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Arquivo de 11 de agosto de 2012

11/08/2012

às 18:50 \ O Brasileiro do Dia

O dedo do treinador

Foto: Paulo Vitale

Graças ao infalível sistema de transporte londrino, consegui sair do estádio do Wembley, após a derrota inexplicável do futebol brasileiro frente aos mexicanos, a tempo de acompanhar vitória espetacular do vôlei feminino do Brasil sobre os Estados Unidos. A decisão mais acertada de toda a cobertura olímpica. O curto espaço de tempo entre emoções e impressões tão distintas me permitiu ver como o comportamento do treinador influencia numa partida. De um lado um comandante apático, que parecia estar mais preocupado com a arbitragem do que com o fracasso de sua equipe. De outro, um treinador vibrante, que soube buscar nos momentos mais difíceis a motivação necessária para tirar suas comandadas do buraco.

Se as cortadas de Jaqueline e Sheilla foram decisivas, as levantadas na moral de José Roberto Guimarães, primeiro tricampeão olímpico brasileiro, tem peso quase dobrado. O comandante foi o porto seguro dessa seleção, que quase foi eliminada logo na primeira fase. “A vaca estava lá perto do brejo”, definiu bem a líbera Fabi. “Mas ele (Zé Roberto) soube que a hora ali era de dar a mão a nós jogadoras.” Talento, indiscutivelmente as jogadoras tem de sobra. Mas elas precisavam enfrentar alguns demônios, e foi o treinador um dos grandes responsáveis por esse processo. Salvar seis match points seguidos contra as russas, nas quartas-de-final, é um feito mais da cabeça, do que propriamente de técnica. “Nosso time renasceu como uma fênix. Começou a crescer, acreditar. O jogo contra a Rússia foi um marco nessa história”, disse o treinador logo após a vitória.

Campeão com os homens em Barcelona, há 20 anos, e bicampeão com as mulheres, 2008 e 2012, Zé Roberto cravou seu nome na história do esporte. “A ficha ainda não caiu, eu sei da importância de um bicampeonato olímpico, sei da história do Adhemar (Ferreira da Silva, bicampeão olímpico do salto triplo), mas eu ainda tenho que parar e pensar nisso tudo.” Uma das coisas que o treinador vai pensar é em seu futuro. “Meu contrato com a seleção acabou hoje.” Para o bem do vôlei nacional, e para seguir de exemplo para outras modalidades, é bom que Zé Roberto continue liderando nossas atletas rumo ao Jogos do Rio.

11/08/2012

às 18:45 \ London Calling

Here, There and Everywhere

Para os brasileiros, foi uma decepção do tamanho do Big Ben. A derrota para o México na decisão do torneio olímpico de futebol, neste sábado, foi um desfecho melancólico para uma campanha que prometia acabar com o jejum de ouros do Brasil na sua modalidade favorita, num esporte que é a sua cara. Ignore-se por um momento, porém, o resultado da final. Com mexicanos ou brasileiros subindo ao topo do pódio, a partida deste sábado já teria uma peso diferente na comparação com outras decisões olímpicas do futebol. Porque a Olimpíada de Londres não poderia ser encerrada sem uma celebração do esporte que, na Grã-Bretanha assim como no Brasil, é mais que só um jogo. O torneio olímpico da modalidade mais praticada do planeta não é dos mais empolgantes, todos sabem. Mas Londres, uma das capitais mundiais da bola, merecia assistir a uma finalíssima com estádio cheio (mais de 86.000 pessoas), com grandes jogadores em ação, com lances emocionantes e com um enredo surpreendente. São esses alguns dos melhores ingredientes da inigualável fórmula de sucesso do futebol – e foi em Londres que toda essa magia começou a se revelar.

A capital britânica é a cidade com maior número de estádios no mundo – só na primeira divisão, são seis equipes, todas com sede própria, incluindo o atual campeão da Europa, o Chelsea, do bairro de Fulham, no sudoeste da cidade, e um dos mais populares do país, o Arsenal, instalado em Holloway, na região norte. Fica aqui a sede da Football Association, a federação inglesa de futebol, criada em 1863 e pioneira na definição das regras do jogo. E está em Londres também, evidentemente, o colossal Estádio de Wembley, o palco do fiasco de Neymar, mas também das glórias de Messi, por exemplo – foi onde o Barcelona do supercraque argentino chegou ao auge, na final da Liga dos Campeões do ano passado, numa vitória incontestável e categórica sobre o Manchester United. Em sua encarnação mais recente, trata-se de uma arena moderna e confortável. Na história olímpica, porém, o Wembley de que todos se lembram é mesmo o velho estádio erguido em 1923 e demolido em 2003, palco principal da Olimpíada de 1948. Ele ficava exatamente no mesmo local onde hoje existe a nova arena, mas as semelhanças entre um e outro são pouquíssimas. No estádio atual estão preservadas, por exemplo, as enormes placas de pedra que registram os nomes de todos os medalhistas dos Jogos de 1948.

Foi um trabalho hercúleo remover as peças intactas antes da demolição da antiga fachada, mas os britânicos insistiram na preservação da memória do templo sagrado em que foram campeões do mundo, seu único título em Copas, em 1966. Depois da final, em 30 de julho, um 4 a 2 controverso e espetacular contra a Alemanha Ocidental, a rainha Elizabeth II entregou a taça ao capitão Bobby Moore, imortalizado numa estátua colocada bem na entrada principal do novo estádio. Uma semana depois, os Beatles lançavam Revolver, talvez seu melhor álbum. Foi um verão glorioso para os britânicos, assim como este de 2012 também vem sendo. Pode parecer estranho falar em conservação das lembranças do antigo Wembley depois de ver que os britânicos simplesmente o reduziram a pó. Mas eles tiveram seus motivos. Neste sábado, depois da derrota brasileira, um funcionário veterano perguntava aos visitantes, em sua enorme maioria estreantes em Wembley, o que eles tinham achado do estádio. Depois, contava suas recordações do antigo palco – e sem nenhuma saudade. “Quando o clima estava úmido, era um horror. Ficava um baita cheiro de urina no ar. Os banheiros eram poucos e velhos. Não dava mais.” Sobre o novo estádio, o funcionário era só elogios, e não só por causa do conforto. Ele lembrava que a história do futebol seguia sendo contada aqui, em Wembley e nos outros gramados, velhos ou novos, que se espalham pela cidade.

 

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Here, There and Everywhere - Beatles, Revolver (1966)

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11/08/2012

às 18:21 \ Torre de Londres

O futuro do menino de prata

Perdida mais uma vez a medalha de ouro no torneio olímpico de futebol, nas circunstâncias que todos viram pela televisão, chegou a hora de olhar para o futuro de Neymar. Depois de ter falhado na Copa América no ano passado, ele foi para a Inglaterra com seus dezessete companheiros de equipe em meio a algumas dúvidas inquietantes.

Voltaria a exibir o talento e a capacidade de desequilibrar partidas que mostrou no Santos em 2010 e 2011, ou continuaria irregular como em boa parte desta temporada? Teria dominado seu gênio impulsivo e os faniquitos de garoto mimado, resistindo às pressões em uma competição na qual para o Brasil interessava apenas o título, ou voltaria a perder a cabeça em momentos decisivos e daria razão a Maradona, que certa ocasião o chamou de “menino mal educado”? Insistiria em simular faltas ou iria para o caminho mais difícil, e eficaz, de prosseguir na jogada em direção ao gol? Com um rendimento mensal estimado em 3 milhões de reais, graças sobretudo a seus dez patrocinadores principais, teria perdido um pouco da motivação para buscar árduos desafios? E, finalmente, deixaria de lado as jogadas de efeito, o individualismo – o que levou Pelé a afirmar que ele andou jogando “mais para a torcida e para a televisão do que para o time” –, e passaria a se preocupar com sua participação coletiva?

Dias antes de embarcar para Londres, o treinador Mano Menezes, que ao assumir o cargo, há dois anos, convocou-o pela primeira vez para a seleção principal, refletia sobre essas questões. “O problema do Neymar foram os dois jogos em que enfrentou Messi”, analisou em uma conversa com VEJA, citando as partidas em que o Santos foi goleado pelo Barcelona por 4 a 0, na decisão do mundial de clubes, em dezembro, no Japão, e o Brasil perdeu para a Argentina por 4 a 3, em um amistoso disputado em junho nos Estados Unidos. Na primeira, o supercraque argentino Lionel Messi marcou dois gols. Na segunda, três. Em ambas, foi arrasador e brilhante, enquanto Neymar teve atuações discretas. “Perder, tudo bem, faz parte”, Mano continuou em sua análise. “O ponto é que ficou clara a diferença técnica que existe entre os dois no momento. Ele, que estava até sendo comparado ao Pelé, sentiu o baque.”

O que fazer dentro dessa situação? “Ele vai precisar de psicologia, de carinho, para erguer a cabeça”, respondeu o técnico. “E focar mais no futebol. Um jogador deve realizar treinamentos técnicos e coletivos, alimentar-se corretamente e repousar. Não pode se dispersar e aceitar todos os contratos de publicidade que lhe aparecem, inclusive os pequenos. As gravações de comercial são repetitivas, longas. Ele não precisa mais se submeter a certas coisas. Tem quer ser seletivo.”

Na Inglaterra, isolado nos hotéis da seleção, sem agentes e empresários ao seu redor, longe do iate avaliado em 15 milhões de reais e do assédio feminino, em companhia apenas do pai nas horas de folga, queixando-se de saudades somente de David Lucca, o filho que teve em um relacionamento passageiro e fará 1 ano este mês, a ficha de Neymar da Silva Santos Júnior enfim caiu. Percebeu que estava diante de uma oportunidade extraordinária e talvez não repetível em sua ainda curta trajetória, iniciada como profissional há três anos.

Diferentemente do que aconteceu nos mais recentes fracassos do futebol brasileiro nas Olimpíadas, em que as esperanças se concentravam nos pés de craques convocados dentro da cota de mais de 23 anos, como Rivaldo, Bebeto e Ronaldinho Gaúcho, ou com a faixa de campeão mundial, caso de Ronaldo em 1996, agora foi Neymar, aos 20 anos, o escalado para o papel de protagonista. Com seu corpo esguio de 1,74 metro (sete centímetros a mais do que Messi) e 64 quilos, não evitou o cai-cai. Foi vaiado pelos ingleses. Mas moderou nas encenações. Evitou reclamar além da conta e dominou a impulsividade. Não tomou cartão amarelo. E o fundamental: nos estádios de Cardiff, Manchester e Newcastle, empenhou-se em mostrar espírito coletivo nos cinco jogos antes da final em Wembley.

Na verdade, não tinha outro caminho: a dura e eficiente marcação dos adversários, que já conheciam o estilo e as manhas do camisa 11, diminuiu suas possibilidades de driblar, fazer firulas e tentar resolver as coisas sozinho. O resultado pôde ser medido em números. Até a triste derrota para o México por 2 a 1, em que esteve tão apagado como quase todo resto do time, havia marcado três gols – de cabeça, de falta e de pênalti – e participado diretamente de outros quatro. Ou seja, dos quinze gols assinalados pelo Brasil na fase de grupos e nos mata-matas, praticamente a metade teve seu autógrafo (a propósito, assina com caligrafia razoavelmente boa, ornamentada por alguns círculos que chegam a lembrar uma bola).

“Não sou individualista. Jogo para o time”, disse após a vitória por 3 a 0 na semifinal contra a Coreia do Sul, ao lhe pedirem que comentasse o elogio que Mano acabara de lhe fazer por sua postura em campo. Levava nas mãos duas nécessaires de grifes caras e tinha brincos de brilhante nas orelhas. Sorria feliz e confiante, como na capa da edição especial de VEJA sobre a Olimpíada de Londres, lançada no mês passado, em que envergava o chapelão de guarda real do Palácio de Buckingham, parecendo vislumbrar à sua frente o sonho de pendurar no pescoço a ambicionada comenda dourada que, de novo, transformou-se em pesadelo.

Seus desafios agora são mais uma vez enormes. Ele terá que concentrar-se no futebol e na sua carreira, vencer o trauma de perder, recuperar a autoconfiança e voltar a ser a esperança do Brasil na Copa das Confederações em 2013 e na Copa do Mundo de 2014. Apesar de tudo, o menino de prata ainda é, potencialmente, nosso maior jogador. Resta torcer para que demonstre isso na prática daqui para a frente.

11/08/2012

às 12:58 \ Loja de Antiguidades

Recordações magiares

A derrota para o México por 2 a 1 diante de 86.000 pessoas no estádio de Wembley subtraiu do futebol brasileiro uma medalha de ouro que, insistentemente, parece não querer vir. De busca incansável, tornou-se drama. Nos Jogos de 2016, no Rio, será quase uma obrigação. O time de Neymar deixa Londres com o amargo, amaríssimo, gosto da prata. Em outras modalidades, o segundo lugar no pódio é uma posição respeitável, por vezes heroica – não no futebol. Pé de página da história, ao menos até a Copa de 2014, a seleção de Mano Menezes perdeu a chance de fazer companhia a outros selecionados de enciclopédia – embora, sejamos honestos, mesmo o ouro olímpico seria incapaz de fazer com que os onze de Londres empolgassem.

Nos ranking dos Jogos Olímpicos, nenhuma seleção se compara ao escrete magiar de 1952, em Helsinque. A Hungria venceu com jogadores que, ao sair dali, se tornariam totens do futebol: Puskas, Czibor, Kocsis e cia. Na final contra a Iugoslávia, a vitória foi de 2 a 0, com gols de Puskas e Czibor – naquele tempo, os países do Leste Europeu, satélites de Moscou, é que dominavam o futebol olímpico, então chamado de amador. A lenda de Puskas, o Major Galopante, apenas se iniciava.

Em 1953, depois do ouro na Finlândia, os magiares foram ao estádio de Wembley – ainda em sua versão anterior, antiga, de ferro fundido e tijolos avermelhados – onde derrotaram os ingleses por espetaculares 6 a 3. Foi o equivalente, para os inventores do football, à derrota do Brasil na Copa de 1950. Desenhava-se o caminho húngaro para a Copa do Mundo da Suíça, em 1954. Eles entraram como favoritos, imbatíveis – muito mais do que o Brasil contra o México – venceram a Alemanha (desfalcada de alguns de seus melhores jogadores) por 8 a 3 na partida inaugural, mas perderam o título numa tarde, para prosseguir na didática mania de a tudo dar nomes, recurso que povoa este texto, alcunhada de “Milagre de Berna”. Derrotados pelos alemães por 3 a 2, a seleção da Hungria deixou o Olimpo e desceu para a Terra.  A era de ouro de um time que cujos nomes se cantavam como um poema, desde que se soubesse húngaro, chegou ao fim em 1956, com a Revolução Húngara, a revolta popular contra as políticas impostas pela União Soviética. Puskas, o Major Galopante, transferiu-se para o Real Madrid. Naturalizou-se espanhol e chegou a disputar a Copa do Mundo de 1962 pela Fúria ao lado de outro expatriado, o argentino Alfredo Di Stefano. Mas isso é história para outra Loja de Antiguidades, em 2014. Até lá

11/08/2012

às 7:29 \ Um Conto de Duas Cidades

O som da Olimpíada

Era só haver uma pausa nas partidas de vôlei de praia para que os voluntários encarregados de ajeitar a areia próximo às linhas entrassem em quadra. Era a senha para que o DJ da arena colocasse a música Mr. Sandman, do quarteto The Chordettes, ou Enter Sandman, da banda Metallica, arrancando risos da plateia. Nos intervalos, um grupo de jovens com trajes (não tão) mínimos faziam performances para o público.

Na arena de basquete, a bola mal para e os alto falantes começam a tocar um repertório variado, de músicas que tocam em qualquer balada a clássicos do rock. We Will Rock You, do Queen é sem dúvida a que mais se repete – pela interação que promove com o público. Em alguns momentos, cheguei a achar que as intervenções do DJ eram frequentes e altas demais – gostaria de ouvir a opinião dos atletas a respeito. Para o público, não tenho dúvida de que é divertido.

O fato de a cultura musical inglesa ter se expandido por todo o mundo contribui para que espectadores de toda parte se identifiquem com o som das cerimônias e competições de Londres 2012. E em 2016, qual será a estratégia do Rio de Janeiro? Temos uma cultura extremamente rica e diversa, grandes nomes de nossa música, mas nenhum da envergadura de um Paul McCartney. Aliás, como ele ninguém além dos britânicos tem. Quem representaria melhor a cultura brasileira numa cerimônia de abertura? Caetano Veloso ou Ivete Sangalo? Zeca Pagodinho ou Roberto Carlos?

Da Copa do Mundo da África do Sul, em 2010, veio um bom exemplo de como a seleção musical pode se tornar uma questão espinhosa. Muitos sul-africanos ficaram insatisfeitos com o fato de a música oficial do torneio ter ficado a cargo da colombiana Shakira, e não de um artista africano. O álbum oficial da Copa tentava conciliar artistas internacionais e locais.

Esta muito provavelmente será a solução adotada em 2016, uma vez que nossa música ainda não tem uma estrela de brilho global. A não ser, é claro, que Michel Teló prove nos próximos quatro anos que seu sucesso internacional não era tão passageiro como se imaginava.

 

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