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Arquivo de 3 de agosto de 2012

03/08/2012

às 19:13 \ Loja de Antiguidades

Pietri, o maratonista de Conan Doyle. Elementar.

Imagine um Michael Phelps bem mais baixo, fraco até. Acrescente um bigodinho, um jeito de ser quase dickensiano, e pronto. Eis o primeiro atleta transformado em celebridade da história olímpica. Agora que começaram as provas de atletismo – as mais espetaculares e indeléveis, e sabendo que a maratona feminina acontecerá neste domingo – é hora desta Loja de Antiguidades revisitar o italiano Dorando Pietri, maratonista da Olimpíada de 1908, também realizada em Londres. A fama de Pietri rodou o mundo inteiro e quem ajudou a espalhá-la, sem Twitter ou Instagram, foi Arthur Conan Doyle, elementar, ninguém menos que o criador de Sherlock Holmes, personagem que nasceu com Um Estudo em Vermelho, de 1887. Conan Doyle trabalhava para o diário Daily Mail. Era um ótimo repórter, evidentemente já reconhecido pela literatura. Alguns dos relatos da aventura de Pietri na Londres do rei Eduardo VII e do primeiro-ministro Herbert Henry Asquith nasceram da pena do escritor.

“O grande desempenho do italiano não poderia nunca ter sido apagado das grandes marcas do esporte, seja lá qual for a decisão dos juízes”, escreveu Conan Doyle. Mas afinal, o que se deu com Pietri? Ele foi o primeiro a entrar no estádio White City, mas só conseguiu cruzar a linha de chegada amparado por dois juízes. No caminho, tinha tomado estricnina, então autorizada. A ajuda oficial resultou em sua desclassificação, e o americano Johnny Hayes acabou herdando o ouro. No dia seguinte, porém, a rainha Alexandra concedeu a Pietri um troféu em reconhecimento a seu esforço e uma simbólica medalha de prata. Aquela chegada, heroica, sim, antecipou em 70 anos e 90 anos, dois outros memoráveis episódios envolvendo a mais antiga das provas gregas. Em 1984, a suíça Gabrielle Andersen-Scheiss emocionou o mundo ao se arrastar, caindo, sem coordenação motora, até a linha de chegada no estádio olímpico de Los Angeles. Em 2004, o brasileiro Vanderlei Cordeiro de Lima foi derrubado e afastado para fora da pista por um fanático religioso quando liderava a prova. Chegou em terceiro lugar. Ambos são filhos de Dorando Pietri, o segundo mais famoso personagem de Conan Doyle depois de Sherlock Holmes.

No vídeo a seguir (com narração em japonês), a chegada da suíça Gabrielle Andersen-Scheiss em Los Angeles-1984:

Abaixo, a agressão do ex-padre irlandês a Vanderlei, em Atenas-2004:

03/08/2012

às 18:27 \ O Brasileiro do Dia

O bom baiano

Everton Lopes (Foto: Paulo Vitale)

Fotos: Paulo Vitale

Se você quiser achar o pugilista Everton Lopes fora do período de competições, aqui vai uma dica: o procure em sua terra natal, Salvador. O atual campeão mundial dos meio-médio ligeiros não perde uma oportunidade de estar perto da mãe, dona Cláudia, e de seu técnico Luiz Dórea (aquele mesmo que já trabalhou com Acelino Popó Freitas e hoje também instrui lutadores de MMA como Júnior Cigano e Anderson Silva). Mesmo aqui em Londres, Everton não nega as raízes e é um dos mais animados da equipe de boxeadores brasileiros. Gozador, o baiano não perde uma oportunidade de tirar um sarro da cara de seus colegas. O atleta de 23 anos segue a escola de esportistas da Bahia com senso de humor apurado, como os jogadores de futebol Vampeta e Edílson.

No aquecimento, Everton morre de rir com a movimentação dos seus companheiros. Mas quando chega a sua vez de subir ao ringue, ele muda completamente de personalidade. Um de nossos fotógrafos aqui em Londres acompanhou com exclusividade uma das sessões de treinos da equipe brasileira realizada aqui no centro esportivo de Crystal Palace. Enquanto todos os lutadores colocavam o capacete obrigatório no boxe olímpico, Everton quis treinar sem proteção alguma. A intensidade e a violência dos golpes trocados entre o baiano e seu sparring foi tamanha que o técnico da seleção teve de interromper a “luta” por duas vezes, pois cada um deles quase foi a nocaute em um mero treinamento.

Essa bravura de Everton é reconhecida internacionalmente. O brasileiro é apontado por diversas publicações especializadas como o grande favorito ao ouro olímpico. O baiano começa a disputa pela medalha neste sábado, contra Roniel Iglesias, da tradicionalíssima escola cubana. Ele tem a chance de marcar seu nome na história do esporte, ao ser o segundo brasileiro medalhista no boxe – o primeiro foi Servílio de Oliveira, nos Jogos de 1968, realizados na Cidade do México. É bom saber que o brasileiro está treinando duro por essa medalha, sem perder a ternura baiana, é claro.

Everton Lopes (Foto: Paulo Vitale)

03/08/2012

às 15:13 \ Um Conto de Duas Cidades

A polícia cordial

Eu já morava em Londres há sete meses quando recebi a visita de meus pais. Certa noite estava com eles em um restaurante na região central de Londres, quando dois policiais armados entraram no local. Não havia nada de errado, eles queriam apenas uma porção de fish and chips. Mas a presença das armas naquele local me incomodou, porque imaginei que meus pais se sentiriam intimidados.

Para minha surpresa, eu era o único incomodado entre os três. Levei um tempo para perceber que ver policiais e seguranças armados nas ruas é parte de nossa rotina no Brasil. Em Londres, a maior parte dos policiais não carrega armas de fogo. O simples fato de haver policiais armados no aeroporto de Heathrow e em instalações olímpicas foi motivo de críticas na imprensa inglesa – que já havia criticado a presença ostensiva de militares no Parque Olímpico de Pequim 2008.

A polícia inglesa está evidentemente longe da perfeição. Basta lembrar o caso do brasileiro Jean Charles de Menezes, morto em 2005 em uma operação equivocada da Scotland Yard. No ano passado, a morte de um homem pela polícia no norte de Londres foi o estopim para tumultos em toda a cidade. Mas as notícias que chegam do Brasil sobre abusos e equívocos policiais – e sobretudo os que sequer viram notícia – não nos deixam em condição muito confortável para julgar a competência dos ingleses.

O que mais me chama atenção, porém, é a maneira como a relação entre os policiais e a população se dá em um nível bem mais cordial por aqui, sem a mesma conotação autoritária. Os britânicos não temem ou evitam os policiais, sabem que podem contar com eles para pedir ajuda ou informação sem medo algum. E o mesmo vale para os turistas, que frequentemente pedem até para tirar fotos com os policiais – algumas em situações inusitadas, como a brasileira acima simulando uma prisão.

Nos Jogos do Rio 2016, os policiais terão a importante função de garantir a segurança dos Jogos. Mas é preciso ter em conta que eles também serão vistos pelo turistas como uma referência segura – e que precisam ser capacitados e treinados para isso. A ideia de uma polícia desarmada no Brasil ainda parece utópica, mas por enquanto não custa pensar em pelo menos um pouco mais de cordialidade.

03/08/2012

às 15:04 \ London Calling

Strawberry Fields Forever

Federer em Wimbledon

Talvez nenhuma cidade no planeta tenha tanta tradição esportiva quanto Londres – e, mesmo em tempos de Olimpíada, uma de suas catedrais do esporte segue atraindo uma peregrinação diária. Um percurso de 22 quilômetros e pelo menos uma hora no trânsito traiçoeiro da capital britânica separam o Parque Olímpico de Stratford, na região leste, do All England Lawn Tennis Club, em Wimbledon, do outro lado do Tâmisa, no sudoeste da cidade. Ainda assim, o torneio de tênis realizado no lendário templo da modalidade é uma daquelas atrações capazes de roubar os holofotes das disputas mais clássicas dos Jogos Olímpicos, como a natação e o atletismo. O torneio de Grand Slam de Wimbledon, o mais antigo do mundo, acabou há menos de um mês – mas isso não quer dizer que o tênis olímpico ficou menos atraente ao desembarcar, com praticamente os mesmos atletas, no clube fundado há 144 anos, em 1868. Pelo contrário: a disputa pelo ouro nas quadras de grama transformou-se num disputadíssimo bis da competição anual, uma das melhores datas do calendário de eventos dos londrinos.

Neste pequeno Wimbledon dentro dos Jogos Olímpicos, todos os ingredientes da mágica fórmula que tanto fascina os fãs do tênis são preservados. Está lá a grama sagrada, é claro – ainda que desgastada, em função do curto período que se passou desde o fim do torneio da ATP. Nas arquibancadas e tribunas, lá estão os sócios de carteirinha, de roupas impecáveis e drinques nas mãos, e os convidados de honra, que incluem, como não poderia deixar de ser, os integrantes da família real, devidamente acomodados no camarote da rainha (cujo avô, George V, era patrono do clube). Entre uma partida e outra, consome-se o alimento oficial e obrigatório de Wimbledon, morangos com creme – de um vermelho irretocável, selecionados com precisão cirúrgica, pelo equivalente a 7,50 reais o potinho com cerca de uma dúzia -, e senta-se no gramado de Henman Hill, bem ao lado da quadra 1.

E há, por fim, a melhor parte: o tênis, jogo cuja versão moderna nasceu na própria Grã-Bretanha, no século retrasado. Nesta sexta-feira de semifinais olímpicas, enquanto a quadra 1 recebia a briga entre as musas russas Maria Sharapova e Maria Kirilenko (a primeira levou a melhor, 2 sets a 0), Roger Federer enfrentava Juan Martin Del Potro na quadra central. O argentino venceu o primeiro set com certa facilidade. O suíço empatou num segundo set equilibrado. Mas nada que se comparasse ao terceiro e decisivo set. No regulamento olímpico, a decisão era por melhor de três sets, sem tie break no último. E Federer e Del Potro esticaram o duelo por 4h26, no mais longo jogo de triplo sets da história. O supercampeão suíço errou mais do que de costume, mas passou à final vencendo por inacreditáveis 19 a 17, em mais um capítulo de sua longa antologia de façanhas. Afinal, era a Olimpíada de Londres – mas era, também, Wimbledon, o habitat natural do maior tenista de todos os tempos, sete vezes campeão do melhor torneio de tênis do mundo.

 

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Strawberry Fields Forever – Beatles, Magical Mystery Tour (1967)

 

 

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