Blogs e Colunistas

atletismo

12/11/2012

às 8:05 \ Ponte Aérea Londres-Rio

Ainda à espera de uma estrela no atletismo

O lendário Joaquim Cruz hoje revela atletas... nos EUA (Foto: Gilberto Tadday)

O lendário Joaquim Cruz hoje revela atletas... nos EUA (Foto: Gilberto Tadday)

Com 47 provas – 24 masculinas e 23 femininas -, o atletismo é a modalidade que mais medalhas distribui em uma edição de Jogos Olímpicos: 141, entre ouros, pratas e bronzes. Em Londres, elas foram divididas por 33 países. O Brasil não conquistou nenhuma. Um mau sinal para quem que vai sediar os próximos Jogos, em 2016. O atletismo, afinal, é a estrela máxima de uma Olimpíada. É na hora de ver os corredores mais rápidos, os saltadores que chegam mais longe ou mais alto e os lançadores mais fortes que o mundo prende a respiração. E as marcas de atletas individuais expõem para o mundo esforços coletivos no desenvolvimento de modalidades e na lapidação de talentos olímpicos.

Em Londres, a notável Jessica Ennis e o incansável Mo Farah, estrelas máximas do atletismo britânico, monopolizaram todos os outdoors e capas de jornais. Ela, a garota de ouro no heptatlo; ele, nascido na Somália, filho de pai inglês com mãe somali, com sua dupla vitória olímpica, nos 5.000 metros e nos 10.000 metros. Os dois levaram os ingleses no Estádio Olímpico às lágrimas e aos gritos, e acabaram contagiando os amantes de esporte de todas as nacionalidades. A Inglaterra ainda conquistou um quarto ouro no salto em distância, com Greg Rutherford, uma prata nos 400m, com Christine Ohuruogu, e um bronze no salto em altura, com Robert Grabarz.

Seis medalhas, o suficiente para alegrar os britânicos e para deixar o país atrás apenas dos Estados Unidos, da Rússia e da Jamaica, potências do atletismo. O torcedor brasileiro – assim como patrocinadores – se perguntam: quem será a alegria da torcida brasileira nos Jogos do Rio, daqui a quatro anos?

“Embora não tenha conquistado medalha em Londres 2012, o atletismo brasileiro tem uma tradição de presença no pódio olímpico. A modalidade integra a expectativa de conquista de medalhas no Rio 2016. Neste momento estamos em discussões com a CBAt (Confederação Brasileira de Atletismo) sobre o plano estratégico para o próximo ciclo, quando poderemos identificar mais claramente a capacidade e o potencial de evolução de resultados olímpicos da modalidade”, diz o superintendente-executivo do Comitê Olímpico Brasileiro (COB), Marcus Vinícius Freire.

O dirigente se refere às 14 medalhas conquistadas pelo atletismo brasileiro entre os Jogos de Helsinque (1952) e Pequim (2008), incluindo os dois ouros de Adhemar Ferreira da Silva (1952 e 1956) no salto triplo, o de Joaquim Cruz (1984) nos 800 metros e o de Maurren Higa Maggi (2008) no salto em distância. Apesar do histórico, faltam perspectivas. Maurren mostrou em Londres que seu tempo passou. O revezamento 4 x 100 metros masculino, que chegou a conquistar o bronze em Atlanta (1996) e a prata em Sydney (2000), dessa vez não chegou à final. Também não apareceu nenhum jovem que chamasse a atenção, em nenhuma prova.

“Não temos um programa organizado para identificar atletas no Brasil. Não temos treinadores capacitados. Não temos base nas escolas. O COB tem as Olimpíadas Escolares, que é um bom programa. Mas elas deveriam ser o final de um processo de base. Primeiro deveriam ser oferecidos os esportes nas escolas, com estrutura e calendário organizado, para dali serem selecionados atletas bem treinados e talentosos para disputarem as Olimpíadas Escolares. O Brasil não tem isso”, avalia Joaquim Cruz, há sete anos funcionário do Comitê Olímpico Americano (USOC), como membro da comissão técnica do atletismo olímpico e paralímpico (relembre, no vídeo abaixo, sua vitória olímpica em Los Angeles).

A grande maioria das escolas brasileiras sequer possui um espaço para a prática da educação física. Entre as que têm, a maior parte conta apenas com uma quadra, onde basicamente se joga futsal, vôlei e handebol. Para Joaquim, isso precisa mudar já se o país quer reverter esse quadro no atletismo. “Tenho uma sobrinha que tem cinco filhos e uma que tem seis. Nenhum dos 11 pratica esporte em suas escolas. Se a criança não recebe educação esportiva, como vai ter oportunidades de descobrir se é um talento? Temos que dar novas oportunidades para a nova geração. Para 2016, temos que continuar a trabalhar com os atletas que foram em Londres e investir em alguns juvenis, porque não há mais tempo de achar um talento e prepará-lo. Mas há tempo para 2020 e daí para frente”, acredita o medalhista olímpico.

Marcus Vinícius Freire concorda que há uma deficiência na base. “Há vários ‘países’ dentro do Brasil, com estruturas, características e biótipos diferentes de atletas em cada região. Portanto, sabemos que não é fácil integrar em um mesmo projeto todas essas necessidades de treinamento e competição das mais diferentes provas do atletismo. Necessitamos certamente ampliar a base de entrada de novos praticantes da modalidade, e através de uma estrutura consistente de treinadores e equipamentos, e identificar e trabalhar um maior número de potenciais atletas para esse esporte”, afirma.

Uma mudança já vai acontecer, a partir de 1º de janeiro: depois de 25 anos seguidos, Roberto Gesta de Melo deixa o comando da CBAt. No entanto, quem assume é José Antonio Martins Fernandes, candidato único e com apoio total do atual mandatário. É esperar para ver o que o novo presidente conseguirá fazer até 2016.

09/09/2012

às 17:54 \ Heróis Paralímpicos

Brasil faz sua melhor Paralimpíada – e quer mais em 2016

Se a delegação brasileira na Olimpíada de Londres decepcionou – não pelo número total de medalhas, mas pelo desempenho apagado em algumas das principais modalidades dos Jogos -, a equipe do país na Paralimpíada brilhou. Os atletas brasileiros portadores de deficiência estiveram entre os destaques do atletismo e da natação, roubando a cena em algumas das provas mais concorridas dos Jogos. Neste domingo, o corredor Tito Sena, da maratona, categoria T46, fechou a campanha brasileira em Londres com mais uma medalha de ouro, levando o Brasil à sua melhor colocação na história das Paralimpíadas: sétimo lugar, logo abaixo dos Estados Unidos, com 21 ouros, 14 pratas e oito bronzes, 43 medalhas no total (a China liderou o quadro, com 231 medalhas, seguida pela Rússia, com 102). Em Pequim-2008, o Brasil conquistou até mais medalhas (47), mas conseguiu menos ouros (16) e terminou os Jogos na nona colocação. Os atletas paralímpicos fizeram o que a equipe olímpica sonhava fazer mas não conseguiu: ao invés de mirar na quantidade, focar na qualidade, conseguindo ir a mais finais e faturando mais ouros. De acordo com o Comitê Paralímpico Brasileiro (CPB), as metas para Londres foram cumpridas. “A avaliação é a melhor possível”, disse o presidente do comitê, Andrew Parsons.

Para o dirigente, os Jogos mostraram que o Brasil deve apostar na diversificação para 2016, no Rio de Janeiro, aumentando o número de competidores em categorias diferentes. O comitê ainda não preparou sua meta para daqui quatro anos – mas acredita que é possível melhorar ainda mais o desempenho da delegação paralímpica no evento disputado em casa. E aposta, desde já, em alguns nomes que ajudaram a colocar o Brasil entre as equipes mais competitivas dos Jogos. A começar pela dupla de ouro da natação: Daniel Dias, com seis ouros, fez mais uma Paralimpíada espetacular e transformou-se no maior medalhista do Brasil nos Jogos; André Brasil conquistou outras três, também aparecendo como um dos protagonistas das provas disputadas no Centro Aquático. O atletismo, que não deu nenhuma medalha para o Brasil na Olimpíada, registrou sete vitórias brasileiras na Paralimpíada, com destaque para o maratonista Tito Sena, a velocista Terezinha Guilhermina (dois ouros) e o jovem Alan Fonteles (ouro nos 200 metros, derrotando Oscar Pistorius, o grande astro dos Jogos). Se faltam atletas de ponta para levantar a torcida e levar o Brasil ao topo do pódio na primeira Olimpíada realizada no Brasil, a promessa é de grandes triunfos nos Jogos Paralímpicos – cuja abertura está marcada para daqui a exatos 1.459 dias, no feriado de 7 de setembro de 2016.

07/09/2012

às 10:46 \ Heróis Paralímpicos

‘Bolt paralímpico’ agora é ídolo britânico

Em segundo lugar no quadro de medalhas, atrás apenas da China, a equipe paralímpica da Grã-Bretanha revelou na quinta-feira um novo ídolo do esporte no país. Carismático, competitivo e muito veloz, o corredor Jonnie Peacock, de 19 anos, deixou para trás Oscar Pistorius e Alan Fonteles e conquistou a medalha de ouro nos 100 metros, na categoria T43/44. Assim como na Olimpíada, a final dos 100 metros era a prova mais esperada dos Jogos Paralímpicos – e a vitória de Peacock acabou sendo vista por mais de 6 milhões de britânicos pela televisão. De acordo com o Channel 4, que transmite o evento no país-sede, foi a maior audiência dos Jogos. Peacock cravou 10s90, recorde paralímpico e segundo melhor tempo da história – só ficou acima de seu próprio recorde mundial (10s85). Por ser muito jovem e ainda ter muito a melhorar, já é apontado como um candidato a repetir o domínio de Usain Bolt nas provas paralímpicas de velocidade. Se continuar evoluindo, Peacock também terá de lidar com as constantes perguntas sobre uma possível participação nas provas convencionais, seguindo os passos de seu ídolo Oscar Pistorius. Seus tempos nos 100 metros são respeitáveis. Mas será muito difícil baixar tanto suas marcas a ponto de encarar a fortíssima concorrência dos atletas olímpicos (em especial da extraordinária seleção jamaicana liderada por Bolt).

Talvez seja melhor mesmo continuar no esporte paralímpico, atraindo a atenção de futuros atletas entre os britânicos portadores de deficiência. Jonnie Peacock teve sua perna direita amputada aos 5 anos, em decorrência de uma meningite. Neto de um ex-jogador de futebol que defendeu as cores dos arquirrivais Liverpool e Everton, sonhava em repetir a carreira do avô. Mesmo depois da amputação, ele insistia em participar das competições esportivas na escola – e sempre rejeitava tratamento especial, exigindo ser submetido às mesmas regras que todos os outros. Revelado para o atletismo por um programa de avaliação esportiva do governo britânico, Peacock começou a treinar para valer há apenas dois anos. Há alguns meses, quebrou um recorde mundial que já durava cinco anos. Depois da vitória de quinta, o velocista disse que a conquista do ouro parecia “surreal” para ele. Mas Peacock mostrou o quanto é competitivo ao lamentar não ter baixado sua marca na grande final (assista às imagens da prova no vídeo abaixo): “Não fiquei tão contente quando percebi que poderia ter corrido ainda mais rápido”, explicou o atleta, desde já um candidato à medalha nos Jogos Paralímpicos do Rio de Janeiro.

08/08/2012

às 18:22 \ O Brasileiro do Dia

Um abismo de velocidade

Assistir às eliminatórias das provas de velocidade no atletismo é constatar em um enorme abismo entre os corredores jamaicanos e os demais. Usain Bolt, atual campeão da prova, e Yohan Blake, o amigo/rival do campeão olímpico, passam pela linha de chegada com o freio de mão completamente puxado. Chega a beirar falta de educação a vantagem que esses atletas frente aos demais. Nesta quarta-feira, não foi diferente. Os dois dominaram suas baterias. Mas foi um dia diferente foi para o Brasil. Tivemos dois velocistas disputando raia com os jamaicanos. Embora tenham ficado bem atrás nas duas baterias semifinais, a participação de Bruno Lins e Aldemir Gomes já uma evolução. Em Pequim, apenas Sandro Viana disputou as eliminatórias da prova, sem sequer ter se classificado às semis.

Em Londres, tanto Bruno quanto Aldemir foram muito bem em suas baterias iniciais. Ficaram atrás apenas de Bolt e Blake. Tanto é que os brasileiros largaram na raia 5, logo ao lado dos dois jamaicanos. Mas foi só no balizamento que os atletas ficaram lado a lado dos melhores do mundo. Logo na passagem pelos primeiros 100 metros, era nítida a diferença. Bruno, que correu ao lado de Blake, ficou em sexto na sua bateria, com o tempo de 20,55 segundos (o jamaicano marcou 20,01). Aldemir, que disputou a semifinal com Bolt, ficou uma posição acima do outro brasileiro, mas com um tempo pior: 20,63 segundos (Bolt fez 20,18). O melhor tempo de um brasileiro em 2012 é de Bruno, com a marca de 20,32 segundos.

Mesmo se repetisse sua melhor performance aqui em Londres, Bruno não conseguiria se classificar – o último corredor que passou a final, o equatoriano Alex Quiñonez, percorreu os 200 metros em 20,37 segundos. Na sexta-feira, os brasileiros voltam a pista em Londres, dessa vez pelas eliminatórias do revezamento 4×100. O Brasil tem o sexto melhor time do mundo. Esperemos que o conjunto brasileiros se inspirem com os medalhistas de prata em Sydney e consigam uma vaga na final. Chegar na frente dos jamaicanos, porém, só na próxima encarnação.

07/08/2012

às 14:35 \ London Calling

Immigrant Song

A Batalha de Trafalgar, em 1805, foi a mais marcante das numerosas vitórias navais do império britânico. O Almirante Nelson ganhou o confronto, perdeu a vida e virou estátua numa praça que seria construída algumas décadas depois, bem no coração de Londres – Trafalgar Square, justamente em homenagem ao triunfo militar sobre os franceses. Entre os combatentes do lado britânico estavam enormes contingentes de imigrantes, incluindo os marinheiros nascidos numa antiga colônia africana, a atual Somália. Para eles, porém, não sobraram memoriais ou honrarias. Os somalis formam uma das mais antigas e numerosas comunidades de imigrantes da Grã-Bretanha. São, também, alguns dos alvos preferidos dos grupos políticos favoráveis a um controle mais rigoroso da imigração no país. Durante esta Olimpíada, porém, o exército britânico na disputa por medalhas tem como uma de suas grandes armas um atleta nascido em Mogadíscio, criado no Djibouti e trazido a Londres apenas aos 8 anos, quando não falava uma só palavra de inglês. Mohammed Farah – que, na Inglaterra, virou “Mo” – foi campeão olímpico nos 10.000 metros rasos e tenta mais um ouro nos 5.000, cujas eliminatórias são disputadas nesta quarta. Muçulmano devoto, casado há dois anos, futuro pai de gêmeas – a mulher, grávida de oito meses, carregou o barrigão para a pista do Estádio Olímpico para abraçá-lo após a vitória espetacular de sábado – Farah foi questionado sobre se não tinha vontade de defender as cores da Somália na Olimpíada. “Olha, mate“, disse, usando uma expressão bem britânica, “o meu país é este aqui”.

Nesta terça, outro astro britânico do atletismo apareceu no Estádio Olímpico. Phillips Olaosebikan Idowu, filho de nigerianos, ex-campeão mundial do salto triplo e favorito a uma medalha em Londres, acabou saindo da disputa de forma prematura, derrotado logo nas eliminatórias. Idowu, 33 anos e vários piercings nas orelhas e no rosto, tentava se recuperar de uma lesão. Só não desistiu da prova porque é um dos ídolos do esporte britânico e uma das caras da Olimpíada, ilustrando outdoors espalhados por toda a cidade. O descendente de africanos só perde para a filha de um jamaicano no quesito exposição publicitária na capital olímpica. Jessica Ennis, rainha do heptatlo e queridinha da torcida, é o resultado do casamento de um negro caribenho com uma branca inglesa. Três protagonistas com histórias tão diversas são peças que se encaixam muito bem no roteiro destes Jogos. Na capital olímpica, convive-se o dia inteiro com indianos, paquistaneses, chineses, vietnamitas, marroquinos e, claro, brasileiros. Um entre cada oito habitantes da Grã-Bretanha é nascido em outro país – e essa proporção é ainda maior em Londres, a cidade mais cosmopolita da Europa. Como em qualquer metrópole de um país rico, ela vive entre as queixas de quem se incomoda com a presença dos estrangeiros e a certeza de que não conseguiria funcionar não fosse a mão de obra fornecida por eles. No decorrer dos Jogos, contudo, as reclamações de quem torce o nariz para o multiculturalismo da Londres atual andam sumidas. A Olimpíada, um microcosmo da glória e do drama humanos, ajudou a mostrar aos britânicos que, nas pistas como na vida, mais forte é a tropa com mais e melhores soldados.

 

.
.
..

Immigrant Song - Led Zeppelin, Led Zeppelin III (1970)

.

06/08/2012

às 20:21 \ Loja de Antiguidades

Exclusivo: foto de Joaquim Cruz com a atleta saudita

A Loja de Antiguidades de hoje inverte sua lógica. Começa com uma história do passado para depois amarrá-la a um fato do presente. O brasiliense Joaquim Cruz tem 48 anos de idade. Se houvesse uma Olimpíada de discrição e modéstia, certamente ele estaria sempre no pódio. Nada faz crer, ao vê-lo em Londres, a não ser pela altura (1,88 metro), e pelo fato de ser reconhecido por um ou outro inglês, que aquele mulato elegante e de voz pausada, com leve sotaque americano, é um dos maiores atletas da história olímpica – e certamente um dos grandes do Brasil. Joaquim ganhou a medalha de ouro nos 800 metros de 1984, em Los Angeles. Em 1988, em Seul, levaria a prata. Na prova americana estavam na pista o marroquino Said Aouita e o britânico Sebastian Coe, dois monstros sagrados. Coe é o presidente do Comitê Organizador de Londres 2012. Joaquim cruzou a linha de chegada com 1m43s00, recorde olímpico. Até hoje, a inteligência com a qual ele deu as duas voltas na pista são reverenciadas por quem gosta de atletismo. O próprio Coe tem aquela jornada como uma das mais espetaculares do atletismo. “Era um menino, estava com apenas 21 anos, mas sabia das minhas capacidades, tinha ótimo tempo, cheguei a Los Angeles como favorito”, diz o brasileiro, hoje morador de San Diego, na Califórnia, pai de dois filhos que gostam de basquete e mal sabem do significado imenso da trajetória do pai.

Joaquim, que nos últimos anos dedicou-se ao nobre trabalho de treinar atletas paraolímpicos dos Estados Unidos, desembarcou em Londres, nesta segunda-feira, ancorado em um novo feito histórico – ainda que ele o diminua, por modéstia. Joaquim é o treinador de Sarah Attar, representante da Arábia Saudita nos 800 metros rasos. Ela é uma das duas únicas esportistas do país a competir na atual Olimpíada. A outra é a judoca Wojdan Shaherkani, que na sexta-feira da semana passada fez apenas uma luta, perdeu, mas ganhou respeito mundial. A presença da dupla saudita em Londres é uma das marcas indeléveis dos Jogos de 2012. Sarah, a pupila de Joaquim, corria provas de longa distância. Vive desde pequena nos Estados Unidos, com os pais. Leva uma vida ocidental mas segue os preceitos religiosos muçulmanos. “Tive de treiná-la para os 800 metros, não é uma transição fácil, mas o mero fato de ela estar na Olimpíada já é magnífico”, afirma. Sarah, por imposição comportamental de seu país, terá de competir com um discreto hijab a cobrir sua cabeça. As fotos e vídeos dela correndo serão distribuídas e publicadas em todo o mundo. Quando a saudita entrar na pista do Estádio Olímpico para as eliminatórias de sua prova, na quarta-feira, haverá uma chuva de aplausos como a que recebeu o amputado das duas pernas, Oscar Pistorius. VEJA antecipa com exclusividade uma foto da parceria Joaquim e Sarah. O brasileiro treina também outra atleta dos 800 metros, a americana Alice Schmidt.

Sarah Attar com Joaquim Cruz

05/08/2012

às 17:04 \ Loja de Antiguidades

O Pistorius de 1904

George Eyser (no centro), atleta dos Jogos de 1904

George Eyser (no centro, de calças)

Os 400 metros atravessados pelo sul-africano Oscar Pistorius no início de noite deste domingo, em Londres – uma hora antes da prova mais esperada da Olimpíada, a de Bolt, Blake e companhia – provocou reverência e aplausos entre as 80.000 pessoas presentes ao Estádio Olímpico. Pistorius não conseguiu classificação entre os oito primeiros, foi o último em sua bateria semifinal, mas ninguém parecia muito interessado no resultado. Quando a imagem do atleta duplamente amputado apareceu no telão, depois da volta completa na pista, foi como se ele tivesse subido ao pódio. Os atletas adversários o procuravam por um abraço, um deles pediu sua camisa. Fotógrafos e cinegrafistas buscavam incansavelmente com suas lentes as próteses de fibra de carbono que ele usa desde 2004. Pistorius perdeu a metade das duas pernas aos 11 anos de idade, em decorrência de uma má formação óssea. “Foi um sonho que virou realidade”, disse, ancorado em um chavão pelo extraordinário feito. Discute-se, agora, qual será o legado de sua participação nos Jogos.  “As pessoas vão começar a tratar os deficientes físicos de modo menos preconceituoso”, dizia Anthony Stone, cadeirante, amante do atletismo. “Já não ficarão discutindo as diferenças entre nós e um sujeito apto, mas simplesmente o quão rápido um atleta, mesmo prejudicado, pode correr”. Há quem, na outra ponta, considere as próteses de Pistorius uma modalidade de doping tecnológico, por lhe conceder vantagem. Testes de laboratório comprovaram o contrário.

No atletismo, Pistorius é pioneiro, fez história e dela não sairá. Mas em 1904, nos Jogos de Saint Louis, um ginasta de origem alemã radicado nos Estados Unidos, George Eyser, fez algo ainda mais espetacular. Ganhou seis medalhas em um único dia de competição: três ouros, duas pratas e um bronze. Correu, saltou, deu show especialmente no cavalo sem alça, segundo relatos de jornais da época. Descobriu-se, depois, que escondia uma prótese de madeira na perna esquerda, debaixo de calças compridas. Ele tinha perdido o membro, atropelado por um trem.

Pistorius na semifinal deste domingo (Foto: Getty Images)

Pistorius na semifinal deste domingo (Foto: Getty Images)

05/08/2012

às 7:36 \ Um Conto de Duas Cidades

A perfeição está nos detalhes

Atletismo no Estádio Olímpico (Foto: Getty Images)

As atletas do heptatlo cumprem a etapa do salto em distância, quando o telão anuncia a primeira bateria dos 400m rasos. Na outra extremidade do estádio, as atletas do salto com vara participavam das eliminatórias. Depois dos 400 metros, é a vez dos 3.000 metros com obstáculos. Em seguida, chega a hora das eliminatórias dos 100 metros rasos, que acontecem ao mesmo tempo das provas do lançamento do dardo.

Em minha primeira experiência no Estádio Olímpico, tive a sorte de ver nomes como Usain Bolt, Yelena Isinbayeva, Jessica Ennis e Oscar Pistorius. Mas o que mais me chamou atenção não foi o desempenho dos atletas, e sim o das pessoas envolvidas na organização. A TV apresenta ao telespectador as estrelas do espetáculo, mas só quem assiste do estádio consegue ter a dimensão da infinidade de detalhes que envolvem o evento.

As competições de atletismo são a metáfora perfeita da complexidade de se organizar os Jogos Olímpicos. Nesse ponto, a Copa do Mundo parece algo infinitamente mais fácil de se realizar, apesar das múltiplas sedes. São tantas as funções que precisam ser desempenhadas ao mesmo tempo que parece um milagre que tudo dê certo.

Ou melhor, quase tudo. O mal estar gerado pela troca da bandeira da Coreia do Norte pela da Coreia do Sul, antes mesmo da abertura dos Jogos, foi um episódio embaraçoso para Londres 2012. Fica a lição para o Rio 2016: a de que receber os Jogos significa dedicar atenção a inúmeros detalhes – e de que um único descuido pode colocar tudo a perder.

03/08/2012

às 19:13 \ Loja de Antiguidades

Pietri, o maratonista de Conan Doyle. Elementar.

Imagine um Michael Phelps bem mais baixo, fraco até. Acrescente um bigodinho, um jeito de ser quase dickensiano, e pronto. Eis o primeiro atleta transformado em celebridade da história olímpica. Agora que começaram as provas de atletismo – as mais espetaculares e indeléveis, e sabendo que a maratona feminina acontecerá neste domingo – é hora desta Loja de Antiguidades revisitar o italiano Dorando Pietri, maratonista da Olimpíada de 1908, também realizada em Londres. A fama de Pietri rodou o mundo inteiro e quem ajudou a espalhá-la, sem Twitter ou Instagram, foi Arthur Conan Doyle, elementar, ninguém menos que o criador de Sherlock Holmes, personagem que nasceu com Um Estudo em Vermelho, de 1887. Conan Doyle trabalhava para o diário Daily Mail. Era um ótimo repórter, evidentemente já reconhecido pela literatura. Alguns dos relatos da aventura de Pietri na Londres do rei Eduardo VII e do primeiro-ministro Herbert Henry Asquith nasceram da pena do escritor.

“O grande desempenho do italiano não poderia nunca ter sido apagado das grandes marcas do esporte, seja lá qual for a decisão dos juízes”, escreveu Conan Doyle. Mas afinal, o que se deu com Pietri? Ele foi o primeiro a entrar no estádio White City, mas só conseguiu cruzar a linha de chegada amparado por dois juízes. No caminho, tinha tomado estricnina, então autorizada. A ajuda oficial resultou em sua desclassificação, e o americano Johnny Hayes acabou herdando o ouro. No dia seguinte, porém, a rainha Alexandra concedeu a Pietri um troféu em reconhecimento a seu esforço e uma simbólica medalha de prata. Aquela chegada, heroica, sim, antecipou em 70 anos e 90 anos, dois outros memoráveis episódios envolvendo a mais antiga das provas gregas. Em 1984, a suíça Gabrielle Andersen-Scheiss emocionou o mundo ao se arrastar, caindo, sem coordenação motora, até a linha de chegada no estádio olímpico de Los Angeles. Em 2004, o brasileiro Vanderlei Cordeiro de Lima foi derrubado e afastado para fora da pista por um fanático religioso quando liderava a prova. Chegou em terceiro lugar. Ambos são filhos de Dorando Pietri, o segundo mais famoso personagem de Conan Doyle depois de Sherlock Holmes.

No vídeo a seguir (com narração em japonês), a chegada da suíça Gabrielle Andersen-Scheiss em Los Angeles-1984:

Abaixo, a agressão do ex-padre irlandês a Vanderlei, em Atenas-2004:

10/07/2012

às 10:57 \ As estrelas de 2012, Diário Olímpico

As estrelas de 2012: Oscar Pistorius

Ele dificilmente subirá ao pódio em Londres 2012. Não é impossível, mas a julgar pelas marcas de sua carreira, é improvável que consiga ir muito além das eliminatórias. O resultado, porém, pouco importa: a simples presença do sul-africano Oscar Pistorius nas provas dos 400m rasos e revezamento 4x400m farão das primeiras baterias uma atração tão grandiosa quanto as finais.

Nascido sem as fíbulas devido a uma doença congênita, Pistorius teve as pernas amputadas abaixo dos joelhos aos 11 meses de idade. O que poderia ter sido uma limitação prematura e definitiva de seus movimentos mostrou-se um obstáculo contornável com o uso de próteses. O garoto praticou rugby, pólo aquático e tênis, mas encontrou na corrida seu esporte, aos 16 anos

Em Atenas 2004, aos 17, Pistorius participou dos Jogos Paralímpicos na categoria T44. Conquistou ouro nos 200m e bronze nos 100m rasos. Seu desempenho extraordinário, próximo ao de atletas olímpicos, logo gerou controvérsia sobre suas próteses: elas ajudariam ou não seu desempenho?

Em 2007, um estudo científico da Universidade de Colônia, na Alemanha, concluiu que Pistorius usa 25% menos energia que um atleta comum. No início do ano seguinte, a Federação Internacional de Atletismo (IAAF) proibiu o atleta de participar das competições da entidade, inclusive os Jogos de Pequim 2008.

Pistorius recorreu ao Tribunal Arbitral do Esporte (TAS), que lhe deu razão pelo fato de que o estudo não levava em conta sua desvantagem no momento da largada. O atleta não conseguiu, no entanto, o índice necessário para competir nos Jogos Olímpicos de Pequim, mas esteve presente nos Jogos Paralímpicos e conquistou três ouros, nos 100m (veja o vídeo abaixo), 200m e 400m rasos.

Mas o sul-africano tinha planos mais ambiciosos para Londres 2012, quando pretendia participar dos Jogos Olímpicos e Paralímpicos. O primeiro grande passo foi dado no Mundial de Atletismo de Daegu em 2011, quando chegou às semifinais dos 400m e ganhou a prata com a equipe de seu país no revezamento 4x400m – Pistorius não correu a final, mas participou da semifinal.

Neste ano, o atleta viveu a longa expectativa de conseguir o índice olímpico. Apesar de não ter conseguido repetir a marca necessária até o último fim de semana, prazo final para a classificação, Pistorius foi chamado para defender a África do Sul no revezamento 4x400m. Posteriormente, o comitê sul-africano acabou convocando-o para participar também da competição individual dos 400m.

A generosidade dos sul-africanos ao rever o critério de classificação pode ser alvo de críticas, mas elas seguramente não partirão da organização de Londres 2012 e do Comitê Olímpico Internacional. Afinal, se o mote desta edição dos Jogos é utilizar o esporte como inspiração para que a população se torne fisicamente ativa, é difícil pensar em um exemplo de esforço e superação melhor que Pistorius.

 

Serviços

 

Assinaturas



Editora Abril Copyright © Editora Abril S.A. - Todos os direitos reservados