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Arquivo da categoria Torre de Londres

11/08/2012

às 18:21 \ Torre de Londres

O futuro do menino de prata

Perdida mais uma vez a medalha de ouro no torneio olímpico de futebol, nas circunstâncias que todos viram pela televisão, chegou a hora de olhar para o futuro de Neymar. Depois de ter falhado na Copa América no ano passado, ele foi para a Inglaterra com seus dezessete companheiros de equipe em meio a algumas dúvidas inquietantes.

Voltaria a exibir o talento e a capacidade de desequilibrar partidas que mostrou no Santos em 2010 e 2011, ou continuaria irregular como em boa parte desta temporada? Teria dominado seu gênio impulsivo e os faniquitos de garoto mimado, resistindo às pressões em uma competição na qual para o Brasil interessava apenas o título, ou voltaria a perder a cabeça em momentos decisivos e daria razão a Maradona, que certa ocasião o chamou de “menino mal educado”? Insistiria em simular faltas ou iria para o caminho mais difícil, e eficaz, de prosseguir na jogada em direção ao gol? Com um rendimento mensal estimado em 3 milhões de reais, graças sobretudo a seus dez patrocinadores principais, teria perdido um pouco da motivação para buscar árduos desafios? E, finalmente, deixaria de lado as jogadas de efeito, o individualismo – o que levou Pelé a afirmar que ele andou jogando “mais para a torcida e para a televisão do que para o time” –, e passaria a se preocupar com sua participação coletiva?

Dias antes de embarcar para Londres, o treinador Mano Menezes, que ao assumir o cargo, há dois anos, convocou-o pela primeira vez para a seleção principal, refletia sobre essas questões. “O problema do Neymar foram os dois jogos em que enfrentou Messi”, analisou em uma conversa com VEJA, citando as partidas em que o Santos foi goleado pelo Barcelona por 4 a 0, na decisão do mundial de clubes, em dezembro, no Japão, e o Brasil perdeu para a Argentina por 4 a 3, em um amistoso disputado em junho nos Estados Unidos. Na primeira, o supercraque argentino Lionel Messi marcou dois gols. Na segunda, três. Em ambas, foi arrasador e brilhante, enquanto Neymar teve atuações discretas. “Perder, tudo bem, faz parte”, Mano continuou em sua análise. “O ponto é que ficou clara a diferença técnica que existe entre os dois no momento. Ele, que estava até sendo comparado ao Pelé, sentiu o baque.”

O que fazer dentro dessa situação? “Ele vai precisar de psicologia, de carinho, para erguer a cabeça”, respondeu o técnico. “E focar mais no futebol. Um jogador deve realizar treinamentos técnicos e coletivos, alimentar-se corretamente e repousar. Não pode se dispersar e aceitar todos os contratos de publicidade que lhe aparecem, inclusive os pequenos. As gravações de comercial são repetitivas, longas. Ele não precisa mais se submeter a certas coisas. Tem quer ser seletivo.”

Na Inglaterra, isolado nos hotéis da seleção, sem agentes e empresários ao seu redor, longe do iate avaliado em 15 milhões de reais e do assédio feminino, em companhia apenas do pai nas horas de folga, queixando-se de saudades somente de David Lucca, o filho que teve em um relacionamento passageiro e fará 1 ano este mês, a ficha de Neymar da Silva Santos Júnior enfim caiu. Percebeu que estava diante de uma oportunidade extraordinária e talvez não repetível em sua ainda curta trajetória, iniciada como profissional há três anos.

Diferentemente do que aconteceu nos mais recentes fracassos do futebol brasileiro nas Olimpíadas, em que as esperanças se concentravam nos pés de craques convocados dentro da cota de mais de 23 anos, como Rivaldo, Bebeto e Ronaldinho Gaúcho, ou com a faixa de campeão mundial, caso de Ronaldo em 1996, agora foi Neymar, aos 20 anos, o escalado para o papel de protagonista. Com seu corpo esguio de 1,74 metro (sete centímetros a mais do que Messi) e 64 quilos, não evitou o cai-cai. Foi vaiado pelos ingleses. Mas moderou nas encenações. Evitou reclamar além da conta e dominou a impulsividade. Não tomou cartão amarelo. E o fundamental: nos estádios de Cardiff, Manchester e Newcastle, empenhou-se em mostrar espírito coletivo nos cinco jogos antes da final em Wembley.

Na verdade, não tinha outro caminho: a dura e eficiente marcação dos adversários, que já conheciam o estilo e as manhas do camisa 11, diminuiu suas possibilidades de driblar, fazer firulas e tentar resolver as coisas sozinho. O resultado pôde ser medido em números. Até a triste derrota para o México por 2 a 1, em que esteve tão apagado como quase todo resto do time, havia marcado três gols – de cabeça, de falta e de pênalti – e participado diretamente de outros quatro. Ou seja, dos quinze gols assinalados pelo Brasil na fase de grupos e nos mata-matas, praticamente a metade teve seu autógrafo (a propósito, assina com caligrafia razoavelmente boa, ornamentada por alguns círculos que chegam a lembrar uma bola).

“Não sou individualista. Jogo para o time”, disse após a vitória por 3 a 0 na semifinal contra a Coreia do Sul, ao lhe pedirem que comentasse o elogio que Mano acabara de lhe fazer por sua postura em campo. Levava nas mãos duas nécessaires de grifes caras e tinha brincos de brilhante nas orelhas. Sorria feliz e confiante, como na capa da edição especial de VEJA sobre a Olimpíada de Londres, lançada no mês passado, em que envergava o chapelão de guarda real do Palácio de Buckingham, parecendo vislumbrar à sua frente o sonho de pendurar no pescoço a ambicionada comenda dourada que, de novo, transformou-se em pesadelo.

Seus desafios agora são mais uma vez enormes. Ele terá que concentrar-se no futebol e na sua carreira, vencer o trauma de perder, recuperar a autoconfiança e voltar a ser a esperança do Brasil na Copa das Confederações em 2013 e na Copa do Mundo de 2014. Apesar de tudo, o menino de prata ainda é, potencialmente, nosso maior jogador. Resta torcer para que demonstre isso na prática daqui para a frente.

10/08/2012

às 8:50 \ Torre de Londres

Algumas perguntas para responder

O que a Jamaica, um país de 2,7 milhões de habitantes, tem que nós não temos?

E o Quênia?

E a Grã-Bretanha, o Reino Unido, a Inglaterra, como se preferir?

O que os ingleses fazem para que o trem com saída marcada para as 10h35 parta da estação às 10h35?

Por que todos os estádios, ginásios e pistas de Londres são virtualmente impecáveis?

Mas por que a BBC, durante o dia inteiro, da manhã à noite, com raras exceções, só transmite as provas em que os britânicos estão competindo?

Por que, em qualquer evento olímpico, há sempre alguém uniformizado para ajudá-lo a encontrar o seu lugar, mesmo que para isso tenha que caminhar por longos corredores, descer uma escada, subir outra e abrir três portas, ao invés de dizer vá em frente, vire à esquerda, depois a segunda à direita e então volte a perguntar para alguém?

E por que tanta gente, de terno, gravata e nariz empinado, ou de regata, bermuda, havaiana e corpo tatuado, faz a mesma coisa na rua?

Por que nos supermercados quem quer comprar cigarro precisa pedir que um funcionário abra o armário em que ficam trancados sem que se possa vê-los, como se fossem veneno escondido, um maço de Marlboro custa o equivalente a 25 reais e é proibido fumar em praticamente qualquer lugar, até nos quartos de hotel?

Mas por que jogam tanto toco de cigarro na rua?

Por que a rede de metrô londrina tem onze linhas, 268 estações e 408 quilômetros de extensão?

Por que as crianças de até 10 anos não pagam passagem?

Mas por que há tantos ratinhos serelepes ao lado dos trilhos em certas estações, sem que ninguém pareça ligar para eles?

E por que é tão quente lá dentro?

Por que os ônibus vermelhos de dois andares são tão bons e confortáveis, embora o trânsito com frequência os torne irritantemente lerdos?

Por que há cada vez mais ciclistas nas ruas e os motoristas os respeitam, embora no ano passado tenham morrido dezesseis deles em acidentes?

Por que os pedestres sempre atravessam na faixa?

Por que todos os motoristas de táxi conhecem todas as ruas de Londres, limitam-se a falar o essencial, não reclamam do troco e agradecem se você deixar uma moeda de gorjeta?

A propósito, por que nenhum balconista faz cara feia quando se paga uma despesa de 1,76 libra com uma nota de 20?

Por que as pessoas dizem em qualquer situação “please”, “thank you” e “no problem”?

Por que elas acreditam na sua palavra?

Por que há tamanha multidão de turistas nas ruas, chineses, japoneses, coreanos, americanos, alemães, franceses, argentinos, brasileiros?

Por que fotografam tudo com o celular?

Por que eles e os próprios ingleses saem das lojas de Oxford Street carregados de sacolas que mal conseguem segurar?

Por que um grupelho de gaúchos barrigudos faz tamanha algazarra nas partidas de futebol da seleção brasileira, com bumbos estridentes e cantos desafinados, sem que lhes chamem a atenção?

Por que os hooligans desapareceram?

Por que o prefeito nunca mudou de partido?

Por que ele é popular e acabou de ganhar a reeleição, embora seja uma figura extravagante, fale besteiras sem parar e tenha tomado medidas impopulares, como aumentar as tarifas do transporte público e mantido a cobrança de pedágio urbano no centro da cidade para a circulação de carros particulares, implantada por seu antecessor, que pertence ao partido rival?

Por que a grande maioria dos súditos venera sua rainha?

Por que os jornais, incluindo os tabloides considerados sensacionalistas, que adoram escândalos e denúncias, não noticiaram durante a Olimpíada um único caso conhecido de corrupção ou de desvio de verbas públicas?

Será que isso não acontece na Inglaterra ou eles são bobos e não percebem?

Por que não somos assaltados na rua?

E não fazem arrastões nos prédios?

E não há chacinas na periferia?

Nem zumbis queimando crack na calçada?

Por que nenhum atleta britânico se queixou do vento?

E não confessou que amarelou?

E não se queixou da prata nem do bronze?

Por que apenas os americanos e chineses ganham deles em número de medalhas?

Por que há tanta gente obesa?

Inspirados pela Olimpíada, será que eles tentarão entrar em forma depois dos Jogos?

Ou continuarão devorando ovos fritos, bacon, salsicha e feijão no café da manhã?

E, enquanto andam, comendo sanduichões transbordantes de gordura e bebendo copázios de refrigerante?

Por que eles acham uma delícia fish’n’chips e cerveja quente?

Por que na National Gallery, onde se pode ver quadros de Giotto, Rafael, Caravaggio, Rembrandt, Velázquez, Van Gogh e Renoir, a entrada é gratuita?

E no Museu Britânico também?

O que eles fizeram para que o Rio Tâmisa, conhecido como o “Grande Fedor” no século XIX, quando as sessões do Parlamento chegaram a ser suspensas por causa do mau cheiro intolerável que exalava, fosse despoluído, virasse cenário de regatas e passasse a abrigar em suas águas 121 espécies de peixe?

Por que ele não transborda depois que chove?

Aliás, por que durante os Jogos choveu menos do que o previsto e, passado o frio do verão, tivemos nesta semana dias maravilhosos, ensolarados e com elevadíssimas temperaturas que chegaram na quinta-feira a inacreditáveis 27 graus à sombra?

Como eles conseguiram fazer uma Olimpíada como essa?

E a anterior, em 1948, mal saídos de uma guerra que os devastou?

Como construíram uma nação assim?

My God, será eles têm algum motivo para serem orgulhosos desse jeito?

08/08/2012

às 6:03 \ Torre de Londres

Chegou a hora de jogar bem

Egito, Bielorússia, Nova Zelândia, Honduras e Coreia do Sul. Nenhum bicho-papão. Nenhuma grande força internacional. Aqui entre nós, a seleção brasileira de futebol tinha mesmo que vencê-los. E foi o que fez, marcando três gols em cada um deles. Não chegou, por enquanto, a dar uma exibição de fato brilhante e nem mesmo convincente. Exceto no encontro com os neo-zelandeses, que não têm qualquer intimidade com a bola redonda – seu negócio é a oval, do rúgbi –, o time enfrentou dificuldades, às vezes mais, às vezes menos, e passou por alguns assustadores, inesperados momentos de sufoco.

Foi o que se viu no final da primeira partida, no início da segunda, durante boa parte do jogo das quartas-de-final e na meia hora inicial da semifinal diante dos sul-coreanos. Em termos de resultados, porém, conseguiu até agora alcançar o objetivo a que se propunha: veio vindo, veio vindo, deu sustos, tomou cinco gols, quase todos evitáveis, mas enfim se credenciou para disputar a medalha de ouro em Wembley.

Reconheça-se que não é pouca coisa e, mesmo para quem é pentacampeão mundial e o maior colecionador de glórias nos gramados do planeta, ir a uma finalíssima não acontece todos os dias. Para não recuar muito no tempo, basta lembrar que, na nossa história olímpica, a última decisão ocorreu em Seul, há longos 24 anos. Na Copa do Mundo, há dez. Depois disso, a seleção caiu logo no segundo mata-mata. Nos Jogos Olímpicos, após a medalha de prata de 1988, perdida para os russos, duas vezes não se classificou e em três ocasiões foi alijada da luta antes da hora.

Em termos práticos, no entanto, a verdade é que para ser campeão em competições curtas e intensas, como a Copa e a Olimpíada, basta jogar bem – ou melhor, vencer – duas ou três partidas importantes, como sempre observou o técnico Carlos Alberto Parreira. O treinador Mano Menezes adota mais ou menos esse pragmatismo. “Não é porque você esteja sendo dominado que deve perder”, ele afirmou após a vitória de 3 a 0 contra a Coreia do Sul em Manchester. “É o que sempre digo para os jogadores.”

A questão é que em Londres o Brasil terá pela frente o México, que vem preparando sua equipe para os Jogos Olímpicos desde o Pan-Americano do ano passado. Não é um simples participante, ao contrário dos nossos cinco adversários anteriores. Trata-se de um rival respeitável. O sábado promete grandes emoções. Vamos torcer juntos.

06/08/2012

às 8:46 \ Torre de Londres

Refúgio da Olimpíada

Londres, nestes dias de competições e medalhas sem fim, não pensa apenas na Olimpíada. Felizmente, quando se quer escapar por alguns momentos das piscinas, pistas e ginásios, há refúgios seguros. Um deles é o restaurante Simpson’s-in-the-Strand. Está estabelecido, há quase 200 anos, nas imediações da turbulenta Trafalgar Square. Ali, o recorde de velocidade pertence aos dois antigos garçons que, no silencioso salão atapetado, fazem deslizar com certa rapidez os carrinhos de aço bem polido em que trincham na frente dos fieis clientes carnes bovinas escocesas, maturadas durante precisos 28 dias, e tenros cordeiros da Nova Zelândia assados lentamente .

Os frequentadores, atualmente, já não vão lá de sobrecasaca, como no tempo de Charles Dickens, é claro, e muitas vezes nem mesmo de gravata, mas vão almoçar com corretos paletós de tweed. Sentem-se em seus próprios domínios, como o ciclista medalha de ouro Bradley Wiggins no Hampton Court Palace. Na quinta-feira, após sua refeição solitária e o cálice de vinho do Porto, um robusto senhor que ocupava a primeira mesa da esquerda dobrou o exemplar cor-de-rosa do Financial Times que estava lendo, cruzou os braços, fechou os olhos e, sem dúvida satisfeito, adormeceu por uns bons cinco minutos, pendendo a cabeça. Os garçons não o incomodaram.

São discretos, como convém. Possivelmente, uma das últimas vezes em que interromperam o sossego dos fregueses foi em 1917, durante a Primeira Guerra, quando pediram que o escritor irlandês George Bernard Shaw e outros comensais os acompanhassem de imediato até a adega subterrânea. Naquele momento, um Zeppelin alemão sobrevoava a rua e temia-se que houvesse um bombardeio antes que fosse servido o prato vegetariano do autor de Pigmaleão, que não comia carne e, portanto, jamais teve o prazer de provar o afamado filé Wellington da casa. Agradecido pelas prontas providências da pacífica brigada, Shaw colocou seu autógrafo, ainda preservado, em uma das paredes da cozinha.

Mais ou menos na mesma época, o Simpson’s era um dos pontos favoritos do romancista E.M. Forster. Em seu livro Howards End, que trata das diferenças entre as classes sociais na Inglaterra do início do século XX, na proximidade da Olimpíada de 1908, a primeira realizada em Londres, uma das personagens lamenta que nunca havia tido a oportunidade de ir ao restaurante, lacuna que seria corrigida no mesmo capítulo. Sir Arthur Conan Doyle encerra uma das histórias de Sherlock Holmes com a descrição de um convite do mais famoso detetive da literatura policial para que ele e seu amigo Watson, desvendado mais um mistério, fossem jantar em sossego numa daquelas sólidas mesas iluminadas por dez arandelas e quatro lustres de cristal.

Aberto em 1828, o venerado local nunca saiu do número 100 da Strand. “O prédio já foi reformado, evidentemente”, contou um veterano empregado. Quando isso aconteceu? “Há cerca de 100 anos, senhor”, ele esclareceu. Em uma das paredes junto às escadarias que levam ao bar pode-se ver, emolduradas, as plantas aprovadas pela prefeitura na ocasião. No início era um clube masculino, com anuidade de 1 libra, o que dava direito aos sócios de se acomodarem em poltronas de couro para tomar café, fumar charuto e conversar sobre temas de interesse do império britânico. É o que faziam no período vitoriano o primeiro-ministro Benjamin Disraeli e seu sucessor, William Gladstone.

Desde o início, o restaurante faz questão de se manter tão britânico como o Big Ben. Nada de concessões, inclusive linguísticas.  O banheiro não é toalete, como se sabe uma palavra de origem francesa, mas cloakroom. E o menu não se chama assim. É bill of fare, expressão inglesa equivalente a cardápio. Não há influências continentais visíveis na cozinha, capaz de surpreender quem torce o nariz, compreensivelmente, para a culinária da terra da torta de rim, das gordurosas salsichas e do fish and chips. Junto dos bordeaux e borgonhas, não faltam alguns tintos e brancos ingleses. Além das carnes fatiadas na hora com longas facas (dão aulas em determinados domingos aos interessados em aprender a técnica), serve-se uma saborosa sopa de lagosta, um clássico rosbife com pudim de Yorkshire, uma apreciada truta salmonada e, conforme a descrição do bill of fare, uma seleção de queijos da fazenda. Para provar tais sugestões, com talheres de prata Arthur Price, mesma marca dos pequenos e pesados saleiros e pimenteiros, colocados sobre alvas toalhas engomadas ao lado de vasinhos com folhagens do campo, respirar sua história e ser transportado no tempo paga-se, incluindo vinho e sobremesa, uns 250 reais.

Quanto às atividades desportivas, o mais perto que se chega – forçando muito as coisas, há de se reconhecer – é no símbolo do restaurante: um sugestivo cavalinho de perfil, alusão não ao hipismo, que deu à família real uma medalha de prata, mas ao fato de que, nos seus primórdios, o Simpson’s-in-the-Strand era um local em que se jogava xadrez. Bem, xadrez não é esporte, mas os cavalheiros ingleses, nas semanas que correm, não vão lá, entre outros motivos, para fugir da agitação dos Jogos Olímpicos?

100 Strand, WC2R 0EW, Londres,  7836-9112. 12h15/14h45 e 17h45/22h45.  Embankment ou Charing Cross. Couvert grátis. Taxa de serviço, 12,5%. Aberto em 1828. $$$$

04/08/2012

às 21:12 \ Torre de Londres

Por duas vitórias

Brasil x Honduras

A última vez que Honduras havia incomodado o Brasil foi há cerca de dois anos e meio, quando o presidente deposto Manuel Zelaya, com seu sombrero, aboletou-se na nossa embaixada em Tegucigalpa para pedir asilo e de lá não arredou pé durante intermináveis 128 dias.

No ensolarado e agradável sábado que marcou a metade dos Jogos – oito dias para trás, oito dias pela frente –, por pouco esse pequeno país, que o resto do mundo praticamente ignora, não apronta mais uma em cima de nós.

Quem acompanha o futebol certamente lembra que, em 2001, eles derrotaram por 2 a 0 a seleção que o técnico Luís Felipe Scolari estava montando para conquistar o pentacampeonato mundial no ano seguinte. Sua inesperada vitória eliminou os canarinhos da Copa América.

Com 8 milhões de habitantes, Honduras é, com todo o respeito, uma república de banana, seu principal produto de exportação. Tem uma renda per capita de apenas 4 400 dólares. E um pobre, paupérrimo retrospecto olímpico. Em dez participações, não obteve uma mísera medalha. Desta vez, levou a Londres sete atletas para tentar a sorte em algumas competições de atletismo, natação e boxe – além de um time que se tornou a maior surpresa do torneio de futebol da Olimpíada. Ganhou da Espanha – sim, da Espanha, la madre patria, campeã europeia e mundial com seu time principal – e empatou com o Marrocos e o Japão.

Com esses resultados, brilhantes para o tamanho que tem, Honduras se credenciou para enfrentar o Brasil nas quartas-de-final. Esteve perto de alcançar em Newcastle mais um resultado histórico. Por duas vezes ficou em vantagem no placar. Foi castigada com um pênalti bastante duvidoso e na maior parte do tempo atuou com dez homens, depois da expulsão, em circunstâncias da mesma forma discutíveis, do lateral-direito Crisanto. Perto do final, perdeu seu principal jogador, o meia Espinoza, que tomou igualmente um cartão vermelho.

Nos apertadíssimos 3 a 2, a seleção brasileira teve como pontos altos os dois gols de Leandro Damião, o decisivo papel de Neymar nas três vezes em que o time marcou , a presença ofensiva do lateral-esquerdo Marcelo e o sangue-frio do técnico Mano Menezes, que durante a preleção, momentos antes do início do jogo, anunciou a substituição do inseguro Neto pelo jovem Gabriel, de 19 anos, que havia sido convocado como terceiro goleiro e acabou virando titular.

Bem ou mal – mais mal do que bem, na verdade –, as camisas amarelas ficaram a duas vitórias de serem tingidas de dourado. Mas não será fácil pintá-las com a tão sonhada cor. Terça-feira, de volta a Manchester, o Brasil enfrentará a aguerrida Coreia do Sul, que eliminou os britânicos donos da casa na última cobrança de pênaltis. Se ganhar, fará a decisão sábado, em Wembley, contra o vencedor da outra semifinal, entre México e Japão. Ou então (vamos bater na madeira…) tentará mais um bronze na sexta-feira.

02/08/2012

às 9:06 \ Torre de Londres

Um trem para Londres

Foto: Rafael Ribeiro/CBF/Divulgação

- Jogo fácil, né?

- Foi um treino.

- Quase três horas e meia de trem de Londres para Newcastle. Agora temos outras tantas de Newcastle até Londres. Sete horas de viagem e umas quatro na cidade, entre a chegada, o jogo e a saída. Valeu a pena ver ao vivo os 3 a 0 contra a Nova Zelândia?

- Olha, a gente poderia ter assistido pela televisão. Não aconteceu grande coisa. Depois ligaríamos para alguém perguntando se o Mano Menezes e os jogadores disseram algo importante. Nunca dizem. Pronto, dava para escrever.

- É, mas…

- Pois é. De repente, tem uma frase. Uma observação. Uma cena. Uma historinha. Faz toda a diferença para o leitor. Ei, olha a Lua Cheia ali à esquerda. Linda! Está vendo São Jorge? É o padroeiro da Inglaterra.

- E do Corinthians… Mas como descrever o que acontece numa Olimpíada se você não vê com seus olhos, não ouve os personagens com seus ouvidos?

- Que personagens? Os jogadores passam rápido por essa zona mista mais de meia hora depois da partida. Todos com fone amarelo pendurado no pescoço. Reparou nos anéis de brilhante e no Rolex de ouro do Thiago Silva? Dizem uns clichês decorados e vão apressados para o ônibus. O Neymar é sempre o último, vem vindo devagar, como uma estrela. É o único que aparece de fone preto. Onde o Marcelo arranja lugar no corpo para tanta tatuagem? Joga um bolão, mas que máscara, hein? O Oscar é bonzinho, só que fica assustado quando qualquer repórter liga o gravador. Cadê o Ganso? Mesmo antes dessa nova contusão (como o cara se machuca…) andava esquivo, triste. Alguém triste consegue jogar bom futebol? E o Pato, todo apressado para falar com o jornalista italiano que o espera? Alguns deles parecem mais preocupados em falar para os jornais dos países em que jogam do que para os brasileiros, não parecem? Enfim, qual é a ligação do Pato com o Brasil? Ele nunca jogou no Maracanã.

- Não aguento mais o empurra-empurra dos repórteres na cerquinha da zona mista. É horrível, não quero parecer saudosista, mas… Ah, aí vem a mocinha com o carro de bebidas. Vou pedir uma taça de vinho para relaxar. Humm, horrível. Quente, sem graça… Saúde!

- Saúde! Boa sorte para o Brasil no futebol e na Olimpíada.

- O trem deu uma parada. Que estação é essa?

- York.

- Ah, Nova York não tem esse nome por causa dela? Trem também é cultura…

- Eu estava falando que não quero ser saudosista. Mas em coberturas como esta lembro de minha época de repórter de esportivo. Você sabe, eu fazia matérias no Corinthians, no Palmeiras, no São Paulo, no Santos. Nunca, nunca na minha vida conheci um assessor de jogador de futebol. Nenhum tinha. Você queria entrevistar o Ademir da Guia – o Ademir da Guia, um monumento palmeirense, um dos maiores jogadores que o Brasil conheceu! –, e fazia o quê? Ia ao treino no Parque Antártica, dava boa tarde para o Oswaldo Brandão, que fumava seu cigarrinho sentado no banco, ficava na porta do vestiário, às vezes até entrava, e esperava ele sair do banho. Sentávamos num canto para conversar, sem pressa. Se fosse uma reportagem maior, ele convidava para ir em casa. Era a mesma coisa com o Rivellino, com o Pedro Rocha…

- E com o Pelé.

- Com o Pelé. O Pelé! Para entrevistá-lo, bastava esperar sua chegada na Vila Belmiro. Será que o Neymar sabe disso? O Crioulo aparecia sozinho, dirigindo seu carro, sem ninguém ao lado. Sim, nós o chamávamos de Crioulo. Era um apelido carinhoso. Ele gostava.

- Gostava. Não existia o politicamente correto.

- “Vamos lá no vestiário”, dizia o Crioulo. Se não me engano, o armário dele ficava no canto esquerdo. Enquanto tirava a roupa e colocava o uniforme de treino, respondia as perguntas. Atencioso, gentil. Como era atencioso e gentil com os torcedores. Jamais vi o Pelé negar um autógrafo, um sorriso. Nem o Zico. Nem o Falcão. Ou o Sócrates. Acompanhei os três em muitos países, do Paraguai à Alemanha, além do Brasil inteiro.

- É, a seleção jogava no Brasil. Como eles, aliás.

- Se o repórter de uma rádio do Mato Grosso ou do interior do Paraná pedia uma entrevista, eles atendiam com paciência. Era uma deferência para o radialista? Não, era um carinho para o ouvinte e o admirador do Mato Grosso ou do interior do Paraná. Outro dia, um colega que esteve com o Santos no Japão me contou como o Neymar tratava os fãs que tentavam se aproximar. Mas vamos deixar isso para lá.

- Hoje qualquer jogador tem assessor de imprensa, assessor de marketing, assessor financeiro, assessor de imagem… São verdadeiras empresas. Para falar com um deles, é preciso passar por todas as barreiras. No máximo, depois de uma boa canseira, dão uma entrevista com tempo contado, dez, quinze minutos, e ficam olhando o relógio.

- Relógio reluzente, por sinal. Parecem iguais: o mesmo fone, que colocam nos ouvidos para não escutar nada quando descem do avião ou saem do ônibus, um ou dois celulares na mão, os anelões, a correntona, nécessaire de grife, nariz levantado e, já sentiu?, o mesmo perfume.

- Acha que vão ganhar a medalha de ouro?

- Se não ganharem agora, sem a Argentina, sem a Alemanha, sem a Itália, sem a Nigéria e Camarões, com a Espanha e o Uruguai eliminados, não vão ganhar nunca.

- Quer saber? Estou sinceramente torcendo por eles.

- Eu também. Bola rolando, é a seleção brasileira. E o sucesso desse time pode ser a arrancada para nossa Copa do Mundo.

- Finalmente! Estamos chegando a Londres. Viagenzinha demorada.

- Bem, até sábado. Que venha Honduras. E que Atlanta, Sydney e Pequim não se repitam.

- Combinado. Nos encontramos no próximo trem.

29/07/2012

às 20:35 \ Torre de Londres

Um trem para Manchester

Old Trafford

O trem anterior havia partido dez minutos antes. Lotado. O que saiu pontualmente às 8h20 também da estação Euston, na região norte de Londres, neste domingo frio do verão britânico, estava ainda mais cheio. Todos os lugares ocupados. E com passageiros em pé ou sentados nos corredores. “Pedimos desculpas a todos”, repetiam pelos alto-falantes a cada parada. “Quem se sentir incomodado ou sofrer de claustrofobia poderá descer na próxima estação e aguardar na plataforma a composição seguinte, que provavelmente estará mais vazia.”

Mas as pessoas não desciam. Queriam mesmo que passassem logo as pouco mais de duas horas e meia de viagem para desembarcar em Manchester. Tudo por causa do velho futebol inventado na Inglaterra que teima, apesar da eterna má vontade do Comitê Olímpico Internacional, em ser há mais de 100 anos uma das maiores atrações de público – se não a maior – nos Jogos criados pelos gregos e ressuscitados pelos franceses.

Havia um séquito de brasileiros, formado pelos que estudam ou trabalham na Inglaterra, moradores de outros países europeus e turistas que travessaram o Atlântico para acompanhar a Olimpíada . Jovens, casais, mulheres em grupo e aqueles inevitáveis barrigudos, de bigode, boné amarelo, bermuda e corneta. Uns gatos pingados da Bielorússia, país que a imensa maioria não seria capaz de localizar no mapa e cuja seleção enfrentaria a nossa. E muitos, muitos fãs do mais popular dos esportes que queriam simplesmente presenciar ao vivo a segunda exibição da seleção pentacampeã mundial em sua campanha pela jamais alcançada medalha de ouro.

Poucos lugares seriam mais adequados para isso. O Old Trafford, local da partida, não é apenas um majestoso estádio. É um santuário da bola. Dono da casa, o Manchester United tornou-se um dos mais ricos, organizados e bem sucedidos clubes do planeta. A coleção de suas láureas é de tirar o fôlego. Só para citar algumas: já foi dezenove vezes campeão inglês, onze vezes campeão da Copa da Inglaterra, três vezes campeão europeu, duas vezes campeão mundial.

Quem ama o futebol fica arrepiado ao cruzar seus portões. Quem são os três heróis imortalizados lado a lado na escultura intitulada The United Trinity? A santíssima trindade George Best, Dennis Law e Bobby Charlon. E aquela outra figura imponente, de terno e gravata, no lado oposto? Sir Matt Busby, que treinou o time de 1945 a 1969. Ele é igualmente o nome de uma rua ao lado. E quem aparece em uma placa enorme em cima das arquibancadas que foram batizadas em sua homenagem? Sir Alex Ferguson, técnico da equipe desde 1986. Sim, um ficou no cargo por 24 anos. O outro está há 26. Por aí se vai entendendo uma das razões do poderio dos Diabos Vermelhos, como são conhecidos.

Para ir de um lado a outro do estádio é preciso atravessar o longo Túnel Munique. Trata-se de um comovente memorial da tragédia ocorrida em 6 de fevereiro de 1958, quando a delegação do Manchester United, ao voltar de Belgrado, capital da extinta Iugoslávia, fez uma escala na cidade alemã, onde aconteceria o triste acidente com o avião que a transportava. Fotos, documentos, reproduções de jornais da época e inscrições lembram que morreram 22 pessoas, entre os quais oito jogadores e sete outros membros da equipe. Sobreviveram 21 passageiros, incluindo Bobby Charlton, que jogaria 909 partidas com a camisa rubra e ganharia a Copa do Mundo de 1966, e o treinador Matt Busby, que chegou a receber a extrema-unção.

Perto de tais legendas, tratamento com o qual são sempre reverenciados, Beckham, Cantona, Cristiano Ronaldo e Rio Ferdinand, que defenderam o clube, entre inúmeros craques famosos, tornam-se coadjuvantes de sua história gloriosa. Um de seus atuais jogadores é o jovem Rafael, lateral-direito da seleção brasileira.

Depois de Cardiff, cidade do rúgbi, com seu gramado que se desfazia em tufos, o cenário foi perfeito para a segunda vitória canarinha na Olimpíada e para que Neymar, passado um bom tempo, voltasse a ser protagonista de um encontro importante. Fez um belíssimo gol ao cobrar maravilhosamente uma falta, antes havia cruzado na medida para Alexandre Pato marcar e depois daria um passe fulminante de calcanhar que permitiu a Oscar liquidar o jogo com um chutaço. Sir Matt Busby aplaudiria.

“Viu o menino? Com calma, ele vai acertando”, comentou comigo o técnico Mano Menezes ao deixar a sala de entrevistas e passar perto de todas aquelas estátuas dos deuses vermelhos no caminho no ônibus. O público já se dispersara. Era uma plateia do tamanho que hoje em dia raramente se vê nas nossas arenas. “Hoje vocês são 66 212 espectadores”, anunciou a locutora em francês, com indisfarçável orgulho na voz, informação repetida a seguir em inglês. (Rituais olímpicos: primeiro na língua de Proust, depois no idioma de Shakespeare.)

E olha que até não era tanta gente assim. Com seus 150 000 sócios que ficam até quatro anos na fila para comprar o season ticket, ingresso válido para a temporada inteira, o clube costuma ter uma média de 75 000 pagantes nos jogos que realiza no Old Trafford.

É por tudo isso que os trens partem tão lotados para Manchester.

27/07/2012

às 21:53 \ Torre de Londres

Recordações à beira do Tâmisa

Eu me lembro do ursinho Misha chorando, na festa de encerramento da Olimpíada de Moscou, em 1980. Mas quem, se já nascido, não se lembra também? Estava em casa, encantado diante da TV. Naqueles dias, o mundo se dividia entre o bem e o mal, capitalismo e comunismo. Era tudo muito preto e branco, exceto nas imagens coloridas transmitidas da capital da então União Soviética.

Lembro de Olimpíadas muito mais antigas, quando não havia televisão na nossa casa. A mais remota foi a de 1960, em Roma, que chegou para mim bem depois de seu final, em uma edição especial da revista A Gazeta Esportiva Ilustrada. Em seu papel de jornal, que sujava a mão, fui apresentado a Abebe Bikila, o etíope que ganhou a maratona correndo descalço, e vibrei com o relato da medalha de bronze conquistada pelo quinteto brasileiro de basquete em que brilhavam Vlamir e Amauri.

Lembro só um pouco de um documentário que assisti no Cine Marabá, em Curitiba, sobre a Olimpíada de 1964, em Tóquio. Bikila calçava sapatilhas. E venceu de novo.

Lembro bem mais da foto dos atletas negros americanos erguendo o braço no pódio para protestar naquele ano que não terminou, na Cidade do México.

Lembro do choque que todos sentimos em 1972, na ruidosa redação de PLACAR subitamente calada e perplexa, com as notícias que começavam a chegar, em uma TV pequena, ainda em p&b, sobre o terrível massacre dos atletas israelenses em Munique.

Lembro que me arrepiei com Nadia Comaneci em 1976.

Lembro que em 1984 o sol do verão em Los Angeles me castigava durante a cerimônia de abertura, a primeira que acompanhei ao vivo, com o fotógrafo Pedro Martinelli. De repente um homem apareceu voando no estádio. E o presidente Ronald Reagan anunciou, com o vozeirão que conhecíamos dos seus filmes, a abertura oficial dos Jogos. Datilografei o texto em uma máquina de escrever Olympia portátil e mandei por telex. Foi há muito tempo.

Lembro que não fui a Seul nem a Barcelona.

Lembro que, em 1996, eu cobria a Olimpíada de Atlanta em Miami, onde a seleção brasileira de futebol disputava suas partidas. Na festa de abertura, um radialista me convidou para dar uma passada em seu apartamento no hotel em que nos hospedávamos “para tomar um uísque”. Diretamente dali, diante de uma TV sem som, ele bradava ao microfone: “Aqui em Atlanta…” – e descrevia tudo como se estivesse presente.

Lembro que, em 2000, eu estava novamente acompanhando o futebol, que competia em Brisbane, não em Sydney, mas daquela vez não encontrei ninguém iludindo ouvintes e telespectadores.

Lembro que não fui a Atenas e, na VEJA SÃO PAULO, sentimos pena de Daiane dos Santos quando ela escorregou e perdeu a chance de tentar uma medalha.

Lembro que, em Pequim, a equipe de VEJA tinha três jornalistas e recebeu dois ingressos para a esperadíssima noite de 8/8/2008. Sugeri que eles ficassem com meus colegas Mário Sabino e Thaís Oyama, que ao contrário de mim jamais haviam ido a uma Olimpíada. Duas horas antes do início da cerimônia, abaixei o volume na TV no meu quarto do tenebroso Jade Palace Hotel para atender o celular. “Consegui uma entrada para você!”, gritou Carina de Almeida, que trabalhava para o Comitê Olímpico Brasileiro. Saí correndo de lá e entrei no taxi de um chinês maluco, que conseguiu me levar a tempo ao Ninho do Pássaro, graças talvez às minhas orações para Mao Tsé-Tung, que Deus me perdoe.

Lembro que naquela noite vi o maior espetáculo da minha vida.

Sei que vou lembrar para sempre o que Londres, com trilha sonora de Elgar a Paul McCartney, mostrou para o mundo neste 27 de julho de 2012. Foi ainda mais comovente.

Mas, pelo menos até 2016, no Rio de Janeiro, continuarei sentindo saudades de Misha.

26/07/2012

às 16:42 \ Torre de Londres

Nossa grande chance

O Brasil está diante de uma oportunidade única em sua história esportiva. Quase todo país que entra em uma Olimpíada na condição de organizador dos Jogos seguintes pode voar para subir vários degraus no ranking internacional.

Isso vale em primeiro lugar nas competições de alto rendimento, refletindo-se no número de medalhas a serem conquistadas. Vale, da mesma forma, o que é ainda mais importante do que os simples resultados, para a arrancada na massificação das atividades físicas em uma nação tão sedentária que nem a nossa, em que a obesidade ameaça se tornar uma epidemia – mantido o ritmo atual, em poucos anos ela corre o risco de atingir 30% da população, segundo alguns estudos –, com todas as suas danosas consequências para a saúde, o bem-estar e a longevidade dos brasileiros. E vale para alavancar desde já, mas em especial a partir de 2016 com a realização no Rio de Janeiro deste que é o maior espetáculo da Terra, a participação popular, resultando na formação de público assistente e praticante de tantas modalidades hoje inexpressivas.

A possibilidade de ascensão no quadro de medalhas, em um impulso comparável aos saltos com vara de Fabiana Murer, é o mais fácil de comprovar. Basta ver o que aconteceu em tempos recentes com os países que souberam aproveitar sua chance. A Grécia, em 2004, e a China, em 2008, é verdade, não são bons exemplos. Uma por não ter se destacado nem à sombra do Partenon, a outra, campeã de medalhas em Pequim (51 ouros, à frente dos Estados Unidos), pelo gigantismo de outra escala.

Recapitulemos rapidamente, porém, o que aconteceu com a Coreia do Sul, a Espanha e a Austrália. Em 1984, nos Jogos de Los Angeles, a Coreia do Sul – que estava então na mesma situação que a nossa, pois seria a próxima anfitriã– ganhou seis medalhas de ouro. Dobrou esse número em casa e o manteve em 1992. Há quatro anos, alcançou treze. A Espanha pulou de um mísero ouro em 1988 para treze em 1992, na cidade de Barcelona. Não manteve o ritmo, embora voltasse da China com cinco. A Austrália, poderosa há décadas em modalidades como a natação, foi muito além e destacou-se como uma potência tanto em Sydney quanto em Atenas ao terminar as duas competições em quarto lugar na classificação geral, atrás apenas dos EUA, Rússia e China.

Esses três países estão, nos dias que correm, em um patamar esportivo muito mais elevado do que se encontravam antes de realizarem os respectivos Jogos. Mesmo com todos os seus atuais problemas econômicos, os espanhóis também souberam construir uma herança olímpica. A bela capital da Catalunha, para citar somente um número vistoso na área que é uma óbvia vocação do Rio, recebia antes de 1992 pouco menos de 2 milhões de turistas por ano. Em 2011, acolheu 7,4 milhões. Londres, nos seus preparativos, recuperou áreas deterioradas que, em determinados aspectos, até lembravam certos cenários de pobreza descritos nos romances do escritor inglês Charles Dickens, cujo segundo centenário de nascimento é celebrado este ano.

Há grandes esperanças, para citar novamente o autor de Um Conto de Duas Cidades – com a licença dos colegas de cobertura Fábio Altman e Jonas Oliveira. Mas é preciso aproveitar agora um momento que não irá se repetir. Ou como o próprio Dickens escreveu, antecipando em pelo menos um século a onda de auto-ajuda: “Meu conselho é nunca fazer amanhã o que você pode fazer hoje”.

 

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