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Arquivo de 13 de agosto de 2012

13/08/2012

às 4:32 \ London Calling

There Is a Light That Never Goes Out

Quando a chama olímpica se apagou no Estádio Olímpico de Londres, na noite de domingo, a trigésima edição dos Jogos da Era Moderna chegava oficialmente ao fim. Para quem viveu a Olimpíada na capital britânica, porém, ficava claro que o protocolo da cerimônia de encerramento não significava necessariamente uma despedida. Poucas vezes na história olímpica se falou tanto em legado, tanto urbano quanto esportivo; poucas vezes se investiu tanto no futuro de uma cidade-sede, e não apenas em seu presente. Londres entrega a bandeira olímpica ao Rio de Janeiro mais forte, mais confiante, talvez até mais próspera – ainda que os efeitos econômicos de uma Olimpíada a longo prazo sejam um tema controverso.

Na região leste da cidade, a transformação só começou – é a partir de agora que o Parque Olímpico começa a ser adaptado ao uso pela população, que a vila dos atletas passa a ser preparada para seus futuros moradores, que as melhorias no sistema de transporte público passam a atender aos londrinos, e não aos visitantes. A farra foi ótima, mas o melhor está por vir. A festa de encerramento foi também um instante de curar feridas do passado. A cerimônia que fechou um dos eventos esportivos mais bem sucedidos da história transcorreu num clima leve, divertido, sem temores nem remorsos. Um ano atrás, em meio à onda de vandalismo que assolou o norte e o leste de Londres, o primeiro-ministro David Cameron falou numa sociedade que padecia de um “colapso moral”, que parecia não achar seu caminho em tempos de crise e medo.

Uma Olimpíada não resolve todos os problemas, é claro. Talvez ajude apenas a amenizar seus sintomas, a aliviar suas consequências. Seja como for, a sensação deixada pela violência do verão passado se esvaiu. Unida em torno do sucesso de sua vitoriosa equipe olímpica – que conquistou seu melhor desempenho desde os primeiros Jogos realizados em Londres, em 1908 – a Grã-Bretanha chegou a este último dia de competições num estado de espírito totalmente diferente.  Existe, de novo, orgulho de ser britânico, mesmo com todos os desafios que estão pela frente – como na Londres de 1908, ainda o centro das atenções no mundo, e como na Londres de 1948, uma metrópole que ressurgia em meio às ruínas para promover os Jogos da Austeridade. A chama está apagada no estádio. Na única cidade que já recebeu três edições dos Jogos, porém, a luz olímpica fez acender o melhor do povo britânico – e esse brilho custará a se apagar de novo.

 

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There Is a Light That Never Goes Out - The Smiths, The Queen Is Dead (1986)

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13/08/2012

às 4:20 \ Um Conto de Duas Cidades

O que faz uma grande Olimpíada?

Os Jogos de Sydney-2000 foram marcados por um erro da organização que beira o absurdo. Nas competições de ginástica artística, uma sequência de quedas de atletas no salto sobre a mesa causou estranhamento. Foi apenas no meio da competição que se descobriu o motivo da quantidade incomum de falhas: o aparelho havia sido posicionado 5 centímetros abaixo da altura oficial. As atletas tiveram a chance de repetir o salto, mas para algumas o prejuízo físico ou psicológico já estava consumado.

Você, leitor, lembrava-se desse episódio? Pois eu confesso que havia me esquecido completamente, até assistir há alguns dias a um programa da BBC. Foi um grave descuido que poderia e deveria ter sido evitado, mas é natural que erros aconteçam em um evento tão complexo de se organizar como os Jogos Olímpicos. A lembrança que fica na memória é que Sydney organizou uma das melhores edições de todos os tempos.

Londres-2012 passa a ser uma excelente concorrente entre as cidades-sede mais bem-sucedidas. Também houve erros da organização – como a troca da bandeira da Coreia do Norte pela Coreia do Sul, ou os assentos vazios em grande parte dos locais de competições. Mas no geral, a Olimpíada foi praticamente impecável. Os turistas se sentiram bem recebidos, o transporte público funcionou bem, as arenas ofereceram conforto mesmo sendo em boa parte temporárias. E para completar, os atletas da Grã-Bretanha tiveram uma performance fantástica, ajudando a elevar o apoio popular.

Realizar uma boa Olimpíada logo após Londres não será uma tarefa fácil para o Rio de Janeiro. A posição do Brasil no quadro de medalhas será modesta como sempre – mas isso é de certa forma esperado, e não deverá afetar o ânimo da torcida da casa e a percepção do público internacional. As instalações olímpicas também não serão problema, uma vez que provavelmente terão o mesmo nível das de Londres. Erros de organização, como os de Sydney e Londres poderão acontecer, mas não será isso o que ficará na lembrança das pessoas.

Uma grande Olimpíada também é feita de atletas, estádios, recordes, conquistas e momentos de superação. Mas para mim o que faz mesmo uma grande Olimpíada é uma grande cidade, um lugar prazeroso de se viver e visitar. É o que Barcelona, Sydney e Londres têm em comum, e que o Rio de Janeiro provavelmente não alcançará em quatro anos. A festa da torcida brasileira será inigualável, mas a maior e mais duradoura alegria seria ver o Rio de Janeiro usar a Olimpíada como o marco de transformações mais profundas, que a façam merecer de verdade a alcunha de cidade maravilhosa.

 

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