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Arquivo de 5 de agosto de 2012

05/08/2012

às 17:04 \ Loja de Antiguidades

O Pistorius de 1904

George Eyser (no centro), atleta dos Jogos de 1904

George Eyser (no centro, de calças)

Os 400 metros atravessados pelo sul-africano Oscar Pistorius no início de noite deste domingo, em Londres – uma hora antes da prova mais esperada da Olimpíada, a de Bolt, Blake e companhia – provocou reverência e aplausos entre as 80.000 pessoas presentes ao Estádio Olímpico. Pistorius não conseguiu classificação entre os oito primeiros, foi o último em sua bateria semifinal, mas ninguém parecia muito interessado no resultado. Quando a imagem do atleta duplamente amputado apareceu no telão, depois da volta completa na pista, foi como se ele tivesse subido ao pódio. Os atletas adversários o procuravam por um abraço, um deles pediu sua camisa. Fotógrafos e cinegrafistas buscavam incansavelmente com suas lentes as próteses de fibra de carbono que ele usa desde 2004. Pistorius perdeu a metade das duas pernas aos 11 anos de idade, em decorrência de uma má formação óssea. “Foi um sonho que virou realidade”, disse, ancorado em um chavão pelo extraordinário feito. Discute-se, agora, qual será o legado de sua participação nos Jogos.  “As pessoas vão começar a tratar os deficientes físicos de modo menos preconceituoso”, dizia Anthony Stone, cadeirante, amante do atletismo. “Já não ficarão discutindo as diferenças entre nós e um sujeito apto, mas simplesmente o quão rápido um atleta, mesmo prejudicado, pode correr”. Há quem, na outra ponta, considere as próteses de Pistorius uma modalidade de doping tecnológico, por lhe conceder vantagem. Testes de laboratório comprovaram o contrário.

No atletismo, Pistorius é pioneiro, fez história e dela não sairá. Mas em 1904, nos Jogos de Saint Louis, um ginasta de origem alemã radicado nos Estados Unidos, George Eyser, fez algo ainda mais espetacular. Ganhou seis medalhas em um único dia de competição: três ouros, duas pratas e um bronze. Correu, saltou, deu show especialmente no cavalo sem alça, segundo relatos de jornais da época. Descobriu-se, depois, que escondia uma prótese de madeira na perna esquerda, debaixo de calças compridas. Ele tinha perdido o membro, atropelado por um trem.

Pistorius na semifinal deste domingo (Foto: Getty Images)

Pistorius na semifinal deste domingo (Foto: Getty Images)

05/08/2012

às 14:44 \ Um Conto de Duas Cidades

A Olimpíada mais verde da história

Não é a primeira vez que a expressão acima é usada por uma sede olímpica, e tampouco será a última. Desde que a sustentabilidade tornou-se entrou na pauta do Comitê Olímpico Internacional, nos anos 90, algumas cidades reclamaram para si o título de organizadoras dos Jogos Olímpicos que melhor cuidaram do tema. Sidney 2000 foi a primeira a fazê-lo com relativo sucesso, enquanto sua sucessora Atenas 2004 atrapalhou-se com os atrasos nas obras e teve que relegar a sustentabilidade a segundo plano. Pequim 2008, por sua vez, não manifestou muita preocupação com o tema.

Londres 2012 faz questão de afirmar que se trata da edição mais verde dos Jogos Olímpicos – e tem bons argumentos para isso. De fato, nenhuma outra cidade-sede tratou de incluir o tema tão cedo em pauta. O simples fato de a cidade ter transformado uma área degradada, de solo contaminado, em um parque olímpico repleto de áreas já é digno de aplausos. Na construção de boa parte das instalações foram utilizados materiais reciclados, ou adotaram-se soluções para reduzir o uso de energia: na Arena de Handebol, há 88 tubos que direcionam luz natural para a quadra. Sobre o Velódromo, há um mecanismo para coletar a água da chuva e reaproveitá-la nos banheiros e na irrigação do entorno.

De Londres 2012 é possível tirar lições positivas, mas uma observação mais cuidadosa mostra que muito ainda pode ser corrigido. O grande erro da organização foi ter estabelecido metas demasiado ambiciosas, que mais tarde mostraram-se difíceis de ser cumpridas. O projeto inicial, por exemplo, era que 20% de toda a energia usada no Parque Olímpica fosse de origem renovável. Ao fim, o número caiu para 9%. A ideia de instalar uma turbina eólica no local também foi abortada.

A cidade também foi a primeira a criar a categoria comercial “parceiros de sustentabilidade”, permitindo que seis de seus patrocinadores associassem suas marcas à causa ambiental. A escolha dos parceiros, no entanto, gerou inúmeras críticas, devido ao histórico de alguns deles – como a companhia petrolífera BP, responsável pelo vazamento de óleo no Golfo do México em 2010. Entre os parceiros também está a BMW, que inicialmente havia prometido uma frota de veículos elétricos e híbridos. Na verdade, apenas 200 dos 4000 carros são movidos a energia sustentável. O uso de bicicletas, que poderia ter sido incentivado no Parque Olímpico, também acabou sendo deixado de lado.

Dada a importância do Brasil quando se trata de sustentabilidade, evidenciada pela repercussão recente do novo código florestal, a organização do Rio 2016 seguramente terá que apresentar boas soluções no que diz respeito ao tema. Ainda há tempo para observar os erros e acertos de Londres, para amadurecer melhor a ideia de como realizar uma Olimpíada genuinamente verde.

05/08/2012

às 14:24 \ London Calling

We Are the Champions

Andy Murray (Foto: AFP)

Na primeira Olimpíada de Londres, em 1908, a Grã-Bretanha, competindo em casa, alcançou uma façanha histórica: oito medalhas de ouro conquistadas em apenas um dia. Acreditava-se que o país jamais viveria algo parecido. Desde então, a antiga potência olímpica assistiu ao crescente domínio de americanos, soviéticos e, mais recentemente, chineses. Neste fim de semana, no entanto, os britânicos, outra vez anfitriões dos Jogos, revisitaram seu passado mais glorioso no esporte. Não chegaram a igualar a marca dos seis ouros de 1908, mas chegaram perto: no sábado, foram seis, incluindo as três fantásticas vitórias no atletismo. Num período de apenas 43 minutos, o time da casa amealhou o ouro no salto em distância (com Greg Rutherford), no heptatlo (com a estrela Jessica Ennnis) e nos 10.000 metros rasos (com o fundista Mo Farah). Sebastian Coe, ex-corredor, hoje o presidente do comitê organizador dos Jogos, não teve dúvidas em classificar o momento como “a maior noite do atletismo britânico”. Horas antes, atletas do país-sede já tinham subido ao topo do pódio no ciclismo e no remo. E a série de triunfos continuou neste domingo, com destaque para a catártica vitória de Andy Murray no tênis e a antológica façanha de Ben Ainslie na vela.

Murray, escocês de 25 anos, é excelente tenista, mas tem sua carreira marcada por numerosas decepções. Tinha certa fama de azarado, de bater na trave nos momentos decisivos. Mas exorcizou seus fantasmas ao atropelar Roger Federer, sete vezes campeão de Wimbledon, por 3 sets a 0, na decisão olímpica de simples, realizada na quadra central do tradicional templo do tênis. Já Ainslie, de 35 anos, tem reputação oposta à de Murray – chegou a esta Olimpíada com três ouros consecutivos -, mas entrou no último dia de regatas da classe Finn, em Weymouth, em situação bastante delicada, perseguindo o dinamarquês Jonas Hogh-Christensen. Virou o jogo na reta final e agora é tetracampeão olímpico. Para completar o dia glorioso, transformou-se no principal medalhista olímpico do iatismo, com quatro ouros e uma prata (os brasileiros Torben Grael e Robert Scheidt, por exemplo, somam as mesmas cinco medalhas que Ainslie, mas sem tantos ouros). Com as conquistas em Wimbledon e Weymouth, os britânicos somaram 16 ouros. Seguem com chances reais em pelo menos uma dezena de provas. Não alcançarão americanos e chineses. De qualquer forma, podem fechar a terceira Olimpíada realizada em seu território num invejável terceiro lugar no quadro de medalhas.

Mais do que confirmar o efeito positivo do fator casa no quadro de medalhas, mais do que retribuir a empolgação contagiante dos torcedores locais, a campanha da equipe britânica faz justiça e ameniza um desvio na história do esporte. Os britânicos não são os melhores, mas são os primeiros – e esse é um dos melhores ingredientes da Olimpíada de Londres, a única cidade que já recebeu três edições dos Jogos. A versão moderna da prática esportiva é uma criação local, um legado dos britânicos ao mundo. A lista de modalidades originadas no país (ou organizadas e regulamentadas pela primeira vez, com base em jogos que já existiam no exterior) corresponde a boa parte do cardápio olímpico: futebol, tênis, rúgbi, remo, golfe, badminton, iatismo, hóquei, hipismo, ciclismo, boxe. Mais notável ainda é o papel de Londres no desenvolvimento desses esportes, principalmente no período vitoriano. E a tradição não está só em Wimbledon ou Wembley. O Hyde Park, no coração da cidade, é o palco do triatlo e da maratona aquática nos Jogos. Ao mergulhar em seu principal lago, conhecido como Serpentine, os nadadores olímpicos repetirão um costume iniciado em 1864. Com a rainha Vitória no trono e radicais transformações em curso na ilha, atletas amadores fundaram um clube no parque. Até hoje, todas as manhãs, inclusive no inverno, integrantes da agremiação praticam suas braçadas no parque real. Como os britânicos nos Jogos Olímpicos, os nadadores do lago do Hyde Park podem não ser os mais rápidos, mas certamente são os pioneiros.

 

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We Are the Champions - Queen, News of the World (1977)

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05/08/2012

às 7:36 \ Um Conto de Duas Cidades

A perfeição está nos detalhes

Atletismo no Estádio Olímpico (Foto: Getty Images)

As atletas do heptatlo cumprem a etapa do salto em distância, quando o telão anuncia a primeira bateria dos 400m rasos. Na outra extremidade do estádio, as atletas do salto com vara participavam das eliminatórias. Depois dos 400 metros, é a vez dos 3.000 metros com obstáculos. Em seguida, chega a hora das eliminatórias dos 100 metros rasos, que acontecem ao mesmo tempo das provas do lançamento do dardo.

Em minha primeira experiência no Estádio Olímpico, tive a sorte de ver nomes como Usain Bolt, Yelena Isinbayeva, Jessica Ennis e Oscar Pistorius. Mas o que mais me chamou atenção não foi o desempenho dos atletas, e sim o das pessoas envolvidas na organização. A TV apresenta ao telespectador as estrelas do espetáculo, mas só quem assiste do estádio consegue ter a dimensão da infinidade de detalhes que envolvem o evento.

As competições de atletismo são a metáfora perfeita da complexidade de se organizar os Jogos Olímpicos. Nesse ponto, a Copa do Mundo parece algo infinitamente mais fácil de se realizar, apesar das múltiplas sedes. São tantas as funções que precisam ser desempenhadas ao mesmo tempo que parece um milagre que tudo dê certo.

Ou melhor, quase tudo. O mal estar gerado pela troca da bandeira da Coreia do Norte pela da Coreia do Sul, antes mesmo da abertura dos Jogos, foi um episódio embaraçoso para Londres 2012. Fica a lição para o Rio 2016: a de que receber os Jogos significa dedicar atenção a inúmeros detalhes – e de que um único descuido pode colocar tudo a perder.

 

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