavam às arenas. A vila de Pequim era mais luxuosa. Mas a de Londres era mais aconchegante e prática. Gostei muito”, avalia o judoca Leandro Guilheiro, bronze nos Jogos Olímpicos de Atenas (2004) e Pequim. “Em Londres, a gente chegava com muito mais rapidez de um ponto ao outro, foi bem melhor para os atletas”, diz o nadador Daniel Dias, que conquistou 15 medalhas, dez delas de ouro, nos Jogos Paralímpicos de Londres e Pequim.

Um bom exercício para os organizadores dos Jogos do Rio é ouvir os atletas. Com cerca de 600.000 metros quadrados, a área em que será instalada a vila do Rio está mais próxima das dimensões de Pequim do que das de Londres. Será grande, mas as distâncias podem ser encurtadas por uma distribuição inteligente das instalações nesse espaço. Uma boa ventilação nos prédios também é fundamental – e esse foi um dos pecados de Londres. “O calor nos corredores dos prédios era enorme. Nos quartos, com todas as janelas abertas, melhorava um pouco”, conta Leandro.

No Rio, serão 31 prédios de 17 andares. Espera-se, com ar condicionado. “Acho que ar condicionado é fundamental, depois cada atleta decide se liga ou não. Lá em Londres, podia estar frio na rua, e ainda assim os quartos eram quentes. Não havia nem mesmo ventiladores de teto”, lembra Daniel. Outro ponto importante para o nadador é a acessibilidade: “Alguns apartamentos podiam ser acessíveis, mas o meu não era. Para mim, não foi um problema. Mas meu companheiro de quarto é paraplégico. Embora tenha boas condições de locomoção mesmo assim, ele teria a vida facilitada se o banheiro fosse construído de forma a receber cadeirantes. Não era. Num evento desses, todos os apartamentos devem ter condições de acessibilidade”, defende. (Nas últimas imagens do projeto para 2016, divulgadas na sexta-feira, a promessa é de que todos os banheiros atenderão a portadores de deficiência.)

Pensar no que será a vila depois dos jogos também é fundamental. Os imóveis precisam ser atraentes para o consumidor, e pensados na lógica do momento do mercado imobiliário. Após os Jogos os prédios da vila se transformarão em um condomínio residencial. Em Vancouver, no Canadá, que sediou os Jogos de Inverno de 2010, a pouca atratividade do local pode provocar um prejuízo de 750 milhões de dólares à cidade. No Pan de 2007, no Rio de Janeiro, a vila foi construída em cima de um pântano na Barra da Tijuca, na zona oeste da cidade. Surgiram crateras em volta dos prédios e há calçadas e ruas cedendo. Um enorme problema para os moradores e para a cidade.

Em Londres, a vila foi construída em Stratford, uma área antes degradada, mas que foi revitalizada. “Fica ao lado de uma estação de trem e de uma de metrô, grudada num shopping center enorme. Um local muito interessante de se morar. Não é isolado, como a vila de Atenas, que ficava no meio do nada”, analisa Leandro.

O desenho dos jogos de 2016 já deixa a certeza de que uma característica desejável não estará contemplada: não haverá metrô ou trem ao lado da Vila Olímpica do Rio. Em vez disso, o serviço de transporte da vila no Rio será o sistema de BRT, os ônibus rápidos com faixa segregada. A preocupação deixa de ser o volume de passageiros durante a competição, mas como será a vida naquele local depois de 2016.

Galeria de fotos: Novas imagens do projeto da Vila, divulgadas na sexta-feira

10/08/2012

às 7:24 \ Um Conto de Duas Cidades

Os Jogos e as redes

Bolt tuitou uma foto dele com três atletas suecas do handebol horas depois de vencer os 100 metros rasos

Bolt tuitou uma foto dele com três suecas do handebol horas depois de vencer os 100 metros

Há tempos havia a expectativa de que os Jogos de Londres 2012 fossem os primeiros em que as mídias sociais desempenhassem um papel importante. Não que elas não existissem em Atenas 2004 ou Pequim 2008, mas seguramente ainda não tinham o mesmo alcance e relevância.

A previsão se cumpriu, como era de se esperar. Em Londres 2012 as mídias sociais têm ocupado uma espaço importante do noticiário, muitas vezes pautando outros veículos de comunicação. Na semana que antecedeu a cerimônia de abertura, um usuário relatou ter passado por um protesto de taxistas próximo à Tower Bridge. Em alguns minutos, equipes de TV foram deslocadas até o local.

Ainda antes do início dos jogos, a atleta Voula Papachristou foi excluída dos Jogos pelo Comitê Olímpico Grego por ter feito uma piada de conotação racista. O pedido de desculpas veio tarde demais.

Na primeira semana de competições, quando o britânico Tom Daley e seu parceiro ficaram em quarto lugar no salto sincronizado, um usuário fez um comentário de mau gosto sobre a pai do atleta, que morreu no ano passado. Não demorou para que ele fosse identificado.

Os exemplos são inúmeros, e nem é preciso ir tão longe. A judoca brasileira Rafaela Silva discutiu com usuários que a ofenderam após sua desqualificação. Há também quem atribua o mau desempenho de Diego Hypólito ao fato de que ele estaria dedicando tempo demais às redes sociais.

A grande ironia é que o Comitê Olímpico Internacional (COI) tem feito esforços para limitar ao máximo as interações entre atletas e usuários. Há regras explícitas que proíbem a publicação de fotos e vídeos por parte de voluntários e até da torcida, mas é praticamente impossível manter o controle sobre tamanha produção de conteúdo.

A Rio-2016 será mais bem sucedida se entender que o desafio não será desenvolver estratégias mais eficientes para conter o uso das redes sociais, e sim pensar em estratégias para usá-las a favor dos Jogos.

01/08/2012

às 17:32 \ Loja de Antiguidades

‘Desonischenko’, o desonesto

Deu-se, nesta quarta-feira, o primeiro vergonhoso escândalo da Olimpíada de Londres. Quatro duplas femininas (nas fotos acima) do badminton – esporte bizarro do ponto de vista de um brasileiro, mas popularíssimo em alguns países do Oriente – foram eliminadas do torneio olímpico por perderem suas partidas intencionalmente, de modo a escapar de adversárias mais fortes nas etapas seguintes. O diretor de comunicação do Comitê Olímpico Internacional, Mark Adams, explicou a punição: “Há uma cláusula na carta olímpica segundo a qual todo esportista tem de fazer seus melhores esforços”. A torcida presente à arena de Wembley, onde está sendo disputado o badminton, vaiava as disputas ao perceber a embromação, evidente pela lentidão das petequeiras ao evitar a bolinha. Sebastian Coe, presidente do comitê organizador, evitou atalhos. “Foi deprimente, quem quer ver uma coisa dessas?”.

Ninguém, e a farsa do badminton remete, inevitavelmente, aos momentos de contrafação olímpica. Nenhum se compara ao que fez o major do exército soviético Boris Onischenko na Olimpíada de 1976, em Montreal. Boris era tricampeão mundial do pentatlo moderno, modalidade que envolve hipismo, esgrima, natação, tiro esportivo e corrida. Aos 38 anos, ele despedia-se do esporte. Depois da competição com cavalos, os soviéticos apareciam em quarto lugar. Imaginavam conseguir a liderança ao pegar nas espadas.

Descobriram na espada de Boris um mecanismo eletrônico que registrava o toque a seu favor

Munique-1972: descobriram na espada de Boris um mecanismo eletrônico que registrava o toque a seu favor

Boris entrou na pista de combate para enfrentar o inglês Jeremy Fox, também um veterano, mas ainda ágil. Boris avançava e Jim recuava com rapidez, sucessivas vezes – e sucessivas vezes o sinal de pontuação tocava. Havia algo muito estranho. Os britânicos protestataram. O Júri de Apelação foi acionado. Não demorou muito para que descobrissem, na espada de Boris, um complexo mecanismo eletrônico que, acionado, registrava toque a seu favor. O soviético foi expulso dos Jogos e do esporte. Seu país, eliminado do pentatlo moderno. Mas ficou uma dúvida: desde quando ele se servia de malandragem? Em 1972 ele conseguira a medalha de prata individual. Ao retornar de Montreal para Moscou, “Desonischenko”, o desonesto, como ficou conhecido, foi recebido pessoalmente por Leonid Brejnev para uma bronca pública. Foi multado e perdeu as insígnias do exército. Abandonou o esporte para trabalhar como motorista de taxi em Kiev, na Ucrânia.

31/07/2012

às 15:52 \ Um Conto de Duas Cidades

Assentos vazios, um problema difícil de se resolver

Entre todos os problemas enfrentados pela organização de Londres 2012, talvez o mais difícil de ser resolvido é o dos assentos vazios em quase todos os locais de competição. As imagens de lugares vagos em eventos para os quais os ingressos haviam sido esgotados tem gerado bastante insatisfação entre o público e a mídia britânicos. A última decisão do comitê organizador foi fazer um balanço diário dos ingressos que patrocinadores, autoridades, VIPs e outros convidados não irão utilizar, e colocá-los à venda pelo site oficial na véspera das competições. O comitê ainda estuda a possibilidade de adotar a “regra dos 30 minutos”, tempo após o início de cada evento em que os lugares vazios poderiam ser ocupados por outros compradores.

Dos 8,8 milhões de ingressos disponíveis para os Jogos Olímpicos, 75% foram destinados à venda para o público do Reino Unido, 12% para o público internacional, por meio dos Comitês Olímpicos Nacionais, 8% para patrocinadores e parceiros do COI e 5% para as empresas que fornecem serviços de hospitalidade. Os patrocinadores acabam sendo demonizados pelo público, mas esta é uma batalha praticamente perdida. Para o ciclo olímpico de 2013 a 2016, o Comitê Olímpico Internacional deve arrecadar mais de 1 bilhão de dólares apenas com seus principais patrocinadores. Seria ingenuidade pensar que os parceiros comerciais, que ajudam a tornar o evento lucrativo, abririam mão de seus convites.

Há ainda outro aspecto pouco abordado pela imprensa daqui: a maioria dos ingressos vale para múltiplas sessões. No sábado, acompanhei a partida de basquete feminino entre Brasil x França, que teve início às 20h. A partida seguinte, entre Grã-Bretanha e Austrália, começou às 22h. Alguns brasileiros e franceses deixaram a Arena de Basquete, deixando lugares vazios. Uma fileira inteira à minha frente foi ocupada durante a segunda partida por soldados britânicos.

Uma possível solução para casos como esse seria adotar um sistema parecido com o do torneio de tênis de Wimbledon, que faz a “reciclagem” de ingressos: as entradas de quem deixa o evento antes de seu término são revendidas no local. Mas isso requer um esforço logístico difícil de equacionar em um evento desse porte. Com todo o volume de pessoas que já se dirige naturalmente às instalações olímpicas, criar uma fila de espera poderia causar mais transtorno e insatisfação.

A organização do Rio 2016 ainda tem outros desafios maiores pela frente, mas é bom que se comecem a pensar em soluções para um problema tão difícil de ser resolvido. A julgar pelos 50000 brasileiros que vieram a Londres para assistir aos Jogos, a procura por ingressos em 2016 deverá ser grande. De Londres 2012 fica a lição: não há quem fique satisfeito quando se sente excluído de uma festa – ainda mais quando ela acontece em sua casa, financiada pelo seu próprio dinheiro.

30/07/2012

às 12:53 \ Um Conto de Duas Cidades

Os anéis capazes de parar o trânsito

Após o primeiro fim de semana dos Jogos Olímpicos, já havia me preparado para escrever um texto sobre impacto do evento no dia a dia de Londres. No sábado à tarde tive que visitar Oxford Circus, o cruzamento de Oxford e Regent’s Street, duas das principais ruas de compras da capital. É uma região que naturalmente costumo evitar, pela grande aglomeração de turistas, especialmente em fins de semana. De lá, usaria o metrô para chegar ao Parque Olímpico. Tinha tudo para ser a pior experiência possível.

Surpreendentemente, não encontrei o caos que esperava. As ruas e lojas estavam cheias de turistas, mas nada além do normal. Se não me falha a memória, o movimento nas semanas que antecederam o Natal, por exemplo, era muito mais intenso. A nacionalidade dos visitantes, extremamente diversa, tampouco é novidade em Londres – a única diferença é a proporção dos que usam camisas e bandeiras de seus países. Entre Oxford Circus e Stratford, o metrô levou os mesmos 20 minutos que leva costumeiramente, sem que estivesse lotado por isso.

Mas antes de afirmar que os Jogos não causaram o impacto negativo que todos esperavam, decidi esperar pelo primeiro dia útil desde a cerimônia de abertura. Nesta segunda-feira, tive que dirigir da Zona Norte ao centro da cidade – um percurso de aproximadamente 8 quilômetros, que normalmente pode ser feito em, no máximo, 25 minutos. A primeira metade do caminho foi feita de maneira extremamente tranquila. No rádio, um repórter da BBC falava ao vivo da estação London Bridge e relatava um movimento bem menos intenso que o previsto.

Foi quando cheguei à segunda metade do caminho, próximo à região da estação King’s Cross St. Pancras. Congestionamentos são frequentes por lá, mas hoje a lentidão estava fora do comum. Enquanto os carros permaneciam parados em duas das pistas, uma delas permanecia vazia: era uma das Games Lanes, as faixas exclusivas criadas para a circulação de veículos oficiais dos Jogos Olímpicos. Os motoristas que se atreverem a usar a faixa receberão multas de até 130 libras.

A existência da faixa exclusiva fez com que meu percurso durasse cerca de 30 minutos além do normal. Durante todo o tempo de trânsito lento, fiz questão de contar quantos carros oficiais dos Jogos trafegaram por ela: dois ônibus e um veículo de passeio. Nesta segunda-feira, o prefeito Boris Johnson já anunciou que parte dos quase 100 quilômetros de ruas e avenidas da cidade transformados em corredor exclusivo para a “família olímpica” serão desativados, pelo baixo índice de uso.

Lembrei-me de uma pesquisa divulgada recentemente pela Organização Internacional do Trabalho (OIT), segundo a qual 22% dos moradores do Rio de Janeiro levam mais de uma hora para chegar ao trabalho. Sem um transporte público eficiente como o de Londres, é difícil imaginar que o COI abra mão de ter faixas exclusivas na cidade em 2016. O leitor carioca pode se preparar para viver dias de trânsito intenso daqui a quatro anos – e para maldizer os anéis olímpicos pintados sobre o asfalto.

28/05/2012

às 7:19 \ Diário Olímpico

Sírios podem ser banidos de Londres 2012

Os Jogos Olímpicos sempre foram palco de disputas, rivalidades e controvérsias que vão muito além do esporte. Entre os anos 60 e 80, o Comitê Olímpico Internacional (COI) teve que lidar com inúmeros boicotes e banimentos de nações. Hoje, orgulha-se de ser representado por 204 estados, 11 a mais que a Organização das Nações Unidas (ONU).

Mas o comitê está prestes a viver um sério impasse diplomático. Na última sexta-feira, um bombardeio das forças do regime sírio na região de Hula deixou mais de 100 mortos, entre eles 32 crianças menores de 10 anos. Mesmo antes do massacre, algumas autoridades britânicas já haviam manifestado desconforto com a presença de oficiais sírios que apoiam a ditadura de Bashar Assad.

Em entrevista à rede de televisão BBC após o ataque, o vice-primeiro-ministro britânico Nick Clegg afirmou que os membros da delegação síria ligados ao regime não poderão ingressar no Reino Unido. O ministro das Relações Exteriores, William Hague, reforçou a posição de Clegg, afirmando que o país tem direito a banir a entrada de indivíduos com histórico de violação dos direitos humanos, independentemente da realização dos Jogos Olímpicos.

O Comitê Olímpico Sírio é presidido pelo general Mowaffak Joma, que não demorou a reagir às declarações. Segundo ele, os britânicos não têm direito a tomar tal medida de acordo com as regras do COI. Segundo ele, se o Reino Unido pretende banir membros da delegação ligados ao regime de Assad, todos os cidadãos sírios deveriam ser banidos, porque todo o país o apoia.

A oposição a Assad e as famílias dos mortos nos conflitos no país devem ter outra opinião.

24/05/2012

às 8:00 \ Diário Olímpico

COI define finalistas para 2020

Ainda falta mais de um ano para que a cidade do Rio de Janeiro conheça sua sucessora nos Jogos Olímpicos, mas a disputa para sediar o evento em 2020 tem agora apenas três candidatas. Em uma convenção realizada ontem na cidade de Quebec, no Canadá, o Comitê Olímpico Internacional (COI) anunciou que a escolha será entre Istambul, Madri e Tóquio. A vencedora será anunciada no dia 7 de setembro de 2013, em Buenos Aires.

Foram eliminadas do processo as cidades de Doha, no Qatar, e Baku, no Azerbaijão. A disputa poderia prosseguir com cinco cidades, mas o COI optou pelo corte de ambas. A candidatura de Doha, a mais forte no aspecto financeiro, pretendia mudar o calendário dos Jogos para outubro, enquanto a de Baku sofria de deficiências técnicas.

Roma, que também pretendia sediar o evento em 2020, anunciou sua desistência em fevereiro deste ano. A candidatura não tinha apoio político no país, uma vez que sediar um megaevento esportivo não seria nada prudente em tempos de crise.

Por esse ponto de vista, é surpreendente que Madri siga firme em seu intuito de receber os Jogos Olímpicos – é a terceira vez seguida em que a cidade se candidata. A Espanha é um dos países mais afetados pela crise europeia, com taxas de desemprego ao redor de 24%. O governo acredita que a Olimpíada poderia gerar empregos e aquecer a economia.

Mas o exemplo da Grécia pós-2004 não é dos mais animadores. No fim, restam os benefícios intangíveis trazidos pelos Jogos, como o orgulho por receber o evento e a oportunidade de obter sucesso esportivo diante da torcida. No caso de Madri, me parece haver também um desejo de suplantar a rival Barcelona como exemplo bem-sucedido de organização.

O longo processo de candidatura é também um ponto a ser considerado com atenção. Há sete anos, quando Londres ganhou o direito de sediar os Jogos Olímpicos, os britânicos não imaginavam que atravessariam uma recessão às vésperas do evento. Se pudessem prever este cenário, o Reino Unido teria pensado duas vezes antes de investir quase 10 bilhões de libras (30 bilhões de reais) na realização dos Jogos – e, se decidisse fazê-lo, teria bem mais trabalho para convencer a opinião pública.

01/05/2012

às 11:23 \ As estrelas de 2012, Diário Olímpico

As estrelas de 2012: Michael Phelps

Três anos antes dos Jogos de Pequim 2008, a rede de TV norte-americana NBC estava próxima de atingir seu objetivo: graças à influência de seu presidente Dick Ebersol, o Comitê Olímpico Internacional havia transferido as finais da natação e ginástica olímpica para as manhãs. A mudança na agenda permitiria à NBC exibir as finais ao vivo no horário nobre da TV norte-americana. A audiência tinha tudo para ser um sucesso, mas faltava o aval de uma pessoa: Michael Phelps.

O nadador norte-americano foi o primeiro a receber a notícia da mudança, pelo próprio Ebersol. Sob ataque de federações e emissoras de TV europeias e australianas insatisfeitas com o novo horário, COI e NBC precisavam demonstrar que a mudança não afetaria o desempenho dos atletas. Phelps garantiu a Ebersol que transferir as finais do período vespertino para o matutino não seria problema algum.

A história, relatada pelo próprio Ebersol ao jornal norte-americano The New York Times, mostra a dimensão que Michael Phelps já tinha antes mesmo de se tornar o maior atleta da história dos Jogos Olímpicos. Seu desempenho em Atenas 2004 já havia sido espantoso: das oito provas que disputou, venceu seis e conquistou dois bronzes, quebrando três recordes olímpicos e dois mundiais. Em Pequim 2008, conquistou ouro nas oito provas que disputou, quebrou sete recordes mundiais e um olímpico. Além de ser o atleta com mais ouros em uma única edição dos Jogos, tornou-se também o recordista no total de ouros, com 14.

O sétimo ouro de Phelps em Pequim – o 13º de sua carreira – foi certamente o mais emocionante. Após uma péssima largada, Phelps parecia não ter tempo hábil para reagir. A vitória sobre o sérvio Milorad Cavic veio na último braçada, por apenas um centésimo de segundo (confira no vídeo abaixo). Narradores mundo afora chegaram a declarar a vitória de Cavic, como o brasileiro Galvão Bueno.

Desde 2008, porém, Phelps não tem nadado em águas muito calmas. Em fevereiro de 2009, o agora extinto tabloide britânico News of the World publicou fotos do nadador fumando maconha em uma festa universitária. Phelps foi suspenso por três meses pela federação de natação dos Estados Unidos (USA Swimming) e perdeu contratos publicitários.

Aparentemente desmotivado e fora de forma, perdeu o protagonismo até mesmo em seu país. Nos últimos dois anos, o prêmio de nadador do ano, concedido pela conceituada revista Swimming World, ficou nas mãos de Ryan Lochte, atual campeão e recordista mundial nos 200 metros medley. No último campeonato Mundial, em julho do ano passado, Lochte também bateu Phelps nos 200 metros livres – prova cujo recorde já não pertence a Phelps, mas ao alemão Paul Biedermann.

Em entrevistas recentes, porém, Phelps disse estar se sentindo novamente em forma e motivado. Há mais de um ano tem dormido em uma câmara hiperbárica, que simula uma altitude de aproximadamente 2500 metros, para acelerar sua recuperação. O nadador tem cogitado até mesmo a disputa dos 400 metros medley, que prometeu nunca mais disputar depois de Pequim 2008 – seria a primeira de suas provas e uma das mais cansativas, o que poderia comprometer seu desempenho nas demais.

Phelps tem evitado falar em metas para 2012, provavelmente para se livrar do peso das expectativas. No total de medalhas, o nadador ainda tem duas a menos que a soviética Larysa Latynina, que conquistou 18 medalhas entre 1956 e 1964 – nove delas de ouro. Bastam três pódios em Londres 2012 para colocá-lo no topo de todos os quadros.

Caso deixe Londres com apenas três  medalhas, não deixará de ser decepcionante: o que seria um feito para qualquer atleta está muito aquém do que se espera de Phelps. Afinal, ele não é um atleta qualquer.

09/04/2012

às 7:00 \ Diário Olímpico

O legado de Londres para os Jogos Olímpicos

Pouco antes de completar a marca de 100 dias para o início dos Jogos Olímpicos, Londres recebeu a visita do presidente do Comitê Olímpico Internacional (COI), Jacques Rogge. Na ocasião, o belga não poupou elogios à preparação da cidade, afirmando que Londres havia estabelecido um novo padrão em termos de legado para as futuras sedes olímpicas.

Londres de fato se diferencia das sedes anteriores ao colocar, desde a fase de candidatura, o legado para a cidade e o país no centro de sua proposta. Mas engana-se quem pensa que a Olimpíada é motivo de euforia entre os londrinos. Por ora, o tom é de preocupação com o caos que se tornará a cidade em agosto, por causa de um evento que poucos terão uma oportunidade de assistir de perto.

Os altos valores investidos pelo governo também são alvo de críticas por parte da imprensa britânica e pela população em geral. A maioria das obras foi concluída dentro do prazo e o orçamento de 9,3 bilhões de libras ainda está oficialmente mantido. Mas é preciso ter em conta que o valor anunciado em 2005 era de aproximadamente 3 bilhões de libras. No atual cenário de recessão, Londres provavelmente não se candidataria a sediar uma Olimpíada – e se o fizesse, teria pouquíssimo apoio popular.

A capital inglesa apoiou seu projeto em dois pilares: a regeneração da região leste da cidade e o aumento da prática de esportes entre os ingleses. O segundo pilar não demorou muito a ruir. O comitê organizador já admitiu que se tratava de uma meta muito ambiciosa, jamais alcançada. Sediar os Jogos Olímpicos pode atrair investimentos para o esporte de elite, mas nada garante que a população em geral se torne mais ativa por causa do evento.

O pilar do legado para a cidade é o que sustenta os elogios de Rogge. Ainda que os benefícios econômicos diretos para os moradores da região do Parque Olímpico sejam questionáveis, as melhorias de infraestrutura são de fato visíveis – principalmente no que diz respeito ao transporte na região leste da capital.

Para evitar que o Parque Olímpico tenha o mesmo destino de seus antecessores, Londres optou por reduzir a capacidade de parte das novas construções após os Jogos. O Centro Aquático, por exemplo, passará dos 17.500 assentos atuais para 2.500 após os Jogos. A Arena de Basquete será inteiramente desmontada e poderá ser aproveitada no Rio de Janeiro em 2016.

A grande pedra no sapato do comitê organizador é justamente a maior e mais simbólica das obras: o Estádio Olímpico. De aparência espartana, se comparado ao Ninho do Pássaro de Pequim, o estádio pode ter sua capacidade reduzida de 80.000 para 25.000 lugares após os Jogos. Mas até o momento não se sabe qual será o novo inquilino. O mais provável é que seja o West Ham, clube de futebol do leste londrino.

Para quem acompanha de perto a preparação de Londres, não é difícil apontar falhas, incoerências e mudanças no planejamento ao longo do caminho que tornaram o impacto positivo para a cidade menor que o prometido. Mas ainda que os Jogos não deixem o legado esperado para Londres, a cidade já deixou seu legado para os Jogos: a partir de agora, as futuras sedes não poderão relegar essa discussão a segundo plano.

 

Serviços

 

Assinaturas



Editora Abril Copyright © Editora Abril S.A. - Todos os direitos reservados