12/11/2012
às 8:05 \ Ponte Aérea Londres-RioAinda à espera de uma estrela no atletismo
Com 47 provas – 24 masculinas e 23 femininas -, o atletismo é a modalidade que mais medalhas distribui em uma edição de Jogos Olímpicos: 141, entre ouros, pratas e bronzes. Em Londres, elas foram divididas por 33 países. O Brasil não conquistou nenhuma. Um mau sinal para quem que vai sediar os próximos Jogos, em 2016. O atletismo, afinal, é a estrela máxima de uma Olimpíada. É na hora de ver os corredores mais rápidos, os saltadores que chegam mais longe ou mais alto e os lançadores mais fortes que o mundo prende a respiração. E as marcas de atletas individuais expõem para o mundo esforços coletivos no desenvolvimento de modalidades e na lapidação de talentos olímpicos.
Em Londres, a notável Jessica Ennis e o incansável Mo Farah, estrelas máximas do atletismo britânico, monopolizaram todos os outdoors e capas de jornais. Ela, a garota de ouro no heptatlo; ele, nascido na Somália, filho de pai inglês com mãe somali, com sua dupla vitória olímpica, nos 5.000 metros e nos 10.000 metros. Os dois levaram os ingleses no Estádio Olímpico às lágrimas e aos gritos, e acabaram contagiando os amantes de esporte de todas as nacionalidades. A Inglaterra ainda conquistou um quarto ouro no salto em distância, com Greg Rutherford, uma prata nos 400m, com Christine Ohuruogu, e um bronze no salto em altura, com Robert Grabarz.
Seis medalhas, o suficiente para alegrar os britânicos e para deixar o país atrás apenas dos Estados Unidos, da Rússia e da Jamaica, potências do atletismo. O torcedor brasileiro – assim como patrocinadores – se perguntam: quem será a alegria da torcida brasileira nos Jogos do Rio, daqui a quatro anos?
“Embora não tenha conquistado medalha em Londres 2012, o atletismo brasileiro tem uma tradição de presença no pódio olímpico. A modalidade integra a expectativa de conquista de medalhas no Rio 2016. Neste momento estamos em discussões com a CBAt (Confederação Brasileira de Atletismo) sobre o plano estratégico para o próximo ciclo, quando poderemos identificar mais claramente a capacidade e o potencial de evolução de resultados olímpicos da modalidade”, diz o superintendente-executivo do Comitê Olímpico Brasileiro (COB), Marcus Vinícius Freire.
O dirigente se refere às 14 medalhas conquistadas pelo atletismo brasileiro entre os Jogos de Helsinque (1952) e Pequim (2008), incluindo os dois ouros de Adhemar Ferreira da Silva (1952 e 1956) no salto triplo, o de Joaquim Cruz (1984) nos 800 metros e o de Maurren Higa Maggi (2008) no salto em distância. Apesar do histórico, faltam perspectivas. Maurren mostrou em Londres que seu tempo passou. O revezamento 4 x 100 metros masculino, que chegou a conquistar o bronze em Atlanta (1996) e a prata em Sydney (2000), dessa vez não chegou à final. Também não apareceu nenhum jovem que chamasse a atenção, em nenhuma prova.
“Não temos um programa organizado para identificar atletas no Brasil. Não temos treinadores capacitados. Não temos base nas escolas. O COB tem as Olimpíadas Escolares, que é um bom programa. Mas elas deveriam ser o final de um processo de base. Primeiro deveriam ser oferecidos os esportes nas escolas, com estrutura e calendário organizado, para dali serem selecionados atletas bem treinados e talentosos para disputarem as Olimpíadas Escolares. O Brasil não tem isso”, avalia Joaquim Cruz, há sete anos funcionário do Comitê Olímpico Americano (USOC), como membro da comissão técnica do atletismo olímpico e paralímpico (relembre, no vídeo abaixo, sua vitória olímpica em Los Angeles).
A grande maioria das escolas brasileiras sequer possui um espaço para a prática da educação física. Entre as que têm, a maior parte conta apenas com uma quadra, onde basicamente se joga futsal, vôlei e handebol. Para Joaquim, isso precisa mudar já se o país quer reverter esse quadro no atletismo. “Tenho uma sobrinha que tem cinco filhos e uma que tem seis. Nenhum dos 11 pratica esporte em suas escolas. Se a criança não recebe educação esportiva, como vai ter oportunidades de descobrir se é um talento? Temos que dar novas oportunidades para a nova geração. Para 2016, temos que continuar a trabalhar com os atletas que foram em Londres e investir em alguns juvenis, porque não há mais tempo de achar um talento e prepará-lo. Mas há tempo para 2020 e daí para frente”, acredita o medalhista olímpico.
Marcus Vinícius Freire concorda que há uma deficiência na base. “Há vários ‘países’ dentro do Brasil, com estruturas, características e biótipos diferentes de atletas em cada região. Portanto, sabemos que não é fácil integrar em um mesmo projeto todas essas necessidades de treinamento e competição das mais diferentes provas do atletismo. Necessitamos certamente ampliar a base de entrada de novos praticantes da modalidade, e através de uma estrutura consistente de treinadores e equipamentos, e identificar e trabalhar um maior número de potenciais atletas para esse esporte”, afirma.
Uma mudança já vai acontecer, a partir de 1º de janeiro: depois de 25 anos seguidos, Roberto Gesta de Melo deixa o comando da CBAt. No entanto, quem assume é José Antonio Martins Fernandes, candidato único e com apoio total do atual mandatário. É esperar para ver o que o novo presidente conseguirá fazer até 2016.
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