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boxe

09/08/2012

às 15:40 \ Loja de Antiguidades

Os jogos familiares

O sorriso anos 70 de Kornelia Ender e Roland Matthes, apagado pelas denúncias de doping

Dois pares de irmãos fizeram da Olimpíada de Londres uma festa em família. Alistair Brownlee, de 24 anos, ganhou a medalha de ouro no triatlo – seu irmão caçula, Jonathan, ficou com o bronze. Os brasileiros Yamaguchi Falcão e Esquiva Falcão, do boxe, semifinalistas nesta sexta-feira, já sabem que subirão ao pódio, na pior das hipóteses com um bronze. É comum, em Jogos Olímpicos, irmãos disputarem juntos as provas (e lembre-se aqui de Pau e Marc Gasol, da seleção espanhola de basquete). Menos comum é tê-los com medalhas no pescoço. Usa-se, com frequência, nos Jogos, a expressão “família olímpica” para designar os atletas, autoridades e jornalistas – quem compete, quem manda e quem conta aquilo que os esportistas e os chefões andam fazendo. Family, familia, famiglia e familie – as famílias ajudam a contar a alegria das vitórias e a tristeza das derrotas olímpicas.

Esta Loja de Antiguidades foi procurar a família mais premiada de todos os tempos. Encontrou um casal de nadadores da extinta Alemanha Oriental, eles também já um extinto casal, após o divórcio. Roland Matthes tinha apenas 16 anos quando bateu seu primeiro recorde mundial, no nado de costas, em 1967. Nos seis anos seguintes fez pó das marcas dos 100 e dos 200 metros nado de costas em dezesseis oportunidades. Ganhou quatro medalhas olímpicas de ouro, duas de prata e duas de bronze colecionadas em dois Jogos, de 1968 e 1972. Em 1978, ele se casou com a também alemã oriental Kornelia Ender, dona de quatro ouros e quatro pratas colhidas em 1972 e 1976. Juntos, portanto, Roland e Kornelia, somavam oito ouros, seis pratas e  dois bronzes. Depois da denúncia, feita em meados dos anos 80, pouco antes da queda do Muro de Berlim, de que treinadores de natação da Alemanha Oriental davam substâncias químicas proibidas aos nadadores sem que eles soubessem, os títulos foram manchados. As acusações, nunca negadas com veemência, comprovadas pelo exagerado tamanho do corpo dos campeões, apagaram o sorriso totalmente anos 70 da loira e do bigodudo que marcaram uma era do esporte.

07/08/2012

às 16:22 \ Loja de Antiguidades

O avô do boxe brasileiro

Neno (ao centro de óculos) e alguns boxeadores comem no refeitório da Vila Olímpica dos Jogos de Roma, em 1960

Neno (ao centro de óculos) e alguns boxeadores comem no refeitório da Vila Olímpica dos Jogos de Roma, em 1960

O boxe brasileiro ganhou uma única medalha na história das Olimpíadas. Em 1968, Servílio de Oliveira foi bronze no peso mosca. Agora, em Londres, o pugilismo tem outras duas láureas de bronze garantidas: Adriana Araújo, peso leve, e Esquiva Falcão, médio. Ela disputará a semifinal nesta quarta-feira – e qualquer que seja o resultado, terá participado do primeiro torneio olímpico de luvas tendo subido ao pódio logo na competição inaugural. Esquiva sobe no ringue na sexta-feira para defender seu nome. O pai, antigo boxeador, o batizou assim, de modo um tanto quanto insólito, para poder gritar as instruções – “esquiva!, esquiva!” – sem ser admoestado pelos juízes. Quem conta, rindo, é o próprio Esquiva.

A digníssima trajetória do pugilismo brasileiro em Londres faz essa Loja de Antiguidades abrir uma gaveta da memória pessoal – e desde já peço paciência por esse texto na primeira pessoa. Meu avô, Waldemar Zumbano, que todos conheciam como Neno, ou mais carinhosamente por Nê, foi treinador da equipe brasileira de boxe na Olimpíada de 1960, em Roma, e 1964, em Tóquio. Não conseguiu levar ninguém ao pódio naqueles tempos duríssimos. Entre os meio-pesados o medalhista de ouro foi um certo Cassius Marcellus Clay, que logo em seguida passaria a se chamar Muhammad Ali. O brasileiro José Leite, naquela categoria, perdeu na luta de estreia contra um argentino.

O Neno era um personagem extraordinário – tinha uma doçura incompatível com troca de socos. Chegou a se recusar a disputar um título paulista de boxe, quando lutava, porque o adversário era amigo de longa data, companheiro de trincheira na Revolução de 1932. Os dois fizeram o acordo, recusaram pôr as luvas, e perderam a chance do cinturão. Neno era um intelectual, lia muito. Falava pouco, e quando falava com seus pupilos, não demorava para que o chamassem de “professor” (e, de fato, ele era mesmo professor, de educação física). Formou dezenas de lutadores, no esporte e também para a vida fora do ringue. Chegaram a alcunha-lo, quando morreu, em 2004, de “o avô do boxe brasileiro”. Como pugilista fez mais de 200 lutas. Não tinha medo de nada e suavemente seguia o que pensava, sem arredar pé, de uma coerência firme e imutável como um direto de direita. Em 1964, militante do Partido Comunista Brasileiro, foi preso depois do golpe militar. Quando a delegação brasileira fez escala em Los Angeles, a caminho do Japão, foi detido e interrogado pela polícia de imigração. Naquele tempo, o visto americano podia ser negado em virtude de posturas ideológicas. O então presidente do Comitê Olímpico Brasileiro, o major Sylvio de Magalhães Padilha, exigiu que Neno fosse reembarcado. E a delegação seguiu viagem. Ele não gostava de contar essa desventura – a tenho aqui, em detalhes, porque um dos meus irmãos e meu pai a recuperaram.

Neno – que faria 100 anos no final deste ano – era tio de Eder Jofre. Um de seus irmãos, Ralph Zumbano, futuro treinador de Maguila, disputou a Olimpíada de 1948, aqui mesmo, em Londres. Era tão bom, mas tão bom, que o apelidaram de “a maravilha brasileira”. Ainda assim, não subiu ao pódio. Eder também não, em 1956. Adriana e Esquiva desfazem em 2012 essas injustiças. Têm garantido o bronze porque no boxe não há disputa de terceiro e quarto lugares. Neno ficaria feliz, com seu sorriso ao mesmo tempo aberto e tímido, olhar míope, de óculos espessos, porque o que ele mais gostava era ver o sucesso dos outros.

06/08/2012

às 18:04 \ O Brasileiro do Dia

From Me To You

(Foto: Paulo Vitale)

(Foto: Paulo Vitale)

Antes de ir ao personagem desta coluna, uma reflexão. Como bem disse o mestre Sergio Xavier no Jornal Placar, “a cada quatro anos, fazemos projeções otimistas e caímos em depressão quando as medalhas não brotam.” Os tropeços brasileiros da última semana levaram muitos brasileiros, inclusive nós jornalistas, à calculadora e ao calendário. Será que até o próximo domingo, quando fecham-se as cortinas olímpicas, o Brasil atingirá a meta de 15 medalhas? Depois da derrota do boxeador Everton Lopes (personagem já retratado nesse espaço), comecei a ceder ao sentimento acima descrito pelo colega. Mas estava errado ao me preocupar. O boxe baiano traria sim uma medalha para o Brasil, mas ela viria por outras mãos. A também soteropolitana Adriana Araújo é quem vai tirar o Brasil da fila no boxe olímpico.

Os dois boxeadores são membros da célebre academia Champion, tocada e idealizada por Luiz Carlos Dórea, que como você já leu nesse espaço foi o técnico de Acelino Popó Freitas e do atual campeão do UFC Júnior Cigano. Dórea fala com muito orgulho de sua pupila olímpica, e com muita confiança no seu potencial: “O resultado de hoje não é surpresa nenhuma. A Adriana é sete vezes campeã sul-americana. Ela tem uma mão muito pesada, é muito forte em relação as adversárias de sua categoria. É uma nocauteadora nata.” Mais do que admiração, Dórea tem muito carinho por seus atletas. “Eles são uma extensão da minha família”, diz o baiano de 47 anos, 32 deles vividos para o boxe.

E todo o afeto do mestre por seus comandados é correspondido na mesma intensidade, como fica evidente na mensagem enviada por Adriana a seu treinador, poucas horas após a sua apresentação e reproduzida abaixo.

Meu professor,

Você já colocou no seu currículo que é um medalhista olímpico?

Fico feliz, Pro, em retribuir tudo o que você fez por mim. Me estruturou tecnicamente e mentalmente pra chegar aqui.

Sei que você não é apenas um treinador para mim, mas um grande pai.

É o único presente que posso lhe dar em toda minha trajetória, minha carreira.

Te amo, Pro, e estou preparada pra buscar mais.

Os ares britânicos, que inspiraram Lennon e McCartney a escrever a música que dá título a essa coluna, parecem deixam até nossos atletas mais sentimentais. Que esse amor traga mais medalhas, então.

03/08/2012

às 18:27 \ O Brasileiro do Dia

O bom baiano

Everton Lopes (Foto: Paulo Vitale)

Fotos: Paulo Vitale

Se você quiser achar o pugilista Everton Lopes fora do período de competições, aqui vai uma dica: o procure em sua terra natal, Salvador. O atual campeão mundial dos meio-médio ligeiros não perde uma oportunidade de estar perto da mãe, dona Cláudia, e de seu técnico Luiz Dórea (aquele mesmo que já trabalhou com Acelino Popó Freitas e hoje também instrui lutadores de MMA como Júnior Cigano e Anderson Silva). Mesmo aqui em Londres, Everton não nega as raízes e é um dos mais animados da equipe de boxeadores brasileiros. Gozador, o baiano não perde uma oportunidade de tirar um sarro da cara de seus colegas. O atleta de 23 anos segue a escola de esportistas da Bahia com senso de humor apurado, como os jogadores de futebol Vampeta e Edílson.

No aquecimento, Everton morre de rir com a movimentação dos seus companheiros. Mas quando chega a sua vez de subir ao ringue, ele muda completamente de personalidade. Um de nossos fotógrafos aqui em Londres acompanhou com exclusividade uma das sessões de treinos da equipe brasileira realizada aqui no centro esportivo de Crystal Palace. Enquanto todos os lutadores colocavam o capacete obrigatório no boxe olímpico, Everton quis treinar sem proteção alguma. A intensidade e a violência dos golpes trocados entre o baiano e seu sparring foi tamanha que o técnico da seleção teve de interromper a “luta” por duas vezes, pois cada um deles quase foi a nocaute em um mero treinamento.

Essa bravura de Everton é reconhecida internacionalmente. O brasileiro é apontado por diversas publicações especializadas como o grande favorito ao ouro olímpico. O baiano começa a disputa pela medalha neste sábado, contra Roniel Iglesias, da tradicionalíssima escola cubana. Ele tem a chance de marcar seu nome na história do esporte, ao ser o segundo brasileiro medalhista no boxe – o primeiro foi Servílio de Oliveira, nos Jogos de 1968, realizados na Cidade do México. É bom saber que o brasileiro está treinando duro por essa medalha, sem perder a ternura baiana, é claro.

Everton Lopes (Foto: Paulo Vitale)

 

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