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Arquivo da categoria Um Conto de Duas Cidades

13/08/2012

às 4:20 \ Um Conto de Duas Cidades

O que faz uma grande Olimpíada?

Os Jogos de Sydney-2000 foram marcados por um erro da organização que beira o absurdo. Nas competições de ginástica artística, uma sequência de quedas de atletas no salto sobre a mesa causou estranhamento. Foi apenas no meio da competição que se descobriu o motivo da quantidade incomum de falhas: o aparelho havia sido posicionado 5 centímetros abaixo da altura oficial. As atletas tiveram a chance de repetir o salto, mas para algumas o prejuízo físico ou psicológico já estava consumado.

Você, leitor, lembrava-se desse episódio? Pois eu confesso que havia me esquecido completamente, até assistir há alguns dias a um programa da BBC. Foi um grave descuido que poderia e deveria ter sido evitado, mas é natural que erros aconteçam em um evento tão complexo de se organizar como os Jogos Olímpicos. A lembrança que fica na memória é que Sydney organizou uma das melhores edições de todos os tempos.

Londres-2012 passa a ser uma excelente concorrente entre as cidades-sede mais bem-sucedidas. Também houve erros da organização – como a troca da bandeira da Coreia do Norte pela Coreia do Sul, ou os assentos vazios em grande parte dos locais de competições. Mas no geral, a Olimpíada foi praticamente impecável. Os turistas se sentiram bem recebidos, o transporte público funcionou bem, as arenas ofereceram conforto mesmo sendo em boa parte temporárias. E para completar, os atletas da Grã-Bretanha tiveram uma performance fantástica, ajudando a elevar o apoio popular.

Realizar uma boa Olimpíada logo após Londres não será uma tarefa fácil para o Rio de Janeiro. A posição do Brasil no quadro de medalhas será modesta como sempre – mas isso é de certa forma esperado, e não deverá afetar o ânimo da torcida da casa e a percepção do público internacional. As instalações olímpicas também não serão problema, uma vez que provavelmente terão o mesmo nível das de Londres. Erros de organização, como os de Sydney e Londres poderão acontecer, mas não será isso o que ficará na lembrança das pessoas.

Uma grande Olimpíada também é feita de atletas, estádios, recordes, conquistas e momentos de superação. Mas para mim o que faz mesmo uma grande Olimpíada é uma grande cidade, um lugar prazeroso de se viver e visitar. É o que Barcelona, Sydney e Londres têm em comum, e que o Rio de Janeiro provavelmente não alcançará em quatro anos. A festa da torcida brasileira será inigualável, mas a maior e mais duradoura alegria seria ver o Rio de Janeiro usar a Olimpíada como o marco de transformações mais profundas, que a façam merecer de verdade a alcunha de cidade maravilhosa.

11/08/2012

às 7:29 \ Um Conto de Duas Cidades

O som da Olimpíada

Era só haver uma pausa nas partidas de vôlei de praia para que os voluntários encarregados de ajeitar a areia próximo às linhas entrassem em quadra. Era a senha para que o DJ da arena colocasse a música Mr. Sandman, do quarteto The Chordettes, ou Enter Sandman, da banda Metallica, arrancando risos da plateia. Nos intervalos, um grupo de jovens com trajes (não tão) mínimos faziam performances para o público.

Na arena de basquete, a bola mal para e os alto falantes começam a tocar um repertório variado, de músicas que tocam em qualquer balada a clássicos do rock. We Will Rock You, do Queen é sem dúvida a que mais se repete – pela interação que promove com o público. Em alguns momentos, cheguei a achar que as intervenções do DJ eram frequentes e altas demais – gostaria de ouvir a opinião dos atletas a respeito. Para o público, não tenho dúvida de que é divertido.

O fato de a cultura musical inglesa ter se expandido por todo o mundo contribui para que espectadores de toda parte se identifiquem com o som das cerimônias e competições de Londres 2012. E em 2016, qual será a estratégia do Rio de Janeiro? Temos uma cultura extremamente rica e diversa, grandes nomes de nossa música, mas nenhum da envergadura de um Paul McCartney. Aliás, como ele ninguém além dos britânicos tem. Quem representaria melhor a cultura brasileira numa cerimônia de abertura? Caetano Veloso ou Ivete Sangalo? Zeca Pagodinho ou Roberto Carlos?

Da Copa do Mundo da África do Sul, em 2010, veio um bom exemplo de como a seleção musical pode se tornar uma questão espinhosa. Muitos sul-africanos ficaram insatisfeitos com o fato de a música oficial do torneio ter ficado a cargo da colombiana Shakira, e não de um artista africano. O álbum oficial da Copa tentava conciliar artistas internacionais e locais.

Esta muito provavelmente será a solução adotada em 2016, uma vez que nossa música ainda não tem uma estrela de brilho global. A não ser, é claro, que Michel Teló prove nos próximos quatro anos que seu sucesso internacional não era tão passageiro como se imaginava.

10/08/2012

às 7:24 \ Um Conto de Duas Cidades

Os Jogos e as redes

Bolt tuitou uma foto dele com três atletas suecas do handebol horas depois de vencer os 100 metros rasos

Bolt tuitou uma foto dele com três suecas do handebol horas depois de vencer os 100 metros

Há tempos havia a expectativa de que os Jogos de Londres 2012 fossem os primeiros em que as mídias sociais desempenhassem um papel importante. Não que elas não existissem em Atenas 2004 ou Pequim 2008, mas seguramente ainda não tinham o mesmo alcance e relevância.

A previsão se cumpriu, como era de se esperar. Em Londres 2012 as mídias sociais têm ocupado uma espaço importante do noticiário, muitas vezes pautando outros veículos de comunicação. Na semana que antecedeu a cerimônia de abertura, um usuário relatou ter passado por um protesto de taxistas próximo à Tower Bridge. Em alguns minutos, equipes de TV foram deslocadas até o local.

Ainda antes do início dos jogos, a atleta Voula Papachristou foi excluída dos Jogos pelo Comitê Olímpico Grego por ter feito uma piada de conotação racista. O pedido de desculpas veio tarde demais.

Na primeira semana de competições, quando o britânico Tom Daley e seu parceiro ficaram em quarto lugar no salto sincronizado, um usuário fez um comentário de mau gosto sobre a pai do atleta, que morreu no ano passado. Não demorou para que ele fosse identificado.

Os exemplos são inúmeros, e nem é preciso ir tão longe. A judoca brasileira Rafaela Silva discutiu com usuários que a ofenderam após sua desqualificação. Há também quem atribua o mau desempenho de Diego Hypólito ao fato de que ele estaria dedicando tempo demais às redes sociais.

A grande ironia é que o Comitê Olímpico Internacional (COI) tem feito esforços para limitar ao máximo as interações entre atletas e usuários. Há regras explícitas que proíbem a publicação de fotos e vídeos por parte de voluntários e até da torcida, mas é praticamente impossível manter o controle sobre tamanha produção de conteúdo.

A Rio-2016 será mais bem sucedida se entender que o desafio não será desenvolver estratégias mais eficientes para conter o uso das redes sociais, e sim pensar em estratégias para usá-las a favor dos Jogos.

08/08/2012

às 13:33 \ Um Conto de Duas Cidades

Mascotes em extinção

Sediar a Olimpíada logo após Londres não será uma tarefa fácil para o Rio de Janeiro. A lembrança de tudo o que tem funcionado bem na capital inglesa fará constante sombra à organização carioca, que em muitos casos não terá como concorrer com os londrinos.

Mas há um aspecto em que o Rio de Janeiro pode superar os britânicos com facilidade: a mascote das Olimpiadas. Londres é, na minha opinião, uma das edições dos Jogoscom as mascotes mais insossas de todos os tempos: Wenlock, para os Jogos Olímpicos e Mandeville para os Paralímpicos. Ambos são animações definidas pela organização como “gotas de aço que possuem uma câmera como olho”. Não me surpreende que a procura por visitas das mascotes em escolas britânicas tenha sido baixa.

Na verdade, foram poucas as mascotes ao longo da história que de fato tiveram algum destaque. A primeira Olimpíada a contar com mascotes foi a de Cidade do México 1968 – uma pomba e um jaguar que sequer ganharam nomes. A mais bem-sucedidas nesse critério foi Moscou 1980, com seu ursinho Misha. Animal símbolo da União Soviética, ele teve participações marcantes nas cerimônias de abertura e encerramento, quando um mosaico o fez chorar ao fim dos Jogos.

A ultima mascote a experimentar certa fama foi o cãozinho desenhado em estilo cubista Cobi, de Barcelona 1992, que ganhou até seu próprio desenho animado. Em Atlanta 1996, a mascote foi uma forma abstrata chamada Izzy, e desde Sidney 2000, todas as cidades-sede decidiram ter múltiplas mascotes – em Pequim 2008 foram cinco. Alguém se lembra o nome de algum deles? Acho improvável.

A mascote olímpica do Rio 2016 ainda não foi escolhida, mas já existe campanha para que seja um macaco da espécie muriqui, que esta ameaçada de extinção – o que me parece uma boa escolha. A decisao pode parecer algo secundário perto de outras prioridades das quais a organização tem que dar conta, mas uma boa mascote pode garantir que os Jogos tenham maior apelo junto as crianças e ajudem a criar uma memória positiva do evento. O Rio 2016 poderá ser lembrado como a Olimpíada que salvou as mascotes da extinção.

07/08/2012

às 16:20 \ Um Conto de Duas Cidades

Os erros da venda de ingressos

Se há uma lição que deve ser aprendida pelo Rio 2016 com os Jogos de Londres 2012 é não repetir o desastroso sistema de vendas de ingressos. Muito antes do inicio dos Jogos, boa parte da insatisfação popular com a realização da Olimpíada poderia ser atribuída ao fato de que o sistema não era exatamente transparente, e deixou muitos britânicos sem entradas. Com o início das competições, as cadeiras vazias, que deveriam ser ocupadas por convidados VIPs e patrocinadores aumentaram a fúria da opinião pública.

Nesta terça-feira, tive a oportunidade de experimentar dois dissabores relacionados à venda dos bilhetes, que são pequenos exemplos de erros da organização. Há pouco mais de um mês, havia conseguido comprar três ingressos para a primeira sessão das quartas de final do basquete masculino. Assistiria ao confronto entre o primeiro colocado do grupo A e o quarto do Grupo B e o segundo do B contra o terceiro do A. Só depois que comprei os ingressos e que me dei conta de que havia grande possibilidade de ver Estados Unidos e Brasil em ação.

O que era possível ontem se tornou realidade. Com os últimos resultados da primeira fase, meus humildes ingressos para o pior dos setores do ginásio me dariam direito a assistir a dois jogos históricos – Estados Unidos x Austrália e Brasil x Argentina. Comuniquei a meus amigos a boa noticia, voltei para casa já ansioso pela chegada da quarta-feira, quando veio a noticia que jamais esperaria ouvir: a agenda das quartas de final fora alterada. De repente, teria que me contentar com Rússia x Lituânia e França x Espanha.

Restava-me pouco além de insatisfação com a mudança, uma vez que o comité organizador deixa claro em seu site que tem direito a mudar a agenda dos eventos. Mas não deixa de ser um desrespeito ao torcedor. Eu já estaria em Londres de qualquer maneira, mas e o torcedor americano, russo ou brasileiro que viajou programando-se para assistir a uma eventual partida de seu time?

Por sorte, consegui descobrir pelo twitter duas torcedoras lituanas que estavam na mesma situação e queriam trocar seus ingressos. Marcamos um local de encontro e só quando cheguei lá me dei conta de outra trapalhada da organização: alguns dos ingressos foram impressos com tamanho e design completamente diferentes da maioria – e esse era o caso dos bilhetes. Já havia notado esse problema e tentado obter uma explicação pela assessoria de imprensa do comitê, mas não obtive resposta. Tive um imenso trabalho para convencer as lituanas de que não se tratavam de bilhetes falsos.

Do ponto de vista da organização, a venda de ingressos para os Jogos pode ter sido um sucesso, com vários bilhetes esgotados meses antes das competições. Mas não são poucos os exemplos de que Londres 2012 esqueceu-se de ter um pouco mais de cuidado com uma figura muito importante nos Jogos: o torcedor.

07/08/2012

às 11:15 \ Um Conto de Duas Cidades

O momento de calar e de aplaudir

O caso estava estampado em todos os jornais ingleses na segunda-feira: um dos momentos mais aguardados dos Jogos Olímpicos por pouco não foi atrapalhado por um torcedor que não soube se comportar. A poucos segundos da largada da final dos 100 metros rasos, um torcedor atirou uma garrafa de plástico próximo aos atletas.

Tivesse ocorrido no Brasil, o episódio teria sido motivo de críticas ferozes – e se tornaria mais um argumento para quem acredita que o país não tem condições de sediar grandes eventos. O que, em minha opinião, seria uma avaliação precipitada, pelos motivos errados. Casos como o de ontem podem acontecer em qualquer lugar do mundo, independentemente do país que sedia o evento. Mas uma observação do comportamento da torcida britânica pode render uma boa reflexão sobre como nós, brasileiros, agiremos em 2016.

Já tive a oportunidade de acompanhar diversas partidas de clubes de futebol inglês, e afirmo sem medo algum de errar que a festa feita pelas torcidas brasileiras é muito maior – tanto nos estádios como fora deles. Nesse ponto, não tenho dúvida de que qualquer europeu ficará encantado com a paixão com que os brasileiros torcem na Copa de 2014, por exemplo.

Olimpíada, porém, é outra história. No futebol ou vôlei os atletas estão acostumados a motivar-se com o apoio de seus torcedores e a suportar a vaia dos rivais. Por outro lado, nas competições de natação, ginástica ou atletismo há momentos em que o silêncio é fundamental. Antes da largada dos 100m rasos, por exemplo, o telão do Estádio Olímpico pediu silêncio à torcida – e o pedido foi prontamente atendido, exceção feita ao fatídico lançamento de garrafa.

Mas além de saber o momento certo de calar, a torcida britânica tem outra virtude que pode ser aprendida pelos brasileiros: a de saber o momento de aplaudir, mesmo quando se trata de um adversário. No Pan de 2007, algumas vaias a atletas de outros países que disputavam medalhas com brasileiros foram motivo de constrangimento. Em 2016, a torcida brasileira tem a chance de se redimir, mostrando que pode fazer uma festa ainda mais calorosa sem cair no desrespeito aos atletas.

05/08/2012

às 14:44 \ Um Conto de Duas Cidades

A Olimpíada mais verde da história

Não é a primeira vez que a expressão acima é usada por uma sede olímpica, e tampouco será a última. Desde que a sustentabilidade tornou-se entrou na pauta do Comitê Olímpico Internacional, nos anos 90, algumas cidades reclamaram para si o título de organizadoras dos Jogos Olímpicos que melhor cuidaram do tema. Sidney 2000 foi a primeira a fazê-lo com relativo sucesso, enquanto sua sucessora Atenas 2004 atrapalhou-se com os atrasos nas obras e teve que relegar a sustentabilidade a segundo plano. Pequim 2008, por sua vez, não manifestou muita preocupação com o tema.

Londres 2012 faz questão de afirmar que se trata da edição mais verde dos Jogos Olímpicos – e tem bons argumentos para isso. De fato, nenhuma outra cidade-sede tratou de incluir o tema tão cedo em pauta. O simples fato de a cidade ter transformado uma área degradada, de solo contaminado, em um parque olímpico repleto de áreas já é digno de aplausos. Na construção de boa parte das instalações foram utilizados materiais reciclados, ou adotaram-se soluções para reduzir o uso de energia: na Arena de Handebol, há 88 tubos que direcionam luz natural para a quadra. Sobre o Velódromo, há um mecanismo para coletar a água da chuva e reaproveitá-la nos banheiros e na irrigação do entorno.

De Londres 2012 é possível tirar lições positivas, mas uma observação mais cuidadosa mostra que muito ainda pode ser corrigido. O grande erro da organização foi ter estabelecido metas demasiado ambiciosas, que mais tarde mostraram-se difíceis de ser cumpridas. O projeto inicial, por exemplo, era que 20% de toda a energia usada no Parque Olímpica fosse de origem renovável. Ao fim, o número caiu para 9%. A ideia de instalar uma turbina eólica no local também foi abortada.

A cidade também foi a primeira a criar a categoria comercial “parceiros de sustentabilidade”, permitindo que seis de seus patrocinadores associassem suas marcas à causa ambiental. A escolha dos parceiros, no entanto, gerou inúmeras críticas, devido ao histórico de alguns deles – como a companhia petrolífera BP, responsável pelo vazamento de óleo no Golfo do México em 2010. Entre os parceiros também está a BMW, que inicialmente havia prometido uma frota de veículos elétricos e híbridos. Na verdade, apenas 200 dos 4000 carros são movidos a energia sustentável. O uso de bicicletas, que poderia ter sido incentivado no Parque Olímpico, também acabou sendo deixado de lado.

Dada a importância do Brasil quando se trata de sustentabilidade, evidenciada pela repercussão recente do novo código florestal, a organização do Rio 2016 seguramente terá que apresentar boas soluções no que diz respeito ao tema. Ainda há tempo para observar os erros e acertos de Londres, para amadurecer melhor a ideia de como realizar uma Olimpíada genuinamente verde.

05/08/2012

às 7:36 \ Um Conto de Duas Cidades

A perfeição está nos detalhes

Atletismo no Estádio Olímpico (Foto: Getty Images)

As atletas do heptatlo cumprem a etapa do salto em distância, quando o telão anuncia a primeira bateria dos 400m rasos. Na outra extremidade do estádio, as atletas do salto com vara participavam das eliminatórias. Depois dos 400 metros, é a vez dos 3.000 metros com obstáculos. Em seguida, chega a hora das eliminatórias dos 100 metros rasos, que acontecem ao mesmo tempo das provas do lançamento do dardo.

Em minha primeira experiência no Estádio Olímpico, tive a sorte de ver nomes como Usain Bolt, Yelena Isinbayeva, Jessica Ennis e Oscar Pistorius. Mas o que mais me chamou atenção não foi o desempenho dos atletas, e sim o das pessoas envolvidas na organização. A TV apresenta ao telespectador as estrelas do espetáculo, mas só quem assiste do estádio consegue ter a dimensão da infinidade de detalhes que envolvem o evento.

As competições de atletismo são a metáfora perfeita da complexidade de se organizar os Jogos Olímpicos. Nesse ponto, a Copa do Mundo parece algo infinitamente mais fácil de se realizar, apesar das múltiplas sedes. São tantas as funções que precisam ser desempenhadas ao mesmo tempo que parece um milagre que tudo dê certo.

Ou melhor, quase tudo. O mal estar gerado pela troca da bandeira da Coreia do Norte pela da Coreia do Sul, antes mesmo da abertura dos Jogos, foi um episódio embaraçoso para Londres 2012. Fica a lição para o Rio 2016: a de que receber os Jogos significa dedicar atenção a inúmeros detalhes – e de que um único descuido pode colocar tudo a perder.

03/08/2012

às 15:13 \ Um Conto de Duas Cidades

A polícia cordial

Eu já morava em Londres há sete meses quando recebi a visita de meus pais. Certa noite estava com eles em um restaurante na região central de Londres, quando dois policiais armados entraram no local. Não havia nada de errado, eles queriam apenas uma porção de fish and chips. Mas a presença das armas naquele local me incomodou, porque imaginei que meus pais se sentiriam intimidados.

Para minha surpresa, eu era o único incomodado entre os três. Levei um tempo para perceber que ver policiais e seguranças armados nas ruas é parte de nossa rotina no Brasil. Em Londres, a maior parte dos policiais não carrega armas de fogo. O simples fato de haver policiais armados no aeroporto de Heathrow e em instalações olímpicas foi motivo de críticas na imprensa inglesa – que já havia criticado a presença ostensiva de militares no Parque Olímpico de Pequim 2008.

A polícia inglesa está evidentemente longe da perfeição. Basta lembrar o caso do brasileiro Jean Charles de Menezes, morto em 2005 em uma operação equivocada da Scotland Yard. No ano passado, a morte de um homem pela polícia no norte de Londres foi o estopim para tumultos em toda a cidade. Mas as notícias que chegam do Brasil sobre abusos e equívocos policiais – e sobretudo os que sequer viram notícia – não nos deixam em condição muito confortável para julgar a competência dos ingleses.

O que mais me chama atenção, porém, é a maneira como a relação entre os policiais e a população se dá em um nível bem mais cordial por aqui, sem a mesma conotação autoritária. Os britânicos não temem ou evitam os policiais, sabem que podem contar com eles para pedir ajuda ou informação sem medo algum. E o mesmo vale para os turistas, que frequentemente pedem até para tirar fotos com os policiais – algumas em situações inusitadas, como a brasileira acima simulando uma prisão.

Nos Jogos do Rio 2016, os policiais terão a importante função de garantir a segurança dos Jogos. Mas é preciso ter em conta que eles também serão vistos pelo turistas como uma referência segura – e que precisam ser capacitados e treinados para isso. A ideia de uma polícia desarmada no Brasil ainda parece utópica, mas por enquanto não custa pensar em pelo menos um pouco mais de cordialidade.

02/08/2012

às 17:47 \ Um Conto de Duas Cidades

O legado esportivo dos Jogos

Uma frase está estampada em toda parte nas instalações olímpicas de Londres 2012: “Inspire a generation”. Escolhido 100 dias antes do início dos Jogos, o slogan reflete uma das justificativas que o comitê organizador (LOCOG) utilizou para investir bilhões de libras no evento. Além de recuperar a região leste de Londres, os Jogos Olímpicos serviriam para inspirar os britânicos a praticarem mais esportes. As imagens de atletas conquistando medalhas levariam as crianças a querer imitá-los.

Não há nenhum estudo, porém, que comprove que receber os Jogos Olímpicos torne a população da cidade ou país sede mais fisicamente ativa. Em alguns casos, como Sideny 2000, registrou-se o contrário: a grande oferta de competições na TV faz com que a população troque atividades físicas por mais tempo no sofá de casa. Havia a expectativa que os Jogos ajudassem a tornar esportes como o handebol mais popular entre os australianos. O interesse, porém, acabou com o fim dos Jogos.

No caso de Londres 2012, o comitê organizador chegou a quantificar seu objetivo: tornar 2 milhões de britânicos mais ativos com a Olimpíada. Meses antes da abertura, porém, admitiu-se que a meta era demasiadamente ambiciosa. Ainda assim, chamou-me a atenção o discurso afinado de vários atletas com o slogan dos Jogos. Em entrevistas após suas competições, vários deles têm usado o discurso de que o mais importante é inspirar futuras gerações.

A quatro anos do início dos Jogos de 2016, é improvável que o Rio de Janeiro utilize o legado esportivo como justificativa para receber o evento. Até aqui, o desempenho dos atletas brasileiros em Londres não pode ser considerado muito diferente que o das últimas edições dos Jogos. A meta do COB de igualar as 15 medalhas de Pequim 2008 não será facilmente atingida, apesar do maior investimento que o esporte brasileiro tem recebido desde então. Por ora, nada indica que a performance brasileira em 2016 será espetacular.

 

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