Blogs e Colunistas

07/09/2012

às 10:46 \ Heróis Paralímpicos

‘Bolt paralímpico’ agora é ídolo britânico

Em segundo lugar no quadro de medalhas, atrás apenas da China, a equipe paralímpica da Grã-Bretanha revelou na quinta-feira um novo ídolo do esporte no país. Carismático, competitivo e muito veloz, o corredor Jonnie Peacock, de 19 anos, deixou para trás Oscar Pistorius e Alan Fonteles e conquistou a medalha de ouro nos 100 metros, na categoria T43/44. Assim como na Olimpíada, a final dos 100 metros era a prova mais esperada dos Jogos Paralímpicos – e a vitória de Peacock acabou sendo vista por mais de 6 milhões de britânicos pela televisão. De acordo com o Channel 4, que transmite o evento no país-sede, foi a maior audiência dos Jogos. Peacock cravou 10s90, recorde paralímpico e segundo melhor tempo da história – só ficou acima de seu próprio recorde mundial (10s85). Por ser muito jovem e ainda ter muito a melhorar, já é apontado como um candidato a repetir o domínio de Usain Bolt nas provas paralímpicas de velocidade. Se continuar evoluindo, Peacock também terá de lidar com as constantes perguntas sobre uma possível participação nas provas convencionais, seguindo os passos de seu ídolo Oscar Pistorius. Seus tempos nos 100 metros são respeitáveis. Mas será muito difícil baixar tanto suas marcas a ponto de encarar a fortíssima concorrência dos atletas olímpicos (em especial da extraordinária seleção jamaicana liderada por Bolt).

Talvez seja melhor mesmo continuar no esporte paralímpico, atraindo a atenção de futuros atletas entre os britânicos portadores de deficiência. Jonnie Peacock teve sua perna direita amputada aos 5 anos, em decorrência de uma meningite. Neto de um ex-jogador de futebol que defendeu as cores dos arquirrivais Liverpool e Everton, sonhava em repetir a carreira do avô. Mesmo depois da amputação, ele insistia em participar das competições esportivas na escola – e sempre rejeitava tratamento especial, exigindo ser submetido às mesmas regras que todos os outros. Revelado para o atletismo por um programa de avaliação esportiva do governo britânico, Peacock começou a treinar para valer há apenas dois anos. Há alguns meses, quebrou um recorde mundial que já durava cinco anos. Depois da vitória de quinta, o velocista disse que a conquista do ouro parecia “surreal” para ele. Mas Peacock mostrou o quanto é competitivo ao lamentar não ter baixado sua marca na grande final (assista às imagens da prova no vídeo abaixo): “Não fiquei tão contente quando percebi que poderia ter corrido ainda mais rápido”, explicou o atleta, desde já um candidato à medalha nos Jogos Paralímpicos do Rio de Janeiro.

06/09/2012

às 10:46 \ Heróis Paralímpicos

Bruno, de aprendiz de Rogério Ceni a timoneiro na vela

Depois de trinta edições, as Olimpíadas da Era Moderna atingiram tamanho grau de profissionalização que o célebre lema de seu fundador, o Barão de Coubertin – “o importante não é vencer, mas competir”- parece algo completamente fora da realidade. Nos Jogos Paralímpicos, porém, essa frase ainda tem um forte significado. E um dos numerosos exemplos disso em Londres-2012 é a participação do brasileiro Bruno Landgraf na competição de iatismo, na classe Skud 18, acompanhado de Elaine Cunha. Bruno, de 26 anos, e Elaine, de 30, fecharão sua campanha nas águas de Weymouth, ao sudoeste da capital britânica, muito longe do pódio – antes de sua regata final, marcada para esta quinta-feira mas cancelada por causa dos ventos fracos, a dupla brasileira ocupava a última posição entre as onze equipes que conseguiram vaga na Paralimpíada. Para Bruno, contudo, a presença nos Jogos já é, sem dúvida alguma, uma conquista extraordinária.

Ex-goleiro do São Paulo e da seleção brasileira, foi campeão mundial sub-17 com a camisa amarela. Em seu clube, despontava como um possível substituto para o ídolo Rogério Ceni. Em 2006, Bruno ficou tetraplégico num acidente de carro em São Paulo. A violenta batida matou outro jovem goleiro do São Paulo, Weverson, e uma revelação do vôlei feminino, Natália Manfrim. Bruno teve de enfrentar um longo processo de reabilitação para recuperar movimentos parciais nos membros superiores. Apesar de manter contato até hoje com os amigos de São Paulo – inclusive com Rogério, que o ex-goleiro aponta como um grande incentivador – Bruno achou um novo desafio em outro esporte, a vela. Ao lado de Elaine, também vítima de um acidente de carro, o atleta costuma treinar na Represa de Guarapiranga, em São Paulo (nas fotos acima, cenas de sua preparação para a Paralimpíada). Na ida a Londres, o sonho de medalha era só um detalhe – sua vitória já estava garantida por antecipação, no embarque para o principal evento esportivo do planeta.

05/09/2012

às 12:49 \ Heróis Paralímpicos

Zanardi, ouro na volta a Brands Hatch

Há dez anos, o piloto italiano Alessandro Zanardi foi entrevistado por VEJA sobre o chocante acidente em que perdeu as pernas, no dia 15 de setembro de 2001, num circuito na Alemanha (assista às imagens no vídeo abaixo). Na ocasião, ele contou que ainda não tinha ido a nenhum autódromo desde a batida e que achava que esse reencontro com a pista seria “muito difícil”. Ainda assim, ele prometia voltar – porque considerava aquele o seu mundo, e não poderia “fugir do passado”. Desde então, Zanardi não só retornou aos circuitos como também voltou a pilotar, em 2004, no Mundial de Turismo, a bordo de uma BMW. Antes disso, foi ao mesmo autódromo em que sofreu seu acidente e completou as treze voltas que faltaram na prova mais trágica de sua carreira. Usando um sistema de aceleração e frenagem com acionamento manual, ele chegou a passar dos 300 quilômetros por hora. Desde então, o italiano venceu uma corrida no campeonato de Turismo (em 2005) e completou cinco temporadas na categoria, sempre com bom desempenho. Zanardi também voltou a pilotar um Fórmula 1 em 2006, num teste para a equipe BMW Sauber. Essa não foi, porém, a maior façanha de sua recuperação. A conquista mais notável do italiano ocorreu nesta quarta-feira, de novo num autódromo – mas, desta vez, sem a ajuda de um motor.

Hoje com 45 anos, Alex Zanardi participou de sua primeira Paralimpíada, no ciclismo com as mãos. Depois de fazer sua estreia na maratona de Nova York, em 2007, o italiano gostou tanto da modalidade que passou a se dedicar mais a ela do que ao automobilismo. Em 2009, trocou de esporte de vez. Desde então, venceu as maratonas de Veneza, Roma e Nova York. E chegou a Londres como um dos favoritos nas corridas da categoria H4. Na final da prova contra o relógio, na manhã desta quarta, Zanardi conquistou a medalha de ouro, marcando um tempo de 24min50 e superando o alemão Norbert Mosandl e Oscar Sanchez. Por coincidência, o percurso da prova passava por Brands Hatch, tradicional circuito britânico, localizado nos arredores de Londres – e palco de sua primeira pole position na Fórmula 3.000, em 1991. Fanático por velocidade e viciado em competir, o incansável Zanardi sempre disse que o retorno ao esporte seria o caminho certo para se recuperar depois da tragédia. Com o ouro conquistado nesta quarta, ele conclui um longo percurso – e, ainda assim, promete seguir adiante. Em Londres, o italiano ainda disputa mais duas finais no ciclismo, na sexta e no sábado. E ninguém ficará surpreso se ele conquistar mais dois ouros para a sua coleção.

Leia mais: A entrevista exclusiva de Alessandro Zanardi a VEJA, em janeiro de 2002

05/09/2012

às 10:52 \ Heróis Paralímpicos

Brasileiros brilham na vitória e na derrota

Se na Olimpíada o Brasil não passa de um coadjuvante, nos Jogos Paralímpicos a delegação do país tem alguns dos grandes protagonistas da competição. Na terça-feira, por exemplo, o país conquistou sete medalhas – foi o melhor dia dos brasileiros em Londres-2012. Mais que isso: algumas das cenas mais marcantes do evento foram vividas por atletas do país. A conquista mais espetacular foi a de Daniel Dias, o principal atleta da delegação. O nadador conquistou seu terceiro ouro em Londres, nos 100 metros nado peito, na categoria SB4. Pela segunda vez nesta Paralimpíada, ele chegou ao topo do pódio batendo o recorde mundial (1m32s27, mais de 4 segundos à frente do segundo colocado). Em Pequim-2008, Daniel Dias faturou quatro ouros e uma prata, justamente nos 100 metros peito. Com seu primeiro ouro nessa prova, ele soma doze medalhas paralímpicas (nove em Pequim e três em Londres). Na quinta, Daniel Dias volta ao Centro Aquático para disputar os 50 metros nado costas da categoria S5. Se conseguir subir ao pódio, empatará com Clodoaldo Silva e Ádria Santos em número total de medalhas. Se ganhar outra, supera os dois compatriotas e passa a ser o maior medalhista paralímpico do país. Para muitos, ele conseguirá a marca com folga.

Galeria de fotos: As imagens marcantes dos Jogos Paralímpicos

Também na terça, outro nome de destaque da delegação brasileira foi notícia em Londres. A velocista Terezinha Guilhermina, 33 anos, é considerada a deficiente visual mais rápida do planeta. Bicampeã paralímpica dos 200 metros rasos, ela tentava seu primeiro ouro nos 400 metros na final disputada na terça (em Pequim-2008, foi bronze na prova). Na parte final do percurso, seu guia, Guilherme Santana, caiu. Vítima de uma deficiência congênita chamada retinose pigmentar, Terezinha tem cegueira total, mas poderia tentar completar a prova sozinha, já que havia entrado na última reta da corrida. Numa cena dramática e emocionante (na foto abaixo), a atleta se jogou na pista em solidariedade ao guia, com quem faz dupla desde o ano passado, no Mundial Paralímpico de Atletismo. Ao se levantar, buscou Santana e fez questão de cruzar a linha de chegada com ele, sob fortes aplausos. O guia, que acompanhou Terezinha na conquista das medalhas de ouro nos 100, 200 e 400 metros no Mundial do ano passado, pediu desculpas à atleta. Terezinha nem pensou em culpar Santana pela derrota. “A gente forma uma dupla”, avisou, em entrevista ao canal Sportv. “Quando vi que o Guilherme soltou a cordinha e caiu, resolvi cair junto com ele. Eu o perdôo, com certeza. Agora é pensar na minha próxima prova.” Terezinha e Santana voltam à pista do Estádio Olímpico nesta quarta, para a final dos 100 metros.

03/09/2012

às 9:47 \ Heróis Paralímpicos

Pistorius: herói olímpico, vilão paralímpico

Pistorius cumprimenta Fonteles no pódio, nesta segunda (Foto: AFP)

O velocista sul-africano Oscar Pistorius foi apenas um coadjuvante na disputa dos Jogos Olímpicos, mas poucas pessoas foram tão aplaudidas e festejadas na competição. Primeiro atleta com amputação dupla a disputar provas do atletismo olímpico, chegou a participar de uma final, no revezamento 4 x 400 metros, mas sempre dizia que os resultados obtidos no evento eram irrelevantes – o importante era realizar seu sonho de competir como um atleta comum, em igualdade de condições, apesar das críticas pelo uso de próteses supermodernas para substituir as pernas. Saiu da Olimpíada como herói. Na Paralimpíada, entretanto, o papel do sul-africano mudou de forma dramática. Grande astro dos Jogos, garoto-propaganda do esporte paralímpico e favoritíssimo à conquista de três medalhas de ouro em Londres, amargou a perda desses três títulos num intervalo de pouco mais de 20 segundos. A derrota surpreendente para o brasileiro Alan Fonteles nos 200 metros, na categoria T44, no domingo, encerrou a série invicta de Pistorius, que jamais havia sido vencido na prova. Mas ele tornou a situação ainda pior ao sair da pista, numa entrevista ao Channel 4, a rede britânica que exibe a Paralimpíada no país-sede. O velocista, que já havia reclamado do tamanho das próteses mais altas do brasileiro, não conseguiu esconder sua irritação, disse que a corrida não tinha sido justa e classificou a situação de “absolutamente ridícula”.

Na manhã desta segunda, assustado com a repercussão negativa de suas declarações, Pistorius divulgou um comunicado pedindo desculpas a Fonteles. Mas o sul-africano não recuou em seu questionamento, mostrando que seguirá contestando o resultado obtido pelo brasileiro. “Aquele era o momento do Alan e queria deixar registrado o respeito que tenho por ele. Eu gostaria de pedir desculpas pelo timing das minhas declarações, mas acredito que exista, sim, uma questão a ser discutida.” Apesar de reconhecer que errou ao colocar em dúvida a marca do brasileiro antes mesmo de sair da pista, Pistorius deu sinais claros de que insistirá no assunto – o que o próprio Comitê Paralímpico Internacional (CPI) confirmou, ao divulgar que seus dirigentes aceitaram se reunir com o sul-africano para ouvir suas queixas. O comitê já avisa, porém, que não há nada de errado com as próteses de Fonteles, indicando que não há chance alguma de alteração no resultado da prova. De acordo com o CPI, os atletas têm seus equipamentos checados antes das provas. “Todas as próteses estavam dentro do regulamento”, avisou, em nota oficial. O diretor de comunicações do comitê, Craig Spence, deu pistas de que Pistorius só será ouvido porque é o atleta mais famoso dos Jogos Paralímpicos, e não porque tem razão em suas críticas. ”O comitê respeita muito o papel que Oscar teve na projeção dos esportes paralímpicos desde que estreou nos Jogos, em 2004″, disse o representante do CPI. “Aceitamos ouvi-lo em uma data futura para que ele possa levantar suas preocupações longe da emoção da competição.”

Com a estratégia, o comitê dá tempo para que Pistorius esfrie a cabeça e recue em suas posições. É uma chance para o sul-africano dispensar o papel de mau perdedor e manter um pouco de seu prestígio como astro paralímpico. Quem conhece o velocista, contudo, acredita que Pistorius não deixará o assunto de lado, ainda que se transforme numa figura odiada por seus concorrentes. A situação do sul-africano é absolutamente bizarra. Ele passou anos reivindicando seu direito de disputar a Olimpíada, sempre garantindo que as próteses não davam uma vantagem injusta na competição com os atletas não-amputados. No caminho, inspirou milhares de outros atletas paralímpicos – incluindo Alan Fonteles, de 20 anos, que disse ter em Pistorius um amigo e um ídolo (desde a prova, o sul-africano vira a cara para o brasileiro, conta ele). O desempenho do brasileiro foi, de fato, surpreendente – ele recuperou uma prova quase perdida com uma aceleração impressionante na reta final. Lado a lado com Pistorius, Fonteles tinha mesmo próteses mais altas. Mas surpreende que Pistorius esteja fazendo com o concorrente justamente o que fizeram com ele durante tantos anos. Fonteles teve as pernas amputadas em função de uma infecção, quando tinha apenas 21 dias de vida. Pistorius sofreu a amputação dupla aos 11 meses. Transformado em símbolo da superação dos portadores de deficiência no esporte, o sul-africano está, mais que nunca, sob os holofotes. Terá outros dois duelos contra Fonteles, nos 100 metros e nos 400 metros, em que decidirá como será visto pelo mundo – tanto pelo que fizer na pista como fora dela.

Fonteles supera Pistorius: final surpreendente em Londres (Foto: AFP)

29/08/2012

às 9:56 \ Heróis Paralímpicos

A sobrevivente do terror

Em 6 de julho de 2005, a londrina Martine Wright, uma gerente de marketing, saiu com os colegas de trabalho para comemorar a escolha da capital britânica para sediar os Jogos Olímpicos de 2012, anunciada horas antes (no vídeo abaixo, a celebração em Trafalgar Square). A noitada fez Martine, então com 32 anos, perder a hora na manhã seguinte. Para não se atrasar para o trabalho, ela mudou sua rotina e pegou um metrô da linha Circle na região central de Londres. Martine correu para entrar no vagão pouco antes que as portas se fechassem. Enquanto lia no jornal sobre a festa do dia anterior, o terrorista Shehzad Tanweer explodiu o trem na estação Aldgate. Um clarão foi a última memória de Martine antes que acordasse num hospital – sem as duas pernas e sob risco de vida, desfigurada a ponto de não ter sido identificada até que sua família a encontrasse, dois dias depois do atentado de 7 de julho. E aquele era só o começo de seu drama: com sua vida salva graças a uma longa série de cirurgias, só depois de muito tempo conseguiu iniciar o lento processo de adaptação para conseguir andar usando próteses no lugar das pernas.

Acervo Digital VEJA: Em 2005, o terror atacou Londres

Nesta quarta-feira, Martine Wright encerra um caminho de sete anos de recuperação participando da cerimônia de abertura dos Jogos Paralímpicos, em Stratford, a cerca de 20 minutos de onde aconteceu a explosão. Aos 39 anos, ela é uma das integrantes da seleção britânica de vôlei paralímpico. “Acho que era meu destino fazer essa jornada”, diz ela hoje, espantada com a série de coincidências que marcaram sua trajetória até os Jogos Paralímpicos. Sua primeira viagem internacional como jogadora da seleção aconteceu num 7 de julho, aniversário do ataque terrorista. Ao ser convocada para a seleção paralímpica, numa cerimônia na Prefeitura de Londres, ela estava sentada de frente para seu antigo escritório, em Tower Hill, na outra margem do Tâmisa. “Acho que é impossível ignorar todos os sinais que me levaram aonde estou hoje. Fico pensando que é algo que sempre esteve no meu caminho”, disse ela em entrevista ao jornal The Guardian. Depois da duríssima adaptação à nova rotina sem as duas pernas, Martine se casou com Nick, o namorado que percorreu todos os hospitais de Londres à sua procura. Teve um filho, Oscar, hoje com 3 anos. Aprendeu a pilotar avião, saltou de paraquedas, começou a esquiar e participou das mobilização em defesa de uma investigação pública sobre o ataque terrorista. Dizia, porém, sentir falta dos desafios que tinha de enfrentar em sua vida profissional.

Heróis Paralímpicos: Ludwig Guttmann, o pai dos Jogos

Sua fisioterapeuta sugeriu que ela conhecesse o programa de esportes paralímpicos do hospital de amputados de Stoke Mandeville, o berço dos Jogos que começam em Londres nesta quarta. E foi justamente no vôlei paralímpico – uma modalidade criada depois da II Guerra, para os soldados que sofreram amputações em combate – que ela voltou a encontrar uma atividade que a motivasse. Dois anos depois de estrear no esporte, ela garantiu uma vaga nos Jogos de Londres. Em meio aos preparativos para a competição, o atentado completou sete anos. De acordo com Martine Wright, as lembranças daquele dia ainda são sentidas a cada instante. Ao longo do caminho, contudo, o impacto da tragédia sobre sua vida mudou. “No começo, era muito duro lidar com as memórias de como eu fazia as coisas antes de perder minhas pernas. Agora eu não lembro mais disso. Apenas faço as coisas de outra forma.” A atleta conta que a participação na Paralimpíada foi essencial para que ela conseguisse processar o trauma sofrido sete anos atrás. “Estou fazendo algo absolutamente inacreditável, que jamais tinha pensado em fazer, em decorrência de ter passado pelo dia mais difícil da minha vida. Não havia nada a fazer para evitar o que aconteceu naquele dia. Aconteceu, e foi por isso que eu estou aqui hoje.”

28/08/2012

às 8:47 \ Heróis Paralímpicos

O pai dos paralímpicos

A 14ª edição da Paralimpíada, que começa nesta quarta-feira, é de longe a mais importante da história dos Jogos. A começar pelos números: com 4.280 participantes e mais de 500 competições, será o maior evento do gênero desde 1960, em Roma, quando aconteceu a primeira Paralimpíada oficial. Será também a primeira vez que Jogos Olímpicos e Paralímpicos funcionam de forma tão integrada, com tantos elementos em comum – Londres manteve ativa boa parte da estrutura montada para a Olimpíada, encerrada no último dia 12. Por fim, há um fator histórico que torna o evento ainda mais marcante. Foi justamente na Grã-Bretanha que o esporte paralímpico foi criado – e foi a última Olimpíada realizada em Londres, em 1948, seu marco inicial. No dia 28 de julho daquele ano, enquanto a capital realizava a cerimônia de abertura dos Jogos, uma pequena cidade chamada Stoke Mandeville recebia a primeira competição paralímpica da história (na foto acima), uma ideia do médico que comandava o hospital local para reabilitação de vítimas de lesões da medula espinhal. Ludwig Guttmann (na imagem abaixo), um judeu nascido na Alemanha, fugira de seu país em 1939, ano em que começou a II Guerra Mundial. Estava impedido de praticar medicina desde 1933, em função de uma das numerosas formas de perseguição dos nazistas contra a comunidade judaica. Em 1944, o neurologista foi convidado pelo governo britânico a montar o primeiro hospital especializado no tratamento de soldados com amputações e paralisias (o comando militar previa uma disparada no número de casos em função do ambicioso plano de ataque do Dia D). Com a guerra já encerrada, começou a usar o esporte para auxiliar na reabilitação de seus pacientes. E decidiu reunir alguns de seus pacientes mais competitivos – entre eles, muitos soldados feridos em combate – nos seus Jogos paralelos do verão de 1948.

Na ocasião, pouca gente ficou sabendo da disputa, então restrita ao arremesso de dardo e ao tiro com arco, com dezesseis participantes, homens e mulheres. “Ainda que tenha sido pequena, foi uma demonstração de que o esporte competitivo não deveria ser restrito aos atletas sem nenhuma deficiência”, explicou ele muitos anos depois. A competição em Stoke Mandeville passou a ser um evento anual, passou a reunir não apenas soldados feridos e começou a receber delegações estrangeiras. Doze anos depois, acontecia a primeira edição formal da “Olimpíada paralela”, uma semana depois dos Jogos de Roma. Num período curtíssimo, Guttmann desencadeou uma revolução. Antes de seu trabalho pioneiro, amputados e paralíticos eram mantidos em asilos (e soldados com ferimentos muito graves eram largados à própria sorte, às vezes no próprio front). O médico alemão foi responsável por inaugurar um novo tipo de tratamento, cujo objetivo era preparar o paciente para voltar a ter uma vida produtiva. Para isso, usava várias modalidades esportivas, desde o basquete de cadeira de rodas até as corridas com próteses. “Na segunda edição dos jogos de Stoke Mandeville, Guttmann disse que sua meta era que eles tivessem uma importância equivalente à da Olimpíada”, disse, em entrevista ao jornal The Guardian, a atual chefe do programa de reabilitação no hospital onde o alemão trabalhava, Claire Guy. “Em Londres-2012, acho que isso finalmente aconteceu. Era isso que ele queria, esporte e reabilitação andando juntos. E esse é o nosso legado aqui.” Na noite desta terça, Stoke Mandeville receberá uma cerimônia especial para acender a tocha paralímpica e iniciar o revezamento até o Estádio Olímpico de Londres, onde acontece a abertura dos Jogos, na quarta. Morto em 1980, Ludwig Guttmann será o grande homenageado da noite.

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A partir desta terça-feira, o blog VEJA nas Olimpíadas apresentará as histórias de alguns dos personagens mais notáveis dos Jogos Paralímpicos de Londres – atletas retratados como “superhumanos” na elogiada campanha promocional da emissora britânica que transmitirá o evento (confira no vídeo a seguir).

Leia também:

VEJA na História: Os Jogos de Londres-1948
II Guerra Mundial: O início do conflito, em 1939
II Guerra Mundial: O Dia D, em junho de 1944
Sobre Palavras: Sai paraolímpico, entra paralímpico 

13/08/2012

às 4:32 \ London Calling

There Is a Light That Never Goes Out

Quando a chama olímpica se apagou no Estádio Olímpico de Londres, na noite de domingo, a trigésima edição dos Jogos da Era Moderna chegava oficialmente ao fim. Para quem viveu a Olimpíada na capital britânica, porém, ficava claro que o protocolo da cerimônia de encerramento não significava necessariamente uma despedida. Poucas vezes na história olímpica se falou tanto em legado, tanto urbano quanto esportivo; poucas vezes se investiu tanto no futuro de uma cidade-sede, e não apenas em seu presente. Londres entrega a bandeira olímpica ao Rio de Janeiro mais forte, mais confiante, talvez até mais próspera – ainda que os efeitos econômicos de uma Olimpíada a longo prazo sejam um tema controverso.

Na região leste da cidade, a transformação só começou – é a partir de agora que o Parque Olímpico começa a ser adaptado ao uso pela população, que a vila dos atletas passa a ser preparada para seus futuros moradores, que as melhorias no sistema de transporte público passam a atender aos londrinos, e não aos visitantes. A farra foi ótima, mas o melhor está por vir. A festa de encerramento foi também um instante de curar feridas do passado. A cerimônia que fechou um dos eventos esportivos mais bem sucedidos da história transcorreu num clima leve, divertido, sem temores nem remorsos. Um ano atrás, em meio à onda de vandalismo que assolou o norte e o leste de Londres, o primeiro-ministro David Cameron falou numa sociedade que padecia de um “colapso moral”, que parecia não achar seu caminho em tempos de crise e medo.

Uma Olimpíada não resolve todos os problemas, é claro. Talvez ajude apenas a amenizar seus sintomas, a aliviar suas consequências. Seja como for, a sensação deixada pela violência do verão passado se esvaiu. Unida em torno do sucesso de sua vitoriosa equipe olímpica – que conquistou seu melhor desempenho desde os primeiros Jogos realizados em Londres, em 1908 – a Grã-Bretanha chegou a este último dia de competições num estado de espírito totalmente diferente.  Existe, de novo, orgulho de ser britânico, mesmo com todos os desafios que estão pela frente – como na Londres de 1908, ainda o centro das atenções no mundo, e como na Londres de 1948, uma metrópole que ressurgia em meio às ruínas para promover os Jogos da Austeridade. A chama está apagada no estádio. Na única cidade que já recebeu três edições dos Jogos, porém, a luz olímpica fez acender o melhor do povo britânico – e esse brilho custará a se apagar de novo.

 

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There Is a Light That Never Goes Out - The Smiths, The Queen Is Dead (1986)

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13/08/2012

às 4:20 \ Um Conto de Duas Cidades

O que faz uma grande Olimpíada?

Os Jogos de Sydney-2000 foram marcados por um erro da organização que beira o absurdo. Nas competições de ginástica artística, uma sequência de quedas de atletas no salto sobre a mesa causou estranhamento. Foi apenas no meio da competição que se descobriu o motivo da quantidade incomum de falhas: o aparelho havia sido posicionado 5 centímetros abaixo da altura oficial. As atletas tiveram a chance de repetir o salto, mas para algumas o prejuízo físico ou psicológico já estava consumado.

Você, leitor, lembrava-se desse episódio? Pois eu confesso que havia me esquecido completamente, até assistir há alguns dias a um programa da BBC. Foi um grave descuido que poderia e deveria ter sido evitado, mas é natural que erros aconteçam em um evento tão complexo de se organizar como os Jogos Olímpicos. A lembrança que fica na memória é que Sydney organizou uma das melhores edições de todos os tempos.

Londres-2012 passa a ser uma excelente concorrente entre as cidades-sede mais bem-sucedidas. Também houve erros da organização – como a troca da bandeira da Coreia do Norte pela Coreia do Sul, ou os assentos vazios em grande parte dos locais de competições. Mas no geral, a Olimpíada foi praticamente impecável. Os turistas se sentiram bem recebidos, o transporte público funcionou bem, as arenas ofereceram conforto mesmo sendo em boa parte temporárias. E para completar, os atletas da Grã-Bretanha tiveram uma performance fantástica, ajudando a elevar o apoio popular.

Realizar uma boa Olimpíada logo após Londres não será uma tarefa fácil para o Rio de Janeiro. A posição do Brasil no quadro de medalhas será modesta como sempre – mas isso é de certa forma esperado, e não deverá afetar o ânimo da torcida da casa e a percepção do público internacional. As instalações olímpicas também não serão problema, uma vez que provavelmente terão o mesmo nível das de Londres. Erros de organização, como os de Sydney e Londres poderão acontecer, mas não será isso o que ficará na lembrança das pessoas.

Uma grande Olimpíada também é feita de atletas, estádios, recordes, conquistas e momentos de superação. Mas para mim o que faz mesmo uma grande Olimpíada é uma grande cidade, um lugar prazeroso de se viver e visitar. É o que Barcelona, Sydney e Londres têm em comum, e que o Rio de Janeiro provavelmente não alcançará em quatro anos. A festa da torcida brasileira será inigualável, mas a maior e mais duradoura alegria seria ver o Rio de Janeiro usar a Olimpíada como o marco de transformações mais profundas, que a façam merecer de verdade a alcunha de cidade maravilhosa.

12/08/2012

às 21:00 \ Loja de Antiguidades

O dia em que o general atirou mal

Na Olimpíada de Sydney, em 2000, o Brasil voltou para casa sem medalhas de ouro. No derradeiro dia da competição – jornada, lembremos, da extraordinária prata da equipe de 4 x 100 do atletismo – o país parou diante da televisão, por assim dizer, para acompanhar Baloubet du Rouet, um cavalo da raça Sela Francesa que levava Rodrigo Pessoa. O animal refugou na hora agá, e adeus título. Desta vez foi muito mais divertido, mais interessante e mais bonito. A pernambucana Yane Marques ficou com o bronze (a derradeira medalha entregue em Londres) no pentatlo moderno. O cavalo da moça não refugou, mas deu trabalho o bandido, ô se deu. “Corri com um cavalo velho, de olho afundado”, disse Yone pouco antes de subir no pódio, ao cabo de uma modalidade que, só de ver, cansa. Os animais são entregues aos atletas, por sorteio, meia hora antes do torneio.

Pentatlo moderno? Convém explicar, porque não é uma prova conhecida como o judô, o vôlei e o boxe, para ficar com três esportes nos quais o Brasil foi muito bem em Londres. O pentatlo moderno é bem antigo. Foi inventado por ninguém menos que o Barão Pierre de Coubertin, ancorado no pentatlo da Antiguidade Grega, desafio aos homens mais fortes e incansáveis. Para adaptá-lo à Era Moderna, Coubertin decidiu inspirar-se no severo treinamento dos soldados de cavalaria, que deviam saber montar em um bicho desconhecido, disparar, esgrimir, correr e nadar. A prova de Yane é assim: esgrima, 200 metros de natação, concurso de saltos no hipismo, e o “evento combinado”, que junta tiro com corrida – os atletas têm de correr 1.000 metros e, ao cabo desse trajeto, parar para atirar. Repetem três vezes o circuito. É uma modalidade extenuante e, antes que a tratem de esquisita, aberração olímpica, um lembrete: ela é realmente bem antiga. Com algumas interrupções, é disputada desde 1912 entre homens. Entrou no calendário feminino em 2000. Nos Jogos Olímpicos de Estocolmo, em 1912, o futuro general americano George C. Patton (vivido no cinema por George C. Scott) ficou com a quinta posição. Não conseguiu medalha porque foi mal no tiro.

 

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